Para o querido amigo Buda Lira, ator do filme O Agente Secreto , em nome de quem saúdo esse elenco divino e maravilhoso. Mais que todo...

O ano era 1977

cinema brasileiro agente secreto ano 1977 ditadura brasil
Para o querido amigo Buda Lira, ator do filme O Agente Secreto, em nome de quem saúdo esse elenco divino e maravilhoso. Mais que todos, os paraibanos.
Este foi o ano retratado no filme O Agente Secreto, do premiadíssimo diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho, que, na semana passada, recebeu quatro indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco (Gabriel Domingues). O Brasil inteiro celebrou com a camiseta do Bloco Olindense Pitombeira (numa referência à camiseta usada no filme pelo personagem de Wagner).
cinema brasileiro agente secreto ano 1977 ditadura brasil
Kleber Mendonça, diretor do filme O Agente Secreto ▪️ Foto: Harald Krichel
Dona Tânia Maria, com seu vestido florido e seu cigarro desaforado, também aconteceu. E viva o Cinema Brasileiro! E viva o orgulho da cultura pernambucana!

O ano de 1977 foi o ano do tempo e do espaço escolhido por Kléber para retratar a memória — ou a falta dela —, os anos de chumbo, a ditadura no Brasil, arquivos, pessoas desaparecidas, matadores buscando “comunistas”, pesquisadores sendo cassados, universidades públicas sendo espionadas e um mundo de perna cabeluda, passado a sangue. Tristes tempos! Os artistas resistiam. E o Cinema São Luiz fazia a sua parte. No escurinho das sessões, coisas se articulavam. E eu tenho as minhas lembranças. Ao assistir ao filme, há alguns meses, quando foi lançado, reconhecia os silêncios, o clima de medo, os olhares, as roupas e os sumiços dos “procurados”. Um passado ainda tão perto.

Esse ano foi marcante para mim. Eu era recém-formada e viajei para os Estados Unidos pelos Companheiros das Américas, acompanhando Flávio Tavares (como esposa na época e tradutora), que havia sido convidado para expor sua pintura em Connecticut (Hartford) e na Universidade de Yale. Em Connecticut, sob a recepção do professor John Dwyer, estudioso de Literatura Latino-Americana, conheci mais sobre García Márquez e Carlos Fuentes, cuja obra John dominava
cinema brasileiro agente secreto ano 1977 ditadura brasil
Casa da poeta Emily Dickinson em Amherst, Massachusetts (EUA) ▪️ Foto: Gary C /// Tripadvisor
como especialista. Enfrentamos um inverno rigoroso de 25 graus negativos, roupas inadequadas e um lago gelado. Estar numa universidade de renome como essa foi uma experiência! Dias em Massachusetts também, e a minha primeira vez em Nova York. E, pelo caminho, uma tempestade de neve ao avistar, de longe, a casa da poeta Emily Dickinson, em Amherst. Assisti na Broadway ao musical A Chorus Line e me deslumbrei com as danças e cantos, além de outra obra-prima, Bubbling Brown Sugar (uma celebração ao renascimento do Harlem), e ao filme proibidíssimo Casanova, com o ator Donald Sutherland (in memoriam). Trouxemos nas malas livros proibidos, pôsteres e o temor de sermos pegos nas alfândegas opressoras da cultura — coisas que nos eram proibidas de assistir nos cinemas locais. No Brasil, então…!

Na viagem de volta, fizemos paradas na Cidade do México (me encantei com o Museu de Antropologia), na Guatemala (pelos mercados de Chichicastenango) e outros passeios indicados por Sérgio Augusto (crítico de cinema), que havia estado em João Pessoa e que, nas conversas com sua esposa Elisa, nos passou essas dicas de viagem. Um stopover no Panamá, na Colômbia, para finalmente entrarmos por Manaus e viajar pingando nos voos da Panair. Num tempo sem Google, sem smartphone e com pouco dinheiro, foram quase três meses de viagem, no inverno de 1977, enquanto a perna cabeluda fazia das suas nas caladas das noites.

cinema brasileiro agente secreto ano 1977 ditadura brasil
Ana Adelaide Peixoto (Peru, 1982) ▪️ Acervo da autora
O ano retratado em O Agente Secreto ressoava por aqui na província. Anos em que eu morava no Cabo Branco, uma praia linda e cheia de casas, sem barracas desordenadas, com a lua cheia entre os coqueiros. Nada de especulação imobiliária, e aprendemos a falar em voz baixa para não sermos ouvidos pela repressão política.

Fiz universidade nesses anos 70 retratados pelo filme. Sem UNE, sem movimento estudantil, com uma grade curricular organizada especialmente para afugentar os alunos de grupos e possíveis conversas não aceitas. Em 1982, fui ao Peru, numa viagem de autoconhecimento, sozinha, pelos mundos incas, e, em Lima, assisti ao filme de Costa-Gavras, Desaparecido. Saí do cinema com medo e angústia. Esse era o sentimento. Aquele fusca amarelo do personagem de Marcelo me remeteu ao meu próprio fusca, o meu vermelho! E, embora eu não fizesse pesquisa buscando uma mãe e uma mulher morta pelo sistema repressor, todos nós nos reconhecemos no filme de Kléber — seja nas roupas, no pavor, no reconhecimento dos militares, nos não ditos, mas também ao ouvir aquele frevo esfuziante pelas ruas do Recife ou nos cinemas — aqui, no caso, o Cine Municipal e o Cine Plaza.

O ano de 1977 foi um ano importante na História do Brasil. E, no meu infinito particular, também. O Agente Secreto somos todos nós, brasileiros. E já ganhou todos os prêmios. Mas, claro, se arrebatar uma estatueta, será mais que glória: será a glória personificada na figura de Dona Tânia Maria, na retomada da nossa democracia, da cultura e dos artistas brasileiros, tão massacrados no governo horroroso que tivemos anteriormente. Estamos todos aqui! E viva o Cinema Brasileiro!

COMENTE, VIA FACEBOOK
COMENTE, VIA GOOGLE

leia também