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A linguagem nos define. Dize-me como falas e te direi quem és. A identidade entre pessoa e discurso tanto revela a personalidade do ind...

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A linguagem nos define. Dize-me como falas e te direi quem és. A identidade entre pessoa e discurso tanto revela a personalidade do indivíduo, quanto reflete a classe ou profissão a que ele pertence. Um médico não usa as mesmas palavras que um economista, nem este tem o mesmo discurso de um advogado.

Há manuais de redação que rejeitam o uso da voz passiva. Orientam que se diga, por exemplo, “O diretor suspendeu os alunos”, em ve...

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Há manuais de redação que rejeitam o uso da voz passiva. Orientam que se diga, por exemplo, “O diretor suspendeu os alunos”, em vez de “Os alunos foram suspensos pelo diretor”. Existem casos, no entanto, em que a passiva é desejável. Nem sempre interessa ao redator afirmar que alguém faz alguma coisa. Ele pode querer dizer que alguma coisa “é feita”, destacando o termo que sofre a ação. Afirmar “o livro foi lido em pouco tempo pela turma” não é o mesmo que dizer “a turma leu o livro em pouco tempo”. No primeiro caso o foco recai no livro; no segundo, recai na turma.

Os manuais de estilística definem concisão como rigor, adequação da forma ao conteúdo. É uma característica muito próxima ...

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Os manuais de estilística definem concisão como rigor, adequação da forma ao conteúdo. É uma característica muito próxima da clareza, pois o excesso de palavras tende a obscurecer o sentido. O conceito de concisão associa-se ao de fotoinformatividade; um texto conciso geralmente tem um bom nível de fotoinformação, já que dispensa artifícios que estão ali apenas para encher a página.

Na semana passada elencamos neste espaço alguns erros lógicos que comumente afetam o bom desempenho textual. São falhas ...

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Na semana passada elencamos neste espaço alguns erros lógicos que comumente afetam o bom desempenho textual. São falhas que decorrem de tropeços no raciocínio e repercutem na engrenagem das ideias, tornando a escrita obscura e às vezes ilegível. Nesses casos o leitor tem no mínimo que “se esforçar” para entender o que lê, quando se sabe que tal esforço é uma das medidas do fracasso do autor. Seguem outros erros desse tipo, também exemplificados em redações dos nossos alunos.

Escreve bem quem pensa bem. Uma das condições para isso é evitar erros lógicos, que denotam falhas no raciocínio e afe...

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Escreve bem quem pensa bem. Uma das condições para isso é evitar erros lógicos, que denotam falhas no raciocínio e afetam a coerência. Tais erros comprometem qualquer tipo de texto, mas são especialmente nefastos naqueles (como o dissertativo-argumentativo) em que o rigor na articulação das ideias é fundamental.

Há um ditado segundo o qual cada um morre do que vive. Quem é destemido e aventureiro c...

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Há um ditado segundo o qual cada um morre do que vive. Quem é destemido e aventureiro corre o risco de morrer em uma de suas aventuras. Os que vivem no limite (físico, emocional ou intelectual) consomem a “reserva de vida” em nome da intensidade. Têm a morte como um risco calculado ou um subproduto da paixão. Ernest Hemingway, por exemplo, viveu de forma viril e perigosa. Sua morte por suicídio, após o declínio da saúde, foi o desfecho escolhido por um homem que não suportava a ideia de uma vida cotidiana e banal. A ausência de aventuras o tornou desventurado.

Vez por outra nos deparamos com boatos que prognosticam o fim do mundo....

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Vez por outra nos deparamos com boatos que prognosticam o fim do mundo. Em 2012, por exemplo, um deles apareceu com muita força. Dizia-se que naquele ano o mundo infalivelmente ia se acabar, e os que mais se frustraram com a não realização desse vaticínio foram os desencantados com a espécie humana. Embora soe absurdo, o alarme sobre o fim dos tempos ainda impressiona muita gente. Basta ver quantos se prepararam para o desastre.

Em texto recente publicado neste portal, expus a diferença entre a solidão e a solitude conforme o ponto de vista de Paul Tillich. O...

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Em texto recente publicado neste portal, expus a diferença entre a solidão e a solitude conforme o ponto de vista de Paul Tillich. O teólogo e filósofo teuto-americano aponta o que basicamente diferencia esses dois estados da alma, não raro confundidos em prejuízo do reconhecimento de que estar só não significa necessariamente romper o comércio com os outros. Pelo contrário: a chamada solitude, pela reflexão e o autoconhecimento que propicia ao indivíduo, prepara-o para melhor lidar consigo e, consequentemente, se relacionar com os outros.

Recentemente uma aluna minha foi assaltada num dos restaurantes da cidade. O episódio não aconteceu à...

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Recentemente uma aluna minha foi assaltada num dos restaurantes da cidade. O episódio não aconteceu à noite, nem ela estava sozinha; estava com um grupo de amigas. Almoçavam no intervalo de uma dessas bizuradas para concursos, que ocorria no prédio em frente, quando o fato aconteceu.

A hipercorreção é o exagero com que algumas pessoas procuram falar ou escrever “certo”. No intuito de mostrar que conhec...

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A hipercorreção é o exagero com que algumas pessoas procuram falar ou escrever “certo”. No intuito de mostrar que conhecem a língua, elas escolhem palavras e construções gramaticais que acabam soando ridículas ou pernósticas. O hipercorretor tem a falsa ideia de que usar bem o idioma é torná-lo “difícil”, quando não incompreensível.

Solidão que não se escolhe é abandono – tenho essa verdade como indiscutível há muito tempo. ...

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Solidão que não se escolhe é abandono – tenho essa verdade como indiscutível há muito tempo. E a solidão que se escolhe? O melhor nome para ela encontro nos acréscimos que Paul Tillich faz a filósofos como Sêneca, Montaigne e Thoreau: é a solitude. O teólogo e filósofo teuto-americano estabeleceu a diferença de forma sintética e precisa:

O romance é um tipo de produção literária em que imergimos para ter uma nova experiência do mundo. Como escreveu Álvaro Lins, é u...

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O romance é um tipo de produção literária em que imergimos para ter uma nova experiência do mundo. Como escreveu Álvaro Lins, é um “outro mundo” no qual mergulhamos para melhor perceber este em que nos movemos no dia a dia. O universo do romancista constitui um simulacro que nos leva a refletir sobre a nossa condição. Reconhecemo-nos em personagens, lugares, situações, e por meio desse espelho melhor dimensionamos a nossa humanidade.

O humor se distingue da comicidade por estar na linguagem. Como tal, possui uma retórica, que ori...

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O humor se distingue da comicidade por estar na linguagem. Como tal, possui uma retórica, que orienta alguns dos procedimentos capazes de levar ao riso.

Num dos seus poemas, Manuel Bandeira fala dos suicidas que se matam sem explicação. Esses são os que mais impressionam. Esconder o moti...

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Num dos seus poemas, Manuel Bandeira fala dos suicidas que se matam sem explicação. Esses são os que mais impressionam. Esconder o motivo pelo qual se chega ao “gesto extremo” aumenta-lhe o enigma e a dramaticidade. Talvez seja a atitude mais coerente, pois não há por que justificar um ato que se explica por si mesmo. Além disso, como acreditar nas razões dos suicidas? Até que ponto eles são capazes de avaliar com lucidez o seu ato?

Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo ...

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Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo era Balança. Veio sem berros, choramingando, e quando a mãe lhe deu o peito ele não exultou. Sentia-se que estava apenas satisfeito.

A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa...

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A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa é ativado com muito mais intensidade pelo que não esperamos. E certamente explica por que, com o tempo, o Carnaval “perde a graça”. Quando um evento se torna previsível, o cérebro entra em modo de “economia de energia”, digamos assim, e aquela ansiedade com o novo é substituída por um “déjà vu” que tira o frescor da emoção.

Gosto da espontaneidade e da alegria dos blocos carnavalescos. Para sair neles, ninguém precisa usar fantasias caras nem obedecer a ...

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Gosto da espontaneidade e da alegria dos blocos carnavalescos. Para sair neles, ninguém precisa usar fantasias caras nem obedecer a rigorosos esquemas coreográficos. Blocos como o “Cordão da Bola Preta” ou o “Galo da Madrugada” (para citar dois dos mais famosos) mostram que a coreografia é um “empurra-empurra” balanceado ao qual se associa o coro de marchinhas que atravessam gerações.

Fernando Pessoa definiu a quadra como “um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Com isso, destaca o caráter popular des...

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Fernando Pessoa definiu a quadra como “um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Com isso, destaca o caráter popular dessa espécie poética surgida na Idade Média. Ao mesmo tempo, enfatiza-lhe o aspecto confessional. Expor a alma como flores numa janela é mostrá-la ao mundo, com a delicadeza de suas pétalas, e ao mesmo tempo aliviar o espírito graças ao arejamento que esse ato produz.

O rótulo de “psicossomática”, embora não esteja literariamente estabelecido, parece-nos adequado para definir...

O rótulo de “psicossomática”, embora não esteja literariamente estabelecido, parece-nos adequado para definir a forma como Augusto dos Anjos associa temas psicológicos profundos (angústia, pessimismo, melancolia) à ênfase crua e materialista no corpo. Essa é uma das características da sua obra e reflete as influências científicas e filosóficas da época (cientificismo, naturalismo, monismo), que mostravam o ser humano como um organismo sujeito às leis da biologia e da física.

Numa passagem de “Dom Casmurro”, Bentinho passeia com o agregado José Dias numa das ruas centrai...

Numa passagem de “Dom Casmurro”, Bentinho passeia com o agregado José Dias numa das ruas centrais do Rio. Vão conversando amenidades (José Dias despejando seus superlativos), quando uma mulher tropeça a poucos metros deles. Com a queda, ela deixa ver parte da liga que lhe aperta uma das meias.

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