A gélida fornalha da depressão revogou a vida do jornalista Heraldo Nóbrega. Nós, seus amigos, ex-colegas de trabalho, vivenciamos a dor d...

Perdas e danos



A gélida fornalha da depressão revogou a vida do jornalista Heraldo Nóbrega. Nós, seus amigos, ex-colegas de trabalho, vivenciamos a dor de perdê-lo, via suicídio, triplamente.

Fomos atropelados pela persistência desse adoecer que fragiliza nossa substância, dissolve forças, imobiliza; e depreda nossa essência, poluindo vínculos fundamentais da consciência como o impulso atávico à vida que nos mobiliza à continuidade do que somos.


Fomos sufocados pela manifestação dolorosa de um fenômeno cultural, esse adoecimento que se multiplica nos espaços urbanizados como um pólen maléfico. Uma substância, os esporos da depressão, que nos salpica, nos mancha com a tisna do mal-estar do mundo da competitividade alimentado pela ânsia do devir, implacável, dialético, inevitável. Para muitos, estar vivo é um anátema. Uma condenação. Dor sem cura.

Fomos vítimas da supressão de uma vida querida, Heraldo era uma pessoa do bem, alguém que se importava com a positividade das relações sociais e que buscava qualidade à sua volta. Era um adepto da luz. Mas não enxergava a luz que ele próprio irradiava.

Amor fora de sintonia

“A depressão é a imperfeição no amor. Para poder amar, temos que ser capazes de nos desesperarmos ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, destrói o indivíduo e finalmente ofusca sua capacidade de dar ou receber afeição. Ela é a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com outros, mas também a capacidade de estar em paz consigo mesmo. Embora não previna contra a depressão, o amor é o que tranquiliza a mente e a protege de si mesma”.

O parágrafo acima abre o capítulo 1 do excelente livro “O demônio do meio-dia. Uma anatomia da depressão”, do escritor estadunidense Andrew Solomon, crítico da cultura, consultor para temas de psicologia e um dos mais destacados ativistas LGBT.

A edição que cito é a brasileira (Companhia das Letras, 2014), mas o livro aconteceu nos Estados Unidos em 2001, abalou geral, conquistou prêmios, entre os quais o National Book Award. Também foi indicado ao Pulitzer. É tido como o livro da década nos EUA.

Trata-se de um compêndio indispensável para quem quer saber quase tudo sobre esse fenômeno psíquico, por ele apontado como trepidação na sintonia do amor, mas seguramente um adoecimento mental e espiritual.

Como diria o poeta, é preciso estar atento e forte frente ao avanço avassalador da doença, pois não temos tempo de temê-la. O medo contribui para disparar o processo desestabilizador que é capaz de jogar a vítima no colapso radical que leva ao suicídio.

O problema essencial

“Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental de filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. E, se é verdade, tal como Nietzsche o quer, que um filósofo, para ser estimável, deve dar o exemplo, avalia-se a importância desta resposta, visto que ela vai preceder o gesto definitivo”.

O parágrafo acima é a chave com a qual o franco-argelino Albert Camus abre o magistral ensaio “O mito de Sísifo”.

Nessa obra fundadora de uma teoria da vida humana como uma face do absurdo, o jornalista, romancista, dramaturgo, filósofo existencialista, ativista da resistência contra o nazismo na França considera o suicídio, cultivado como ato heroico por muitas culturas, uma atitude conformista diante do absurdo. Para ele, ao suicida cumpre revoltar-se. E não se matar. Camus, uma leitura inadiável.

Uma longa história

“É em 1600 que Shakespeare formula, em Hamlet, com uma simplicidade terrível, a pergunta fundamental: ‘Ser ou não ser? Eis a questão’. É essa pergunta que nos servirá de guia”, informa o historiador francês Georges Minois no início do excelente texto “História do suicídio: a sociedade ocidental diante da morte voluntária”, lançamento recentíssimo da editora da Unesp.

Da antiguidade à atualidade, o autor traça um vasto panorama do fenômeno identificando causas, registrando sua influência na vida dos grupos sociais, como a religião se comporta, como poderemos nos comportar ao contempla-lo, ao ser por ele contemplado. Um guia também indispensável para quem se interessa pelo tema.

É um manual que nos dá posse do fenômeno histórico analisado pioneiramente por Emile Durkheim, filósofo francês tido como o “pai da sociologia”.

Para ele, todo suicídio resulta de causas sociais e se manifesta de três formas: altruísta, como no caso dos homens-bombas; anômica, quando ocorre crise social aguda como no crack da Bolsa de 1929.

Empresários e banqueiros se suicidaram em série; e egoísta, quando o ego se individualiza a tal extremo que não admite mais o convívio em sociedade.


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