Existem livros que não pretendem simplesmente contar o mundo: pretendem observá-lo. A Mosca na Parede e outros textos — de crônicas a e...

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Existem livros que não pretendem simplesmente contar o mundo: pretendem observá-lo. A Mosca na Parede e outros textos — de crônicas a ensaiados ensaios pertence a essa linhagem. Seu ponto de partida é aparentemente modesto — a atenção ao cotidiano, aos pequenos acontecimentos, às figuras anônimas, às contradições da existência —, mas é justamente dessa aparente modéstia que nasce sua força literária.

Há pessoas que tratam a língua como se ela fosse um corpo rígido, vendo-a como o faria um professor de anatomia, diante de um cadáver...

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Há pessoas que tratam a língua como se ela fosse um corpo rígido, vendo-a como o faria um professor de anatomia, diante de um cadáver, interessado em identificar a seus alunos as suas partes constituintes. Ou como um legista, preocupado apenas com a autópsia. São pessoas que esquecem ser a mudança a lei natural da língua, porque lei do Universo.

Marineuma Oliveira (Bienal Internacional do Livro de São Paulo ⏤ setembro 2026) ▪️ Acervo pessoal"> Há substancial diferença e...

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Há substancial diferença entre ler e gostar de livros. Nem sempre quem os ama é um grande leitor, assim como nem todo leitor cultiva uma relação afetiva com esse objeto. Ler é mergulhar no texto, página a página, acompanhar as ideias do autor e dialogar com elas. Gostar de livros, por outro lado, envolve muito do que eles representam: o projeto gráfico impactante e inovador, o cheiro, a assinatura de um escritor consagrado, o fato de estarem entre os mais vendidos e até o prazer de possuí-los.

O que eu perguntaria pra Deus Se pudesse entrevistá-lo? Aí pensei: Que bobagem essa minha! Jamais poderia perguntá-lo. Alguém ...

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O que eu perguntaria pra Deus Se pudesse entrevistá-lo? Aí pensei: Que bobagem essa minha! Jamais poderia perguntá-lo. Alguém de grande importância Será que me deixaria questioná-lo? Um caderno com perguntas, E um lápis qualquer. Sentaria perto dEle, Quem sabe, ofereceria um café. Para o Dono dos meus dias E quem me mantém de pé.

Fala, camarada querido. Tudo bem, meu velho amigo irmão? Estou aqui no trânsito, avançando lentamente, sentindo-me em crise. Acabo ...

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Fala, camarada querido. Tudo bem, meu velho amigo irmão? Estou aqui no trânsito, avançando lentamente, sentindo-me em crise. Acabo de chegar à Mata do Buraquinho, sabe? Ao meu redor, essa multidão e toda essa tristeza, tolos bastardos PeTralhas e Bolzolóides. Que coisa feia de gentalha! E, pensando aqui na vida e nos filmes que eu vi, cara, como são necessárias as lembranças! Eu tava me lembrando agora de “Bastardos Inglórios”. Que título e que sacadas teve o Tarantino! Não sei se você lembra desse filme. Lembro a
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Cena de Bastardos Inglórios” (2009), dirigido por Quentin Tarantino ▪️ Fonte: UFSC
você: uma tropa de soldados, na Segunda Guerra, ia em busca de nazistas para matar e deixar alguns vivos com a marca da suástica nazista na testa. Um outro filme é viver o cotidiano aqui em João Pessoa. Como ainda é bom, mesmo com uma claque votando em candidatos processados por corrupção, numa narrativa notoriamente insana, trash, como um filme que vi há muito tempo. Tu te lembras de “Salò ou os 120 Dias de Sodoma” (1975), último filme de Pier Paolo Pasolini? É uma alegoria extrema e desesperada sobre o poder absoluto e a degradação do ser humano. Assemelha-se ao caso do ex-governador Ricardo Coutinho, denunciado e preso pelo GAECO, do Ministério Público, julgado e culpado pelo TJ-PB e com processo arquivado no STF. Avaliem e imaginem o quanto custou, quem pagou e qual escritório de advocacia de Brasília! Ele é um dos deputados a serem eleitos?!

Hoje escutei de um amigo uma crítica que fizeram sobre mim. Alguém que acredita me conhecer fez um comentário nada agradável. Já out...

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Hoje escutei de um amigo uma crítica que fizeram sobre mim. Alguém que acredita me conhecer fez um comentário nada agradável. Já outra me enviou uma mensagem agradecendo meu existir. Bem, ninguém conhece ninguém. Eu faço ideia de como as pessoas são a partir do que me é permitido saber. Vivo diuturnamente no processo de conhecimento sobre mim mesma. Sou, para diferentes pessoas, diferentes fragmentos. Tudo vai depender da perspectiva da qual me enxergam.

Que sorriso bonito o da pequena Rafaela. Ficou ainda mais fofo depois da brecha deixada pelo dente de leite espontaneamente caído e de...

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Que sorriso bonito o da pequena Rafaela. Ficou ainda mais fofo depois da brecha deixada pelo dente de leite espontaneamente caído e dedicado ao mourão com os dizeres: “Mourão, mourão, toma este dente podre e me dá um são”. Ao mourão, sim, pois símbolo de força e resistência bem fincado no terreno para o sustento das porteiras que

As tensões entre as interpretações jurídicas contemporâneas — especificamente no Brasil — destacam-se pela necessidade de adaptar a t...

ponderacao coerencia racionalidade direito principios discricionariedade
As tensões entre as interpretações jurídicas contemporâneas — especificamente no Brasil — destacam-se pela necessidade de adaptar a técnica da ponderação de princípios, impulsionada pelas contribuições do filósofo e jurista estadunidense Ronald Myles Dworkin (1931-2013) e do jurista e filósofo alemão Robert Alexy (1945-2026). Todavia, em contraste com o otimismo doutrinário, crescem as preocupações relativas ao uso abusivo dessa técnica, argumentando-se que a ponderação viabiliza um aumento excessivo da discricionariedade judicial, gerando prejuízos à segurança jurídica e
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à legitimação do Poder Judiciário. Para conter esses riscos, intensificou-se o esforço metodológico voltado a elevar a racionalidade da ponderação, cujas propostas se organizam em quatro tendências centrais: coerência, razão pública, decomposição analítica e predefinição de normas.

Estou aqui, arrumando a cabeça de meu pai neste caixão que colocaram de qualquer jeito no necrotério do hospital.

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Estou aqui, arrumando a cabeça de meu pai neste caixão que colocaram de qualquer jeito no necrotério do hospital.

A liberdade de expressão é um dos pilares fundamentais de qualquer sociedade democrática. Ela permite que indivíduos exprimam suas o...

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A liberdade de expressão é um dos pilares fundamentais de qualquer sociedade democrática. Ela permite que indivíduos exprimam suas opiniões, ideias e sentimentos sem medo de represálias. No entanto, essa liberdade não é absoluta e deve ser exercida com responsabilidade, respeito e empatia, especialmente em um contexto no qual as palavras podem ter

Poucas experiências intelectuais e afetivas são capazes de transformar tão radicalmente a nossa percepção da existência quanto o en...

pedro nava memorias
Poucas experiências intelectuais e afetivas são capazes de transformar tão radicalmente a nossa percepção da existência quanto o encontro fulgurante com a obra de Pedro Nava.

Ao romper a lacra do baú existencial em Baú de Ossos, o leitor não encontra apenas reminiscências de um tempo idos, mas é arremessado no centro de um furacão verbal de beleza assustadora.
pedro nava memorias
O autor opera uma autêntica ressurreição da memória, utilizando a precisão de sua formação médica combinada à sensibilidade transcendental de um poeta. Cada página resgata as ossadas de um Brasil ancestral, cobrindo-as com a carne pulsante e aquecida de uma linguagem refinada, na qual personagens familiares, casas centenárias e ruas esquecidas ganham uma vida quase espiritual diante de nossos olhos. Devorar este livro é aceitar um convite para uma paixão avassaladora e sem retorno.

A força magnetizante desta narrativa reside na virtuosidade com que Nava transfigura o cotidiano em mito, fazendo com que o som de passos em um assoalho antigo ou os sussurros nos corredores de Juiz de Fora e do Rio de Janeiro soem como acontecimentos de escala épica. O autor não narra apenas o seu passado; ele constrói uma catedral de sensações, onde os aromas, os objetos e as sombras de uma época ganham um relevo tridimensional que enreda o leitor da primeira à última linha, tornando impossível interromper a leitura, render-se a esta obra-prima é um privilégio raro e inesquecível.

pedro nava memorias
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Esta prosa aristocrática, marcada por uma sofisticação estilística hoje quase extinta, oferece um banquete estético de erudição e sensibilidade, no qual cada vocábulo desempenha um papel milimetricamente orquestrado. A profundidade com que os retratos psicológicos são traçados revela um observador genial da alma humana, transformando a memória individual em um grande espelho universal sobre o qual a nossa própria identidade é refletida e redescoberta com encantamento.

pedro nava memorias
Pedro Nava (1903–1984), médico, escritor e memorialista mineiro, nascido em Juiz de Fora. Sua produção literária ganhou destaque a partir de Baú de Ossos (1972), primeiro de uma série de livros de memórias em que entrelaçou lembranças pessoais, história familiar e observação da sociedade brasileira.
Ignorar esta leitura é privar a mente de um dos maiores tesouros já escritos, recomendar Baú de Ossos torna-se, portanto, um ato de devoção à arte suprema da escrita e uma urgência para qualquer um que deseje ser tocado pela beleza estética e pela emoção pura. Esse é o meu testemunho apaixonado de amor a uma obra monumental que nos transforma para sempre, garantindo que o leitor, ao fechar a última página, nunca mais olhe para o próprio passado com os mesmos olhos.

Eu confesso que, além de ter visto uma foto das estrelas numa revista velha, que guardei no armário de tralhas, também me motivei a es...

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Eu confesso que, além de ter visto uma foto das estrelas numa revista velha, que guardei no armário de tralhas, também me motivei a escrever sobre esse assunto vendo um post de um jovem fotógrafo profissional sobre Andrômeda, a galáxia que ele capturou nas suas lentes. Ele falava de uma forma tão entusiasmada e poética. A bela poética espiralada das galáxias irmanadas nos céus do universo interestelar.

Como já mencionamos algumas semanas atrás neste poderoso rotativo, Chico Palito é o mais célebre mentiroso de Santa Rita, cidade local...

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Como já mencionamos algumas semanas atrás neste poderoso rotativo, Chico Palito é o mais célebre mentiroso de Santa Rita, cidade localizada aqui nos limites da capital paraibana. Estou aqui, cometendo estes rabiscos, pois, em meu modesto entender, Chico Palito deveria ser alçado à condição de celebridade, tal sua criatividade, sua capacidade inventiva e a bossa de contar seus causos. Vamos, então, a mais três de suas fantasiosas narrativas.

Há palavras que usamos tanto que, de tão repetidas, quase deixam de nos provocar.

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Há palavras que usamos tanto que, de tão repetidas, quase deixam de nos provocar.

O amor frequentemente aparece envolto de ilusões românticas idealizadas pela cultura popular. Contudo, amar exige uma vulnerabilidade ...

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O amor frequentemente aparece envolto de ilusões românticas idealizadas pela cultura popular. Contudo, amar exige uma vulnerabilidade estrutural: implica expor a própria falta ao outro, renunciar ao controle onipotente e aceitar que o parceiro jamais preencherá totalmente as nossas lacunas existenciais. Não obstante, para muitos sujeitos, o ato de amar transforma-se em uma fonte incessante de angústia.

Mais de cinco décadas desde quando avistei pela primeira vez as esculturas de bronze em altos pedestais na Praça João Pessoa, ai...

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Mais de cinco décadas desde quando avistei pela primeira vez as esculturas de bronze em altos pedestais na Praça João Pessoa, ainda agora, ao passar pelo lugar, arrebatam-me as imagens refletidas de cada peça simetricamente esculpida. Eu olhava, mas não entendia aquelas estátuas.

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