Desde cedo, nos meus vinte e tantos anos, quando me separei pela primeira vez, vi-me diante dessa pergunta crucial na vida de qualquer ...

O que desejamos?

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Desde cedo, nos meus vinte e tantos anos, quando me separei pela primeira vez, vi-me diante dessa pergunta crucial na vida de qualquer pessoa, mais precisamente na vida das mulheres. Somos criadas para seguir o desejo do outro: o pai, o marido, a sociedade.

Quando me vi sozinha, tão jovem e despreparada, fui visitar um amigo e ele, vendo-me em lágrimas e com a face do desamparo, perguntou: “O que desejas, Ana?”. Foi como um tiro de canhão no meu peito.
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Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Eu não tinha resposta. Ainda mais naquela época. Eu queria tantas coisas. E não tinha pernas nem convicção para nada. Queria o mundo. Queria ser solteira. Casada. Ter filhos. Melhor não tê-los! Queria trabalhar, viver o sexo, descobrir a mim mesma. Não sabia quem eu era, menos ainda o que queria. E estava machucada. Muito.

Foi preciso muita terapia. Muita ladeira abaixo. E acima. E tempo. Muitas noites e dias para descobrir um pouco. Mas segui vivendo a intuição, as oportunidades e a própria vida. Com escorregões quase dilacerantes, mas fui. Nos abismos todos e na imaginação, como diz a música Nina, de Chico Buarque: “Sempre que esta valsa toca, fecho os olhos, bebo alguma vodka e vou...”.

Quando ouço artistas, atrizes, cientistas e tanta gente lúcida e bem-sucedida falar do que sempre quis desde criança, ou do momento em que teve acesso a algo especial que deu o clique para aquilo que queria ser, sinto inveja. Invejo quem soube o que queria fazer profissionalmente nesta vida. E pessoalmente também.

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Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Outro dia, num encontro com amigas de infância, a pergunta surgiu em resposta a uma amiga que comentava sobre a infância, as agruras da rua, os problemas domésticos, pai e mãe, encontros e desencontros e as feridas de cada uma. Novamente nos perguntamos o que queríamos, e algumas se assustaram quando falei que, até hoje, não sei o que me moveu — ou move — na vida profissional. E sou aposentada. Trabalhadora e aposentada.

Logo gritaram: “Mas você é escritora!”. Mas só eu sei do que falo. Escrever, para mim, é uma alegria, um hobby, mas não vivo disso. Não faço disso o meu ofício.

Fui ser professora por ter escolhido a área de Letras. Primeiro na Cultura Inglesa, depois por meio de concursos e da universidade. Não sem antes passar pelo Banco Paraibano e pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado. Tudo por concurso. A vida foi caminhando, e fui me entregando às oportunidades. Queria sempre ter o meu sustento e independência. Minha mãe sempre dizia: “Estude, menina; trabalhe, menina. Depois vem o casamento”.

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Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Mas, ainda na minha geração, o casamento e a maternidade faziam parte da pauta. Embora, nas minhas fantasias, eu me visse estudante alhures, descobrindo países e namorando meninos bonitos de outros cantos. Também. Não custava sonhar.

A realidade me levou à sala de aula, onde me aventurei nesse palco das trocas e me capacitei para compartilhar conhecimento de língua e literatura inglesa. Durante 25 anos, a literatura me trouxe aprendizado, reconhecimento e completude. Mas nunca deixei de me sentir inadequada, pois, lá dentro de mim, custava acreditar que ali era o meu lugar.

Hoje, viúva, mãe de dois filhos e avó de uma neta, aposentada e escritora nas horas vagas, tenho um vislumbre do que poderia ter me movido profissionalmente. Tenho alma de jornalista. Descobri isso caminhando pelos parágrafos. E pelos eventos. Sou uma repórter da cultura e de tudo o que cabe nesse guarda-chuva.

Invejo os antigos Cadernos Dois. Passei a vida visitando bancas de revistas, lendo jornais, quadrinhos, e até hoje sou viciada em podcasts
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Ana Adelaide Peixoto (Lisboa, 2026) ▪️ Acervo pessoal
sobre comportamento. Psicanálise, literatura, viagens, entrevistas, crônicas, fotografia, feiras livres, comidas das mais diversas, parar nas esquinas, sentar num boteco, conversar.

Uma das amigas comentou, num dos meus posts, que eu tinha alma de repórter. E acertou. Amo consumir reportagens. E tagarelar sobre notícias. Mas tudo isso vamos descobrindo ao longo da vida.

A vida passa, e a gente se acostuma, como diz o poema de Marina Colasanti: “Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia”. Gracias a la vida que eu não me acostumei tanto e nem fiquei parada vendo a banda passar. Fui caminhando. E o melhor da viagem é, sim, o caminho.

Sempre gostei de programas de TV voltados para comportamento e entrevistas. Admiro muito os jovens que ocupam espaços nas mídias sociais com seriedade e boas discussões, inclusive sobre política. Fazer parte desse universo, ler articulistas, historiadoras e psicanalistas como Mariliz Pereira Jorge, Débora Diniz, Vera Iaconelli, Lilia Schwarcz, Ruth de Aquino, Gregório Duvivier e tantos outros seria um lugar onde eu gostaria de fazer um estágio. Acho que daria uma boa trainee. E aí, quem sabe, eu poderia responder a mim mesma: o que eu desejo?

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Mariliz Pereira Jorge, jornalista, roteirista e colunista brasileira, escreve sobre política, atualidades, comportamento e feminismo, destacando-se por suas análises críticas no jornal Folha de S.Paulo e no Canal Meio ▪️ Instagram: @marilizpj
Quem sabe...

Enquanto isso, desejo saúde e alegria para tocar o meu barco, com o passado latente atravessando o presente, com boas e más lembranças do que fui e do que poderia ter sido na profissão. E nos meus desejos.

Feliz São João!

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