A mão rabisca contornos impróprios de um especialista. Rascunhos dos galhos, filtros do clarão, da luz com bordas amareladas que desmergul...

Reflexos lunares

literatura paraibana clovis roberto cronica luar lua cheia poesia
A mão rabisca contornos impróprios de um especialista. Rascunhos dos galhos, filtros do clarão, da luz com bordas amareladas que desmergulha na linha horizontal da água ou dos entornos de terras distantes, das planícies ou das irregulares elevações. Desenho grafitado em preto e branco, inicialmente superficial, mas com tantos detalhes guardados que adentram aos olhos, estremecem o coração, arrepiam o corpo em saltos diante de visível belezura e mistério. Espasmos de contentamento, fragmentos de todos os tempos.

Cíclico, nostálgico, impressionante e outros tantos adjetivos. Imperativo é o seu surgir. Em horas mornas de fim de tarde, quase noite, eis que revela-se em fases espetaculosas a separar os lábios do beijo próximo e distante do mundo. Descortina-se seca emergida de mar salgado. Outras tantas vezes apresenta-se envolta em nuvens, em um ponto mais elevado, como dizem, já alta. E risca o mar, cria estrada de luz florescente às desniveladas vagas.
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Aos embarcados, oferece-se como um novo e antigo espetáculo, uma guia das trevas. Do alto, comanda as mares e suas marés.

Em terras interiores, ela assalta a paisagem e joga por entre galhos de árvores, arbustos, estradas, trilhas, em rasgos iluminados de flechas prateadas nas frestas mais isoladas. Invade cavernas, campinas e veredas, acampamentos e sítios esmos. E condena às sombras onde não obtém a possibilidade do próprio toque.

De novo a mão busca capturar o momento. Em frágeis flashes digitais, de tintas em bisnagas, na agilidade dos dedos a segurar grafites, no subjetivo olhar, no substrato da palavra, no silêncio musical, na literária descrição. Impossível ser preciso na tentativa. Será vã, mas valerá a ousadia revolucionária do poeta, do artista, do sonhador.

Ao fim, o êxito será gravar a imagem fielmente à própria mente. Um salto dado no início dos tempos, pelo próprio homem em sua superfície desértica, seja pela contemplação de boêmios e enamorados ou pelo fruto científico de lunetas e lunáticos em suas máquinas especiais. Como disse Mário Quintana: "Que haverá com a Lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez? E misteriosa será cheia sempre a Lua".

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  1. É esse fecho final..." E misteriosa será cheia sempre a lua"...
    Parabéns Clóvis Roberto pelo expressivo texto!!!
    Paulo Roberto Rocha

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