Pode parecer estranho juntar num mesmo texto criaturas que nem parecidas são. Mas a culpa é de um ilustre cidadão de minha convivência; digo, amigo desde priscas eras que, em seus encontros etílicos pelos bares de nossa Filipeia, andou reclamando que um atrevido Rupornis magnirostris andou devorando um Serinus canaria do plantel
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deste meu indignado camarada. Em outras palavras, um gavião-carijó devorou seu canarinho cantador, deixando este meu amigo pê da vida. O pior é que ele ainda viu o assassino pegando o beco enquanto, muito satisfeito, batia as asas, lambendo os beiços — ou melhor, o bico — de tanta satisfação. No viveiro, só penas e um pouco de sangue, pois até as perninhas do pobrezinho o rapinante devorou.
Nunca pensei que a vida me reservasse tarefa tão difícil: a de saudar, em nome deste Instituto e por designação do presidente Jean Patrício, o sócio efetivo e querido amigo Sebastião Ferreira Filho.
Estamos vivendo num mundo altamente estressante, de cobranças infinitas e, portanto, inalcançáveis, diante de um contexto no qual a perda de saúde mental parece inevitável. De acordo com o último relatório da Organização Mundial de Saúde, o Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo. Como podemos nos manter saudáveis em meio a tantos desafios?
Padre por vocação, poeta por necessidade para melhor se comunicar com o Cosmos, Dom Helder Câmara escreveu poemas que exaltam o pensamento cristão e, de modo todo especial, revelam as magnificências espirituais de Nossa Senhora, a quem chamou de rosa mística, digna de todos os louvores celestiais e humanos.
Terminamos o primeiro turno com um resultado acirrado entre os dois candidatos. Um resultado que surpreendeu por ter contrariado as pesquisas. Hoje, com a internet e todas as ferramentas digitais, os caminhos são outros.
O fato de o Prêmio Nobel ter se destinado a uma renomada poeta ressalta a preocupação da academia com a linguagem. Não que, na prosa, o trabalho com os signos esteja em plano secundário. Mas a poesia é por excelência o domínio em que o uso da língua ganha proeminência. A literatura renova nossa percepção do mundo ao renovar a linguagem com que o percebemos.
Há uma certa ingenuidade em acreditar que, em algum lugar da vida, existirá alguém que cuidará de nós melhor do que nós mesmos.
Aprendemos desde cedo a esperar. Esperamos pelos pais, amigos, pelo amor, filhos, por alguém que perceba quando estamos cansados, quando precisamos de um abraço, quando alguma
Os belos fractais inundaram as manchetes nas décadas de 80 e 90. De tão entusiasmada pelo tema, quando comprei uma pequena lancha, registrei-a na Capitania dos Portos como Fractal. Imaginei-a do alto, vista do espaço, a pequena embarcação flutuando como um fragmento no meio da imensidão do mar. Não se pode enfrentar uma grande onda de frente, nem se pode posicionar de costas para ela, senão seremos
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derrubados; o barco vai virar. O melhor é sair costurando na diagonal, movimentando-se como uma linha tangente, que vai circulando de forma espiralada, surfando sobre as ondas. Assim é a sabedoria dos moluscos e dos pescadores experientes nos mistérios marítimos e estelares.
Não éramos próximos – nem distantes. Da mesma geração e da mesma aldeia, então ainda pacata, não tinha como não nos cruzarmos em alguma esquina, em algum evento. Eu, reconhecendo o sempre extrovertido filho de Dona Creusa e doutor Adrião; ele, geralmente passando ao largo do anônimo que sempre fui. Quando cabia, cumprimentávamo-nos de passagem – e só. Mas isso
Marcos Pires
não o excluía do meu radar de pessoense razoavelmente atento aos personagens e acontecimentos da gentil província. Afinal, como ignorá-lo, se ele sempre aparecia sob os holofotes, de uma maneira ou de outra? Quem o desconhecesse, nativo não era, com certeza.
“Yo quisiera estar siempre como tú, viejo olivo,
enhiesto bajo el cielo azul de Andalucía,
como un dios que se siente eternamente vivo,
heraldo de una tierra que anuncia la alegría.” Antonio Casares, em seu poema Querencia del Olivo (Amor da Azeitona, 1998), no qual expressa o seu desejo de viver eternamente como uma oliveira debaixo do céu azul da Andaluzia.
Há encontros que começam antes de a gente saber que está diante de alguém. E há outros que só começam depois que a nossa ignorância termina. Foi assim que conheci, de verdade, o professor Hermógenes, embora eu já o conhecesse havia muitos anos, desde a adolescência, através dos seus livros. Naquela época, eu ainda não sabia que certas pessoas entram primeiro na nossa biblioteca para, muitos anos depois, entrarem também na nossa vida.
Nestes dias, não conto as vezes que desejo sair sozinho, pegar o ônibus na rodoviária e descer na Praça Clementino Procópio, de Campina, só para sentar comigo mesmo, à sombra das poucas árvores que restam a encarnar dois tempos opostos, ora dois extremos, ora unidos, como produtos um do outro. Já disse, numa crônica antiga, que Campina Grande tem muito a ver
com “o sítio que anda comigo”. Meu sítio ficava a cinco ou seis léguas, mas era como se Campina fosse estrangeira, de onde vinham as coisas sempre boas que ficavam longe, da manteiga da vaquinha de Minas no pasto às peças do motor, todos os motores, o relógio na parede, a máquina Singer e outras tantas inglesias aqui aportadas desde a colônia até serem substituídas pelo império americano.
Nos últimos dias, venho acompanhando boas discussões sobre o nosso idioma. Discussões de alto nível. Entre outras opiniões, alguns falaram do surgimento crescente de uma espécie de “novilíngua”, que já é perceptível entre nós.
O romanceO Dia dos Cachorros, de Aldo Lopes de Araújo, inscreve-se na literatura paraibana que aproxima ficção e história sem se submeter inteiramente a ela. O Movimento de Princesa, ocorrido em 1930, fornece a matéria política e social do enredo, mas a obra não deve ser lida apenas como narrativa documental da chamada Revolta de Princesa. Sua força está em transformar o conflito histórico em experiência humana,
Ao meu lado direito, Anton Van Dyck, contratado pela corte, fazia esboços de uma infinidade de retratos dos presentes. Como todo amador que vê um grande artista em atividade, fascinaram-me a velocidade e precisão com que surgia de seus traços uma galeria de homens e mulheres em damascos e veludos, pérolas e diamantes, heráldicas coruscando em púrpuras, goles, sinopla, sable, Van Dyck — sem um instante de hesitação — reproduzindo grinaldas, detalhes de ombros desnudos, luvas, olhos verdes ou azuis, negros ou castanhos, enquanto crescia o murmúrio contido, cada vez mais tomando todo o espaço debaixo da estrutura vertiginosa.
O proêmio é a parte inicial de um poema épico. Como o próprio termo grego (προοίμιον) diz, “é o caminho adiante”. Trata-se de uma parte constituída de invocação e proposição, nem sempre nessa ordem e nem sempre possíveis de ser separadas. Na invocação, o poeta chama as Musas, inspiração que se encontra dentro dele, conforme o estabelecido por Hesíodo na Teogonia, de modo
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que as deusas possam ajudá-lo, com seu sopro divino renovado, a compor um grande canto em louvor aos heróis. Na proposição, sabe-se qual é o propósito do canto, a que herói o canto se destina e o que aquele herói deverá ter como objetivo de sua empreitada. Tudo isso de modo sucinto, visto que as ações ali propostas serão desenvolvidas minuciosamente na narração, a parte mais longa do poema. Assim, quem quiser saber como aconteceu e quais as consequências da ira de Aquiles (Ilíada), terá de percorrer quinze mil versos; sobre o retorno de Odisseus (Odisseia), mais treze mil versos; as lutas de Eneias (Eneida), outros dez mil versos; as viagens de Vasco da Gama (Os Lusíadas), quase nove mil versos.