“Os lírios não nascem da lei”
Carlos Drummond de Andrade
A violência contra a mulher não é apenas doméstica. Ela é cultural. A Lei Maria da Penha olha para as relações familiares ou domésticas, mas a violência é muito mais ampla. Está em todas as relações sociais, sem distinção: é a violência motivada pelo olhar de desvalorização sobre a mulher. Nem a religião se salva. Basta ver o papel de segunda categoria que lhe está reservado, sem falar no mito que a desqualifica como ser humano e a reduz à tentação e ao pecado.
Não estou certo de que tenha sido uma cigarra aquilo que me despertou aos primeiros raios do sol. O som, bem parecido e com idêntico volume, proveio da calçada oposta à minha, onde há duas algarobas. Cigarra, até onde sei, não canta em fevereiro nem em março. É bicho de primaveras e inícios de verão.
No dia 10 de março de 1980, os paraibanos foram surpreendidos, por volta das sete horas da manhã, com uma notícia impactante: falecia o ilustre paraibano José Américo de Almeida. Morria ali o corpo físico de um ser, para emergir e consagrar a imortalidade do brasileiro-paraibano para história nacional, em várias vertentes: humanista, cultural e política.
Podas e faxinas
Necessito podas,
mais um pouco de luz
e lembretes.
Distante de mim mesmo,
me assusto,
mas é porque já passou tanto tempo.
Ainda que necessário seja
medir essa distância,
também desconstrói.
As vaidades intelectuais, um fenômeno intrigante e multifacetado, refletem a complexidade da condição humana e a busca incessante por reconhecimento e validação. No cerne dessa questão, reside a luta pelo valor das ideias e o desejo de deixar uma marca no mundo. Escritores, pensadores e acadêmicos, ao se engajarem em debates, muitas vezes se veem mergulhados em um jogo de poder, onde a persuasão e a retórica se tornam armas de escolha.
Nada para nos incomodar tanto como promessas que ficamos devendo àquelas pessoas que partiram para uma viagem que estava fora do combinado. O abraço que fomos adiando, pedidos de desculpas que protelamos. Coisas assim. O problema é que essas elucubrações ficam martelando nosso juízo e não há como darmos fim a elas.
Aqui e acolá me surpreendo com pensamentos furtivos e remotos sobre a minha infância e juventude queridas. Em uma das lembranças, estou matutando sobre a casa da minha avó, dos fins de semana passados com ela. Tão prazerosos… eu diria, muito felizes. Muitas coisas eram divertidas ao seu lado, mas, em especial, ficar escutando a novela no rádio ao lado dela. Ela narrava passagens engraçadas antes mesmo de serem apresentadas. Acho que já sabia o enredo da história. Ela tinha muita animação com o desenrolar da trama.
Muito se tem falado sobre “ler por prazer” como se a literatura se prestasse apenas a uma filosofia hedonista. Essa concepção acrítica pode ser um desserviço ao ato de ler, acarretando ideias de que não é possível, ou o pior, não é preciso ensinar literatura. Entendo que a literatura propriamente dita não se ensina, mas visamos alertar sobre o quanto ela pode nos proporcionar em matéria de vida; as fantasias, os conflitos, o valor que o mundo literário congrega.
Não foi um crime… Foi um colapso da humanidade dentro de um homem só. Quando um pai mata os próprios filhos, mata um e o outro, para ferir a mãe, não estamos mais falando de ódio. Estamos falando de falência moral absoluta. De um lugar tão escuro que já não existe linguagem que explique. Só silêncio constrangido. Porque filhos não são extensão de vingança. Filhos são território neutro. Sagrado até para quem não acredita em nada. Aquele homem não quis matar duas crianças. Ele quis assassinar emocionalmente uma mulher… usando o que ela tinha de mais vivo. Isso não é sobre separação. Não é sobre disputa. Não é sobre guarda ou ciúme. É sobre posse. Sobre a incapacidade de aceitar que o outro é livre.
Jornalista Flavio Ferraz (Instagram)
A definição de feminicídio vicário é: “uma forma extrema de violência de gênero em que o agressor mata filhos, enteados(as), ou outras pessoas próximas à mulher (como animais de estimação) com o objetivo específico de causar sofrimento, dor insuportável e punição à mãe, agindo como um ‘feminicídio indireto’”. É uma ferramenta de controle, poder e vingança utilizada após o fim do relacionamento ou para subjugar a mulher, atingindo-a “onde mais dói”.
GD'Art
Ao comentar o caso em Itumbiara, o Instituto Maria da Penha, organização não governamental (ONG) que atua no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres, confirmou que casos de violência vicária não são exceção. “É uma forma de violência de gênero que atinge mulheres por meio de crianças e adolescentes. Quando filhos e filhas são usados como instrumentos de controle, punição ou chantagem” (Agência Brasil).
O olhar silencioso do monge oblato beneditino, vestido com hábito escuro, sentado na estala, usando cogula durante a reza do Ofício Divino e na execução de cânticos gregorianos no Mosteiro de São Bento de Olinda, ficou como a última lembrança de Dom Marcelo Carvalheira.
A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa é ativado com muito mais intensidade pelo que não esperamos. E certamente explica por que, com o tempo, o Carnaval “perde a graça”. Quando um evento se torna previsível, o cérebro entra em modo de “economia de energia”, digamos assim, e aquela ansiedade com o novo é substituída por um “déjà vu” que tira o frescor da emoção.
Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco.
Lete, cujo nome significa esquecimento, constitui elemento da mitologia grega e uma reflexão filosófico-religiosa da Antiguidade. Filha de Éris, deusa da Discórdia, Lete encarna não apenas a perda da memória, mas uma dimensão ontológica do ser humano: o esquecimento como condição da existência mortal e como limite entre vida, morte e renascimento.
Com todo respeito, passei o carnaval com ela. Mais propriamente com o novo livro da escritora santista-pessoense, Recapitulação (Editora 34, São Paulo, 2025), conjunto de 12 contos muito criativos, que têm como ponto de partida ou como referência poemas, contos, novelas e romances famosos, de autores igualmente célebres.
Direto do Estádio do Cupinzeiro, no coração da grande clareira esportiva da floresta, a Rádio Zumbido transmitia aquela que já entrava para a história como a partida mais dramática do Campeonato Interespécies: Insetos contra Aracnídeos.
A inveja não tem fronteiras. Infiltra-se nos bastidores, cochicha nas sombras e alimenta-se da pequenez. Pessoas falam pelas costas e, de forma deletéria, formulam conceitos e preconceitos sem a mínima coragem de sustentar o que dizem frente a frente.