O Padre Manoel Otaviano de Moura Lima (1880-1960) foi pároco em Piancó por muitos anos, onde residiu até a sua morte. O literato, que...

Um escravo cantador

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O Padre Manoel Otaviano de Moura Lima (1880-1960) foi pároco em Piancó por muitos anos, onde residiu até a sua morte. O literato, que teve assento na Cadeira nº 29 da Academia Paraibana de Letras, era autor de vários livros e maior especialista quando a matéria era o célebre Inácio da Catingueira (1845-1878).

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Praça da Matriz, Catingueira, Paraíba ▪ GD'Art
Em artigo para o jornal A União, ele publica nos dias 10 e 12 de junho de 1928, as suas “Notas para o dicionário de Coriolano de Medeiros”. Nelas, um dos verbetes, é a Vila de Catingueira, no qual aproveita para trabalhar a figura do seu ilustre cantador, que, não tendo sobrenome, foi batizado apenas com o nome cristão: Inácio.

“Inácio foi escravo de Manuel Luiz; mas devido ao seu pendor para a cantoria, gozava de um conceito e liberdade. Era escravo de sua confiança”, escreve o pároco. Tornando-se célebre pelo seu improviso, agregou o lugar
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de seu nascimento para fazer distinção com os inúmeros homônimos. Ficou, portanto, conhecido como “Inácio da Catingueira” (1845-1879).

O glosador acompanhava o seu patrão nas viagens ao Recife, caminhava a pé junto aos comboios de algodão ou de boiadas que se exportavam àquele tempo; também estava presente nas festas em que seu amo se fazia presente. Analfabeto, improvisava ao som do pandeiro e nos desafios fez muito cantador afamado deitar a viola.

Orígenes Lessa (FCRB: 1982) nos informa que “o grosso da sua produção se perdeu. O que ficou, porém, foi sendo automática e precariamente folclorizado ao calor da admiração que precedia e acompanhava suas pelejas no sertão”.

Tornou-se muito conhecido o embate de Inácio com Romano da Mãe D’água (1835-1891), da serra do Teixeira. Fato este, segundo dizem, ocorrido no Mercado Municipal de Patos, na Paraíba.

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Ao contrário de Inácio, Romano sabia ser; conhecia um pouco das escrituras sagradas, além de rudimentos de geografia e história. “Ouviu falar de Inácio, o melhor cantador do sertão, e, devido a essa fama, sentia-se diminuído no conceito”, comenta o vigário.

Graciliano Ramos, em seu livro Viventes das Alagoas, assim traça o perfil dos cantadores:

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Graciliano Ramos (1892–1953), escritor alagoano, nascido em Quebrangulo, autor de São Bernardo (1934) e Vidas Secas (1938). ▪ Fonte: Wikimedia
“Inácio da Catingueira, preto, e Romano, branco, de boa família, cheio de fumaças. O negro isento de leituras, repentistas por graça de Deus, exprimia-se com simplicidade, na língua comum do lugar. O branco exibia conhecimento: andava meses na escola e... saíra arrumando algarismos, decifrando por alto o mistério dos jornais e das cartas. Possuía um vocabulário de que não alcançava direito a significação e lhe prejudicava certamente o estro, mas isto o elevava no conceito público. Nos torneios palavras esquisitas, de pronúncia difícil e atrapalhava o adversário.”
RAMOS: 1967
A história deste desafio foi objeto de uma conferência, vinte anos depois, na qual o Padre Otaviano reproduz os versos de 1928:

“No meu tempo de menino, aprendi e conservei, até hoje, uma boa parte da peleja de Inácio com Romano. A esse pequeno acervo juntei outros versos que amigos velhos, daqui de Catingueira, me forneceram.”
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Manoel Otaviano de Moura Lima (1880–1960), sacerdote, professor, poeta e escritor paraibano, nascido em Ibiara, autor de Emboscada do Destino, Frente ao Passado e Os Mártires de Piancó. ▪ Fonte: PB Criativa
Na noite de Natal de 1874, na vila de Patos, encontraram-se os dois na casa do Coronel Firmino Aires. Não demorou para se formar duas turmas, uns a favor de Inácio, outros de Romano. A plateia atenta escutava a cantoria. Romano deitava a cabeça na viola, enquanto Inácio flexionava o pandeiro com os seus guizos de metal:

Senhores que aqui estão Me tirem do engano; Me apontem com o dedo Quem é Francisco Romano, Pois eu ando no seu piso Já não sei há quantos ano
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Conta-se que Romano temperou os versos na viola, e aceitando aquele desafio, respondeu em improviso:

Senhor me diga o seu nome Que eu quero ser sabedor, Se é solteiro ou casado, Aonde é morador, Se acaso for cativo, Diga quem é seu senhor
Na réplica ficou sabendo que Inácio era cativo, que seu senhor tinha muitos escravos, porém ele (Romano) possuía apenas um; sentindo-se humilhado, o teixeirense mudou o rumo da cantoria, com estes versos:

Inácio tu bem que sabes Que estando mais Verisso É mesmo que dois machados, Cortando um pau mussisso Ele é trovão de estalo E eu sou relâmpago interisso
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Para que o leitor entenda, Veríssimo era irmão de Romano, também versado no repente, assim fica entendido a sua comparação. Durante a cantoria, o menestrel de Teixeira procurou humilhar Inácio, que em quase todas as investidas, sagrou-se vencedor. Ao final, retirou-se Romano “desconcentrado por entre os vivas e aplausos da numerosa assistência em aclamação a Inácio”, comenta o padre.

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A saída pode ter sido estratégica, para guardar fôlego para uma segunda batalha, porque Romano apesar desta derrota, não deixou de ser um dos maiores repentistas do Brasil. Eles voltariam a se enfrentar, em Batalhão, na casa do Dr. Félix Daltro, em Teixeira e na Catingueira.

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