Mostrando postagens com marcador José Leite Guerra. Mostrar todas as postagens

Na ladeira de São Francisco se postava um homem fardado. Chegava, ao moribundo sol. As casinholas agarradas, dependendo da luz da usina d...

literatura paraibana jose leite guerra guarda noturno cronica
Na ladeira de São Francisco se postava um homem fardado. Chegava, ao moribundo sol. As casinholas agarradas, dependendo da luz da usina de energia elétrica da Ilha do Bispo, eram fechadas cedo da noite. A luz expelida pela central da Ilha do Bispo era fraca: a claridade pouco mais do que a de candeeiro. Havia moradores que socorriam a queda da iluminação elétrica por lamparinas sobre as mesas ou penduradas nas paredes.

Dentro desta tecnocracia que atravessamos, predomina uma espécie de desnível entre o humano e a máquina. Simples: basta ir ao caixa eletrô...

literatura paraibana robotizacao vida mecanica modernidade
Dentro desta tecnocracia que atravessamos, predomina uma espécie de desnível entre o humano e a máquina. Simples: basta ir ao caixa eletrônico de um estabelecimento bancário para constatar: há pessoas tão despreparadas que não sabem usá-lo.

Encontrou, na saída do cinema, uma carteirinha feminina. Lembrou-se de haver namorado, em fantasia, Romy (a Sissi). Quem seria a dona? Q...

literatura paraibana cronica conto jose leite guerra
Encontrou, na saída do cinema, uma carteirinha feminina. Lembrou-se de haver namorado, em fantasia, Romy (a Sissi). Quem seria a dona? Que faria? Procurou número de celular, em vão. Remexeu cada documento, minucioso em sua busca, pensou em jogar fora a carteirinha, mas desistiu. Afinal de contas, se tratava de algo nada vulgar: foi à lotérica, pensando encontrar alguém que lhe desse alguma pista, todas as alternativas seriam válidas. No mínimo, reencontrar Romy (um sonho), mesmo sabendo que a carteira não era pertença da atriz bela e charmosa. Desguarnecida de qualquer moeda, lisa, a carteira incomodava.

Era onde ele espatifava o minguado dinheiro recebido como escrevente de repartição pública estadual. Andava na ginga. Paletó lascado atrás...

literatura paraibana conto ficcao jogatina vicio bonvivant fumante jose leite guerra
Era onde ele espatifava o minguado dinheiro recebido como escrevente de repartição pública estadual. Andava na ginga. Paletó lascado atrás, relógio de marca maior, anel de bacharel em Direito reluzindo no dedo. Pouco ajudava em casa, a feira era feita com a pensão deixada pelo pai quase analfabeto, comerciante de miudezas, e algumas outras despesas imprevistas pelo cansaço dos pés da mãe dele a costurar num overloque. Os outros irmãos viviam de biscates que mal davam para uma sessão de cinema ou um sorvete com as namoradas.

Mais de nove décadas, se levantava cedo e ia cortejar o pomar. Eram fruteiras sadias e variadas entrelaçando galhos no quintal. Havia diál...

literatura paraibana jose leite guerra cronica saudosista
Mais de nove décadas, se levantava cedo e ia cortejar o pomar. Eram fruteiras sadias e variadas entrelaçando galhos no quintal. Havia diálogo, carícia, lamentação por um ramo menos viçoso. Apanhava frutas maduras quais tesouros.

bem que cravo branco trouxe antiga lapela cravada no bolso raso do paletó bem cortado no alfaiate do ano lá se foi de bibi...

litaratura paraibana jose leite guerra poema poesia
bem que cravo branco trouxe antiga lapela cravada no bolso raso do paletó bem cortado no alfaiate do ano lá se foi de bibicleta volteando pela calçada o homem nela montado exibindo a elegância do corte da roupa nova descendo a rua apinhada

Veio e se sentou no banco do calçadão. Emplumado em cetins e lantejoulas, os sapatos bicudos, a cara mastigada pela idade avançada. Retir...

literatura paraibana palhaco geleia de rua nostalgia
Veio e se sentou no banco do calçadão. Emplumado em cetins e lantejoulas, os sapatos bicudos, a cara mastigada pela idade avançada. Retirou da maleta uma peruca colorida em vermelho e azul. Deu uma gargalhada e cantou um estribilho fácil de cançoneta perdida no picadeiro de finado circo. Geléia se apresentou a um público distanciado.

A insônia é ladra impune. O sono é levado e o lesado fica ridiculamente rolando na cama, espichando os olhos para o céu, escutando o ronc...

literatura paraibana insonia maracuja noite em claro
A insônia é ladra impune. O sono é levado e o lesado fica ridiculamente rolando na cama, espichando os olhos para o céu, escutando o ronco das motos e carros, pensando. Ou se debate ou abre um livro para ler, se é que não escolhe algum filme da sessão coruja. Não sabe o insone que ele ou ela o é.
>

Sob a marquise, espalhados em trajes maltratados, o homem, a mulher e os filhos. Um pano estirado sobre a calçada. Havia respingos a chora...

literatura paraibana morador de rua pobreza
Sob a marquise, espalhados em trajes maltratados, o homem, a mulher e os filhos. Um pano estirado sobre a calçada. Havia respingos a chorar a diminuição do temporal que se abatera sobre a cidade. Comeram um pão dividido entre todos, canecas de alumínio de café frio. As crianças sujas, chorando de fome, não se satisfizeram com o desjejum.

Não tive coragem de me aproximar, mas o dono da pequena loja protegida pela aba da marquise me contou que os deixara ali porque os outros comerciantes os rejeitaram. Muitos protestavam pela falta de higiene, pelas mãos estendidas a pedirem um adjutório a fim de comprarem comida. O dono de um restaurante de beco os servia o almoço (restos de refeições deixadas pelos fregueses).

Fui apenas observador do quadro da miséria real. Eram pessoas humanas, cujas feições externas e internas revelavam uma tristeza, um sinal causticante de escanteados da sociedade, num jogo desolador entre os que possuíam demais e eles que nada possuíam.

No estabelecimento comercial do proprietário que lhes prodigalizara o abrigo sob a marquise pendiam ofertas palpitantes; desde vestuários a bijuterias; um cartaz chamativo na vitrine: o Dia das Mães seria no próximo domingo.

Durante o dia, os ocupantes do território apanhavam os trapos e saíam, a fim de deixar o campo livre para transeuntes e fregueses. Divagavam pelos recantos da cidade, almoçavam os sobejos, perambulavam entre a multidão indiferente. “Domingo é o Dia das Mães” – comentou o pai. Ficou sem eco. A mulher (mãe dos dois pirralhos) perdera, quem sabe, a sensibilidade ou o sentido da data. Sabia que a patroa, quando trabalhava como doméstica, ganhava um mundo de presentes dos filhos ricos. Porém, passado algum tempo, fugira com o atual marido, hoje desempregado; recebera alguns presentes dos filhos, enquanto ele podia. Coisas minúsculas. Mas, com o desemprego, na atual vida que carregavam como fardo, pouco significava a data dedicada às mães.

No segundo domingo de maio, o comércio fechado, dormiram até mais tarde. Ao acordar, deu por falta do marido. Levantou-se rápida, acordou as crianças. (Soube eu, pelo dono da loja, que ele estava preso. Um ladrão: furtara pequena bijuteria. Uma pulseira ordinária para que os filhos dessem à mulher no Dia das Mães). Triste relato para uma festa tão bonita. Ela invocou a Mãe dos Pobres com o braço magro e sem enfeite. Não era o que queria relatar.

Implicavam que a moradia era mal-assombrada. Fora de um espertalhão. Uns molecotes da rua resolveram pular uma das janelas semiabertas e d...

literatura paraibana conto assombracao agiota fantasma
Implicavam que a moradia era mal-assombrada. Fora de um espertalhão. Uns molecotes da rua resolveram pular uma das janelas semiabertas e de lá saíram aos berros, falando sobre um cachorro preto e um careca. O agiota era mesmo parco de cabelos. Tanto que, quando desejava negar o empréstimo, sacrificava os ralos fios, alisando-os, e rosnando, quase a ladrar, antes de enxotar o pedinte do empréstimo.

No período quaresmal, os preceitos da Igreja rigorosamente obedecidos. Quarta-feira de cinzas, recebíamos traços da cruz na testa: “Lembra...

literatura paraibana quaresma infancia cronica jose leite guerra
No período quaresmal, os preceitos da Igreja rigorosamente obedecidos. Quarta-feira de cinzas, recebíamos traços da cruz na testa: “Lembra-te de que és pó, e em pó te haverás de tornar”. Alguns, ainda bêbados, entravam no templo, faziam persignações inconscientes.

Dentre os andarilhos das ruas centrais, mais precisamente na Miguel Couto, distingui Gerilo. Nome esquisito. Orientado por uma mulher, t...

literatura paraibana jose leilte guerra personagem de rua gerilo
Dentre os andarilhos das ruas centrais, mais precisamente na Miguel Couto, distingui Gerilo. Nome esquisito. Orientado por uma mulher, talvez esposa. Próximo a mim, quem me iniciara no catecismo. Soubera, há tempo, que ele havia pendurado a batina de cor preta.

Havia, tempos passados, um rapaz que saía anotando num caderno as placas dos carros estacionados nas ruas. Consideravam-no um maníaco. Ma...

literatura paraibana jose leite guerra multa transito mania loucura
Havia, tempos passados, um rapaz que saía anotando num caderno as placas dos carros estacionados nas ruas. Consideravam-no um maníaco. Mal trajado, lápis na mão, não falava com ninguém. Robotizado pelo seu comportamento esdrúxulo.

O bom humor do amado mestre amenizava a disciplina ensinada. Direito Comercial, árido, enfadonho, pelo menos para mim, recebia uma ducha de...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana jose leite guerra correio das artes amizade recordacoes professor
O bom humor do amado mestre amenizava a disciplina ensinada. Direito Comercial, árido, enfadonho, pelo menos para mim, recebia uma ducha de verdor, quando o professor mesclava a matéria exposta com sutil anedota. Um passarinho, quase que declamava poemas, enquanto trocava sorrisos com o alunado.

O assoalho tingido de marcas de solados. Sujo. Crianças brincavam de ossinho, sacudindo aos ares carretéis desnudos cortados ao meio, apan...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana saudosismo lembranca infancia domestica lar doce lar
O assoalho tingido de marcas de solados. Sujo. Crianças brincavam de ossinho, sacudindo aos ares carretéis desnudos cortados ao meio, apanhando-os no ar. As mãozinhas enegrecidas pela poeira. Ninguém ligava para doenças, nem higiene. O dono da casa, que tinha mobilidade reduzida, pedia que parassem com o jogo: em vez de estarem ajudando as mães na cozinha, lavando pratos, cuidando em aprenderem a ser futuras mães e esposas! As meninas continuavam a divertir-se, as lições por estudar, os deveres da escola por fazer, a prova de português, amanhã, e elas nem aí.

Paulo Brasil sentado no degrau do templo dedicado a Nossa Senhora do Montserrat, que muitos confundem com Igreja de São Bento. Colado à h...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana jose leite guerra paulo brasil saudosismo personagem centro historico joao pessoa
Paulo Brasil sentado no degrau do templo dedicado a Nossa Senhora do Montserrat, que muitos confundem com Igreja de São Bento. Colado à histórica casa de orações é que moravam os beneditinos. Aqui, chamada Casa do Calvário, depois Central de Cursos da Arquidiocese.

O Ano Novo estava para chegar. O rebuliço tomando a casa: a mesa se enfeitando de comidas variadas. Luz faiscando por toda a parte, cumpr...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana jose leite guerra ano novo reveillon passagem virada ano saudosismo
O Ano Novo estava para chegar. O rebuliço tomando a casa: a mesa se enfeitando de comidas variadas. Luz faiscando por toda a parte, cumprimentos e beijos. Abraços de quem não se encontrava há tempo. O relógio de parede no tic tac fastidioso, antigo, o mostrador em algarismos romanos.

Tocou o celular. Do outro lado uma vozinha afinada me falou, cortesmente. Uma das insinuações das empresas telefônicas, procurando convenc...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana jose leite guerra ligacao telefonica marketing telemarketing
Tocou o celular. Do outro lado uma vozinha afinada me falou, cortesmente. Uma das insinuações das empresas telefônicas, procurando convencer-me a aderir às vantagens da operadora. Disse não, procurei argumentar, num papo por demais desagradável. Não percebi a encruzilhada, a caverna em que me havia metido. A resposta dada pelo aparelho não batia com a pergunta feita por mim à atendente. Havia um desencontro. O zumbido da interlocutora me puxava a espaços nunca dantes explorados. Quis ficar mais tempo, naquela conversa para ver até onde chegaríamos. Mostrei-me desinteressado com a proposta.

Jojoba tinha uma carreta velha. O que lhe encomendassem levar, estava pronto. Nasceu entre o condutor e a conduzido tamanha interação e ami...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana jose leite guerra saudosismo motorista caminhao carreta carona jojoba
Jojoba tinha uma carreta velha. O que lhe encomendassem levar, estava pronto. Nasceu entre o condutor e a conduzido tamanha interação e amizade que dialogavam. Os parceiros de quilometragem, motoristas como ele, galhofavam: achavam que a carreta estava para lá de fuçada. Tinha freguesia certa de pequenos ou médios comerciantes. O que ganhava dava, no limite, para sustentar a pequena família, pagar as obrigações carimbadas nos boletos; no banco conservava pequena conta corrente e, para não mentir, um cartãozinho de crédito limitado, de baixo espaço para gastos

A cena já se tornara tão trivial que ninguém a olhava. Nem circunstantes transeuntes rumo à parada de ônibus, nem os diuturnos caminhantes...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana jose leite guerra mendigo morador de rua exodo rural vitima enchente
A cena já se tornara tão trivial que ninguém a olhava. Nem circunstantes transeuntes rumo à parada de ônibus, nem os diuturnos caminhantes concentrados, a caminho. Eu mesmo, em vezes que passei próximo, não notei. Ninguém comece a pensar em algo como uma planta frondosa, um cachorro flocado, alguma família de florido canteiro. Não. Sob a sombra do ninho de algumas árvores, se instalou. Mais um. Um a mais.