Existe uma forma de desaparecer sem sair do lugar. Acontece quando continuamos caminhando pelas ruas, frequentando os mesmos cafés, cumprimentando conhecidos e participando das conversas. Mas, de alguma maneira, deixamos de ser percebidos. Estamos presentes e não somos notados. Somos lembrados para algumas coisas, mas raramente desejados para outras.
É linha da vida que se abre cheia de tracinhos salteados, ora sem interrupções. A velocidade une os intervalos do asfalto, do concreto. As imperfeições somem; agora tudo é apenas uma sequência perfeita. À frente, novas curvas, quebra-molas, buracos, cidades e destinos. Pelo retrovisor, é só uma olhadela rápida no passado, uma conferida, talvez uma cautela necessária para avaliar a rota, os marcadores, os atos do roteiro.
O mais produtivo dos nossos autores aldeãos lançou recentemente mais duas produções: Sarafim, Reino Encantado e Nunca mais quero tudo, ambos com o selo da Ideia Editora, sinônimo de qualidade. Os livros têm pouco mais de cem páginas cada um, como costumam ser as reuniões de poemas, mas diferenciam-se em alguns aspectos.
Entre o final da década de 1990 e os primeiros anos do século XXI, eu costumava frequentar, em Campina Grande, o Encontro para a Nova Consciência, uma iniciativa que demonstrava ser possível aproveitar o Carnaval para alguma coisa além de ressacas, confissões constrangidas e promessas de abandonar a bebida na quarta-feira de cinzas.
O artigo Tendências do pensamento brasileiro, do filósofo e professor Octavio Ianni (1926–2004), foi publicado em novembro de 2000, na revista Tempo Social (v. 12, n. 2, p. 55–74), da Universidade de São Paulo (USP). O texto apresenta um panorama analítico da tradição intelectual dedicada à formação social, política e econômica do Brasil. A tese central de Ianni é que o Brasil se distingue por ser um país que “se pensa contínua e periodicamente”, sobretudo em conjunturas críticas ou em momentos de ruptura histórica. Para o autor, o conjunto de interpretações nacionais e estrangeiras constitui tanto um esforço sociológico de explicação das forças sociais quanto uma complexa narrativa ficcional e metanarrativa produtora de significados sobre a identidade nacional.
Não sei se melhor seria envelhecer por igual, física e mentalmente — o descenso em harmonia com o corpo e a mente —, ou ter o juízo a andar sem obediência ao fôlego e à disposição das pernas e dos pés.
... no Grande Teatro do Mundo... ficaria muito longo o título, se bem que "perfeito". Coloco aspas, porque seria muita ousadia chamar um título de "perfeito". Na Espanha, sempre entrevisto ou encontro um fantástico professor, que me traz à mente a seguinte brincadeira: ao me apresentar pela primeira vez, eu teria dito "Olá, sou Denise", e ele responderia "Sou Perfeito" (note-se a letra maiúscula). Ao que pensaríamos: "ninguém na Terra é perfeito", mas ele é! Se chama Perfecto! Que interessante nome!
Existem livros que não se limitam a contar uma história: eles reabrem uma porta que o tempo julgava definitivamente fechada. Sarafim, Reino Encantado, de Hildeberto Barbosa Filho, pertence a essa espécie rara de obra em que literatura, memória, paisagem e existência se encontram numa mesma corrente subterrânea. O Sarafim não é apenas um lugar geográfico da infância do autor.
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É, sobretudo, um território interior, uma espécie de pátria íntima onde permanecem vivos os seres, os animais, os afetos, as paisagens e as primeiras descobertas que constituíram o homem antes que o homem se tornasse escritor.
A deusa Palas Atenas chega a Ítaca, para anunciar o retorno próximo de Odisseus, conforme se decidiu no Concílio dos Deuses, presidido por Zeus, no Olimpo (Odisseia, Canto I, versos 19-104). Telêmaco a recebe, sem saber que, sob a forma de Mentes, rei dos Táfios (εἰδομένη ξείνῳ, Ταφίων ἡγήτορι Μέντῃ, verso 105), se encontra a deusa de olhos glaucos. Após a recepção do estrangeiro, de acordo com o que prescreve a Lei da Hospitalidade, Mentes/Atena se apresenta como antigo amigo de Odisseus, que se orgulha de uma hospedagem recíproca de longa data (ξεῖνοι δ’ ἀλλήλων πατρώιοι εὐχόμεθ’ εἶναι ἐχ ἀρχής, versos 187-188).
Costumo ligar o televisor à procura de assuntos quase sempre ausentes da programação diária das emissoras nossas de cada dia, essas de canal aberto. O progresso tecnológico propicia isso: a navegação pelas ondas da Internet tendo-se como veículo uma smart tv, a “televisão inteligente” equipada com sistema operacional de conectividade de rede, via wi-fi. Quando essa inteligência eletrônica suplanta a minha, o que não raramente acontece, socorrem-me os filhos, ou o neto.
O tempo não é apenas aquilo que o relógio mede. É também a maneira como a vida se revela: às vezes depressa, às vezes devagar, quase sempre fora do ritmo que gostaríamos de impor a ela. Há momentos em que parece abrir caminhos diante de nós e outros em que nos mantém diante de uma porta fechada. Nesses intervalos, surge uma pergunta antiga:
AUTOSSABOTAGEM
A marcha da insensatez
Apresenta seus adeptos:
São pessoas ressentidas,
De autoestima dividida
E estranhos intelectos;
Aderem ao autoboicote
Com prontidão nunca vista;
Gays elegem homofóbicos,
Negros escolhem racistas,
Elas votam em misóginos,
Júnior Dalberto, o homem que continua falando pelos livros
Há pessoas que passam pela nossa vida e deixam lembranças; outras deixam livros. E existem aquelas raras, raras como Júnior Dalberto, que deixam os dois. Quando penso nele, torna-se impossível separar o escritor do amigo ou a literatura do homem, talvez porque,
Pode parecer estranho juntar num mesmo texto criaturas que nem parecidas são. Mas a culpa é de um ilustre cidadão de minha convivência; digo, amigo desde priscas eras que, em seus encontros etílicos pelos bares de nossa Filipeia, andou reclamando que um atrevido Rupornis magnirostris andou devorando um Serinus canaria do plantel
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deste meu indignado camarada. Em outras palavras, um gavião-carijó devorou seu canarinho cantador, deixando este meu amigo pê da vida. O pior é que ele ainda viu o assassino pegando o beco enquanto, muito satisfeito, batia as asas, lambendo os beiços — ou melhor, o bico — de tanta satisfação. No viveiro, só penas e um pouco de sangue, pois até as perninhas do pobrezinho o rapinante devorou.