Outro dia passei um longo período da tarde procurando uma caderneta antiga com anotações feitas não sei quando, mas que considerava úteis para a composição de um texto que haviam me pedido. Não sei se era um texto publicitário ou uma nota de recordações literárias. Lembrava que a cadernetinha tinha a capa preta, plastificada; deveria estar bem surrada devido ao tanto tempo guardada. Nem com essa identificação conseguia avistá-la por entre as pilhas de papéis e livros desarrumados nas prateleiras da biblioteca.
Gosto da espontaneidade e da alegria dos blocos carnavalescos. Para sair neles, ninguém precisa usar fantasias caras nem obedecer a rigorosos esquemas coreográficos. Blocos como o “Cordão da Bola Preta” ou o “Galo da Madrugada” (para citar dois dos mais famosos) mostram que a coreografia é um “empurra-empurra” balanceado ao qual se associa o coro de marchinhas que atravessam gerações.
Há um aquário dentro de meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo.
Sou fascinado por cheiros; além de tudo, alucino-me por essências. “Árvores são fáceis de achar: ficam coladas no chão”, como bem disse Arnaldo Antunes. Dias atrás tive uma felicidade rara: ver uma árvore abrindo, com solenidade discreta, o filme Hamnet e perceber que ela não entrava em cena sozinha. Entrava a natureza inteira, dançando sem coreógrafo, sorrindo com os lábios e, ainda assim, convincente.
Talento é hereditário? Nem sempre. Para falar a verdade, creio que só raramente. Temos visto muitos descendentes de gente talentosa que não dá para nada - ou quase isso. E talvez seja melhor assim, pois seria muito chato já saber de antemão que o filho de Einstein seria uma cópia do pai. Bom mesmo é a loteria do destino que torna tudo incerto e a todos nós mais ou menos humildes, diante das incertezas da vida. Pai ou mãe geniais, filhos nem tanto. Que os ventos do talento soprem em qualquer lugar, nos palácios e nas favelas, e que os dons não deixem nunca de florescer por falta de recursos e oportunidades.
É possível traçar um pequeno mapa universal dos amores inviáveis, atravessando culturas, épocas e religiões. Perto de onde morei, quando vivia na Espanha, havia a lenda dos Amantes de Teruel.
Levaram a estátua, desta vez o busto de Antônio Pessoa. Vim notar neste fim de semana, ao sair da lotérica com o olhar na direção de uma velha minha conhecida, a antiga casa de Wills Leal, quando jovem, morando com os pais.
Antônio Joaquim Pereira da Silva, ou simplesmente Pereira da Silva, foi um importante poeta, jornalista e intelectual paraibano, que alcançou a glória da imortalidade na Academia Brasileira de Letras em 1933. Teve, ao correr da vida, sete publicações, a saber: Vae Soli (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O Pó das Sandálias (1923), Senhora da Melancolia (1928) e Alta Noite (1940), tendo deixado obras inéditas Intranquilidade; Meus Irmãos, os Poetas; Os Milagres de Cristo; e Os Homens de Deus.
Taitale pensava em realizar o maior feito que suas mãos haviam produzido, mas antes, precisaria de algum tempo para concluir seu projeto em Baía da Traição. Firmou um acordo com o Coronel: a edificação do Curral-Labirinto somente começaria quando Alceu retornasse em definitivo da Europa. Não seria obra a ser construída às pressas. Nem mesmo seria um trabalho para uma safra. Depois de traçado o “Mapa do Labirinto”, seria preciso o braço forte de cada vaqueiro disponível, além da presença do veterinário
A poesia de Augusto dos Anjos ocupa um lugar singular - e até hoje desconcertante - no panorama da literatura brasileira. Publicado em 1912, o Eu permanece como um corpo estranho no cânone: um livro que parece destoar de seu tempo, mas que, paradoxalmente, o atravessa com uma lucidez brutal. Nele, a poesia deixa de ser refúgio estético ou exaltação lírica para se tornar campo de investigação ontológica, laboratório verbal onde se examinam, sem anestesia, a matéria, a morte, a consciência e a falência do sentido. Ler Augusto dos Anjos é, antes de tudo, enfrentar uma filosofia em versos.
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Desde o primeiro contato, percebe-se que sua poesia não se limita a tematizar questões filosóficas; ela pensa poeticamente. O poeta não usa a filosofia como ornamento cultural, mas como nervo estrutural de sua linguagem. Seu verso é atravessado por um materialismo radical, de feição científica, que dialoga com o positivismo, o evolucionismo darwinista e o determinismo do final do século XIX. No entanto, essa matriz científica não se traduz em otimismo progressista. Ao contrário: em Augusto dos Anjos, a ciência não redime; ela aprofunda o abismo.
A matéria, em sua poesia, é o princípio e o fim de tudo. O homem não é alma em trânsito para o absoluto, mas carne degradável, soma de átomos, proteínas e vermes em potência. O famoso verso - “A mão que afaga é a mesma que apedreja” - sintetiza essa visão trágica da condição humana: não há elevação moral garantida, pois o sujeito está submetido às mesmas leis físico-químicas que regem a decomposição dos cadáveres. Aqui, a filosofia que se insinua é um materialismo pessimista, próximo, em espírito, ao de Schopenhauer, embora filtrado por uma linguagem científica e por uma sensibilidade profundamente nordestina.
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A morte, em Augusto dos Anjos, não é evento metafísico, mas processo biológico. Ela começa antes do último suspiro, infiltrando-se na vida como entropia, desgaste, corrosão. O poeta dissolve a fronteira entre o vivo e o morto: o homem é, desde sempre, um cadáver em preparação. Essa concepção rompe com a tradição romântica da morte sublime e também com o simbolismo espiritualizante de seus contemporâneos. O que resta é uma ontologia da ruína, na qual existir equivale a apodrecer lentamente.
No entanto - e aqui reside a complexidade filosófica de sua obra -, esse materialismo não elimina a angústia metafísica. Pelo contrário, ele a intensifica. Se tudo é matéria, por que a consciência sofre? Se o homem é apenas um arranjo provisório de moléculas, de onde nasce a dor moral, a culpa, o desespero? A poesia de Augusto dos Anjos é atravessada por essa contradição irresolúvel: um corpo que a ciência explica, mas uma consciência que ela não consola. Nesse ponto, sua poesia se aproxima do existencialismo avant la lettre, antecipando inquietações que só ganhariam nome décadas depois.
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A linguagem é outro eixo essencial dessa filosofia poética. O vocabulário técnico - termos médicos, químicos, anatômicos - não é gratuito nem exibicionista. Ele funciona como estratégia de desidealização do lirismo. Ao nomear o mundo com palavras duras, ásperas, anti-musicais, o poeta recusa a beleza fácil e impõe ao leitor uma ética do desconforto. O verso torna-se espaço de conflito entre forma clássica (sonetos rigorosos, métricas precisas) e conteúdo corrosivo. Essa tensão revela uma consciência estética aguda: Augusto dos Anjos não destrói a forma; ele a contamina.
Do ponto de vista filosófico, essa escolha formal sugere uma visão trágica da ordem. Há estrutura, há métrica, há disciplina - mas tudo isso serve para conter, provisoriamente, o caos da existência. A forma clássica funciona como jaula para o desespero. O poeta sabe que a linguagem não salva, mas ainda assim insiste nela, como último gesto de resistência contra o silêncio absoluto da matéria.
Também não se pode ignorar a dimensão ética dessa poesia. Embora profundamente pessimista, ela não é indiferente. Ao revelar a miséria ontológica do homem, Augusto dos Anjos
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desmonta as ilusões de grandeza, orgulho e transcendência fácil. Sua filosofia poética é, nesse sentido, uma pedagogia cruel: ensina-nos a olhar para o humano sem véus, sem consolos metafísicos, sem promessas de redenção. O choque que sua poesia provoca não é mero efeito estético, mas um convite - ainda que doloroso - à lucidez.
Assim, a filosofia na poesia de Augusto dos Anjos não se organiza como sistema, mas como experiência. Não há tese final, nem síntese conciliadora. O que existe é um pensamento em estado de combustão, um lirismo que se recusa a mentir. Sua obra permanece atual justamente porque expõe, com rigor implacável, a fratura entre o saber científico e a necessidade humana de sentido - fratura que continua a definir a condição moderna.
Augusto dos Anjos é, portanto, um poeta-filósofo da decomposição: da carne, das ilusões, das certezas. Mas é também, paradoxalmente, um dos mais honestos pensadores do humano em nossa literatura. Sua poesia não oferece respostas; ela nos obriga a sustentar a pergunta até o fim.
Versos íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Durante nove noites, Zeus se uniu à deusa Mnemosyne e dessa união surgiram as nove Musas – Calíope, Polímnia, Érato, Thalia, Terpsícore, Melpômene, Euterpe, Urânia e Clio –, divindades que, a um só tempo, guardam a memória, as artes, as festas e o conhecimento. Encargos daquelas que são filhas da deusa da memória e do deus mais sábio (μnτίετα) e que tem a visão mais ampla (εὐρὐοπα).
Cruzeta. Aliás, cruzeta demais o tal do Bernardo Guimarães, que escreveu A Escrava Isaura. Foi nomeado Juiz de Órfãos em Catalão (GO), onde chegou em 1852, porém pouco trabalhava. Levava a vida em pescarias, raparigas e cachaça. Após dois anos, foi embora, porém voltou em 1861, agora como juiz municipal. Aumentaram a autoridade e a irresponsabilidade.
Immanuel Kant (1724–1804), em seu livro À Paz Perpétua (1795), propõe um projeto jurídico para a construção de uma paz duradoura entre as nações. Para o filósofo, a paz é um ideal racional que deve ser instituído por meio de normas e acordos entre os povos. A razão, segundo Kant, condena a guerra como meio legítimo de direito, transformando o estado de paz em um dever moral e político. Contudo, essa paz só pode ser assegurada por meio de um pacto entre os Estados, fundamentado em princípios jurídicos. A obra divide-se em duas partes: os artigos preliminares e os artigos definitivos, seguidos de dois suplementos. Nos seis artigos preliminares, Kant enumera condições que devem ser eliminadas para tornar possível a paz futura.
Eu tinha 12 anos, a idade atual do meu neto, quando atravessei a rua em busca da Biblioteca Pública de Pilar. Juracy, a atendente, afagou-me os cabelos antes de sugerir e me emprestar “O caçador de mosquitos”, do mineiro Clemente Luz. Esqueci por décadas o nome desse autor, mas nunca o que ele contou em 117 páginas.
Nem toda dor requer silêncio. Algumas passam, outras permanecem… outras nos transformam. A dor na poesia – sonetos nasce desse território onde a experiência deixa de ser apenas ferida e se converte em linguagem.
Quando eu era velha, de Fernanda Pompeu, é um livro que começa pelo paradoxo para, a partir dele, desorganizar certezas. O título provocativo e delicadamente irônico, anuncia o gesto central da obra: tratar o envelhecimento não como linha de chegada, mas como território em permanente construção. Ao acompanhar Olívia, jornalista aposentada que recebe a proposta de escrever sobre a velhice, o romance se instala no espaço fértil entre memória, corpo e linguagem.