O rótulo de “psicossomática”, embora não esteja literariamente estabelecido, parece-nos adequado para definir a forma como Augusto dos Anjos associa temas psicológicos profundos (angústia, pessimismo, melancolia) à ênfase crua e materialista no corpo. Essa é uma das características da sua obra e reflete as influências científicas e filosóficas da época (cientificismo, naturalismo, monismo), que mostravam o ser humano como um organismo sujeito às leis da biologia e da física.
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A dor, a angústia e outros estados psicológicos são frequentemente descritos como processos físicos e químicos. Esse propósito de representar a dor, por sinal, é o que confere a Augusto dos Anjos um lugar singular no Pré-Modernismo brasileiro. Em vez de se perder na névoa das abstrações metafísicas ou nas generalidades sentimentais, o poeta escolhe a concretude material e a mensurabilidade dos sintomas como ferramentas para expressar o sofrimento existencial. Nessa transposição reside em grande parte a força do seu estilo, muitas vezes chocante e (literalmente) visceral.
Percebe-se no Poeta do Eu a rejeição à voga simbolista, e mesmo à parnasiana, às quais se associam a busca de uma beleza etérea, rarefeita, e a preferência por um vocabulário nobre. Para ele, a dor é uma realidade tangível que habita a matéria. A fim de traduzi-la, utiliza um vocabulário rico em referências anatômicas e escatológicas,
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O corpo na obra do poeta é frequentemente retratado como um fardo ou uma prisão – mas não nos moldes de um “cárcere das almas”, como em Cruz e Sousa. No simbolista, a dor é a do espírito aprisionado no invólucro carnal; em Augusto o padecimento é do próprio corpo, como efeito de uma culpa sem remissão. Antes de ser sentido pela alma, o sofrimento é experimentado pela carne, os músculos, o esqueleto. Por via desse procedimento, a angústia aparece somatizada e adquire os contornos de uma doença física – uma opressão que desconforta.
Em nosso livro “O evangelho da podridão", fazemos um extenso levantamento de passagens que traduzem esse desconforto. Seguem alguns exemplos:
"O sono esmaga o encéfalo do povo
Tenho trezentos quilos no epigastro"...
(Tristezas de um Quarto-Minguante);
“Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis!
(Mistérios de um Fósforo);
“Sente que megatérios o estrangulam...
(Monólogo de uma Sombra);
“Diabólica dinâmica daninha
Oprimia meu cérebro indefeso
Com a força onerosíssima de um peso
Que eu não sabia mesmo de onde vinha.”
(Os Doentes);
“Eu me encolhia todo como um sapo
Que tem um peso incômodo por cima!
(Cismas do Destino); CM, 75);
Como se vê, a dor deixa de ser uma referência vaga e até se quantifica por unidades de medida. A menção a pesos e arráteis (antiga unidade de peso) apresenta a mágoa e a miséria como uma carga física palpável, que esmaga o eu. O fardo da existência se expressa como uma espécie de força gravitacional que o eu lírico sente em suas entranhas, o que intensifica a imagem da opressão.
A referência a megatérios (gigantescos animais pré-históricos) é outro exemplo vívido da angústia opressora; as “mágoas” e obsessões adquirem a forma e o peso desses monstros pré-históricos. Eles o “estrangulam” – um verbo que denota ação direta e violenta sobre a garganta.
Esse tipo de representação, que traduz a dor da consciência por meio das fragilidades e deformações corporais, confere uma densidade dramática e única ao pessimismo do poeta. Terminam por constituir a melhor imagem do “horrível” que ele diz cantar, ao mesmo tempo que traduzem a influência da melancolia na configuração (ou desfiguração!) da sua obra.
Em “Sol negro; depressão e melancolia”, Julia Kristeva aponta a falência da linguagem diante da dor absoluta como um traço do melancólico. Para ela, a melancolia é um “afeto sem representação”. Augusto dos Anjos procura escapar a tal impasse fazendo das afecções do corpo uma tradução desse colapso. Foi o meio que encontrou para superar a assimbolia decorrente do “molambo língua paralítica”.









