“As margens da alegria” é um dos melhores contos de Primeiras Estórias. Nele se narra a história de um menino que viaja com os tios para um lugar “onde se construía a grande cidade”. Chegando lá, o menino conhece um peru e fica deslumbrado com a sua beleza. No dia seguinte, sai para um passeio e, ao voltar, descobre que o peru foi morto para uma festa de aniversário.
Estou sentada em torno de uma mesa. Diante de mim, uma velha senhora, cabelos totalmente brancos, semblante tranquilo, mas, ao mesmo tempo, muito enigmático. As cartas são embaralhadas. Ela me fala para cortar o baralho ao meio. Depois, vai retirando as cartas em forma de cruz. A primeira carta é o Louco, nº 22 ou a carta nº 0. Um coringa, um homem com chapéu de bobo, uma mochila nas costas, caminhando com uma vara de apoio e seguido por um cão. Logo em sequência, situado
Arte: Elisa Cabral
no lado oposto horizontal, surge a carta nº 16, A Torre Fulminada ou A Casa de Deus, onde se vê uma edificação ruindo e um indivíduo que despenca do alto de ponta-cabeça. Na sequência, no eixo vertical acima, aparece a carta nº 1, O Mago. Um ser diante de uma mesa com vários elementos, prestes a realizar proezas com um bastão em uma das mãos, como uma varinha mágica. Parece estar no intuito de apresentar e descobrir os princípios criativos com os elementos expostos em sua mesa. No seu extremo oposto vertical descendente, surge a carta de nº 20, O Julgamento, com sua trombeta colocada no meio da imagem do sol, clamando pelo sopro da vida, ressuscitando uma família de mortos. E, para sintetizar, no meio, a carta nº 9, O Eremita, vem finalizar a cruz desse jogo. Um sábio que avança carregando em suas mãos uma lamparina acesa e um cajado.
No livro A vida passada a limpo, Carlos Drummond de Andrade reuniu seus poemas produzidos no período de 1954 a 1958. Entre eles, consta o conhecido Prece de mineiro no Rio, cujos quatro primeiros versos transcrevo a seguir para que o leitor compreenda o que rege a citada produção poética:
Dois autores dedicaram-se à tarefa aparentemente simples de perguntar o que é alguma coisa: "O que é Filosofia?", de José Ortega y Gasset, e "O que é isto — a Filosofia?", de Martin Heidegger. Li ambos, atravessei suas reflexões e, ingenuamente, imaginei que certas perguntas ontológicas permaneceriam confinadas aos livros. Jamais pensei que chegaria o dia em que eu próprio seria colocado diante de uma questão dessa magnitude. E, pior, que teria de responder a essa indagação sem poder recorrer a Heidegger, Ortega y Gasset ou sequer a uma enciclopédia. A filosofia, como se vê, tem dessas crueldades: às vezes, abandona a biblioteca e aparece no balcão de uma cafeteria.
Fugir do seu país? Por que fugir se o senador obteve 48,20% do eleitorado a votar-lhe confiança, a depositar no descortino que lhe atribui as aspirações de suas vidas e o futuro dos filhos? Claro, quem vota deve votar nessa esperança, mesmo parecendo difícil.
Naquela que começa quando me apodero da forma e do sentido das coisas. Quando a imaginação se alia à intenção e o pensamento, antes disperso, encontra seu centro.
Crio atmosferas. Transformo vastos espaços em recantos únicos, vocacionados a acolher o invisível. Há uma arquitetura do encantamento que não obedece apenas às medidas, à disposição dos objetos ou à incidência da luz. Obedece a uma ordem interior. À harmonia que se estabelece entre aquilo que somos, aquilo que fazemos e a energia que imprimimos ao que criamos.
Há, na tessitura narrativa de A Menina de Cipango, uma delicada arquitetura de silêncios. Marília Arnaud constrói seus contos como quem borda ausências: cada frase parece conter aquilo que não foi dito, cada gesto narrativo ecoa uma memória que resiste à nomeação. O livro, mais do que um conjunto de histórias, configura-se como um mosaico de subjetividades em deslocamento — emocional, geográfico e simbólico.
O sentido de herói, para o grego, é muito mais amplo do que aquele que se veicula nos nossos tempos. Para se alcançar a fama de herói, exige-se a realização de feitos grandiosos que extrapolem, sobretudo, a esfera da individualidade. O herói fará, de ordinário, o sacrifício pessoal, que lhe granjeará a glória imortal, mas sua ação notável não se exaure nele próprio, sendo frequentemente em benefício de uma coletividade.
Só no homem a inteligência toma inteiramente posse de si própria, e este triunfo afirma-se pela própria insuficiência dos meios naturais de que o homem dispõe para se defender contra os seus inimigos, contra o frio e a fome.
(Henri Bergson)
O PRÊMIO Nobel de Literatura para ele, para Bertrand Russell e para Sartre (recusado) me parece dizer bem da intensa qualidade estética dos textos desses três filósofos — prazer que se sente desde os Diálogos de Platão e das obras de Aristóteles — como a Poética e a Política —, significando que, para pensar bem... é indispensável escrever melhor ainda. Meu velho volume de A Evolução Criadora é cheio de grifos. Por exemplo:
E lá estava eu longe da casa paterna para os estudos primários no Recife, aos 11 anos de idade, sob proteção da Tia Mariinha, a irmã mais velha da minha mãe. Doía-me a saudade do trave a trave com bola de meia e dos cangapés com os amigos no Rio Paraíba. Foi quando o velho Tito, o dono da casa, chegou do trabalho com um exemplar da Revista O CRUZEIRO. Na minha vez de folheá-la, tomei um susto danado ao ver fotografias do Engenho Corredor e de pessoas acostumadas ao balcão da Padaria de Seu Juca, meu pai. A pequena Pilar chegava-me assim às mãos, quase por inteiro, para agudizar minha tristeza.
Um lagarto teiú corre pelo canto da estrada, arisco, e se atira do acostamento, adentrando a vegetação rasteira, e salta para seguir a vida, embrenhando-se na aridez caririzeira. Ágil, logo some, camuflado pela sua pele acinzentada em meio às plantas ressecadas e espinhentas pelas semanas do sumiço das chuvas.
Ser sábio não é saber tudo. É reconhecer que, por mais que aprendamos, sempre haverá algo que ainda não compreendemos — uma história que nunca ouvimos, uma dor que não conhecemos, uma maneira diferente de enxergar o mundo. A inteligência pode nos ajudar a encontrar respostas, mas a sabedoria também nos ensina a fazer boas perguntas, a escutar com atenção e a aceitar, sem vergonha, que às vezes não sabemos.
Quero começar este texto afirmando que não confio muito em quem não é capaz de rir de si mesmo. A frase não é minha, mas, desde a primeira vez que a ouvi, concordei com ela; afinal, fico sempre com o pé atrás diante de pessoas que conseguem rir dos outros, mas são incapazes de rir de si mesmas. É dessa forma que começo a apresentar-lhe o livro A História do Riso e do Escárnio, de Georges Minois. Afinal, como bem definiu Marc Bloch em sua célebre formulação, a História é a ciência dos homens no tempo e, portanto, tudo o que o ser humano realiza ao longo das eras é passível de ser historiografado, até mesmo o riso.
No fim, o gol sai sempre. É só esperar o quanto for necessário.
Comprei um café e escolhi um lugar no meio, porque no meio a gente escuta tudo. À esquerda ficava a Torcida Escarlate, a da casa, mais velha, mais rouca, com bandeiras que já tinham desbotado de tanto sol. À direita ficava a Torcida Celeste, a visitante, camisa nova, tambor afinado, gente jovem com faixas que ninguém tinha terminado de ler. Ali no centro ficava o povo sem camisa, o povo que veio pelo jogo, o povo que veio pelo passeio e o povo que veio porque em casa não tinha nada melhor.