Canto primeiro
Habita em mim um sem número de desterrados,
meus pares eternos,
raízes que me circundam.
Resmas e resmas de histórias perdidas,
descartadas,
um cotidiano de ossos e aboios de heróis impuros.
Um ser andor e barro,
caligrafia,
relicário das almas.
Meu duplo é o ontem,
a miragem sertaneja,
o cedro-do-Líbano,
a travessia dos Oceanos e das caatingas.
Canto segundo
Coisas excepcionais aconteceram sob os olhos cansados de um relógio do tempo que não pediu para existir.
Mãos o criaram ̶ eu sei.
É que o Sol insistia em rodar, rodar e rodar...
Era um deus. Sagacidade de uma prosopopeia.
Canto terceiro
Letra miúda, essa, do tempo,
caber o risco do vento
o uivo, o eco,
toda delicadeza dos voos dispersos
e restar espaço
para tantos sonhos na inocência
de uma infância.
Canto quarto
O cerol do tempo lembrando
que a morte é a única panaceia.
Canto quinto
Surgem homens, incansavelmente,
e a discórdia começa com as iniciais dos nomes.
Canto sexto
Os homens se perderam,
eu me perdi,
sou um deus da guerra Milano,
sou um deus plácido e sua faca
o corte
e a ferrugem dos séculos.
Canto sétimo
Sabe, pai,
é triste
não saber definir a noite.
Canto oitavo
A palavra malefício poderia ser desdobrada em oficio de ser mal
ou um mal ofício, uma execução imperfeita, um ato humano.
Intencionalmente estaria aí a dualidade, o espaço da religião.
Canto nono
O amuleto,
um algo que já tentei ver através de um radioscópio,
e que só mostrou minha mão que segurava uma ilusão
envolta em séculos de tecidos negros que guardavam
uma farpa da Santa Cruz.
Canto décimo
Existiu um rosário de contas azuis e brancas,
e uma pena do pavão de padre Cícero,
e Santa Marta, ou uma outra Santa de vestes de freira,
e um oratório azul
como um túmulo de um ser puro
nascido no Seridó,
e um menino vivo
a confrontar o espelho,
essa imagem maldita que pensa saber todas as respostas.
Canto décimo primeiro
Existe uma hierarquia para as perdas.
A minha primeira foi a mãe do Bambi.
E minha mãe nem sabia que eu já sabia da morte
quando segurei suas pernas na janela do nono andar.
Canto décimo segundo
Guardei meus pés
e minhas pausas.
Canto décimo terceiro
Esse olhar de ódio é um teatro do absurdo
de um homem além do discurso
de querer-se sóbrio diante do naufrágio.
Canto décimo quarto
Nascemos e partimos para o esquecimento.
Canto décimo quinto
A espiral dos cromossomos se quebra.
É o pó das urnas mortuárias
e a carga nos ombros dos filhos.
Canto décimo sexto
A colcha de retalhos é o nosso destino,
memórias, augúrios e peripécias.
Isso é a vida.
E a responsabilidade dando sentido
ao ser torto no redemoinho.
Canto décimo sétimo - Epílogo
Estenda sobre seu caminho de passos
suas descobertas,
e parte levando o que seja,
leva ao menos um desejo de tarde
e o sentimento tátil da bruma
ao te despertar de um sonho.