Amar é retirar excessos. Desobstruir a passagem de tudo que impede nosso crescimento. É preencher vazios, embora não por completo. Amar também é limitar. Não é tolher, delimitar fronteiras, meramente. É pôr foco. É contemplar – fazer do nosso olhar um descanso. O amor deve se dispor de si para ser ao outro.
Arte: Henri Matisse, 1906 ▪ Museu Brooklyn, NY
Tenho muito talvez. O talvez é o silêncio. Maturação. Viver é pagar o resgate de nós mesmos todos os dias. Quando não, a volta poderá ser irreversível; o cuidado diário. O que é “nosso” precisa ser comprado. É como pagar imposto para manter o que, aparentemente, conquistamos. É tão fácil soltarmos as mãos tanto quanto nos darmos.
Como não perder a liga diante de tantos caminhos? Hei de ser plural nesse mundo plural. Ser singular é fácil. E, embora pareça harmonioso ser múltiplo, é na versatilidade que somos mais sufocados. Risco iminente de descosturarmos a fazenda que necessitou de anos para ser feita. Idealizações. Violências gentis.
Arte: Henri Matisse, 1902 ▪ Museu Thyssen-Bornemisza, Madri
O amor é feito de acabamentos, molduras; nunca de conclusões. O que nos interessa é a pintura. Entretanto, pode uma imagem ser bonita se no seu entorno estiver o feio? Contrários e contrariedades são conceitos distintos diante da poesia. No contrário, há uma harmonia, um não anula o outro. Nas contrariedades,
Arte: Henri Matisse, 1902 ▪ Museu Picasso, Moscou
Que não nos seja dado um amor satisfeito. “O amor sobrevive de desejos”. Deixar espaço para a novidade, embora, quase sempre, a expectativa seja parte melhor que a concretização dos fatos. Todas as relações têm um campo minado. Todas têm o seu mistério. Não se trata de segredos, mas de uma impossibilidade de saber da totalidade da qual somos constituídos. Não devemos cair na ousadia de dizer que sabemos tudo de nós mesmos, porque estamos sendo feitos.
Desejo não é prazer. O prazer cessa na satisfação. O desejo é uma mola propulsora, nos impulsiona e nos faz crer que o território da nossa humanidade ainda tem muito a ser explorado. Amadurecendo, nós deixamos de ser vitimados, fortalecemos nosso cristal, partimos para a fortaleza. O que sobrará depois da retirada do excesso? Desejo ou vontade de desfecho?








