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Numa noite, no ano de 1956, ele entrou estabanado na sala de uma residência em Teixeira – Pb, no pleno decorrer de uma Cantoria de Vi...


Numa noite, no ano de 1956, ele entrou estabanado na sala de uma residência em Teixeira – Pb, no pleno decorrer de uma Cantoria de Viola entre Lourival do Pajeú e Pinto do Monteiro. A forma inoportuna de sua chegada provocou mais uma sextilha famosa de Louro do Pajeú:

Ô Pinto, preste atenção / O mundo está transformado / Veja só Pedro Compasso / Como vem com o passo errado / Os outros compassos riscam / Mas este já vem riscado

Natural da Serra do Teixeira, Pedro Compasso foi um dos primeiros motoristas a se aventurar por aqueles contrafortes da Borborema, tendo se iniciado nos mistérios que passam da centelha à combustão, da tração à rotação e guia, quando ainda bem jovem, levado que foi pela mão do legendário ‘Bibiu’ – decano dos chauffeurs teixeirenses -- para ser seu ‘’moleque de ajuda’’ por acidentadas viagens durante aquele pós-guerra de 1930.

Para a sorte de ambos, o destino os poupou de errar pela “Ladeira da Verônica” (também chamada de Ladeira da Onça, tinha esse nome por ter sido ali onde Verônica Lins de Vasconcelos, esposa do sertanista pernambucano Manoel Lopes Romeu, havia matado uma onça – a facão, diriam uns, a arcabuz, diriam outros – quando à frente de um pequeno bando de serviçais, sobe a serra no ano da graça de 1773, numa ação mais do que temerária, e que tivesse por único objetivo recuperar seu marido que, a pretexto de uma caçada, estava se demorando por aquelas paragens muito além do que fosse recomendável), que era o pesadelo de tantos quantos tivessem de tomar o rumo Norte, que leva ao sertão. Isto devido à descida extremamente abrupta e íngreme a que essa aclive levava, uns 200 metros mais na frente.

Mas, os tempos mudavam. Senhores mais abastados começavam a importar automóveis de diferentes marcas, e, uns anos depois, o Brasil via surgirem os caminhões popularmente conhecidos como Fenemês, da nascente indústria nacional, e isso era razão de sobra para o Estado Novo de Getúlio Vargas resolver espalhar estradas pelo país, e assim, no começo da década de ‘40, iniciou-se a construção da chamada Estrada de Rodagem, que era o que podia haver de mais moderno para aqueles habitantes da serra.

‘Governar é Abrir Estradas’, dizia um jargão da época, e essa máxima se estendeu por todo um período que ia do final dos anos ’30 até a década de ´60. Naquele início, é possível dizer que a vida parecia sorrir para o legendário Bibiu, e, por tabela, para Pedro Compasso.

Aconteceria, porém de, nos anos posteriores, quando já houvesse Bibiu largado a profissão, vitimado por um acidente que lhe comprometeu parte da mobilidade física, que continuasse seu pupilo, Pedro Compasso, a frequentar boléias, e até conseguisse adquirir para si um caminhãozinho velho. Comumente chamado de “fubica’’, este lhe permitia, no entanto, manter-se como autônomo, dono de seu tempo, longe das ordens dos senhores brancos e abastados.

No começo de todo aquele processo, porém, a Serra do Teixeira registraria grande quantidade de acidentes fatais. Os caminhões produzidos na época pela indústria internacional – Studebaker, Alpha Romeu, etc -- não tinham ainda tecnologia satisfatória para enfrentar condições tão adversas em estradas que iam sendo construídas sem observância de quaisquer dos princípios básicos de segurança, tais como hoje os entendemos: acostamento, barras de proteção, sinalização, etc. O sistema de freios, a incipiente resistência do material utilizado na confecção da barra de direção, para citar alguns pontos vulneráveis, não suportavam torções e pressões quando submetidos ao transporte de cargas muito pesadas em ladeiras com inclinação próxima dos 40 gráus.

O carro de Antonio Pereira / Em baixa velocidade / Virou, matando a metade / Do povo bom de Teixeira / Gente boa, hospitaleira / Se acabou nesta enrascada / Com gente ruim não há nada / Não há sequer embaraço / Cadê que Pedro Compasso / Nunca morreu de virada?

(poeta Zé Marcelino)

Mas essa inovação na vida dos brasileiros começara, em Teixeira como em todo canto, a produzir novos profissionais do volante. As continuadas politicas desenvolvimentistas alcançariam seu auge nos anos ’50, e, nas imediações da bomba de gasolina de Aristeu Guedes, onde motoristas faziam ‘ponto’, tornou-se cena comum esses novos profissionais troçando do velho Pedro Compasso (que por esse tempo dividia a antiga constância no volante por essa mais recente, de consumir aguardente) com seu maquinário ultrapassado.

Zombeteiros, aqueles moços punham em dúvida não só a capacidade profissional do velho caminhoneiro, como a da sua esgarçada ferramenta de trabalho, um antigo Volvo de cor escura indefinível, e cuja máquina demorava-se cada vez mais em ceder aos apelos da manivela. Jocosos, gritavam de longe suas provocações a Pedro Compasso. Faziam isso, certamente, para ouvir as respostas espirituosas de sempre:

-- Aonde eu entrar no Recife com 60 km/h de ré, vocês não entram com 30 de frente!”

Magro e alto, Pedro Compasso tinha braços e pernas que, por serem muito longos faziam dele um tipo bastante desengonçado, e que parecia estar sempre ocupando o espaço na forma mais imprevisível. Bebendo em um bar, ele agitava-se e falava num tom de voz que era sempre em sustenido maior. Falava como se estivesse no meio de uma feira abarrotada de pessoas. E talvez por sua verve pitoresca, gostasse, como poucos de se fazer presente às cantorias de viola.

Encerremos com esse verso primoroso do poeta Zé Marcelino, escrito momentos após ‘convencer’ Pedro Compasso a se retirar do seu bar, numa hora da noite já bem tardia. Feito como verdadeiro desabafo, após fechar as seis portas de seu bar:

O diabo que joga o laço / Em tanta gente de bem / Porque um dia, não vem / E leva Pedro Compasso?/ Lhe deixe lá no espaço / Na esfera sideral / Onde seu corpo anormal / Que tanto incomoda e erra / Fique longe cá da terra / Não se veja nem sinal.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor. lacet.alberto@gmail.com

Um náufrago é alguém de quarentena, isolado no mar da vida, tocando numa direção incerta como esse timão governado por um macaco prego, o ma...



Um náufrago é alguém de quarentena, isolado no mar da vida, tocando numa direção incerta como esse timão governado por um macaco prego, o mais irrequieto de todos os símios…

Mas pode ser também um momento de grande criatividade. As grandes obras de Arte européias, tanto na Música quanto na Pintura, foram criadas em quarentenas decretadas pelo frio. Sem falar que, em consórcio on-line com Mauricio Carneiro, o Dr. Cachacinha, estou criando o protótipo embrionário de uma bebida chamada Xaropirinha, um blend de Volúpia com mel de italianas, e que, desdobrado em sumo de limão e gelo, fornecera uma nova caipirinha,.. Como vê, o confinamento pode servir para alguma coisa.

O confinamento nunca é verdadeiramente confinamento a menos que não saibamos o que fazer com ele. É claro que cientistas, artistas, escritores, filósofos, artesãos finos, etc, fazem da solidão a verdadeira estrada da vida. E eles devem ensinar às pessoas, ou tentar passar um pouco de esperança, e que é possível lidar com isso, sem entrar em desespero.

Os antigos eremitas, religiosos autênticos, os monges, tinham se apoderado dessas capacidades. Com o tempo a religiosidade decaiu muito porque aquele fervor de crença já não se fazia necessário em uma igreja vitoriosa e que estava entregue ao poder mundano.

Pablo Picasso disse uma vez: "Ninguém haverá de criar nada sem o favor da solidão. Sabendo disto, tratei de criar uma solidão para mim". O gênio e sua penetrante compreensão dos processos em que está envolvido.

Tenho um amigo pintor que agora mesmo está islado e às voltas com uma tela de dimensões maiores que as comumente usadas por ele. Me disse que não tinha outra coisa a fazer que não fosse pintar, e eu lhe disse que esse era o momento de avançar (ele é um sujeito culto e certamente sabe disso), que os momentos em que eu consegui dilatar minhas concepções, composições e execuções artísticas se deram em meio às piores dificuldades, tanto materiais quanto espirituais, e posso dizer mesmo que me encontrava bastante adoecido e fragilizado.

Mas consegui, naqueles momentos de sofrimento, dar uma resposta criativa à altura do que a cisma existencial exigia para que eu seguisse vivendo, e que tinha de ser em novo patamar. E foi isso que aconteceu. Era uma quarentena mil vezes pior do que essa que vivo agora.

As pessoas que passam dramas profundos e conseguem superar adquirem alguma imunidade, embora não devam se confiar na HYBRIS...

(retraços da Web)