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A Itália, por razões óbvias, sempre exerceu um imenso fascínio nos escritores e nos estrangeiros em geral. Sua história milenar, sua arte incomparável, seu clima, sua gastronomia, seus vinhos, enfim, seu patrimônio cultural inigualável explicam e justificam esse apreço universal pela terra de Dante e tantos outros. Pode-se dizer que todos os lugares na Itália, desde os menores lugarejos até as grandes cidades, valem a pena. Entretanto, creio que também é lícito afirmar-se que, do todo admirável, três urbes se destacam por sua presença marcante nas artes e, particularmente, na literatura: Roma, Florença e Veneza. Desta última, ocupar-me-ei brevemente a seguir, a partir de dois livros emblemáticos: Morte em Veneza, do alemão Thomas Mann, e Despedida em Veneza, do norte-americano Louis Begley.

Pó terra Era o desfarelar da terra envergonhada, desunida, desfalecida desmisturava-se em nada antítese de si mesma

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Pó terra
Era o desfarelar da terra envergonhada, desunida, desfalecida desmisturava-se em nada antítese de si mesma

Manaus sentada às margens do Rio Negro, respirando o ar da maior floresta do mundo e morrendo por falta de oxigênio. Acabaram os supriment...

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Manaus sentada às margens do Rio Negro, respirando o ar da maior floresta do mundo e morrendo por falta de oxigênio. Acabaram os suprimentos, remediados com urgência urgentíssima dos estoques vizinhos e dos que a cidade de São Paulo pôde mandar de avião. O intérprete da opinião da Globo, William Bonner, atinge o patético. Quatrocentas ou quinhentas pessoas estão pelos corredores sem ar e sem mais esperança de atendimento.

Desligo e corro à janela para ver um breu de céu e de terra que pouco ajudam, e volto a passar os canais. O livro novo de Ruy Castro, o Rio dos anos 1920, também pouco me ajuda. Depois tentarei explicar por quê.

E de canal em canal, caio numa sala moderníssima de onde vem um acorde não de todo desconhecido, do tempo em que “Seleções” lançava nas bancas os clássicos ligeiros. Carlos Romero, que estimulara o presidente Zé Leal a comprar radiola para a API, toma a si a tarefa de garantir fidelidade à coleção que começava por Tchaikovsky de O Lago dos Cisnes, justamente o que caía agora em minha fuga abafada de Manaus sem leitos nem oxigênio para os seus moribundos.

Mas não se tratava de concerto novo. Era a Sinfônica de S. Paulo, numa apresentação de dez ou onze anos atrás, com um novo maestro, francês, substituindo um brigão de nome difícil que, segundo João Carlos Martins, havia feito um belo trabalho, arranjando recursos que não foram dados, no seu tempo, ao grande Eleazar de Carvalho, nome que voltou a me lembrar a ousadia da Paraíba, bem antes disso, ao reingressar, com Burity no governo e Eleazar na batuta, nesse privilegiado mundo sinfônico.

O esforço que naquele tempo os paulistas tinham feito para conquistar a Sala São Paulo, um ambiente de concertos explodindo de rico e de novo, estimulados pelo trabalho do maestro anterior, não foi maior nem mais extraordinário do que se fez aqui entre 1980/82 , de modo a justificar a construção do Espaço Cultural, uma grandeza puxando a outra.

Nessa reprise, João Carlos Martins coloca a Osesp entre as cinqüenta melhores orquestras do mundo. Não ficava muito distante a orquestra da Paraíba, presente nos comentários especializados, admirada por músicos brasileiros e estrangeiros, com recitais gravados fora do país.

São Paulo, como não podia ser diferente, deu à reabertura de sua sinfônica o brilho de uma belíssima sala, tendo à frente do seu público o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, presidente da Fundação Osesp.
E viu-se o maestro voltar três vezes para os aplausos de pé de uma seleta platéia. Seleção que começava pelo ex-presidente.

Aqui o salto foi bem mais alto em termos de participação social. Tanto na composição dos músicos como do público a elitização cultural foi bem mais atenuada. Até porque a nossa elite cultural não dava público bastante para lotar um teatro completo. A Sinfônica de Burity mesclou de preto e de pobre tanto os que tocavam quanto os que ouviam. Cadeiras e degraus, palco e platéia tanto procediam da beira-mar de ouvido estilizado como da periferia de aparência mais vulgar. O grande coro formado para o final da 9ª. Sinfonia de Beethoven parecia um mostruário apoteótico de mestiçagem e de inclusão social.

Em certas horas isso ajuda.

Descendente de imigrantes italianos, ele nasceu em São Paulo, em 1924. Formou-se em Medicina pela USP, em 1947. No ano seguinte, foi para ...

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Descendente de imigrantes italianos, ele nasceu em São Paulo, em 1924. Formou-se em Medicina pela USP, em 1947. No ano seguinte, foi para os Estados Unidos, onde fez o doutorado em Zoologia na renomada Universidade de Harvard. De volta ao Brasil, vinculou-se ao Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), onde trabalhou pelo resto da sua vida, mesmo depois de ter se aposentado.

Quando injetava sangue novo em formas poéticas já debilitadas e conseguia soerguê-las sob uma nova aparência, Mario Quintana procedia com...

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Quando injetava sangue novo em formas poéticas já debilitadas e conseguia soerguê-las sob uma nova aparência, Mario Quintana procedia como um “construtivista”. E quase sempre procedeu como tal, já que possuía um temperamento oposto ao de Oswald de Andrade, cuja fama de “demolidor” fez história nos arraiais do modernismo e fora dele.

Há quem pense na Ilíada e na Odisseia apenas como poemas épicos, a enfocar as façanhas de Aquiles e dos Argivos, ou a mirabolante viagem ...

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Há quem pense na Ilíada e na Odisseia apenas como poemas épicos, a enfocar as façanhas de Aquiles e dos Argivos, ou a mirabolante viagem de Odisseu. Não resta dúvida de que essas narrativas seminais do mundo ocidental são grandes épicos. Mas se fossem apenas poemas destinados à exaltação dos feitos heroicos, teriam sido esquecidos, mortos no seu tempo. Ninguém mais falaria deles, até porque a Tragédia deu outro encaminhamento ao literário, a partir do século V a.C. Não esqueçamos, no entanto, que sem o épico não existiria o trágico, nem existiria o primeiro texto sistematizado sobre os gêneros literários – a Poética, de Aristóteles.

Saudade no peito, É como fogo de monturo. Por fora tudo perfeito, Por dentro fazendo furo. Patativa do Assaré

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Saudade no peito, É como fogo de monturo. Por fora tudo perfeito, Por dentro fazendo furo.
Patativa do Assaré

Quando não existia tv, nossa referência como programa noticioso era o Repórter Esso. Foi o primeiro noticiário do rádio jornalismo brasil...

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Quando não existia tv, nossa referência como programa noticioso era o Repórter Esso. Foi o primeiro noticiário do rádio jornalismo brasileiro. Era patrocinado por uma empresa norte-americana chamada Standard Oil Company of Brazil, conhecida como Esso. Seu slogan era: “o primeiro a dar as últimas e testemunha ocular da História”. Sua primeira transmissão aconteceu pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, em 1941, fazendo a cobertura da Segunda Guerra Mundial. A proposta era exatamente fazer para nós brasileiros a propaganda daquele conflito bélico em favor dos Estados Unidos. Sua última apresentação ocorreu em 1968.

Ontem arrumei um dos armários. Sabe aquele que fica no outro quarto e você vai protelando a arrumação? Pois é. Peguei firme e fui olhando ...

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Ontem arrumei um dos armários. Sabe aquele que fica no outro quarto e você vai protelando a arrumação? Pois é. Peguei firme e fui olhando cada lençol, cada fronha, cada toalha de banho. Por mais que eu seja prática, ainda assim, há um excesso que fui eliminando para que seguissem outro destino.

Para José, Raony, Cristian, Jean, Fábio, Ivanildo e Kenilma Éramos oito. Oito rumo às quedas d'água, rumo à Natureza que rest...

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Para José, Raony, Cristian, Jean, Fábio, Ivanildo e Kenilma

Éramos oito. Oito rumo às quedas d'água, rumo à Natureza que restaura corpos e sonhos.

Naquele lugar tudo era plenitude e força. As águas mansas dos córregos e riachos se avolumavam num rio, mas ainda de corredeira lenta. As águas brotavam do solo, nas nascentes, quase como se eclodissem das raízes das árvores que margeavam o rio. Suas copas se fechavam em dossel, protegendo o rio dos raios solares e deixando assim as águas frias, aquelas águas deslizantes, rolando ladeira abaixo.

Atualmente, Henrique VIII é mais conhecido por ter tido seis mulheres. Para sua geração, ele foi principalmente memorável, nas palavras d...

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Atualmente, Henrique VIII é mais conhecido por ter tido seis mulheres. Para sua geração, ele foi principalmente memorável, nas palavras do cronista Edward Hill, como a “flor indiscutível e herdeiro” das “duas famílias nobres e ilustres de Lancaster e York”, que estiveram “por muito tempo em dissensão contínua pelos coroados deste nobre reino”. Essas duas razões aparentemente distintas para lembrar Henrique, estão na verdade intimamente ligadas, pois uma das forças que impeliram o rei em suas crises matrimoniais anteriores foi a urgência com que ele sentia a necessidade, em prol da paz e segurança de seu reino, ter um filho para ser seu herdeiro indubitável.

No in...

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No intercâmbio com os outros, é próprio do ser humano argumentar. Argumentamos desde pequenos – desde que temos a incipiente consciência de que é preciso fazer as pessoas aderirem à nossa verdade.

Recordações, para Lucas e Daniel Ô menino, vá já guardar suas roupas! Será possível?! E esses brinquedos espalhados pelo chão... d...

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Recordações, para Lucas e Daniel

Ô menino, vá já guardar suas roupas! Será possível?!
E esses brinquedos espalhados pelo chão... de quem são? Hoje é dia de mandar a roupa pra lavar — custa botar no cesto? Cuecas aqui, toalhas acolá... Custa tirar o prato da mesa? Custa tirar o sapato sujo antes de entrar em casa?

Vejam que encadeamento interessante, no qual surpreendentemente se entrelaçam diversas manifestações do imaginário, nascidas umas das outr...

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Vejam que encadeamento interessante, no qual surpreendentemente se entrelaçam diversas manifestações do imaginário, nascidas umas das outras e ungidas com o néctar da inspiração criativa.

Na metade do século 17, durante a revolução inglesa que conseguiu combater o absolutismo estatal, reestruturar a política do país com adoção da monarquia parlamentarista que perdura até hoje, um grupo idealista protestante se destacou conhecido como “Os Puritanos”. De origem calvinista, eles combatiam a igreja romana, o poder real e rivalizavam com “Os Cavaleiros”, defensores do rei Carlos I, como protagonistas da guerra civil durante vários anos.

Este significativo e turbulento período exerceu influência em escritores como o poeta e dramaturgo escocês Walter Scott, nascido em Edimburgo no século seguinte, considerado o criador do gênero “romance histórico”. Entre os seus mais apreciados livros, está “Old Mortality”, que faz parte da série “Contos do meu senhorio” (Tales of my Landlord), dramatizado exatamente na guerra civil inglesa. Curiosamente, Scott influenciou músicos como Franz Schubert e Beethoven. O lied de Schubert, “Ellens dritter Gesang”, que se popularizou como uma “Ave Maria” católica, foi, na verdade, baseado em seu poema “A Dama do Lago” (Fräulein vom See), que forma parte do “Ciclo de Canções” do compositor austríaco. Já Beethoven utilizou poemas de Walter Scott em três de suas “25 Canções Escocesas, opus 108”.

O período revolucionário inglês influenciou o romancista escocês e contagiou dois grandes músicos. Há outros personagem, um ilustre compositor italiano, que foi mais além nesta história: Vincenzo Bellini.

No verão de 1833, dois anos antes de sua morte, Bellini se dirigiu a Paris para tentar conseguir a estreia de sua nova ópera, “Os Puritanos”, no cobiçado palco da Ópera de Paris. Além disso, duas de suas onze óperas – “Os Piratas” e “Montecchios e Capuletos” seriam encenadas naquela temporada de libretos italianos da “Opéra Comique”.
Somente no ano seguinte, Bellini se decidiu pela melhor oferta, do “Théâtre-Italien”, em valor superior à do Garnier e a obra estreou com retumbante sucesso em Janeiro de 1835. Dez meses depois, Bellini desencarna, ainda sob a formidável repercussão de “Os Puritanos”, que, com “Norma”, “A Sonâmbula”, “Os Piratas” e “Montecchios e Capuletos” figura entre as óperas italianas mais apresentadas pelo mundo até hoje.

Como se vê, o triunfante drama lírico também guarda ligações com a guerra civil inglesa e com o escritor Walter Scott, mencionados inicialmente.

O libreto encomendado por Bellini para “Os Puritanos” foi escrito por dois dramaturgos franceses, Jacques-François Ancelot e Joseph Xavier Saintine, inspirado na peça de teatro histórico “Cabeças Redondas e Cavaleiros” (Têtes Rondes et Cavaliers), cuja première aconteceu no Palais Royal de Paris, logo após “aquele” verão de 1833. O título se refere exatamente aos dois grupos que se opuseram na revolução inglesa: Os Cavaleiros, que defendiam o trono, e os Cabeças Redondas, contra o absolutismo estatal, assim chamados por causa do corte de cabelo curto, em contraponto às longas cabeleiras do lado oponente. A ópera, no entanto, é dramatizada em um cenário de dor e frustração amorosa em consequência dos horrores causados pelas guerras, civis ou militares, tema muito abordado historicamente na dramaturgia, seja no teatro, na literatura ou no canto lírico.


A primeira exibição se constituiu num grande acontecimento. Sua concepção em estilo de “Grand Opéra”, com orquestração ao nível do peso dramático do enredo e da riqueza melódica a exigir talentosa capacidade técnica dos cantores, deixaram o ambiente musical parisiense em êxtase durante muito tempo.

Dentro deste contexto de bravura e heroísmo, o enredo reserva aos puritanos um lugar de realce pelos ideais legítimos de justiça e liberdade. A eles Bellini dedica a triunfal marcha “Soe a trombeta sem medo” (Suoni la tromba e intrepido), um dueto em allegro fervoroso que instiga a lutas populares pela conquistas sociais e finaliza o 2º ato da ópera, sempre seguido de esfuziantes aplausos:

“Suoni la tromba, e intrepido Io pugnerò da forte; Bello è affrontar la morte Gridando: libertà!”
“Soe a trombeta, sem medo Eu esmurrarei com força Belo é afrontar a morte Gritando à liberdade”

Este entusiasmado duo de contrabaixo e barítono emociona plateias desde sua estreia em Paris, quiçá por exaltar a libertação de um povo explorado. É quase invariavelmente o trecho mais empolgante do drama.

Em meados do século 19, uma escritora italiana, princesa, jornalista, feminista, amante da música clássica, chamada Cristina Belgiojoso, distinguiu-se acima da nobreza de seu título pelos méritos de coragem e heroicidade.
Herdeira de uma fortuna considerável, após um rápido e fracassado casamento foi exilada do país em consequência do ativismo político na defesa da libertação da Áustria e se refugiou em Paris, sem poder usufruir do patrimônio. Mesmo assim, consegue sobreviver, constrói amizades importantes com os poetas Alfred De Musset, Heinrich Heine, o historiador François Mignet, o compositor Franz Liszt e cria um dos badalados salões literomusicais da capital francesa.

Após ter acesso à herança, foi assediada a empreender pela independência da Itália e por um mundo melhor. O ambiente em torno de si enriqueceu-se de boas relações, não apenas com os revolucionários Vincenzo Gioberti , Niccolò Tommaseo e Camillo Cavour, mas com intelectuais e artistas a exemplo de Tocqueville, Balzac, Victor Hugo, Augustin Thierry e François Mignet, todos importantes e influentes em sua vida.

Apaixonada por música, não podiam faltar recitais e concertos em sua bem frequentada sala no bairro de Montparnasse, que se prolongavam até tarde. Numa noite da primavera de1837, a princesa Cristina promoveu um célebre duelo pianístico entre Liszt e Thalberg para que a plateia apontasse quem era o melhor pianista. Os convidados conferiram-lhe a decisão, que ela inteligentemente anunciou: “Thalberg é o maior pianista, mas, como Liszt não existe”. Um diplomática saída. Apesar da crítica ter sempre considerado Liszt o mais virtuoso pianista da história até os dias atuais.


Certas lendas, possivelmente verdadeiras, contam que Liszt foi tão ovacionado pela capacidade técnica de compor e interpretar, além de ser portador de elegância e beleza física, que teria levado a alterar a tradicional posição de tocar de costas para o público”, como se apresentavam os pianistas da época, passando a se colocar de perfil. Contam também que Chopin admirava tanto o seu virtuosismo que confessava certa “inveja” ao escutá-lo executando suas peças, sobretudo quando já se encontrava com a saúde debilitada por conta da tuberculose.

As apresentações de Liszt no já comentado salão da princesa Belgiojoso tornaram-se disputadas. Todos queriam ver o “Paganini do piano” dedilhar com técnica e aptidão humana nunca vistas. E ele soube explorar bem a espantosa habilidade para compor, executar e transcrever para o piano como nenhum outro pianista da história. Sem falar na notável capacidade de orquestração demonstrada, por exemplo, em seus treze magníficos poemas sinfônicos.
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Transcreveu as 9 sinfonias de Beethoven para o piano, além de várias paráfrases, árias, aberturas e temas de óperas de outros compositores. Os seus dificílimos “12 Estudos de Execução Transcendental” levaram o pianista chileno Cláudio Arrau a dizer publicamente: “não houve e nem haverá humano capaz de executá-los como Liszt”. A Sonata Dante (“Après une lecture de Dante”) e a Sonata em Si menor estão classificadas entre as mais complexas e difíceis obras pianísticas.

As afinidades com as ideias socialistas do filósofo francês, Conde Saint-Simon, em defesa das classes operárias, que muito influenciavam a sociedade parisiense àquela época, atraíram Liszt para a ópera “I Puritani” ao ponto de compor duas produções inspiradas na primorosa partitura de Belinni, que estiveram presentes no seu repertório até o fim.

A primeira, “Réminiscences des Puritains”, uma "Grande Fantasia" fundamentada no respectivo drama,  logrou sucesso imediato e foi expressamente dedicada à princesa Cristina de Belgiojoso. Logo depois, a alteza lhe sugeriu criar outra peça baseada na mesma ópera para um concerto em benefício da comunidade carente das redondezas, em 1837. A ideia era convidar mais 5 compositores para contribuir, cada um com sua parte, na concepção do que se chamaria “Hexaméron”, um “Morceaux de Concerto” (peça de concerto) exatamente com transcrições da “Marcha dos Puritanos” (Suoni la tromba) para o piano.

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Inicialmente, Liszt imaginou-a para orquestra e dois pianos, depois a concebeu para piano solo. Mas, infelizmente, não foi possível concluí-la em tempo hábil para o evento filantrópico e Hexaméron, consagrado como epítome virtuoso do romantismo, igualmente dedicado à princesa Cristina, teve o seu honroso lugar na história da Música de outras maneiras. Para a criação destas 6 heróicas variações sobre o tema da marcha, célebres músicos de seu tempo, Sigismond Thalberg, Johann Peter Pixis, Henri Herz, Carl Czerny e Frédéric Chopin aceitaram o desafiador e ousado convite. Liszt escreveu a introdução, a primeira apresentação do tema, a 2ª variação (a 1ª é de Thalberg), o final e mais 3 interlúdios que ligam as demais partes conferindo unidade ao hexâmero. Terminou se apaixonando pela ideia, à qual acrescentou duas versões para dois pianos e mais uma para piano e orquestra. Outras formas surgiram ao longo de quase 2 séculos, incluindo uma composta por 6 pianistas da atualidade, que estreou em 2010, no Festival da American Liszt Society, em Nebraska.


Na concepção original, cada partícipe desta inusitada criação imprimiu sua personalidade. Ainda que imaginado por Liszt com perfil de concerto, o Hexaméron é estruturado no estilo “Tema com Variações”, uma forma muito diversificada e utilizada por compositores de todas as eras como Bach, Haendel, Mozart, Haydn, Beethoven, Chopin, Tchaikovsky, César Franck, Mendelssohn; Brahms, Poulenc, Schubert, Schumann, Glazunov, Rossini, Paganini, Richard Strauss, Elgar, Scriabin, e tantos outros que reconstruíram sua personalidade sobre temas e melodias alheias.

Neste exemplo tão especial, o espírito é o mesmo, porém substancialmente reforçado pela admirável criatividade com que os artistas do talentoso “sexteto” se abraçaram em total sintonia, incentivados pela nobre princesa. A sequência em que eles aparecem com suas variações, sem considerar o “regente” da ideia, e Bellini, autor da marcha operística que o originou, é a seguinte:


1º / Franz Liszt (1811-1886) 2º / Sigismond Thalberg (1812—1871) 3º / Johann Peter Pixis – (1788-1874) 4º / Henri Herz (1803-1888) 5º / Carl Czerny (1791-1857) 6º / Frederic Chopin (1810-1849)

A introdução , claro, coube a Liszt, que constrói um solene portal de entrada, com células de colcheias e semicolcheias sincopadas, anunciando o que pretende e já exibe, por entre o suspense dos graves trinados, pequenos fragmentos do tema principal, sem mostrá-lo por inteiro. Em seguida, doce e delicadamente, descortina-o com a força de sua personalidade virtuosística, quando procede à primeira exibição da marcha com merecida pompa.

A primeira variação é cedida a Thalberg, que se posta em merecido nível pianístico, muito próximo do perfil lisztiano. Embora curta, menos de um minuto é suficiente para emoldurar o tema com bonitos e complexos arroubos cromáticos.

A segunda variação é de Liszt, que bem reflete o carinho com que se esmerou nesta realização. A melodia oscila e passeia por incrível habilidade em que ele imerge completo. Ecoam rapsódias, paráfrases, concertos, sonatas, com as quais impressiona o mundo até hoje na sua insuperável pirotecnia de composição e interpretação.

Sucede-se de imediato a terceira, de Johann Pixis, que contempla certa polifonia, com vozes se entrelaçando alegremente entre uma mão e outra, em graves e agudos, ornada com repetição de acordes, melodia em oitavas, trinados de terças e ritmos contagiantes. Ao final, se conecta ao primeiro interlúdio, com que Liszt arremata-a em apenas 20 segundos, criando um elo de ligação à próxima parte, de Henri Herz. É quando Herz transfere todo o tema da marcha para a mão esquerda, enquanto a direita se estende em profusa guirlanda de escalas ornamentais, muito bem entrosadas à melodia que se entoa nos graves. Chega, então, o privilegiado aluno de Beethoven e professor Carl Czerny, grande sinfonista, concertista, dedicado aos métodos para ensino do piano por meio de belas peças de caráter tecnodidático, que integram programas de escolas de música até hoje. E o Czerny do Hexaméron honra sua participação demonstrando que é realmente um mestre da música para teclado.

Surge Liszt com mais um opulento interlúdio, o segundo, que prepara com nítida reverência a última variação: a de Chopin! Após o triunfal prenúncio, com as células que esculpiu o portal do início, Liszt vai calmamente se retirando de cena, deixando a suavidade chopiniana se aproximar.

Ouve-se então a delicadeza inconfundível do amigo, talvez o mais próximo de si, no espírito e admiração mútua: Chopin (!), que desfila genuinamente burilado em singularíssima participação. Um deleitoso momento, este sublime epílogo do triunfante “sexteto”.
Liszt parece infundir profundo respeito à variação de Chopin, sequenciando-a com o último interlúdio, que flui com refinada sonoridade.

Mas o universo de delicadas filigranas dura pouco. Chega o estupendo “Finale” com toda autenticidade de Liszt, em que a Marcha dos Puritanos é ovacionada no merecido e radiante coroamento. A aclamação e frequência com que uma marcha tão curta, construída com melodia simples, é acolhida até hoje intrigam estudiosos e admiradores da Música. A maioria lhe atribui popularidade associando-a aos ideais de justiça e cantos de liberdade de todo o mundo ocidental, pois pôde ser entoada com o mesmo ardor tanto em um bistrô dos Pirineus, numa taberna da periferia de Madrid, em recitais para renomada aristocracia nos salões palacianos ou em concertos de gala para a nobreza real. Sobretudo sendo a ópera “Os Puritanos”, estruturada em uma história de amor vivida sob a guerra, suas terríveis consequências, inspirada em aventuras bélicas, ao estilo dos romances históricos de um escritor escocês, com libreto de autores franceses e escrita para o público parisiense.

Sem dúvida, uma inteligente e requintada escolha de Vincenzo Bellini, imortalizada por sua beleza, revivida por meio de um pequeno trecho — uma marcha de apenas 24 compassos —, recriada por 6 ilustres pianistas unidos pelo elo mágico de um precioso rosário com estreitos laços entre música, história, drama e literatura.

A obra de Émile Zola, Les Rougon-Macquart, é mais do que uma série de romances sobre a família que lhe serve de título. Trata-se, na real...

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A obra de Émile Zola, Les Rougon-Macquart, é mais do que uma série de romances sobre a família que lhe serve de título. Trata-se, na realidade, de um painel, em 20 títulos, sobre a sociedade francesa do alvorecer ao final do segundo império (1851-1870). Seguindo a doutrina naturalista de que é o maior nome, esse escritor francês já nos fornece uma boa síntese dessa sociedade em três romances, La Curée (1872), L’Assommoir (1877) e Pot-Bouille (1882). Curiosamente, são romances cujos títulos são de difícil tradução para a língua portuguesa. Ainda que se traduza L’Assommoir por A Taberna, a narrativa diz mais do que o nome do bar do Père Colombe.
Ela se refere ao sentido de jogar alguém no abatimento, de matar com um golpe violento, de destruir, concepção que se encontra no verbo assommer. E isso é o que acontece com a maioria dos personagens, envoltos em uma vida miserável, deixando-se consumir pelos vícios, dentre eles o álcool. Nesse sentido, Gervaise Lantier, a personagem central, é emblemática. Dos outros dois romances, desconheço – é possível que haja – tradução em língua portuguesa.

Flávio Ramalho de Brito envia-me crônica de 45 anos atrás, lembrança do que senti com a morte de Raiff Ramalho, seu tio, que faria 100 nes...

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Flávio Ramalho de Brito envia-me crônica de 45 anos atrás, lembrança do que senti com a morte de Raiff Ramalho, seu tio, que faria 100 nesse 10 de janeiro. Por Raiff e por mim mesmo, peço ao leitor aceitá-la como matéria de hoje, com o mínimo de supressões: