Sou do tempo do Ponto de Cem Réis que antecedeu o Viaduto Damásio Franca, obra que à época pretendeu modernizar urbanisticamente o centro de uma cidade que ainda não tinha se voltado de vez para as praias. Do tempo do Ponto de Cem Réis do prefeito Oswaldo Pessoa, avô de minha amiga Nevita, com os dois pavilhões em forma de rim, carros de praça (todos pretos, se não me engano) e engraxates de plantão. O Ponto de Cem Réis que Gonzaga Rodrigues descreveu com saudades em seu maravilhoso Café Alvear, lugar fervilhante onde a urbe se encontrava diariamente para comentar a aldeia, o Brasil e o mundo, e eventualmente ver passar os grandes de então.
Do jeito que era estava bom, atendia perfeitamente às suas finalidades urbanas. Mas veio Damásio e achou que já era tempo de um choque de modernidade e, com o talento do arquiteto Mário de Lascio, reformou toda a área para implantar o espaço depois chamado de Viaduto, obra imensa – e bonita, diga-se - que se imaginou destinada a durar décadas. Entretanto, apenas poucos anos depois, fecharam a alça do viaduto que permitia o acesso de carros à Duque de Caxias, mutilando-se ostensivamente o projeto arquitetônico original e sufocando o comércio da artéria então transformada em Calçadão. Um desastre, em todos os sentidos. Veio outro alcaide que resolveu aplainar com concreto toda a grande praça Vidal de Negreiros, transformando-a, sem fontes e sem árvores, num vasto e asfixiante deserto, aos poucos ocupado por ambulantes e desocupados, exatamente o contrário do que se esperava para o lugar, agora definitivamente privado da vida anterior, desolada paisagem citadina, atestado da morte progressiva do centro da capital. E eis, por fim (por enquanto), que o prefeito Cícero Lucena também decidiu mexer mais uma vez no velho espaço. Trabalharam lá por quase dois anos, sob a expectativa curiosa dos pessoenses, que se perguntavam sobre o destino do mítico lugar. Inaugurada a obra há poucos dias, fui lá conferir as novidades, com o otimismo dos homens de boa fé.
O lajotão de concreto continua o mesmo, pouco atraente sob o sol rigoroso destes trópicos que exigem a sombra das árvores generosas como contraponto necessário à convivência humana. Mas agora existem bancos e até mesmo algumas árvores jovens, que ainda não dão sombra e cuja sobrevivência é duvidosa naquela vasta aridez. Ou seja, há esperança. Esperança de que o lugar seja aos poucos devolvido à confraternização cidadã dos anônimos e, quem sabe, até dos que não sejam tão anônimos assim. Porque, afinal, a praça é do povo. Em todo lugar. E se o povo não comparece, ela perde o sentido, a razão de ser.
Há também uma iluminação nova, apoiada em postes que se harmonizam esteticamente com a arquitetura do entorno. À noite, imagino que deve ficar bonito. E alguns pequenos canteiros gramados. A estátua de Livardo Alves voltou ao seu lugar e o busto de Vidal de Negreiros permaneceu onde estava anteriormente. Mas... e o povo?
Pouco povo na praça reformada. Talvez por conta do calor intenso, o que recomendaria que as árvores plantadas no local devessem já estar crescidas, ofertando um mínimo de sombra às pessoas. As que estão lá, se não morrerem, levarão anos para se tornarem acolhedoras. Será que o setor competente da prefeitura não viu isso?
Os prédios ao redor são problemáticos, pois vários deles estão fechados, dilapidados, alguns em ruína. Dificilmente a iniciativa privada terá interesse em recuperá-los e ocupá-los. O que resta então como solução? Só vejo uma: a prefeitura e o governo estadual desapropriarem os imóveis, restaurá-los e neles instalarem repartições públicas adequadas ao espaço e à população frequentadora do mesmo.
Claramente, para quem observa a praça com vagar, fazem falta o Café Alvear, o Café São Braz, a Padaria Fluminense e tantos outros estabelecimentos que outrora contribuíram para a vida comercial e comunitária do Ponto de Cem Réis e adjacências. Ouso pensar que o restabelecimento do trânsito no Calçadão da Duque de Caxias devolveria muito movimento a toda aquela área. Em alguns casos, como esse, os carros são a solução e não o problema. É preciso entender isso.
Também senti falta de uma fonte – ou de várias. As fontes, desde Roma, refrescam e embelezam as cidades. Por que os nossos prefeitos não se dão conta? É um mistério. E custam tão pouco. Nas regiões mais quentes do Brasil as fontes deveriam fazer parte da paisagem, obrigatoriamente. Mário de Lascio não as esqueceu quando projetou o Viaduto, fiel às suas origens italianas. A fonte que há no meio da Lagoa vive desligada, quando poderia ofertar aos passantes um belo espetáculo visual. Vá entender.
De qualquer modo, com as ressalvas acima, aprovei o que vi. Considero um ponto de partida. E espero a continuidade de ações da prefeitura, a fim de que a cidade recupere, assim como recuperou a Lagoa, através da clarividência do prefeito Luciano Cartaxo, um espaço histórico que tem a sua cara multissecular – e do qual não pode abrir mão.






