É padecer no paraíso! Só um homem pode ter inventado uma definição dessas, a exaltar-nos a esse lugar impossível de se chegar e minimizar a dor de ser mãe com a promessa desse lugar divino.
“Los viajes son como pequenas vidas”
Stanislaw Ignacy Witkiewicz
(escritor, fotógrafo e filósofo)
Quando viajo, sofro da síndrome pré-viagem. Tenho angústias e ansiedades e me pergunto: pra que fui inventar isso? Quando volto, sofro de banzo. Tenho saudades dos lugares e levo alguns dias feito um zumbi, aterrizando lentamente. Vá entender! Mas é sempre um sofrimento. Custa-me. E, no meio, a explosão de felicidade e realização.
Ai, que saudade me dá dos tempos em que fazia mala sem planejamento. Levava um monte de coisas desnecessárias, carregava dois, três volumes, e a nécessaire dos remédios só tinha Melhoral e Vick Vaporub. Mentira! Era uma aventura inglória carregar tanto peso e sair deixando as malas nos guarda-volumes dos aeroportos mundo afora.
Por esses dias, fiz cirurgia de catarata. Um olho a ver navios. No pós-cirúrgico, na salinha com outros “piratas” de um olho só, o assunto era comida. Homens a falar de buchada e bode, e do que iriam comer depois do cristalino em forma. E eu, que não como nada disso, só falava no meu purêzinho de batatas inocente. Colírios a toda hora! Depois, tive outras mazelas, o que me fez perder os lançamentos do amigo Petrônio Souto e as novas publicações da União: Paraíba na Literatura VII; Memórias A União (Volume 2); Revista Vivências Femininas (3ª edição) e projetos da editora. Também recusei convite de André Aguiar e os lançamentos da editora Dromedrário. Reclusa e quieta estava. Agora, só a ver o nascer do sol da minha varanda e contemplar a lua cheia. Agradecer!
Aqui, lendo esse cronista/poeta/psicólogo/terapeuta/cantor, exímio nas trilhas sonoras dos seus textos e da sua vida, movido às coisas belas, ditas e não ditas, e tantas outras coisas, o seu texto “When I’m Sixty-Four”, n'A União de 27 de março, fiquei parodiando a minha própria música, ou trilha.
Começou em fevereiro o Clube de Leitura e Escrita: Fale mal, mas fale de você, da cronista e podcaster Tati Bernardi; inscrevi-me porque gosto da Tati, ouço os seus muitos Podcasts, assim como ela, gosto de psicanálise (ignorante sou), e vi nesses encontros,
As mulheres têm que estar nuas para poderem estar num museu? Menos de 5% dos artistas na seção de arte moderna são mulheres; no entanto, 85% dos nus são de mulheres.
Guerrilla Girls
Foi lançado, no último sábado, o livro Mulheres que resistem nas margens: Arte e gênero na Paraíba (Arribaçã Editora, 2025), pesquisa da Profª. Doutora Madalena Zaccara (professora da UFPE, com currículo vasto e potente) e da Doutora Sabrina Melo (historiadora, museóloga e professora da UFPB). “94 perfis, recuperando histórias, obras e trajetórias que muitas vezes permanecem dispersas ou pouco registradas na historiografia artística. A obra se dedica a investigar, documentar e valorizar parte da trajetória das mulheres artistas visuais que atuaram na Paraíba, com recorte temporal que se inicia na década de 1920 e se estende aos dias atuais”.
"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas.
E me encantei.
... que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças, nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.”
(Manoel de Barros)
Certo dia, assistindo a um documentário sobre o poeta do Brasil Central, Manoel de Barros, fiquei enternecida com aquele homem tão simples, de versos singelos e únicos, a dizer que não sabia fazer nada na vida e que o que mais gostava era ficar à toa. Identificação instantânea! Por favor, não me julguem arrogante; estou só me comparando ao não saber fazer nada e ficar à toa… Infelizmente, não sei fazer versos, ainda…
Não foi um crime… Foi um colapso da humanidade dentro de um homem só. Quando um pai mata os próprios filhos, mata um e o outro, para ferir a mãe, não estamos mais falando de ódio. Estamos falando de falência moral absoluta. De um lugar tão escuro que já não existe linguagem que explique. Só silêncio constrangido. Porque filhos não são extensão de vingança. Filhos são território neutro. Sagrado até para quem não acredita em nada. Aquele homem não quis matar duas crianças. Ele quis assassinar emocionalmente uma mulher… usando o que ela tinha de mais vivo. Isso não é sobre separação. Não é sobre disputa. Não é sobre guarda ou ciúme. É sobre posse. Sobre a incapacidade de aceitar que o outro é livre.
Jornalista Flavio Ferraz (Instagram)
A definição de feminicídio vicário é: “uma forma extrema de violência de gênero em que o agressor mata filhos, enteados(as), ou outras pessoas próximas à mulher (como animais de estimação) com o objetivo específico de causar sofrimento, dor insuportável e punição à mãe, agindo como um ‘feminicídio indireto’”. É uma ferramenta de controle, poder e vingança utilizada após o fim do relacionamento ou para subjugar a mulher, atingindo-a “onde mais dói”.
GD'Art
Ao comentar o caso em Itumbiara, o Instituto Maria da Penha, organização não governamental (ONG) que atua no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres, confirmou que casos de violência vicária não são exceção. “É uma forma de violência de gênero que atinge mulheres por meio de crianças e adolescentes. Quando filhos e filhas são usados como instrumentos de controle, punição ou chantagem” (Agência Brasil).
“As Muriçocas nascem da obstinação alegre de um folião visionário, mas crescem como expressão coletiva, reunindo artistas, amigos, comunidades e milhões de foliões e foliãs. Ao narrar essa trajetória, o autor revela um carnaval que tem tempo e lugar, que não se desloca do seu território simbólico nem da sua memória afetiva. Um carnaval enraizado nas pessoas, nas individualidades e nos coletivos, que fez das Muriçocas de Miramar não apenas um bloco, mas um marco do carnaval de João Pessoa, da Paraíba, do Nordeste e do Brasil.”
Fred Maia
Domingo, dia 1 de fevereiro, o compositor e puxador do Bloco das Muriçocas do Miramar, Mestre Fuba, lançou o livro A Celebração da Alegria: 40 anos das Muriçocas do Miramar (Editora A União). O livro, diz o jornalista Fred Maia, na orelha, “é mais que o registro de um bloco carnavalesco: é a narrativa de uma cidade em festa e de uma geração que fez do carnaval um gesto contínuo de pertencimento... Ele se constrói no encontro, na amizade, na soma de paixões.”
Esse é o nome de um quarteirão, ou alguns, em Tambaú, reduto que foi o lugar da juventude nos anos 80. Lugar de boemia, de encontros e transgressões. Lugar onde também pontos de cultura e comportamento se estabeleciam. O Bloco das Virgens, no Bar do Convívio, é um exemplo. Bares como o Boiadeiro, Travessia, O Quintal, o Peniqueiral, o Bar da Xoxota, o Do Meu Cacete, o Do Pau Mole (vale conferir os nomes!) e tantos outros. O Última Sessão, que depois virou O Apetitto (sede do Bloco As Piabas, posteriormente), com seus pratinhos nas paredes. As calçadas cheias de jovens.
Praia de Tambaú, anos 70, em J.Pessoa-PB ▪️ Instagram: @joaopessoabrasil
A Peixada, o Chinês, a Lanchonete Natural, e a boemia correndo solta. O Empório Café fez e faz onda ainda. Ricky Mala, Suzy Lopes e seus Saraus Poéticos, e Toinho Matos, que também movimenta o Carnaval. Tudo junto mesmo.
Para o querido amigo Buda Lira, ator do filme O Agente Secreto, em nome de quem saúdo esse elenco divino e maravilhoso. Mais que todos, os paraibanos.
Este foi o ano retratado no filme O Agente Secreto, do premiadíssimo diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho, que, na semana passada, recebeu quatro indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco (Gabriel Domingues). O Brasil inteiro celebrou com a camiseta do Bloco Olindense Pitombeira (numa referência à camiseta usada no filme pelo personagem de Wagner).
Kleber Mendonça, diretor do filme O Agente Secreto ▪️ Foto: Harald Krichel
Dona Tânia Maria, com seu vestido florido e seu cigarro desaforado, também aconteceu. E viva o Cinema Brasileiro! E viva o orgulho da cultura pernambucana!
Minha cabeça gira por: Shakespeare, o escritor referência para a literatura ocidental. Tragédias, comédias, sonetos. Minhas aulas com a professora Vitória Lima, com João Batista de Brito,
Toda grande imagem simples revela um estado de alma. A casa, mais ainda que a paisagem, é "um estado de alma".
"Quando a casa é feliz, a fumaça brinca delicadamente acima do telhado".
A Poética do Espaço – Gaston Bachelard
Meu filho caçula, Daniel, saiu de casa em janeiro de 2020. Foi para São Paulo batalhar a vida. Fiquei de cama, literalmente. E logo eu que dizia que não me importava se meus filhos ganhassem os mundos. Uma coisa é o que idealizamos ser, outra, o que somos. E eu dizia isso quando era mais jovem, todos em casa, família reunida. Lucas, o filho mais velho, já havia saído de casa há tempos. Mas mora perto, e a casa de mãe é logo ali... tem outros significados. Mas, mesmo assim, e com outro temperamento, tenho certeza do lugar que essa casa simbólica ocupa no seu coração.
E a passagem do ano foi na intimidade do meu canto. Com pernil, lentilha, romãs — que adoro pela cor e textura — e espumante. Assistindo, desde cedo, aos fogos ao redor do mundo. Gosto desse dia e de ver o calendário rodando mundo afora. Como no Natal, já fui invadida por angústias dessa festa também. Tinha problemas com o álcool em família, e essa apreensão só deixa todo mundo cabisbaixo.
Faço todos os anos. Gosto de mergulhar no mar. Agradecer o ano. Pensar sobre ele. E, no dia primeiro, faço igual: meus pedidos. Poucos. Saúde é o primeiro. E para os meus. E para o mundo. Faça a paz e não a guerra! Tão distante esse slogan e tão atual. O homem andou pouco nesse sentido.
Natal. Tempo de sentimentos ambíguos. Para quem é religioso, há toda uma liturgia e rituais a cumprir. A contrição do nascimento de Jesus. A festa. No meu caso, aniversário da minha mãe também.
Eu evito ruas desertas/ Evito vielas/ Escadarias de bairro/ Mesmo cantos internos de calçada.// Eu evito praias desertas/ Caminhos solitários na madrugada./ Evito a sombra das árvores/ Eu evito a própria noite/ Que é metade de um dia/ Que é metade da vida./ Mesmo quando acompanhada/ De outra mulher.// Mudo o caminho/ Dou a volta/ Meia volta/ Espero/ Mudo de calçada./Observo. (Veronica Ferriani)
Nasci numa casa feminina. Somos quatro irmãs e uma mãe. Vivemos todos os medos e avisos dessa citação acima. Sabemos bem do que se trata o espiar à nossa volta e fazer as devidas equações de proteção, da mais tenra infância à velhice.
A abertura do Festival Literário Internacional da Paraíba, FliParaíba, no último dia 27 de novembro, aconteceu naquele lugar especial que é o Centro Cultural São Francisco. Lugar que frequento desde menina, onde dei os meus primeiros beijos por entre os arcos, por entre os azulejos portugueses. Uma orquestra de sanfonas me fez chorar. E a filha de Vital Farias, cantando junto — Margarida — mais lágrimas, por entre o barroco e os anjos daquela capela da Nave Central.
Ah, viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não para, viver parece ter sono e não poder dormir – viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito.
(Clarice Lispector)
Essa nada mole vida na terceira idade não tem sido fácil! Tema da redação do Enem: “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Não sei se os jovens que fizeram a prova tinham o conhecimento necessário para tal desafio, embora muito tenha se falado em etarismo, preconceitos e envelhecimento nos últimos anos. E sempre soube que, para qualquer exame, ler jornal, sites e estar bem-informado conta. Já eu, se fosse fazer a Redação, talvez tirasse dez. Muito o que contar sobre acordar, sair, solidão, invisibilidade, limitações, expectativa de vida, de como somos tratadas no diminutivo, os tantos fins, o ladeira abaixo, alegria de viver, amizades e amores. Ou a falta!