Este é um manual diferente dos que acompanham os produtos de shopping centers. Trata-se de um manual sui generis, porque ele nos dá sua c...

Um manual para estilhaçar o comum dos dias

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Este é um manual diferente dos que acompanham os produtos de shopping centers. Trata-se de um manual sui generis, porque ele nos dá sua chave logo nas primeiras páginas: “Ir rodeando, contornando, semeando, coletando, estendendo, corrompendo (...), descobrindo a cruz”. Mas não é de fácil leitura. Se você conseguir ir até o fim, terá, certamente, que tomar fôlego várias vezes, assim como o fazem aqueles mergulhadores de cara limpa, sem escafandro.

Para ler bem o Manual para Estilhaçar Vidraças, é preciso fazê-lo sem pressa e com cuidado. Em muitos casos, ele apenas “prega uma peça”. Ele é ora um espanto, ora um acalanto, mas em ambos os casos seu propósito último é o de estilhaçar sentidos. O leitor se surpreende ora com o inusitado, ora com o humor, deixando-se flagrar pela trapaça que o poeta faz com o senso comum, embora nada esteja desarticulado.
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Tudo é deliberadamente pensado. Há um intenso trabalho de elaboração poética. Quem não estiver muito atento pode pensar que basta fazer algumas oposições, colocar alguns paralelismos ou deixar-se conduzir pelo eco das rimas. Mas não, não é assim; há um suor que advém do trabalho artesanal de batear as palavras no imenso mar da língua, tesouro de significantes. A poesia entremeia as letras, vincula-se a elas conforme o poeta as aborda e borda. Cria-se a poesia, que pode, como no caso, vir lírica e suave, outras vezes potente, e, em alguns momentos, explosiva. Estilhaçando. Diz-se distopia, tomando emprestado um termo vindo da formação médica do poeta, àquilo que está fora de lugar, ou fora do lugar e patológico. A meu ver, o Manual para Estilhaçar Vidraças é uma distopia; como uma boa obra de arte, este livro de poemas revela o obscuro e o colorido deste ser humano que é sempre um pato-lógico.

Todo o livro faz jus ao título. Logo no poema de abertura, verifica-se a violência da pedra/palavra lançada não ao vento, mas sobre outras palavras, erguendo “monumentos” de poemas. “Monumento”: palavra que pode levar à imediata associação ao que é grandioso, sólido, compacto, justamente o que esse poema de abertura não é. Ele próprio estilhaçado em uma polifonia, com espaços vazios, provocando no leitor uma certa sideração, exigindo dele um esforço de releitura para acompanhar versos ora em zigue-zague, ora em espelho, independentes entre si e interdependentes, rompendo com o aprisionamento de um sentido único. Flutuante, dinâmica, ativa, encontramos aí uma experiência com a linguagem aberta, não conclusiva. Por ela, o leitor é capturado para dentro da obra com demanda de ser ouvida sua própria e singular voz. Sua poesia nos transporta para além de nós mesmos. O convite do poeta é para que nos estilhacemos,
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associando-nos ao coral da linguagem como numa associação de inconscientes liberados de seus CPFs, atravessando as fronteiras de nossa primeira alienação imposta pelo campo da linguagem que nos precede. O poeta é, necessariamente, um subversivo, um subversor da língua. Estilhaçando-a, enriquecendo-a. Jorge Elias opera com vários recursos para que isso aconteça: aliterações, rimas cruzadas, polifonia, cortes abruptos, interrupções e, principalmente, condensações. Diz-nos o poeta, no poema que dá título a este livro: “Da raiz do nome – esses dedos cravados no beiral da fenestra – extrair a resina impura”. O eu lírico trava um embate consigo mesmo, com as cristalizações da sua história, mostrando-se em vários poemas: “Pressentir o estalo da grade. Dispensar o portal da crença”.

A construção poética se assemelha ao funcionamento do sistema inconsciente, território em que reside o paradoxo, em que convivem as contradições, em que vigora a atemporalidade, ambiente de metáforas e metonímias. Freud escreveu, em seu texto O Poeta e o Fantasiar (1908), que “toda criança brincando se comporta como um poeta, na medida em que ela cria seu próprio mundo (...). O poeta faz algo semelhante à criança que brinca: ele cria um mundo...”. Jorge Elias apresenta um eu lírico com o qual talvez se confunda. O poeta brinca em seu poema Manual com Questões Para um Autorretrato, que diz assim: “Por que você se desculpa? Pelo vício de armar arapuca. Por que você chega tão cedo? Para ter um pouco de sossego. (...) Por que você recorre a Deus? Não se admire do que faz um ateu...”. E segue, assim, brincando no jogo de perguntas e respostas sobre as crenças, a existência e a insistência com a escrita. “Por que você escreve poemas? A obsessão da palavra condena”. Bem o disse, este é o fardo para aqueles que ousam penetrar no terreno da poesia.
Ficar obsessivamente cavando no tesouro imenso dos significantes, buscando aquele que melhor couber no verso de se fazer dizer. Trava-se uma batalha com as palavras, umas expulsas, outras cortadas, muitas buscadas, num trabalho em que o nosso poeta Drummond reconhece que há muita transpiração.

Freud reconhecia nos poetas a antecipação de apresentar o inconsciente, sem mesmo o saber. No caminho que trilhava, Freud dizia que ali reconhecia passos e pegadas de algum poeta. Foi com a obra dos poetas e escritores, desde os gregos aos contemporâneos, como Goethe e Schereber, que Freud ilustrou sua grande obra teórico-clínica. Leonardo da Vinci e Michelangelo também foram fontes de inspiração e de sustentação para suas teorizações do aparelho psíquico. Lacan seguiu caminho idêntico, valendo-se de obras literárias, como as de Edgar Allan Poe e James Joyce, e de muitas outras formas de obras de arte.

A psicanálise e a poesia (literatura) são campos que vêm da mesma origem: a fala e sua incidência no ser; como disse Lacan, falasser. Ambas, psicanálise e poesia, lidam com a palavra sem o objetivo de comunicação, e sim de gozo.

Que o caro leitor tenha se deleitado com o estilhaçamento poético deste Manual para Estilhaçar Vidraças, de Jorge Elias Neto.

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