16.11.22
Em meio à caminhada pela estrada canavieira recheada de chuva intermitente, risos aventureiros e lama contínua, percebo que é um novemb...
Em meio à caminhada pela estrada canavieira recheada de chuva intermitente, risos aventureiros e lama contínua, percebo que é um novembro, em um mês estranho de um ano confuso. Lá fora, no dito mundo, sabe-se que ainda haverá Copa do Mundo mesmo com o São João já ido; e em frente aos quartéis há torcedores canarinhos que pedem golpe, querem mudar a regra do jogo... em vão esperneiam.
16.11.22
5.11.22
Árvore morta Desnudo galho dependurado Pedaço sem vínculo, morto projétil seco, inutilizado que já foi vida, compôs um todo...
Árvore morta
Desnudo galho dependurado
Pedaço sem vínculo, morto
projétil seco, inutilizado
que já foi vida, compôs um todo
Se foi feito verso de poema
igual a tijolo de casa
o presente é corpo insepulto
flutuante decomposição
A árvore, agora ser decrépito
sem vida, não tem sustento
forma até de belo quadro
mérito do que foi no passado
5.11.22
30.10.22
Outubro caminha pelos seus meados com suas pancadas de chuvas aleatórias e, cada vez mais diminutas, mas que tantas vezes surpreende...
Outubro caminha pelos seus meados com suas pancadas de chuvas aleatórias e, cada vez mais diminutas, mas que tantas vezes surpreende com seu barulhinho bom, música mais rara nestas paragens do ano, enquanto o calor aumenta e anuncia dias muito mais sufocantes. No ar, uma espécie de anticlímax enquanto o tempo imparável marca que age em tudo e, mesmo assim, muitos nem se apercebem. Seguem apinhados roteiros de cartas marcadas, insistem em abraçar desastres. Alheia a tudo isso, a vida prossegue, a cidade não para... O céu era prata, agora é ouro, que rebrilhará ainda mais nos próximos meses.
30.10.22
6.10.22
O canto e a batida das asas refletiam o silêncio na praça. O dia seguinte das travessuras dos números. Papéis pelo chão davam testemunh...
O canto e a batida das asas refletiam o silêncio na praça. O dia seguinte das travessuras dos números. Papéis pelo chão davam testemunhos da briga pelas digitais enquanto a vida acorda preguiçosamente como de costume.
Pouco a pouco, a luz esquentava o dia e invadia todas as frestas de casas, recantos de todas as esquinas, enquanto as castanholas gigantes agitam suas copas ao toque do vento. Há uma brisa branda vindo no sentido sudeste, sobre que ameaça tornar-se tempestade.
6.10.22
23.9.22
A placa deitada no chão, sobre uma relva num canto, a poucos passos do cruzamento, deixou de alertar sobre o perigo que nos ronda. ...
A placa deitada no chão, sobre uma relva num canto, a poucos passos do cruzamento, deixou de alertar sobre o perigo que nos ronda. É quase um aviso aos céus pela necessidade de parada. Parar para continuar. Assim é o mesmo aviso da saída de emergência quebrada junto à porta. Praticamente, ela informa que a saída se estreita, se reduz a uma opção, pois o auxílio já não cobre a emergência, perdeu a razão.
23.9.22
13.9.22
A primavera nem havia chegado e eu ainda apreciava o colorido das bandeirinhas e o frescor matinal da chuva madrugosa. Era um...
A primavera nem havia chegado e eu ainda apreciava o colorido das bandeirinhas e o frescor matinal da chuva madrugosa. Era um sorriso balançando estirado em cima de um terraço enfeitado que permanecia pós-festas juninas. Talvez, um sinal da cíclica passagem humana. O calendário a girar meses e retornar com estações e festas, feito um trem de passagem pelas paragens a encantar os passageiros do vagão tempo.
E passavam pelas janelas dos olhos tantas aquarelas. As casas em manchas, o rio e as árvores misturados, os carros mais céleres e aparentemente parados, os chãos em tons flutuantes e quase naufrágios, a cidade em completa transformação. Dos seres uma multicoloração das peles e pelos espalhada pelos recantos que se enroscam, miscigenam-se, agregam-se, encantados.
13.9.22
2.9.22
A memória guarda o ruído ensurdecedor, o cheiro da tinta emanada das entranhas de chapas de ferro, do monstro mecânico com uma estei...
A memória guarda o ruído ensurdecedor, o cheiro da tinta emanada das entranhas de chapas de ferro, do monstro mecânico com uma esteira lateral com os exemplares de papel jornal meio que vomitados de maneira organizada pela rotativa. Estacionada em um espaço grande, a estrutura lembrava a máquina cheia de engrenagens que engoliu Carlitos no clássico “Tempo Modernos” do genial e sempre atual Charles Chaplin.
2.9.22
24.8.22
As castanholas se vestem de um tom vermelho antes de se despirem ao sopro dos ventos de agosto. As folhas entapetam a terra como um abr...
As castanholas se vestem de um tom vermelho antes de se despirem ao sopro dos ventos de agosto. As folhas entapetam a terra como um abraço em meio ao inverno. Orgânico lençol a cobrir e colorir, indistintamente, corpos vegetais e gélidas estruturas de cimento, como um salto de paraquedas sem controle ou alvo definido. Já à noite esfria as superfícies e incendeia a pele com mil sensações e arrepios em tentativas de tradução em livros, filmes, poemas, canções, com vãs interpretações. O entendimento pleno só virá com o experimento, com o toque entre a fria lâmina no pingo da chuva no pescoço desnudo, na mão livre.
24.8.22
16.8.22
Era quase passatempo tamborilar os dedos de forma brincante pelo lápis. Depois de um pensar instantâneo, a mão começava a desenhar...
Era quase passatempo tamborilar os dedos de forma brincante pelo lápis. Depois de um pensar instantâneo, a mão começava a desenhar no papel os sabores, os cheiros, os desejos, os futuros, a vida, até a morte. Letras, curvas, tinta e papel ganhavam formas imaginariamente definidas. E dali surgiam casas, carros, árvores, mãos, olhos, uma infinidade de pensamentos que soltavam para a superfície do branco mundo.
16.8.22
28.7.22
Os raios do Sol batem úmidos no cimento frio. A escadaria agora está desobstruída, limpa. Já não há mais corpos das folhas das castan...
Os raios do Sol batem úmidos no cimento frio. A escadaria agora está desobstruída, limpa. Já não há mais corpos das folhas das castanholas ressecados e gélidos em decomposição formando uma barricada pousada nos degraus, compactadas pelas chuvas do inverno. A posição mórbida após soltarem e planarem das copas das árvores durante o outono. Semanas esquecidas, largadas sem verde, grudadas umas às outras num abraço post mortem.
28.7.22
21.7.22
As serras, as estradas, o clima mais ameno, os engenhos, as comidas. A região do Brejo é um encontro com novos conhecimentos, paisagens...
As serras, as estradas, o clima mais ameno, os engenhos, as comidas. A região do Brejo é um encontro com novos conhecimentos, paisagens, histórias e um descobrir constante da Paraíba.
A vaca é que está certa quando decide ir para o Brejo, desde que seja o da Paraíba. Eu fui várias vezes e se me disserem para ir lá outra vez, eu vou. Em dia de sol, mesmo que esteja nublado, ou até com a chuvinha fria, o Brejo guarda cenários sempre agradáveis.
21.7.22
13.7.22
Telhados disformes, paredes manchadas, uma massa cinzenta sob a chuva contínua e de pingos gélidos de julho, chuva que vai e vem em...
Telhados disformes, paredes manchadas, uma massa cinzenta sob a chuva contínua e de pingos gélidos de julho, chuva que vai e vem em uma sequência imprevisível. Ao longo, árvores intraduzíveis, montanhas escondidas. No inverno, também são feitas belas telas, só que o pintor prefere usar uma paleta de cores de tons pastéis, do branco embaçado, do chumbo poético.
13.7.22
7.7.22
Há 40 anos, o Brasil acordava de ressaca. Eu, ainda na versão menino de 12 anos, assim os 120 milhões de brasileiros à época, despert...
Há 40 anos, o Brasil acordava de ressaca. Eu, ainda na versão menino de 12 anos, assim os 120 milhões de brasileiros à época, despertavam naquela terça-feira, 6 de julho de 1982, certos de que o dia anterior estava apenas começando. Aquele 3 a 2 inexistia, era inaceitável. Os deuses da bola teriam descoberto algum equívoco e corrigiriam aquele desfecho.
7.7.22
28.6.22
Eu vi o trem partir lotado de música e passageiros dançantes em seus vagões. O apito pedia para que as linhas paralelas de ferro perman...
Eu vi o trem partir lotado de música e passageiros dançantes em seus vagões. O apito pedia para que as linhas paralelas de ferro permanecessem desimpedidas. E lentamente a serpente mecânica ganhava velocidade e se apequenava na curva adiante. Do ponto de partida, a estação ficou cheia de vazios, a plataforma antes apinhada agora era um espaço adormecido. E, ainda assim, possuía o ar cheio de memórias dos que já partiram para as feiras, as barcas, a vida.
28.6.22
16.6.22
O relógio em seu tic-tac perceptível das horas escuras da madrugada se faz presente. Dialoga com o silêncio das coisas inanimadas que g...
O relógio em seu tic-tac perceptível das horas escuras da madrugada se faz presente. Dialoga com o silêncio das coisas inanimadas que ganham vida durante o dia. À noite, o relógio marcha incontrolavelmente enquanto a corda lhe estira a vida, a pilha lhe conceder energia. Tic-tac que traz a névoa matutina, que levanta o Sol feito uma corda esticada até o outro lado do mundo e que libera o aparecimento da irmã Lua rasgando o mar e as nuvens. Tempo a desvendar o imperturbável andar da vida.
16.6.22
5.6.22
A luz piscava sobre uma mesa velha, rodeada de cadeiras vazias e geladas pela penumbra de uma noite chuvosa. Parecia um terraço, um am...
A luz piscava sobre uma mesa velha, rodeada de cadeiras vazias e geladas pela penumbra de uma noite chuvosa. Parecia um terraço, um amontoado de espaço, com coqueiros próximos a balançar embalados pela música da ventania. Ali perto, faróis refletiam os pingos decaídos dos céus, em cíclica renovação. A previsão é que serão muitos mais, milhares, milhões, incontáveis, nas próximas horas. Meteorologicamente falando, era vermelho o alerta, realisticamente percebendo, eram perigos e poesias se aproximando.. Junto abraçava a temporada, eu abraçava junho.
5.6.22
25.5.22
As palavras têm força. Feito uma nau numa tempestade elas balançam, equilibram-se entre as vagas. Engolidas ou vomitadas, elas fazem mal; ...
As palavras têm força. Feito uma nau numa tempestade elas balançam, equilibram-se entre as vagas. Engolidas ou vomitadas, elas fazem mal; soltas aleatoriamente, sem sentido, sem efeito retornarão; ditas na dose correta, tornam-se um prato saboroso, uma iguaria que alimenta a alma e o corpo. É como o giro do disco na vitrola. A suave música embriaga, ponteia a estrada, mas não mata. A canção faz uma pausa ao término do lado, A ou B, dentro ou fora, silêncio.
25.5.22
13.5.22
Cavalos de duas rodas apressados avançam em fila indiana pelo desfiladeiro de asfalto, espremidos pelos carros e ônibus. Todos ...
Cavalos de duas rodas apressados avançam em fila indiana pelo desfiladeiro de asfalto, espremidos pelos carros e ônibus. Todos são mais devagar que a vida, não importa. Aliás, certamente muitos estão parados mesmo à velocidade de 50, 100, 150 quilômetros por hora. Presos à pressa, perdem o sentido, cegam.
Ao contrário, a criança tira proveito de cada segundo veloz que vivencia. Insistem em manter diálogos enriquecedores com os pássaros, os gatos, os cães ou com o amigo imaginário. Por enquanto, não são tragadas pela ilusão de domar o mundo, ainda não se transformaram em fezes da existência.
13.5.22
3.5.22
As calçadas engarrafadas parecem que nunca terminam em dias de meio de semana. Pernas, placas, carros, passos aglomeram-se, esbarram-se...
As calçadas engarrafadas parecem que nunca terminam em dias de meio de semana. Pernas, placas, carros, passos aglomeram-se, esbarram-se, confrontam-se, esticam-se, atraem-se e desconectam-se a todo momento. São microencontros pela cidade a perder-se sem sentidos em manhãs e tardes quentes. São desencontros à procura do que nem sabe ao certo em noites de temperatura amena.
3.5.22
19.4.22
A necessária prova do café e do vinho. Os amargores diferenes na mesma boca. Um beijo rubro, vermelho, indomável. A alternância da língua...
A necessária prova do café e do vinho. Os amargores diferenes na
mesma boca. Um beijo rubro, vermelho, indomável. A alternância da língua a
experimentar sabores, amores, odores. Daqui é possível ver tudo, talvez não
compreender um mundo, mas mundos. O copo pela metade da negritude
inebriante da alma, a taça meio cheia da embriaguez do corpo. Feito sol no
Sertão a desfalecer verdades, construir sonoridades ao pé do ouvido, erguer
brindes.
19.4.22