A árvore fantasma
Agarrada só aos galhos
do que já foi não é nem sombra
desfolhou-se, desnudou-se dos frutos
perdeu-se das folhas, tiraram-lhe a fantasia
reduzida a ser espectro, fantasma sem assombro
reflexo da morte, que ainda guarda poesia
faz pose para uma foto, mas sem sorriso
a árvore adoecida, já não adocicada
suspensa pelo tronco teimoso
sustento do inerte esqueleto
pobre planta destituída
A nuvem sai do vermelho abrasivo e paira no ar a partir da madeira negra transformada pelo fogo. Pequenas labaredas que ameaçam explodir a qualquer momento estrelam ferozmente. O som assemelha-se ao do partir de um graveto, mas é a força do calor violento do carvão. O pedaço de madeira transformado em combustível canta para o preparo do alimento.
Embarque no trem numa manhã qualquer e siga... A composição vazia segue tranquilamente serpenteando o caminho feito uma centopeia de pés de ferro. Parte da cidade se abre para os olhos curiosos dentro dos vagões. A maioria dos poucos passageiros espalhados percebe os quadros pincelados com o avanço da composição. Destino Cabedelo, sentido Santa Rita... Tanto faz. Olhe diferente para o trem.
Os rabiscos do lápis comum de ponta afiada aparada com gilete feitos num cantinho da folha em branco parecem ganhar vida, movimentos animados. O olho reconstitui um retrato mal falado da rua, das flores, dos presentes de hoje, de ontem e até de amanhã. A cabeça gira, se afasta, retorna recapturada pela música que toca baixa, mas que alcança a altura do espírito viajante.
Desde pequeno eu monto uma espécie de um álbum de figurinhas da cidade. Um catálogo individual, de valor único para o ser eu. É uma coleção de imagens, coisas, momentos e sensações existentes e provocadas pela cidade. Um acervo que cresce e se renova. Do som do alto-falante do parque de diversão armado na lateral do mercado público no Castelo Branco, com suas velhas, inseguras e, ao mesmo tempo, geniais canoas; assim como as sementes vermelhas de casca dura enfeitando calçadas da Avenida Epitácio Pessoa durante desfiles de 7 de setembro em épocas nebulosas.
As caixas das lembranças perdidas no ar reabertas, as figurinhas coladas nas páginas do álbum reavivado, os jornais com o seu nome assinando alguma matéria esquecida e desimportante pelo tempo que já ocorreu e que ganha novo valor. É quase como uma ficha dos antigos orelhões a fazer uma ligação sensorial com o cheiro de uma flor que se joga através dos galhos pelo muro de um residência agora super vigiada por câmeras e cercas eletrificadas, com o cheiro do mar no inverno ou da batida da água da chuva na terra quente e seca.
Na lâmina que divide o dia da noite repousa o equilíbrio diário. É a cena que volta a se repetir quando a penumbra, horas depois, se aquece e aclara. É um fio por onde se aprumam todos os passamentos, pensamentos, onde se ajustam corpos humanos e celestes. Vida, morte. É o recorte perfeito, o fio do corte instantâneo em tons alaranjados/vermelhos ou azuis/negros que pipocam efeitos pirotécnicos na direção do oeste, para horas depois ressugir do leste.
A água escorria pela biqueira após chocar-se com força no teto e escorregar pelo leito das telhas. Era um chuveiro de alegria que deslizava pela lateral da casa. E seguia trazendo felicidades ao encontrar o elemento terra. Aliás, presenteava-a com perfume, a fragrância terra molhada, gosto de infância.
Pela janela entreaberta vê-se o céu mudar. Da clareza do verão, passe-se a anuviada temporada das chuvas, o que chamam invernada. Dos tempos das árvores em nudez profunda cujas vestes foram removidas pelos ventos, que parecem fechar-se ao serem expostas, corre-se para mais adiante uma explosão de cores e cantos, uma algazarra de vida. A passagem visual é o reconhecer do relógio do tempo em efeito prático.
Quando o dente rasga a pele da fruta e penetra a macia carne, seja do jambo e sua roxidez sensual, do caju com o suculento desejo na pele amarela ou vermelha, o roseado íntimo da goiaba, a mente se transporta. É a mordida no corpo amado, o alimentar-se do outro ser, sugar e transferir energia, conexão. Os olhos fecham-se e transportam à boca o sentido de mais sentir.
Quem nasce desastrado tende a seguir assim. Então, o que rendeu um crônica meio que autobiográfica necessita de atualização e rememorização dos fatos. Após o estrondoso sucesso do epsódio um, quando foram revelados acontecimentos como o celular voador pela janela do carro e a faca saltitante e um quase "autosuicídio" (licença poética ao extremo gente!), agora o amigo desastrado surge em novas aventuras (ou desventuras).
As ladeiras têm sentidos próprios, conexões entre si. É como possuir algo mágico, o poder de capturar a história, de contar inúmeras histórias. E elas são muitas por esses brasis da vida. Inclinações que testemunharam invasões, batalhas, sacrifícios, martírios, vida e morte, honra e destruição. Oh ladeiras cujos paralelepípedos viveram ao longo de séculos a presença de herois e vilões de muitas raças. Quando ainda sem pavimento sentiram na própria terra o pulsar do país que começava a ser construído e cuja obra segue inacabada, como pele de testemunha das idas e vindas humanas.
Se João Pessoa possui poucas ladeiras, ainda assim podemos citar as de São Francisco e da Borborema. Acesso do berço de nascimento da cidade, o Porto do Capim, ao topo da elevação onde hoje existe a Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, as duas ladeiras desafiam o vigor físico dos pedestres e guardam muito da história paraibana.
Na ladeira de São Francisco, um pouco após a sua metade, estrategicamente, foi erguida da Casa da Pólvora. Era o paiol das armas, das munições da antiguidade, atualmente celeiro de cultura. Hoje a calmaria do local disfarça os caóticos momentos de batalhas. Pólvora, tiros, sangue, morte... Portugueses, holandeses, escravizados africanos, locais das três raças e muitas misturas. Do alto, a visão do entardecer a jogar ouro na cidade baixa. Percurso paralelo faz a ladeira da Borborema, após surge do encontro com a Rua da Areia.
Ladeiras tão antigas quanto as famosas elevações de outro ouro, pontilhadas por igrejas da velha e magnífica Vila Rica do passado, a Ouro Preto. A cidade mineira dos inconfidentes, da luta pela independència, sufocada por forcas e esquartejamentos. Da Praça Tiradentes elas despontam. Nessas ladeiras mineiras repousam os ideias de liberdade individual e coletiva. Lá, elas foram criadas como acessos entre as ruas históricas encravadas pela busca do ouro das montanhas das Minas Gerais. Por ali, muitos passaram ora como senhores, ora como escravizados. Uns tantos encontraram o fim sobre o platô no Morro da Forca, sombrio lugar de belo nascer e por do sol. Pelos arredores, ladeiras que levam a muitas igrejas.
Conterrâneas de lutas são as ladeiras de Olinda. Passarelas de carnavais, serpenteiam pela velha cidade pernambucana. Conexões de tempos, ladeiras de multidões e solidões, dos blocos e bares, da pitombeira e seus quatro cantos, do Alto da Sé e sua ladeira a despejar azuis de céus e do mar. Local estratégico que domina os arrecifes e as terras baixas. Uma das mais famosas e íngrimes é a Ladeira da Misericórdia, acesso à Igreja e ao Hospital da Santa Casa da Misericórdia. “Ó linda!” Por onde surgem bonecos gigantes com vida. Desfiles diversos da alegria do frevo precedido pelas lutas do país nada pacífico de colônia, império e república.
Ladeiras como as seculares de São Salvador, a primeira capital brasileira. Construída numa elevação por questões de segurança, a fortificada cidade viu surgir caminhos íngremes a trazer para o alto víveres e humanos desembarcados dos navios. Aí surge a Ladeira da Preguiça, uma das três mais antigas da cidade. E ainda tem as da Conceição, Misricórdia, Montanha, Curuzu, Aflitos e tantas outras. Subidas e descidas na formação nacional da mistura da Bahia tão nobre ao Brasil.
E tome ladeira! O esforço físico para percorrê-las é maior, vencer os aclives/declives exige resistência, atenção redobrada. Porém, as ladeiras históricas merecem um olhar mais atento, carinhoso do visitante. São páginas da nossa história que guardam beleza singular. Se a subida é um desafio, como diz o dito popular: “Para descer todo santo ajuda”.
Gavetas saem da parede, armazenam letras de blues, blusas e pequenos aparelhos de jantar, feito casinhas de crianças. Ao lado, quadros e uma placa de carro caída numa noite torrencial quando os céus desabaram num aguaceiro. Ela seria um futuro número da sorte? Em outro ponto, o candeeiro pende sem iluminar. E se vê espalhados jarros e plantas e o aroma de um incenso raro trazido à margem de um rio distante. Era feito beijo de hortelã que os lábios pediam.
Redemoinhos de poeira puxam o ar quente no meio da estrada sertaneja, iguais aos mesmos giradouros aquáticos que criam abismos na água no meio da correnteza do rio. E ambos arrastam para o seu centro seres e os transformavam em semelhantes, afogados sem lanternas, dispostos no mesmo vazio. Rajada de vento na terra, braços secos sem a doce água em agitação. Impossível segurar em galhos ou sonhos o ar disperso nas temperaturas infernais ou no líquido a girar feito liquidificador.
A noite cai como uma lâmina fria para os tipos esquecidos. A máquina de produzir sonhos agora tem a função decorativa, não é mais ser vivo, pulsante, que firma opinião, gera documento, contribui, conta e marca a história. Os tipos esquecidos se perdem no tempo, nos espaços. A caixa onde eram zelosamente armazenados está vazia, corroída pela ferrugem. Seu próprio coração esvaziou. Dali já não sai mais a soma da transformação das letras em palavra, frases, parágrafos, páginas.
Decifração de gotas
A nuvem escreveu com água e "enchuvou" a janela
frases aleatórias pingadas nas telhas
ao longe, embaços desuniformam pessoas
e o mundo antecipa a noite em pleno dia
avante decifrações ditas pelas meras gotículas
que em código relata: não é tempo ainda de invernada
mas é bem-vinda a quase chuva inesperada
dota clima diferente por estas temporadas
Novo e de odor suave, antigo de muitos aromas armazenados pelo tempo... Livros físicos são tipo frascos de perfumes. Uma estante cheia de fragrâncias variadas. É possível sentir a história, interpretar os cheiros, embriagar-se com cada sensação da leitura. Tramas, personagens, capas, tipos gráficos, impressões, tudo se mistura na bagagem que o leitor domina com as mãos, acaricia com os olhos, mergulha com a mente e deixa penetrar-se na alma.
Não há seringueiras na Rua das Seringueiras, assim como não existem imburanas na Rua das Imburanas ou pinheiros na via batizada com o nome da árvore simbólica do Natal. A exceção deve ser as castanholas na Rua das Castanholas, já que essas plantas parecem se adequar a qualquer espaço pelas vias da cidade.
Uma pena não encontrar as belas cerejeiras no logradouro que homenageia a planta símbolo do Japão. Decepcionante também não descobrir um lugar cheio de flores na Rua das Flores. Afora o nome poético, a foto revela um lugar comum.
Sentado do alto da pequena colina pescava vazios espalhados à sua frente. Nos espaços da tela em branco, ia preenchendo com paisagens. Inicialmente, rabiscou as águas pelo terreno em movimento contínuo, uma lenta procissão com seu tom escuro, pinceladas de ouro e prata a variar o reflexos vindos do céu. Era o largo rio.
Às margens, rápidos toques deram vida a uma vegetação de características próprias, cujas raízes desciam à terra abaixo da lama e da água, conhecedora do fluxo e refluxo das marés, batizada de manguezal. Verdes variados ao longo do dia.
Sento, ajusto o corpo, explico como será o corte, o estilo, o formato. A cadeira é reclinável; confortável. É só fazer as orientações básicas, fechar os olhos, relaxar e deixar o profissional das tesouras e outros instrumentos agir. Quero aproveitar o silêncio do salão, interrompido por uma leve música que toca baixinha, saída de uma caixinha estrategicamente instalada em algum esconderijo no ambiente. O estilo, algo tipo de blues/jazz/reggae. Tudo praticamente perfeito.
O barbeiro mal inicia sua missão e eu, paralelamente, quase começo uma soneca. E parto, momentaneamente, para outras paragens, outros tempos, outros corpos. Mas, o silêncio é interrompido. Existem clientes e... certos tipos de clientes.