Ele o tomou nos braços com a voracidade de um sedento. Sua sede não era de água, tampouco de pão. Por não poder enxergar, quis sentir. Senti...

Doce brincadeira de ser avô


Ele o tomou nos braços com a voracidade de um sedento. Sua sede não era de água, tampouco de pão.

Por não poder enxergar, quis sentir. Sentir a vida, ouvir o coração do infante em seu compasso binário.

Na verdade, o que ele desejava era transferir amor, trocar carinhos, demonstrar bem querer, nem que para isso tivesse de se desamarrar da velha sisudez.

Avôs, fala-se, são pais duas vezes.

Enternecem-se, abundantemente, com o simples cheiro de lavanda que exala da tez aveludada do neto.

Abobalham-se com o sorriso maroto, com o balbuciar de sílabas desconexas e com o grito fino de uma voz que ainda se põe em formação.

São assim os avôs. Bobos, apaixonados, zelosos em demasia, inconstantes por vezes, frenéticos, irritadiços, claudicantes em suas emoções.

Mas, sempre absortos e enlevados pela doce brincadeira de ser avô.

É um bastar-se no fim de suas vidas.


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