Da senzala ao hotel de luxo, a feijoada e suas primas do outro lado do Atlântico
Numa panela cabe comida. Na feijoada cabem também migrações, escravidão, disputas de origem, lendas e cortes que passaram de baratos a caros. Cabe um país tentando explicar a si mesmo. Enquanto o feijão-preto cozinha devagar, séculos de história se misturam ao caldo.
Fiz as contas. Uns quinze cinemas fecharam as portas desde minha mudança para João Pessoa em 1961, ainda meninote, com uma falência familiar: a da Padaria que Seu Juca, meu pai, desativara um ano antes no Pilar da minha infância. Vi filmes em, ao menos, dez deles.
A filosofia de Johann Gottfried Herder (1744–1803) defende uma crítica significativa ao universalismo abstrato e à concepção de uma razão desvinculada das condições históricas e culturais da existência humana. Nesse sentido, ele rompe com determinados pressupostos do Iluminismo racionalista ao questionar a ideia de uma razão universal, abstrata e descontextualizada, inspirada na tradição cartesiana, que
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pretende impor-se de fora para dentro e desconsidera as particularidades históricas, culturais e linguísticas dos indivíduos e das comunidades. Embora reconheça a eficácia da razão instrumental e do método mecanicista na investigação dos fenômenos naturais, Herder rejeita sua utilização como paradigma exclusivo para a compreensão do ser humano. Reduzir a experiência humana a leis matemáticas e relações causais de natureza mecânica significa restringir a existência ao domínio do calculável, obscurecendo dimensões fundamentais da experiência, como a paixão, a imaginação, a memória, a linguagem e os afetos. A crítica herderiana não implica uma rejeição da razão ou da ciência, mas uma contestação à pretensão de reduzir a complexidade do humano aos modelos explicativos próprios das ciências naturais.
Existe uma diferença profunda entre considerar o outro e abandonar a si mesmo. A consideração nasce da empatia, do respeito e da capacidade de compreender que não somos os únicos habitantes do mundo. Já o abandono de si começa quando passamos a colocar constantemente a vontade alheia acima da nossa, não por escolha livre, mas por medo, culpa ou necessidade de aprovação.
A bem da verdade, eu ainda tenho algumas dificuldades para entender certos porquês da vida. Olho para o mundo ao meu redor e me pego constantemente tentando decifrar o motivo pelo qual as dificuldades parecem se distribuir de maneira tão desigual, sendo infinitamente mais severas para uns do que para outros. Compreendo perfeitamente as desigualdades sociais como fruto direto de um sistema econômico excludente e perverso. No entanto, o que realmente não consigo entender
Ou para que ninguém diga que não sou politicamente correto
* Episódio a mim relatado por Sebastião, técnico em engenharia hidráulica doméstica, especializado na condução de fluidos, desobstrução de dutos e controle de vazamentos em sistemas prediais.
Marcolino era um profissional abnegado, especialista em fracionamento anatômico de proteínas de origem animal, com ênfase em cortes comerciais e distribuição de derivados cárneos. Era um homem de grande estatura, o que o diferenciava de seu irmão, Dagoberto.
Na João Pessoa de outrora, onde galinhas campavam livres como se os paralelepípedos fossem capim e os quintais eram um luxo para poucos, vivia Balalaica. Não era uma cadela qualquer. Mestiça de perdigueiro, com um nome que evocava a melodia russa e um corpo malhado que parecia obra de arte abstrata, ela era a personificação da energia canina, com uma "pitada" de humor que só a vida real pode oferecer.
O temor da solidão tem levado muitas pessoas aos consultórios de psicólogos e psicanalistas. O medo de terminar a vida sem companhia, de envelhecer no esquecimento ou de morrer solitário. Esse pavor não se reduz ao isolamento físico momentâneo; é uma angústia existencial que assombra o sujeito mesmo quando ele está cercado de pessoas. A sociedade contemporânea, apesar do excesso de conexões digitais e redes sociais, parece ter agravado essa sensação de desamparo,
Arte: Gustave Courbet, 1843
criando uma fachada de hiperconvivência que esconde uma incapacidade de vinculação subjetiva autêntica.
A simples perspectiva de passar um final de semana sem compromissos sociais ou o pensamento sobre a velhice deflagram crises de ansiedade severas. Para esquivar-se desse pavor, muitos mantêm casamentos falidos, amizades tóxicas ou relacionamentos abusivos, preferindo suportar o mal-estar da má companhia a encarar o silêncio da própria presença. A solidão é vivenciada como uma punição, um atestado de fracasso pessoal ou uma confirmação de que o sujeito é desprovido de valor.
O ser humano nasce em um estado de extrema dependência do outro para sobreviver física e psiquicamente. Quando essa experiência não é adequadamente elaborada na infância, a solidão adulta evoca o fantasma do abandono primordial. A pessoa confunde estar só com ser abandonada. Além disso, a incapacidade de tolerar a solidão indica uma dificuldade de habitar o próprio mundo interno, como se permanecer a sós consigo mesmo significasse encontrar um vazio assustador ou fantasmas punitivos.
Arte: Gustave Courbet, 1856
Embora as influências do meio sejam reais, a psicanálise interpela o indivíduo sobre a sua própria posição e sobre a sua cumplicidade inconsciente na manutenção da situação dolorosa da qual se queixa. Interrogar-se sobre o próprio desejo e sobre as escolhas que o trouxeram até esse ponto é a condição indispensável para transformar a vida. Assim, o sintoma deixa de ser lido como uma mera anomalia a ser eliminada por técnicas de controle comportamental ou medicação e passa a ser entendido como um arranjo simbólico, uma mensagem cifrada do inconsciente que pede decifração e elaboração no espaço analítico.
Arte: Gustave Courbet, 1851
O processo analítico possibilita uma ressignificação profunda da experiência do estar só. Na transferência analítica, o paciente experimenta um espaço seguro onde pode desdobrar seus temores sem ser julgado ou abandonado. Gradativamente, a solidão deixa de ser percebida como um abismo aterrorizante e passa a ser conquistada a capacidade reflexiva de estar em sua própria companhia com serenidade. Ao integrar a realidade do desamparo estrutural sem desespero, o indivíduo deixa de usar os outros como escudos contra a ansiedade e torna-se capaz de estabelecer relacionamentos baseados no desejo genuíno e não no pânico do abandono.
Segundo Donald Winnicott (1958), no ensaio intitulado “A capacidade de estar só", a habilidade de sustentar a própria companhia não nasce do nada; exige um alicerce afetivo prévio: “Embora muitos tipos de experiências alimentem a capacidade de estar só, há um tipo fundamental sem o qual a capacidade de estar só não pode se formar: a experiência de estar só, como bebê ou criança pequena, na presença da mãe.” O temor à solidão muitas vezes reflete não a falta atual de pessoas, mas a ausência de uma presença interna suficientemente segura que torne o silêncio um lugar habitável.
Arte: Gustave Courbet, 1869
Guimarães Rosa escreveu que o silêncio somos nós mesmos, demasiadamente. A solidão pode representar o contato mais íntimo de um indivíduo consigo mesmo. O problema é ter de se encarar, lidar com o desconforto de se perceber inadequado e cobrar-se por uma adequação que talvez nunca chegue. Será que a “normalidade” é tão saudável quanto julgam sê-la? Fala-se muito em pertencimento devido à excessiva oferta de espaço, esses multiversos disseminados pelas mídias nos fragmentam tal qual a Guernica de Pablo Picasso. Nossas faces tortas, irreconhecíveis para nós mesmos gera espanto, intensificando a solidão. Pertencer-se, habitar-se, é o maior desafio para quem tropeça nos próprios passos e não trata as feridas.
Aquela noite da agonia derradeira, quando contemplei o rosto sereno de minha mãe na cama do hospital, segurando meu braço, ela murmurou com os lábios trêmulos “que Deus te abençoe”, e fui abençoado com a meiguice do seu olhar para o resto de minha vida.
Conheci o acadêmico João Batista nos anos 70, quando fazíamos Universidade, Curso de Letras. Fomos da mesma turma. Depois, fui sua aluna em Teoria da Literatura, achei bem difícil e tranquei a disciplina, atordoada. Anos depois, aí mais amadurecida e já na pós, estudei as disciplinas do Texto Poético e Teoria do Cinema. Como aprendi coisas nas aulas de João! Sem falar que até escrevi um texto para o seu livro, Leitura do Texto Poético – ensaios de (e para) a sala de aula. João Batista B. de Brito (Org.), Editora Universitária, 1997, analisando o poema de Vitória Lima, Men(t)ira. Um aprendizado de descobertas.
Com a derrocada da União Soviética e a queda do muro de Berlim, os jovens ficaram menos ligados em política. Fukuyama decretara o fim da História e, com ele, a falência das ideologias. Rótulos como esquerda e direita tinham saído da moda (embora alguns nostálgicos ainda os alardeassem), assim como parecia haver desaparecido a polarização simplista entre engajamento e alienação. Mas nas décadas de 1960 e 1970 era costume avaliar as pessoas em função de elas estarem em um ou outro desses polos.
Talvez exista dentro de você uma pessoa que há muito tempo não consegue mais sair. Não porque esteja presa em algum lugar, mas porque você a trancou atrás de uma porta que construiu para sobreviver.
O som que me circula
Me faz rodilha
E de mim também feito de som
Assimétrico aos meus limites, ele
É a ponte sobre o que eu era e a
Água corrente que me torno
E me despeço da pele
Deixando-a entre pedras
E musgos, como num leito de rio
Me esfacelo em lógica
Me ato em puro éter
E recebo o sentido do que se move
Por razões de força maior, não pude comparecer ao relançamento do livro A intertextualidade das formas simples, da professora Elizabeth Marinheiro, ocorrido há poucos dias em Campina Grande, para onde seguiu uma caravana de seus confrades e confreiras da Academia Paraibana de Letras, todos conscientes da relevância cultural do evento. Pois, de fato, não se tratava apenas de mais um lançamento de livro, mas de um momento muito especial em que, além de se trazer a público, mais uma vez, uma obra literária importante, comemorava-se o aniversário natalício da autora, figura
respeitadíssima não só da cultura paraibana, mas também da brasileira como um todo. Na verdade, era uma verdadeira e justa celebração da escritora e professora que tantos serviços prestou – e continua prestando – aos paraibanos e aos brasileiros, em sua área de atuação.