Na João Pessoa de outrora, onde galinhas campavam livres como se os paralelepípedos fossem capim e os quintais eram um luxo para poucos, vivia Balalaica. Não era uma cadela qualquer. Mestiça de perdigueiro, com um nome que evocava a melodia russa e um corpo malhado que parecia obra de arte abstrata, ela era a personificação da energia canina, com uma "pitada" de humor que só a vida real pode oferecer.
O temor da solidão tem levado muitas pessoas aos consultórios de psicólogos e psicanalistas. O medo de terminar a vida sem companhia, de envelhecer no esquecimento ou de morrer solitário. Esse pavor não se reduz ao isolamento físico momentâneo; é uma angústia existencial que assombra o sujeito mesmo quando ele está cercado de pessoas. A sociedade contemporânea, apesar do excesso de conexões digitais e redes sociais, parece ter agravado essa sensação de desamparo,
Arte: Gustave Courbet, 1843
criando uma fachada de hiperconvivência que esconde uma incapacidade de vinculação subjetiva autêntica.
A simples perspectiva de passar um final de semana sem compromissos sociais ou o pensamento sobre a velhice deflagram crises de ansiedade severas. Para esquivar-se desse pavor, muitos mantêm casamentos falidos, amizades tóxicas ou relacionamentos abusivos, preferindo suportar o mal-estar da má companhia a encarar o silêncio da própria presença. A solidão é vivenciada como uma punição, um atestado de fracasso pessoal ou uma confirmação de que o sujeito é desprovido de valor.
O ser humano nasce em um estado de extrema dependência do outro para sobreviver física e psiquicamente. Quando essa experiência não é adequadamente elaborada na infância, a solidão adulta evoca o fantasma do abandono primordial. A pessoa confunde estar só com ser abandonada. Além disso, a incapacidade de tolerar a solidão indica uma dificuldade de habitar o próprio mundo interno, como se permanecer a sós consigo mesmo significasse encontrar um vazio assustador ou fantasmas punitivos.
Arte: Gustave Courbet, 1856
Embora as influências do meio sejam reais, a psicanálise interpela o indivíduo sobre a sua própria posição e sobre a sua cumplicidade inconsciente na manutenção da situação dolorosa da qual se queixa. Interrogar-se sobre o próprio desejo e sobre as escolhas que o trouxeram até esse ponto é a condição indispensável para transformar a vida. Assim, o sintoma deixa de ser lido como uma mera anomalia a ser eliminada por técnicas de controle comportamental ou medicação e passa a ser entendido como um arranjo simbólico, uma mensagem cifrada do inconsciente que pede decifração e elaboração no espaço analítico.
Arte: Gustave Courbet, 1851
O processo analítico possibilita uma ressignificação profunda da experiência do estar só. Na transferência analítica, o paciente experimenta um espaço seguro onde pode desdobrar seus temores sem ser julgado ou abandonado. Gradativamente, a solidão deixa de ser percebida como um abismo aterrorizante e passa a ser conquistada a capacidade reflexiva de estar em sua própria companhia com serenidade. Ao integrar a realidade do desamparo estrutural sem desespero, o indivíduo deixa de usar os outros como escudos contra a ansiedade e torna-se capaz de estabelecer relacionamentos baseados no desejo genuíno e não no pânico do abandono.
Segundo Donald Winnicott (1958), no ensaio intitulado “A capacidade de estar só", a habilidade de sustentar a própria companhia não nasce do nada; exige um alicerce afetivo prévio: “Embora muitos tipos de experiências alimentem a capacidade de estar só, há um tipo fundamental sem o qual a capacidade de estar só não pode se formar: a experiência de estar só, como bebê ou criança pequena, na presença da mãe.” O temor à solidão muitas vezes reflete não a falta atual de pessoas, mas a ausência de uma presença interna suficientemente segura que torne o silêncio um lugar habitável.
Arte: Gustave Courbet, 1869
Guimarães Rosa escreveu que o silêncio somos nós mesmos, demasiadamente. A solidão pode representar o contato mais íntimo de um indivíduo consigo mesmo. O problema é ter de se encarar, lidar com o desconforto de se perceber inadequado e cobrar-se por uma adequação que talvez nunca chegue. Será que a “normalidade” é tão saudável quanto julgam sê-la? Fala-se muito em pertencimento devido à excessiva oferta de espaço, esses multiversos disseminados pelas mídias nos fragmentam tal qual a Guernica de Pablo Picasso. Nossas faces tortas, irreconhecíveis para nós mesmos gera espanto, intensificando a solidão. Pertencer-se, habitar-se, é o maior desafio para quem tropeça nos próprios passos e não trata as feridas.
Aquela noite da agonia derradeira, quando contemplei o rosto sereno de minha mãe na cama do hospital, segurando meu braço, ela murmurou com os lábios trêmulos “que Deus te abençoe”, e fui abençoado com a meiguice do seu olhar para o resto de minha vida.
Conheci o acadêmico João Batista nos anos 70, quando fazíamos Universidade, Curso de Letras. Fomos da mesma turma. Depois, fui sua aluna em Teoria da Literatura, achei bem difícil e tranquei a disciplina, atordoada. Anos depois, aí mais amadurecida e já na pós, estudei as disciplinas do Texto Poético e Teoria do Cinema. Como aprendi coisas nas aulas de João! Sem falar que até escrevi um texto para o seu livro, Leitura do Texto Poético – ensaios de (e para) a sala de aula. João Batista B. de Brito (Org.), Editora Universitária, 1997, analisando o poema de Vitória Lima, Men(t)ira. Um aprendizado de descobertas.
Com a derrocada da União Soviética e a queda do muro de Berlim, os jovens ficaram menos ligados em política. Fukuyama decretara o fim da História e, com ele, a falência das ideologias. Rótulos como esquerda e direita tinham saído da moda (embora alguns nostálgicos ainda os alardeassem), assim como parecia haver desaparecido a polarização simplista entre engajamento e alienação. Mas nas décadas de 1960 e 1970 era costume avaliar as pessoas em função de elas estarem em um ou outro desses polos.
Talvez exista dentro de você uma pessoa que há muito tempo não consegue mais sair. Não porque esteja presa em algum lugar, mas porque você a trancou atrás de uma porta que construiu para sobreviver.
O som que me circula
Me faz rodilha
E de mim também feito de som
Assimétrico aos meus limites, ele
É a ponte sobre o que eu era e a
Água corrente que me torno
E me despeço da pele
Deixando-a entre pedras
E musgos, como num leito de rio
Me esfacelo em lógica
Me ato em puro éter
E recebo o sentido do que se move
Por razões de força maior, não pude comparecer ao relançamento do livro A intertextualidade das formas simples, da professora Elizabeth Marinheiro, ocorrido há poucos dias em Campina Grande, para onde seguiu uma caravana de seus confrades e confreiras da Academia Paraibana de Letras, todos conscientes da relevância cultural do evento. Pois, de fato, não se tratava apenas de mais um lançamento de livro, mas de um momento muito especial em que, além de se trazer a público, mais uma vez, uma obra literária importante, comemorava-se o aniversário natalício da autora, figura
respeitadíssima não só da cultura paraibana, mas também da brasileira como um todo. Na verdade, era uma verdadeira e justa celebração da escritora e professora que tantos serviços prestou – e continua prestando – aos paraibanos e aos brasileiros, em sua área de atuação.
Minha experiência como pastor ensinou-me uma coisa que os livros de teologia ignoram ou omitem: raramente alguém desiste de fazer aquilo que deseja apenas porque outra pessoa lhe demonstrou que está errado. Pode-se apresentar a passagem bíblica mais explícita, o argumento mais convincente, a advertência mais amorosa e racional. Se a vontade estiver decidida, a razão será convocada apenas para ser um mero contraste à desobediência.
O que um touro de corrida em Córdoba, um camponês borgonhês e um tropeiro do sertão brasileiro têm em comum?
Há uma panela pesada no canto do fogão, tampada, soltando borbulhas lentas. Quem passa pela cozinha sente o cheiro antes de ver a panela. E talvez não saiba que dentro dela dorme uma história de cinco séculos, que atravessou o Mediterrâneo, as ilhas do Atlântico e o sertão brasileiro. Um touro de corrida em Córdoba, um camponês da Borgonha e um tropeiro do sertão têm mais
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em comum do que imaginam. Os três acabaram, cada um a seu modo, dentro de um cozido. Eu chamo a isso de receitas de afetividade. São comidas que fazem mais do que restaurar e saciar a fome. Elas abraçam. Quem prova um prato desses volta no tempo, sente o cheiro da casa de alguém, ouve de novo uma voz que talvez já não esteja aqui. A panela é um portal, e o cozido é o passe de entrada.
“Nosso corpo mortal com certeza irá.
Aquele que é o Criador de todos os seres, segura-te firme para segurá-lo. E Dança, ó Serpente!
Os tolos procuram alegria na mentira. Quem realiza estados superiores observa o Silêncio, para buscar a Essência da Verdade. Sabe disso. E dança, ó Serpente!”
Paambatti Siddha in “Dança, ó Serpente!”, “Aadu Paambe” (século XVIII)
Nesta data, 25 de setembro, 61 anos atrás, Lobo entrou na minha vida. Era um belíssimo pastor-belga preto, pelos longos, olhar muito inteligente. Chegou lá em casa pelas mãos de Paulo Fernando e logo me adotou como seu dono. Foi como se eu tivesse conquistado o seu coração.
Era o 2 de dezembro de 1945, o mais cívico dos anos de toda a minha vivência, embora não passasse dos meus 12 anos ou, talvez mesmo, por isso. Foi o ano em que a Grande Guerra acabou, a narração do rádio televisionada pela imaginação, o público a fazer auditório aquém do balcão da mercearia de Seu Nequinho, um dos grandes do nosso pequeno comércio.
QUERIA
Queria escrever poesia
Mas não posso
Estou entregue aos fatos
à razão
ao rumor dos acontecimentos
Queria o verbo
sem condicional
Mas não posso
As palavras passam fluidas
escorrem entre os dedos
minhas mãos não as alcançam
Um romance que devolve à literatura a responsabilidade de preservar memórias que o país preferiu esquecer. Minha Pequena Gota de Chuva, de Jesu Andrade, pertence a essa segunda categoria.
A narrativa acompanha duas trajetórias que, à primeira vista, parecem independentes: a de Pingo, um menino negro de apenas onze anos que vende picolés nas ruas de Guarulhos para financiar