A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina...

Dores inevitáveis

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A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”.

No centro da sala, sobre uma mesinha manchada de círculos de copo, há um vaso colado com esmero, as rachaduras desenhando mapas dourados pela superfície. Há quem visite Elias e veja apenas desleixo:
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o tapete desfiado onde tropeçou e quase quebrou o tornozelo numa noite de chuva, a janela que nunca fecha direito porque ele a pintou num dia de calor excessivo, emperrando a madeira. Pedem-lhe: “Por que não conserta? Por que não troca?”. Ele balança a cabeça, serve mais café e conta histórias.

O vaso rachado foi um presente de uma amada, num tempo em que o amor era mais urgente do que cuidadoso. Ele o derrubou numa discussão fútil, e ela partiu antes que a cola secasse. Olhar para aquelas rachaduras não lhe traz arrependimento pelo amor, nem pela raiva. Traz a textura nítida daquela tarde, o cheiro do jasmim do jardim, o gosto amargo das palavras não ditas e, depois, o cuidado paciente de unir os cacos. O vaso guarda a história inteira, não apenas a parte bonita.

A estante torta foi montada na véspera do nascimento do primeiro filho, entre ansiedades e sonhos. As peças foram mal encaixadas, mas o tempo era curto e o coração estava cheio de um futuro que batia no peito da esposa. Ela riu quando viu o resultado. “Parece que vai dançar”, dissera. E a estante dançou, suportando enciclopédias,
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romances, fotos de formatura, até ficar cansada e inclinar-se para um lado. Consertá-la seria apagar a pressa sagrada daquela véspera.

A janela emperrada preserva o eco de um verão que foi um erro. Elias devia ter estudado para um concurso, mas passou os dias pintando a casa, inventando cores, ouvindo o rádio alto. Perdeu o concurso, e ganhou o bronzeado nos braços, a tinta no cabelo e a descoberta de que tinha jeito para transformar espaços. Abriu uma pequena oficina de restauro, que o sustentou com mais alegria do que aquele cargo público jamais o faria.

Senhor Elias sabe que os arrependimentos são os pesos mais pesados que carregamos para a velhice. São fantasmas de caminhos não andados, de palavras engolidas, de medos que nos paralisaram. Seu avô, no leito de morte, não chorou pelos tropeções ou pelas xícaras quebradas. Chorou pelos beijos não dados, pelas viagens adiadas, pelas cartas que nunca enviou. Chorou pelo vazio, não pela bagunça.

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Por isso, Elias abraça seus erros tangíveis. Cada lasca, cada trinca, cada coisa fora do prumo é um marco em sua geografia pessoal. Provam que ele viveu, agiu, ousou, amou com intensidade suficiente para quebrar coisas. A casa não é um museu de perfeições, é um diário em três dimensões.

Ao anoitecer, sentado em sua poltrona desbotada, ele olha ao redor. Não sente o frio do arrependimento, mas o calor de uma vida habitada. Os erros foram portas, alguns que levaram a salas escuras, outros a jardins inesperados. Arrepender-se seria trair a coragem que teve em cometer cada um deles.

Porque a velhice é para ser suave no espírito. O corpo já traz suas dores inevitáveis, por que carregar também o fardo pesado e inútil do “e se”? É melhor conviver com uma estante torta, que sustentar livros bem amados com a perfeição imaculada de uma prateleira vazia.

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Assim Elias vive sua existência silenciosa, escrita em objetos imperfeitos. Errou muito, mas não se arrepende. E, nessa falta de arrependimento, encontra uma estranha e tranquila sabedoria: a de que uma vida inteira pode caber, com toda a sua beleza acidentada e nas rachaduras de um vaso.

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