Desde cedo, nos meus vinte e tantos anos, quando me separei pela primeira vez, vi-me diante dessa pergunta crucial na vida de qualquer pessoa, mais precisamente na vida das mulheres. Somos criadas para seguir o desejo do outro: o pai, o marido, a sociedade.
Quando me vi sozinha, tão jovem e despreparada, fui visitar um amigo e ele, vendo-me em lágrimas e com a face do desamparo, perguntou: “O que desejas, Ana?”. Foi como um tiro de canhão no meu peito.
Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Foi preciso muita terapia. Muita ladeira abaixo. E acima. E tempo. Muitas noites e dias para descobrir um pouco. Mas segui vivendo a intuição, as oportunidades e a própria vida. Com escorregões quase dilacerantes, mas fui. Nos abismos todos e na imaginação, como diz a música Nina, de Chico Buarque: “Sempre que esta valsa toca, fecho os olhos, bebo alguma vodka e vou...”.
Quando ouço artistas, atrizes, cientistas e tanta gente lúcida e bem-sucedida falar do que sempre quis desde criança, ou do momento em que teve acesso a algo especial que deu o clique para aquilo que queria ser, sinto inveja. Invejo quem soube o que queria fazer profissionalmente nesta vida. E pessoalmente também.
Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
Logo gritaram: “Mas você é escritora!”. Mas só eu sei do que falo. Escrever, para mim, é uma alegria, um hobby, mas não vivo disso. Não faço disso o meu ofício.
Fui ser professora por ter escolhido a área de Letras. Primeiro na Cultura Inglesa, depois por meio de concursos e da universidade. Não sem antes passar pelo Banco Paraibano e pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado. Tudo por concurso. A vida foi caminhando, e fui me entregando às oportunidades. Queria sempre ter o meu sustento e independência. Minha mãe sempre dizia: “Estude, menina; trabalhe, menina. Depois vem o casamento”.
Ana Adelaide Peixoto ▪️ Acervo pessoal
A realidade me levou à sala de aula, onde me aventurei nesse palco das trocas e me capacitei para compartilhar conhecimento de língua e literatura inglesa. Durante 25 anos, a literatura me trouxe aprendizado, reconhecimento e completude. Mas nunca deixei de me sentir inadequada, pois, lá dentro de mim, custava acreditar que ali era o meu lugar.
Hoje, viúva, mãe de dois filhos e avó de uma neta, aposentada e escritora nas horas vagas, tenho um vislumbre do que poderia ter me movido profissionalmente. Tenho alma de jornalista. Descobri isso caminhando pelos parágrafos. E pelos eventos. Sou uma repórter da cultura e de tudo o que cabe nesse guarda-chuva.
Invejo os antigos Cadernos Dois. Passei a vida visitando bancas de revistas, lendo jornais, quadrinhos, e até hoje sou viciada em podcasts
Ana Adelaide Peixoto (Lisboa, 2026) ▪️ Acervo pessoal
Uma das amigas comentou, num dos meus posts, que eu tinha alma de repórter. E acertou. Amo consumir reportagens. E tagarelar sobre notícias. Mas tudo isso vamos descobrindo ao longo da vida.
A vida passa, e a gente se acostuma, como diz o poema de Marina Colasanti: “Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia”. Gracias a la vida que eu não me acostumei tanto e nem fiquei parada vendo a banda passar. Fui caminhando. E o melhor da viagem é, sim, o caminho.
Sempre gostei de programas de TV voltados para comportamento e entrevistas. Admiro muito os jovens que ocupam espaços nas mídias sociais com seriedade e boas discussões, inclusive sobre política. Fazer parte desse universo, ler articulistas, historiadoras e psicanalistas como Mariliz Pereira Jorge, Débora Diniz, Vera Iaconelli, Lilia Schwarcz, Ruth de Aquino, Gregório Duvivier e tantos outros seria um lugar onde eu gostaria de fazer um estágio. Acho que daria uma boa trainee. E aí, quem sabe, eu poderia responder a mim mesma: o que eu desejo?
Mariliz Pereira Jorge, jornalista, roteirista e colunista brasileira, escreve sobre política, atualidades, comportamento e feminismo, destacando-se por suas análises críticas no jornal Folha de S.Paulo e no Canal Meio ▪️ Instagram: @marilizpj
Enquanto isso, desejo saúde e alegria para tocar o meu barco, com o passado latente atravessando o presente, com boas e más lembranças do que fui e do que poderia ter sido na profissão. E nos meus desejos.
Feliz São João!










