O amuleto mal-assombrado adquirido em um antiquário, numa viagem de turismo, objeto de um filme que não lembro exatamente qual, nos veio à lembrança ao iniciar a leitura de um livro comprado em um velho sebo de Lisboa. Um sebo delicioso, diga-se de passagem, daqueles que até o cheiro é bom.
Se há tempo para tudo, como diz o Eclesiastes, chegou a hora da publicação dos poemas da professora Vera Luna, hoje aposentada e que tantos serviços prestou aos paraibanos no ensino da língua e da literatura brasileiras ao longo de décadas. Conheci-a mocinha, talvez em seu primeiro emprego, como minha professora de português no Liceu, lá pelos começos dos anos 1970. Conheci-a e não a esqueci, assim como não esqueci
Vera Luna ▪️ Facebook: V. Luna
outros mestres da língua pátria que tive a felicidade de ter: Amanda Lucena, Francelino Soares e Chico Viana, sem falar em Dona Laudicéa, a primeira de todos, que me alfabetizou e me abriu os caminhos da vida. Existiram outros e outras na longa jornada, aos quais rendo sempre minhas justas homenagens, pois a todos devo muito do pouco que sou.
Um mergulho em Azeite, Senhora avó!, de Aldo Lopes de Araújo
Há livros que não são feitos apenas de palavras. São feitos de algo mais espesso, mais íntimo, quase como se o autor tivesse arrancado pedaços de si e costurado em forma de narrativa. Livros assim não se leem apenas com os olhos, mas com aquilo que a gente guarda por dentro. Azeite, Senhora avó! é um desses.
“Que quem sua trova fez não em França, mas em Fez aprendeu tal invenção.”
Garcia de Resende, in Trovas a Lopo de Valdevesso / Cancioneiro Geral; 1516
A partir do século XIII, o Ocidente começou a sentir admiração pela cultura islâmica embora se se mantivesse relativamente cético em relação à religião. Por via desse interesse e sensibilidade, as obras da filosofia grega voltaram a ser conhecidas na Europa, sobretudo depois da tradução dos escritos árabes para latim.
O Ateliê itinerante de Pedro Américo: no ateliê de Cogniet (1859-1864)
Pedro Américo chegou a Paris com uma bolsa anual de 4.800 francos franceses. Ele se inscreveu na École des Beaux Arts em 6 de outubro de 1859 e entrou, como era costume então, em um ateliê, o de Léon Cogniet, conforme desejo de seu mestre Manuel de Araújo Porto Alegre e foi morar junto da Beaux Arts na Rua Bonaparte n. 1314. Apresentado por Léon Cogniet à Escola de Belas Artes como de praxe, Américo foi recebido como aluno daquela instituição em 1859.
Espionando por uma frincha sem mais vidraça da porta central, portão e janelas laterais fechadas, não pude deixar de sentir o bolor do nosso desprezo, ou do desprezo da classe, à sede da sua antiga Associação Paraibana de Imprensa, a histórica API.
Na noite de 23 para 24 de agosto de 1954 ninguém dormiu no Palácio do Catete. Acossado por um grupo de militares que queria a sua deposição, o presidente Getúlio Vargas procurava uma saída para contornar a situação. Os ministros foram convocados para uma reunião emergencial de madrugada na sede do governo, conforme depoimento de José Américo de Almeida, que foi um dos presentes à reunião:
Morremos todos os dias.
A pele se expressa entre vida e morte.
Interpretamos pausas.
Movemo-nos em pulsões sexuais, em mundos alheios, virtuais, ficcionais, visionários e até reais. Já não somos apenas seres naturais de carne, pele, ossos e sentimentos. Temos odores de perfumes e desodorantes e, num oco profundo, guardamos as sensações perdidas da nossa antiga e semelhante humanidade.
Uma travessia entre razão, memória e espiritualidade
Em Meu Encontro com Kardec, o escritor paraibano Carlos Romero constrói uma narrativa memorialista e reflexiva na qual o encontro com a obra de Allan Kardec ultrapassa o mero interesse doutrinário e transforma-se numa experiência existencial. O texto não se limita a apresentar uma adesão intelectual ao espiritismo; ele revela, sobretudo, a lenta metamorfose interior de um homem diante do mistério da vida, da morte e da permanência da consciência humana.
Mimo não era fácil. Arredio, desconfiado, de cara amarrada, com a boca para baixo, característica comum dos gatos da sua raça, o persa. Quando chegava gente em nossa casa, se escondia ou se afastava, para ficar olhando a distância, de preferência embaixo da mesa, recanto em que ele se considerava protegido.
Se um carioca lhe chamar de Paraíba, estará repetindo o paulista que trata todos os nordestinos como baianos. É o mesmo ranço demonstrado por Ed Motta numa cena que viralizou.
A Canga, filme de curta-metragem, é, antes de tudo, a narrativa de W. J. Solha; o escritor, o homem, o ator e o artista se confrontam e se completam. Solha encontrou nesse filme uma síntese rara: a do criador que, ao mesmo tempo, se reconhece criatura.
Até que enfim, ele se aproximava do ponto final. A cartinha à amiga, ao cabo da enésima tentativa, havia tomado o jeito certo de contar da paixão que o afligia, arrebentava-lhe o peito, tirava-lhe o juízo. Perdera a conta das folhas de papel rasgadas a cada início da confissão que o fazia tremer dos pés à cabeça. Decidira, finalmente: não solicitaria a retribuição, não pediria para ser amado. Não se culparia por haver transformado o início de uma amizade sincera, despretensiosa, em amor desesperançoso e sofrido, pouco a pouco, passo a passo.
HOJE E SEMPRE
Sou um caso de despertecimento,
e não me dei conta até hoje.
E não foi por desconhecer a sombra,
ou o pecado existencial.
Nasci com a mesma pele
que reveste a alma dos alienados.
(Na vida muitas coisas circulam
no plano do despercebido.)
Acerquei-me à beleza bem cedo;
ela sempre foi os meus olhos.
Havia fumaça no ar e taças discretamente servidas, cada gole marcando o compasso da conversa. O silêncio entre uma frase e outra — aquele silêncio que só surge quando as palavras começam a pesar de verdade — anunciava que a tertúlia estava formada. Nada de debate formal nem aula; apenas amigos em torno da mesa, entre vinhos e charutos, deixando que as ideias ganhassem coragem de sair do abstrato para tocar o chão da vida. E foi ali que surgiu um tema incômodo e fascinante: o que significa viver bem num mundo que transformou quase tudo em intensidade?
Conheci uma mulher que vivia em tons de cinza. O cabelo já estava acinzentado, com raízes brancas. As roupas buscavam o desbotamento do azul acinzentado e, no próprio rosto, refletia-se a palidez absoluta, onde nenhum sol ultrapassava a pele.