Lendo o livro “Servir a quem vence” do querido Astier Basílio, me deparei com o poema ESQUECER:
Esquecer
é retirar as facas
e colocá-las no lugar
correto.
Eis um exercício diário: não usar facas e retirar as que foram encravadas em nossas costas. Não é fácil, principalmente quando vêm de “mãos amigas”. Mas, não há outro jeito. Para continuar é preciso estancar
Acendedor de Relâmpagos representa um dos momentos mais vigorosos da poesia contemporânea paraibana. Na obra, Políbio Alves recupera a tradição do poema longo e da épica moderna para transformar a experiência do homem do campo em matéria de alta elaboração estética. O protagonista, Antônio Lavrador, deixa de ser apenas um indivíduo para converter-se
em símbolo coletivo: nele convergem a história dos trabalhadores rurais, dos expulsos da terra, dos explorados e dos que insistem em permanecer de pé diante da violência histórica. O próprio autor caracteriza a obra como uma homenagem aos camponeses e uma narrativa épica voltada à consciência social.
Os Cantos que formam aNostalgia Psíquica ou a Nostalgia da Memória (IX-XII) são a parte mais complexa da Odisseia. A complexidade começa com a mudança do foco narrativo de terceira para primeira pessoa. Até o Canto VIII, o narrador é de terceira pessoa, tecendo uma narrativa em que se apresentam alguns diálogos diretos, mas sempre sob o seu comando. Nos quatro Cantos seguintes, é um personagem, Odisseus, que narra a história, através de um recurso que a Teoria da Literatura chamará de autodiégese, a narrativa de si próprio.
Imagine caminhar por uma floresta aparentemente exuberante. Os rios transbordam, os animais circulam e os pássaros, anjos dos galhos, são acariciados pelas folhas. Tudo parece vivo.
Sim, porque, se você não conseguiu chegar à UTI, bom destino você não teve. Imagine que você foi internado às pressas (é sempre assim) e, ao contrário dos roteiros turísticos e lugares exóticos que nós costumamos pesquisar na internet para quando um dia formos lá, não conheço ninguém que já tenha tido a curiosidade de fazer esse tipo de pesquisa. Para mim, foram momentos incríveis. Numa UTI individual do melhor hospital da região (N.S. das Neves), com um tratamento carinhoso dos médicos, técnicos e enfermeiros, não poderia ser diferente.
Elas são muitas, são incontáveis. Pode-se dizer que Ariano Suassuna, um dos mais importantes arquitetos da nossa identidade, habita cada coração brasileiro. Refiro-me, porém, a uma casa específica, aquela inaugurada no dezembro de 2014, em João Pessoa, como polo de difusão cultural e artística. Também, é claro, como ambiente para a capacitação de governantes e quadros técnicos em benefício da lisura e
Durante certo tempo, pensei que escrevia porque gostava das palavras. Hoje sei que elas vieram depois. Muito antes delas, vieram as lembranças. Foi a necessidade que me ensinou a escrever; as palavras apenas encontraram um modo de dizer aquilo que a memória insistia em guardar.
Um pousar de nota musical. Por entre os fios, o bem-te-vi estaciona no contraste do papel céu-azul, teto do mundo. A inexistência de nuvens. A chuva se afastou e um tímido sol aquece ao redor, do teto às asas passarinhas, espalha um mar inverdito de azul.
Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) — escritor e filósofo russo — defende que a arte de suportar-se pode ser compreendida como a capacidade de enfrentar o próprio mal-estar interior, abandonando as ilusões, racionalizações e mentiras por meio das quais o indivíduo procura aliviar a culpa e proteger-se de suas próprias contradições. Para o escritor russo, o maior fardo da existência não reside necessariamente nas adversidades externas, mas no confronto com o próprio mundo interior: o egoísmo, o ressentimento, o desejo de reconhecimento, a necessidade de liberdade e as
Leitor de Dostoiévski ▪️ Arte: Emil Filla (1907)
regiões obscuras da consciência que constituem aquilo que se poderia chamar de subsolo da subjetividade. Nesse sentido, suportar a própria existência não significa simplesmente resistir ao sofrimento, mas desenvolver a capacidade de permanecer diante de si mesmo sem recorrer permanentemente ao autoengano.
O mundo contemporâneo é um reflexo de uma sociedade que constantemente busca a validação através da aparência e do consumo. Hoje, ser bem-sucedido parece estar atrelado a símbolos materiais: carros luxuosos, casas de vários andares, e uma coleção de gadgets de última geração. Essa busca desenfreada por bens materiais muitas vezes
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro.
Hermann Hesse
Rastejo. Tateio. Apalpo como quem busca o braile da memória na mais vã tentativa de encontrar o caminho, mas avança na contramão. Como é difícil interpretar-se pela tendência que temos de nos reconhecermos mais ou menos fracos diante do universo de possibilidades que temos diante de nós. Por isso a angústia, a vertigem do óbvio, o lugar-comum da sabotagem, a sensação de despreparo diante da vida inédita e, ao mesmo tempo, reprodutora de representações banais.
Conheço o psicoterapeuta, escritor e poeta Nelson Barros há décadas, mas somente há pouco mais de dez anos nos tornamos amigos próximos. E o seu companheiro Hirllen conheci nesse tempo último. Nos aproximamos. Referências de vida parecidas, gostos e o carinho espontâneo e autêntico que sentimos entre nós. Um casal que se sobressai pela beleza, elegância, delicadeza e generosidade. Me encanta!
Todos os dias, quando cruzo o espaço que vai do meu quarto à sala de estar, ele me espia da parede. O coração de Chico Pereira. Familiar de mudanças e deslocamentos ele me acompanha nas andanças por aí que foi a minha vida até ancorar novamente no velho porto da Filipeia de Nossa Senhora das Neves. E isso me basta. Trata-se de um desenho de um imenso coração, solto em uma nuvem de pequenos pontos coloridos, que me traz a ideia do universo e suas constelações ou, por vezes, me lembra também do caos e suas representações. O coração, perdido em meio às estrelas coloridas, está envolto por uma serpente azul que ora a toca ora se afasta.
Andei coisa de um mês ausente de nossa “Capital das Acácias”, deste ponto mais oriental das Américas. Obrigações de família, e lá fui para assistir ao casamento do meu rebento caçula, o que já justifica essa minha desaparição.
1
Quando Ulisses retornou,
Muita gente enlouqueceu,
Um poema de Orfeu,
Caixa d’Água recitou.
Quando o mar ele cruzou,
Chamou Padre Zé Coitinho,
Na Mata do Buraquinho,
Para celebrar o ato,
Comeu porco e comeu pato,
Macaxeira foi padrinho.