Uma história inspirada nos ensinamentos do Mahabharata conta que um sábio pediu a dois príncipes que saíssem pelo reino com missões opostas.
Ao primeiro, conhecido por sua retidão, disse:
— Vá e traga-me um homem verdadeiramente mau.
Ao segundo, conhecido por sua dureza e desconfiança, pediu:
— Vá e traga-me um homem verdadeiramente bom.
Ambos partiram.
O primeiro percorreu vilas, cidades, campos… e voltou de mãos vazias.
— Não encontrei ninguém totalmente mau. Em todos vi alguma virtude, ainda que pequena — disse ele.
O segundo fez o mesmo caminho e também voltou sozinho.
— Não encontrei nenhuma pessoa verdadeiramente boa. Em todas vi falhas, ainda que escondidas — arrematou.
O sábio então concluiu, sem surpresa: cada um encontrou no mundo aquilo que já carregava dentro de si.
Quando alguém descreve fatos verificáveis, fala do mundo; mas, quando interpreta, julga ou opina, fala mais de si do que daquilo que está interpretando.
Um indivíduo com uma disposição interior negativa tende a interpretar acontecimentos, pessoas e situações de forma igualmente negativa.
Da mesma maneira, alguém com uma disposição mais leve, equilibrada e positiva se inclina a perceber e interpretar o mundo ao seu redor de forma mais construtiva.
A forma como vemos o mundo é, em grande medida, influenciada pelo que cultivamos dentro de nós.
Quando julgamos ou opinamos, deixamos de ser apenas observadores e passamos a ser reveladores de nós mesmos. A realidade continua ali, mas ela é filtrada por nossas experiências, por nossas dores, por nossas crenças e até por aquilo que ainda não conseguimos resolver dentro de nós.
Duas pessoas podem passar pela mesma experiência, presenciar o mesmo acontecimento e sair com conclusões completamente diferentes, não porque o fato mudou, mas porque o olhar de cada uma carrega nuances distintas, impressas pelo caráter.
O mundo que cada um descreve já não é apenas o mundo em si, mas um reflexo do seu próprio espírito.
A realidade objetiva existe e deve ser reconhecida com lucidez, mas a forma como reagimos a ela denuncia muito mais de nós mesmos do que da “realidade”.
A revolta diante de uma dificuldade, o julgamento severo diante do erro alheio, a tendência de enxergar maldade em tudo ou, ao contrário, a capacidade de compreender, perdoar e buscar o bem — tudo isso traduz muito mais sobre quem observa do que sobre aquilo que é observado.
Isso não significa que a verdade seja relativa ou que tudo possa ser reduzido à subjetividade.
Existe o certo e o errado, existe o justo e o injusto, e ignorar isso seria uma forma de fuga. Não se trata de negar a realidade, mas de reconhecer que a maneira como nos posicionamos diante dela pode nos melhorar ou nos aprisionar.
É possível estar certo sobre os fatos e, ainda assim, agir de forma equivocada no campo moral, assim como é possível enfrentar situações difíceis com um olhar que constrói, em vez de destruir.
Em vez de apenas analisar o que está acontecendo fora, somos sempre convidados a examinar como estamos reagindo ao que acontece.
Cada opinião que emitimos, cada julgamento que fazemos, cada interpretação que defendemos carrega um retrato do nosso interior. E é justamente aí que reside a oportunidade de crescimento, porque, ao perceber isso, deixamos de usar o mundo apenas como objeto de crítica e passamos a utilizá-lo como espelho do que sentimos, pensamos e somos.
A realidade continua sendo o que é, mas o modo como a vemos pode transformar completamente a nossa experiência de vida.
Educar o olhar, nesse contexto, não é negar os fatos, mas aprender a atravessá-los com mais consciência, menos impulsividade e mais responsabilidade sobre aquilo que projetamos.
Não é o mundo que fala por nós; somos nós que falamos através do mundo.
A escolha de ampliar a luz ou a sombra é de cada um.






