Sujeito sabido é o Camargo. Dominou seu ofício com tal competência que seus pares, os companheiros na lida do dia a dia, o chamam de mestre. Assim, Mestre Camargo ainda é uma referência entre aquela turma que podemos encontrar jogando conversa fora no mercado de peixes. Fica por ali trocando ideia com a rapaziada que ainda está na lida. Hoje, aos oitenta, já faz tempinho que se aposentou, mas, vez ou outra, cumpre uma jornada para matar a saudade de quando esbanjava saúde e disposição.
No texto anterior, tratamos de paralelismo sintático para observarmos a relação de simetria entre elementos constituintes de uma oração, de um período ou de um parágrafo. Agora, abordaremos o paralelismo semântico, que não se limita à igualdade das funções gramaticais; ele exige a coerência das ideias, o alinhamento das categorias mentais e a afinidade lógica dos conceitos dispostos lado a lado. Trata-se de relacionar textualmente elementos que de fato
Recordo, tantos anos depois, a ansiedade que tive ao rever a madrinha que testemunhou meu Batismo, em maio de 1954, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Serraria. A emoção, naquela manhã de domingo, tomou conta de nós dois. Relembramos tantas coisas familiares. Lembranças reencontradas na memória afetiva do menino sambudo que corria pelo terreiro em cavalo de pau, em corrida de argolinhas.
Quando o oftalmologista finalmente me disse: “A catarata chegou!”, eu fiquei um pouco atônita. Há alguns anos esperava por ela. Minhas amigas já tinham feito essa cirurgia, e a minha demorou um pouco a se anunciar. Não fiquei triste pela cirurgia em si, mas pelo marcador da velhice que essa cirurgia representa. Meus olhinhos envelheceram. Também pudera!
Há manuais de redação que rejeitam o uso da voz passiva. Orientam que se diga, por exemplo, “O diretor suspendeu os alunos”, em vez de “Os alunos foram suspensos pelo diretor”. Existem casos, no entanto, em que a passiva é desejável. Nem sempre interessa ao redator afirmar que alguém faz alguma coisa. Ele pode querer dizer que alguma coisa “é feita”, destacando o termo que sofre a ação. Afirmar “o livro foi lido em pouco tempo pela turma” não é o mesmo que dizer “a turma leu o livro em pouco tempo”. No primeiro caso o foco recai no livro; no segundo, recai na turma.
Há quem acredite que pensar é um exercício solitário. Uma pessoa, uma cadeira, um silêncio e algumas ideias. Parece simples. Mas, com o tempo, descobrimos que grande parte do que chamamos de pensamento nasce justamente quando encontramos o olhar do outro.
Estamos imersos em um momento histórico em que teorias, ideologias e discursos se chocam em uma arena de forças ruidosas. Nessa tensão constante, que convencionamos chamar de polarização, cada lado puxa com violência sua ponta do cabo. Diante desse cenário, o maior desafio de quem escreve, pensa ou cria não é apenas registrar o embate, mas
Cena de Alvo Primário ▪️ Fonte: iMDb
compreender como transmitir uma verdade profunda sem se deixar aprisionar por nenhum dos extremos ruidosos. Como contar uma história que ressoe no peito humano sem sucumbir ao simplismo do "certo contra errado"?
Para Maxwell da Cunha Lobo e Luis Cláudio Paiva Duarte, que hoje vibram em outras dimensões.
É madrugada. Não que haja o silêncio que os poetas tatuam no mais profundo de suas poesias, mas silêncio de solidão. Silêncio, sim, ainda que eu escute música em minha mente e aumente o seu volume, porque é um rock'n'roll.
Durante anos ele escreveu o texto da última página da revista Veja. Para mim, sempre foi o melhor texto do jornalismo brasileiro. E dou como exemplo e justificativa o que ele escreveu por ocasião da morte do ex-presidente francês François Mitterrand. Obra-prima. Creio que nunca na imprensa do país um jornalista alcançou aquelas alturas de excelência. Com tranquilidade, muita cultura e elegância, naquela oportunidade, Roberto Pompeu de Toledo fez literatura de altíssimo nível, confirmando o escritor que sempre foi.
O Ateliê itinerante de Pedro Américo: a biblioteca do convento Santíssima Annunziata (1874-1877)
Após um período de pesquisas sobre o tema escolhido e de uma licença remunerada da Academia Imperial de Belas Artes, Pedro Américo partiu para a Itália em janeiro de 1874. Era naquele país que ele desejava morar e escolheu a cidade de Florença se estabelecendo na Via Antonio Giacommini n. 9. O seu novo trabalho necessitava de um grande espaço para servir como ateliê, pois a tela encomendada seria de grandes dimensões. O local escolhido e obtido foi o espaço da biblioteca do convento Santíssima Annunziata. O fato foi muito comentado pela imprensa italiana da época bem como na de outros países além de ecoar na brasileira.
“Orgulham-se os seus da sua glória, quando se ouvem nomeados, tal como o olfacto se esvanece com a fogosidade das murtas.”
Panegírico de Abu-l-Qasim Ibn Hamdin, juiz de Córdoba
Recuperando alguns mosaicos da vivência luso-árabe no saudosamente vasto al-andalus de tão lauta glória e drama, cuja memória plural, histórica e cultural, o tempo dificilmente dissipará, será interessante fazer-se uma regressão aos ecos guardiães da História, um campo evidentemente sempre fértil para o emergir de descrições que tentarei a seguir situar e partilhar.
Há lembranças que não se deixam organizar pela lógica do tempo. Elas ficam ali, meio suspensas, como se não pertencessem nem ao passado nem ao presente. A minha infância é uma dessas zonas de dúvida. Às vezes penso que ela existiu; noutras, parece apenas um sonho persistente. Mas há uma cena que resiste, firme, como raiz em pedra: meu avô materno, José Rodrigues dos Santos, declamando versos com uma intensidade que eu, menino, não compreendia, mas sentia.
Eu não conheci o Dr. Antônio da Gama e Mello, que residiu num dos sobrados mais antigamente solicitados e cultuados desta cidade, exatamente onde restam hoje, descaindo entre escombros e urtigas, na General Osório, a parede de frente com uma plaquinha de inscrições sobre o seu valor histórico e fazendo menção ao nome de Virginius da Gama e Mello.
Ao chegar a determinado momento da vida, começamos a pensar no tempo que nos resta. O porvir passa a ser uma preocupação cada vez maior para muitos de nós.
Fui acordado pelas batidas insistentes da chuva na janela do meu quarto. O tempo parado. As gotas de chuva como goteiras dos que sentem saudade de sabe-sei-lá-o-quê. É... A saudade às vezes chega como aquela goteira de casa sem forro. Uma xiringa de chuva que insiste em escorrer pelo chão da sala, que, atrevida, atravessa as fissuras das telhas como pingos paraquedistas que se explodem no molhar.
Poucos livros do século XX possuem a densidade moral, histórica e humana de É Isto um Homem?. Publicado em 1947, o testemunho de Primo Levi não é apenas uma narrativa memorialística sobre o campo de extermínio de Auschwitz: é uma investigação radical acerca da degradação humana, da destruição da identidade e da sobrevivência espiritual diante do horror absoluto. Trata-se de uma das obras fundamentais da literatura de testemunho, comparável, em importância ética e estética, aos textos de Franz Kafka, Aleksandr Solzhenitsyn e Elie Wiesel.