Que prazer foi ler esse livro. Logicamente, esse prazer não é oriundo da história de Aglaia, uma tragédia digna do teatro grego. Esse praz...

Sobre 'O Pássaro Secreto'

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Que prazer foi ler esse livro. Logicamente, esse prazer não é oriundo da história de Aglaia, uma tragédia digna do teatro grego. Esse prazer é oriundo de um livro magnificamente escrito e, acima de tudo, de um livro magnificamente escrito por uma autora nossa. O Pássaro Secreto é um deleite, de longe a melhor experiência que a Tag me propiciou até então.

Uma das grandes sacadas está na discussão sobre a intelectualidade/academicidade. Entendam-me, sou cria desse meio. Vê-lo tão lucidamente discutido é uma experiência primorosa. Há nesse livro um rico acervo de referências.
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A literatura, bem como a cultura em geral estão muito bem representadas. Todavia, elas aparecem com um olhar muito crítico, e, na minha modesta opinião, certeiro. Vemos como a cultura, numa visão geral, atua em nossas vidas. Ela nos traz conforto em momento difíceis. Serve de ponte em nossas relações, enriquecendo-as. Atua como um meio de transcender, de levarmos nossa experiência humana ao máximo que ela pode nos oferecer.

Temos, ao longo do livro, infindáveis e preciosas citações. De Cecília Meireles a Érico Veríssimo (pelo amor de Deus, leiam o Tempo e o Vento), além de, obviamente, também passarmos por muitas referências da cultura francesa. Em resumo, Aglaia e toda sua família estão mergulhados em tudo do melhor que nossa cultura ocidental tem a oferecer, no entanto, isso não é o bastante para evitar todas as agruras descritas no livro, e aí está um de seus grandes diferenciais.

O conhecimento e a cultura são fundamentais em nossa vida. Isso fica muito claro no livro. No entanto, não são bastantes. O melhor exemplo é Heleno. Heleno é o suprassumo do homem culto e intelectualizado. No entanto, o livro deixa, de forma mais clara impossível, explícito como essa intelectualização não está diretamente ligada ao caráter do personagem. Heleno é um homem cheio de falhas. Ele criou uma persona que não representa seu eu real. Sua postura galanteadora e ostentadora não condiz com suas atitudes íntimas. Heleno se demonstra um homem machista, conservador e capaz de reproduzir uma profunda negligência afetiva com nossa querida anti-heroína Aglaia.

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Se todo conhecimento e cultura assimilados por Heleno não foram suficientes para ajudá-lo, o que dizer de Aglaia? Aglaia sofre com uma saúde mental deteriorada. Tudo que ela foi capaz de absorver durante sua infância e início de adolescência não foi bastante para amenizar seu trágico destino. Seu mergulho nos livros serviu de ponte tanto entre ela e seu pai quanto entre ela e Demian. Mais do que isso, todo seu desenvolvimento cultural serviu de conforto em seus momentos difíceis. No entanto, nada disso foi suficiente. Aglaia sucumbiu e sua derrocada nos demonstra o quão intrincada é a saúde mental. Depressão e ansiedade são doenças multifatoriais. Aglaia mesmo traz a discussão do quanto a genética e seu contexto familiar são capazes de influir em seu quadro. Esse livro faz um serviço em nos demonstrar o quanto um ambiente familiar desestruturado é capaz de influir em uma saúde mental já abalada e, mais do que isso, demonstra o quão ansiogênico é um ambiente intelectual/acadêmico, em que a pressão se inicia pela simples escolha do nome.

Aglaia é uma personagem potente, com força para se tornar um nome imortal em nossa literatura. Sua construção é magnífica e aí está outro ponto forte do livro. Somos impelidos a sentir empatia por essa personagem tão complexa.
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Quem não conseguiu, desista. Entregue seu coração, ele não bate mais. Aglaia nos suga, nos inquieta, nos aflige. Cheguei em um ponto que só queria dar um abraço nela e dizer que tudo ia ficar bem, mesmo sabendo que não. Marilia constrói uma personagem ímpar, condizente com a qualidade soberba da obra como um todo.

Esse é um baita livro, e para mim esse é o grande destaque. Vivemos um momento extremamente delicado em nosso país, dar de cara com uma expressão cultural de tamanha pujança como essa é um alívio. Um oásis. Já passamos por tempos muito difíceis. Tivemos uma abominável escravatura, vergonhosamente prolongada. Porém, ela passou e Joaquim Nabuco, Castro Alves e o próprio Machado de Assis ficaram. Tivemos uma nojenta e espúria ditadura que também findou-se, porém Caetano, Gil e Chico ficaram. Da mesma forma encaramos tempos difíceis agora. Uma pandemia nos assola e ao mesmo tempo vemos eclodir dos bueiros e esgotos de nossas cidade ideias perturbadoras como o negacionismo, o anti-cientifismo e o autoritarismo. Ah, tudo isso com certeza irá passar e figuras como a Tag, Itamar Vieira Júnior e Marilia Arnaud ficarão. Por fim, não vejo forma melhor de encerrar do que citando um dos mais doces poetas que minha amada Porto Alegre já viu. Quando terminei o livro, ele foi a primeira coisa que me veio à cabeça.


“Todos esses que aí estão Atravancando meu caminho, Eles passarão ... Eu passarinho!”


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  1. Parabéns👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
    Rick Shandler...belo texto sobre a a obra de Marilia Arnaud.
    Ansioso por conhecer!!!
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Ângela Bezerra de Castro27/5/21 13:56

    Que maravilha, Marilia ! Que perspectiva ele descobre nessa leitura entusiasmada .Riqissima , verdadeira e tao atual ,essa visão de um saber longe da vida ,que não ajuda ninguém a ser feliz .Grande contradição de nosso tempo. Grande leitura !!!

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