Mostrando postagens com marcador Adriano de León. Mostrar todas as postagens

Fragmentos de um discurso queer Chovia demais, e eu na cama. Chovia em gotas leves, tamborilando o batente da janela e insisti...

corpo sensualidade, erotismo idade maturidade intimidade anatomia velhice
Fragmentos de um discurso queer
Chovia demais, e eu na cama. Chovia em gotas leves, tamborilando o batente da janela e insistindo em escorrer pela vidraça. Uma gota que caía, mas não se fixava. Uma gota que caía e depois se juntava a outra e mais a outra, em corredeira rumo ao chão.

Os ventos do sul sopram leve agora. Parecem mais umas brisas. Não conseguem varrer a ferrugem dos meus dias. Caminho preso aos costum...

renascer superar reflexao perdas
Os ventos do sul sopram leve agora. Parecem mais umas brisas. Não conseguem varrer a ferrugem dos meus dias.

Caminho preso aos costumes e ao passado. Grilhões me arrastam nas madrugadas adentro como anzóis rasgando meus tendões. Sigo no labirinto dos dias, sedento de cores e poesia. Sou pestilento a pedir socorro.

Longe seguem velhos e surrados tênis Passos que se escorrem dentro da noite Há uns que vão são quase comparsas destas ...

literatura paraibana poesia noite realidade vida cruel mundo
Longe seguem velhos e surrados tênis Passos que se escorrem dentro da noite Há uns que vão são quase comparsas destas escuridões Rua larga Vagos homens vagam Faróis se cruzam no verde que diz:

Os começos são inesquecíveis até o momento em que os esquecemos. Eles viveram isso de forma intensa, como é dado aos amantes. A cara-...

literatura paraibana conto amor separacao intrigas traicao conciliacao
Os começos são inesquecíveis até o momento em que os esquecemos.

Eles viveram isso de forma intensa, como é dado aos amantes. A cara-metade, o amor que se completa como a lua e a estrela, as bandas que se unem num só todo. Embora a Natureza insistisse no contrário, eles acreditavam no amor romântico, na glória do eterno, aquele eterno que é mesmo o infinito, o sempiterno. Mãos e bocas entrelaçadas, o sexo como encaixe e ajuste perfeito.

Minha sede não é qualquer copo d'água que mata Essa sede é uma sede que é sede do próprio mar Essa sede é uma sede que só se desata Se...

literatura paraibana amor gay adriano de leon declaracao amor
Minha sede não é qualquer copo d'água que mata Essa sede é uma sede que é sede do próprio mar Essa sede é uma sede que só se desata Se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia Sonho colher a flor da maré cheia vasta
Caetano Veloso & Waly Salomão, Talismã

Para José, Raony, Cristian, Jean, Fábio, Ivanildo e Kenilma Éramos oito. Oito rumo às quedas d'água, rumo à Natureza que rest...

ambiente de leitura carlos romero conto adriano leon natureza cachoeiras horus meditacao coincidencias felicidade auto ajuda águas
Para José, Raony, Cristian, Jean, Fábio, Ivanildo e Kenilma

Éramos oito. Oito rumo às quedas d'água, rumo à Natureza que restaura corpos e sonhos.

Naquele lugar tudo era plenitude e força. As águas mansas dos córregos e riachos se avolumavam num rio, mas ainda de corredeira lenta. As águas brotavam do solo, nas nascentes, quase como se eclodissem das raízes das árvores que margeavam o rio. Suas copas se fechavam em dossel, protegendo o rio dos raios solares e deixando assim as águas frias, aquelas águas deslizantes, rolando ladeira abaixo.

Para Fábio Ele trocou o macacão da fábrica pela farda da polícia. Dois modelos de disciplina, porém com feições diferentes. Cresceu c...

ambiente de leitura carlos romero conto adriano leon leitura cancoes soldado militar amizade ternura desejo masculino liberdade sociedade poetas mortos
Para Fábio

Ele trocou o macacão da fábrica pela farda da polícia. Dois modelos de disciplina, porém com feições diferentes. Cresceu correndo pelas ruas da pequena cidade, aquela rua cheia de vizinhos, aqueles vizinhos que criam os filhos seus e de outros como se filhos fossem. A vida lhe trouxe um lar, dentro do possível que se é um lar, com seus reverses autoritários, mas sempre com um contrapeso do olhar dos mansos.

Para Ricard Ele escolheu praticar a difícil arte da escuta. Desde que a porta do consultório se abria até lá pras tantas da noite...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana adriano de leon psicoterapia psicologia psicanalise psicanalista saber ouvir terapia
Para Ricard

Ele escolheu praticar a difícil arte da escuta. Desde que a porta do consultório se abria até lá pras tantas da noite, naquele cenário desfilavam uma profusão de palavras, muitas delas entrecortadas por lágrimas, risos, gagueiras e silêncios atrozes.

Eles formavam um casal de classe média. Filhos de pais humildes, cada um lutou para sair daquela condição precária de vários modos. Ele,...

ambiente leitura carlos romero adriano leon politica religiao golpe ressentimento novos ricos fracasso carlos drummond sentimento mundo

Eles formavam um casal de classe média. Filhos de pais humildes, cada um lutou para sair daquela condição precária de vários modos. Ele, quarto filho de seis, tentou estudar, mas parou no ensino médio. Nunca quis exercer a profissão do seu pai, padeiro, e passou a trabalhar numa revenda de automóveis. Ganhava por comissão e nas crises se valia de agiotas e vales que a empresa adiantava com juros. Ela, filha de empregada doméstica, nunca conheceu seu pai. Para não ter o destino da mãe e das duas irmãs mais velhas, passou a trabalhar como manicure num salão de beleza de uma vizinha e estudar à noite numa escola pública do bairro.

A neve do tempo já havia pintado os cabelos dele. O mundo perdera parte do seu encanto com os desencantamentos do cotidiano daqueles dias. ...

ambiente de leitura carlos romero adriano de leon conto esquecimento nostalgia saudade lembrancas de paixao amor falha de memoria recordacoes

A neve do tempo já havia pintado os cabelos dele. O mundo perdera parte do seu encanto com os desencantamentos do cotidiano daqueles dias. Dias arrastados e repetidos. Dias de máscaras e vírus e isolamento.

O vírus veio e trouxe para ela o fantasma da violência. O vírus é um depurador: quem era bom, melhor ficou; quem era ruim, em péssimo se tr...

ambiente de leitura carlos romero adriano de leon conto tragedia pandemia violencia a mulher traicao amantes conivencia familia drama domestico covid consequencia coronavirus

O vírus veio e trouxe para ela o fantasma da violência. O vírus é um depurador: quem era bom, melhor ficou; quem era ruim, em péssimo se transformou.

Uma manhã fria e nevoenta no brejo. A cidade desfilava seus véus de esbranquiçadas gotículas como filó em vestido de noiva. Não chovia, mas...

ambiente de leitura carlos romero adriano de leon misterios do tempo relojoeiro relogio da matriz relojoaria

Uma manhã fria e nevoenta no brejo. A cidade desfilava seus véus de esbranquiçadas gotículas como filó em vestido de noiva. Não chovia, mas a cidade lacrimejava invadindo os poros daqueles tijolos tão centenários. O sol insistia em rasgar aquele manto com seus amarelos, mas em vão.

Andarilho das manhãs na areia fina e esfriada pelas lambidas do mar, ele viu boiando já na quebra das ondas uma garrafa azul. Estava tampad...

ambiente de leitura carlos romero adriano de leon depressao angustia solidao ansiedade isolamento covid corona virus confinamento pandemia reflexao introspeccao

Andarilho das manhãs na areia fina e esfriada pelas lambidas do mar, ele viu boiando já na quebra das ondas uma garrafa azul. Estava tampada com uma rolha. Pegou-a e viu que dentro dela havia um papel. Uma mensagem:

Era uma mesa de cozinha. Sempre forrada com uma toalha de plástico com desenhos de frutas bem coloridas. A luz da janela acentuava aquelas ...

ambiente de leitura carlos romero adriano de leon saudosismo lembranca de infancia saudades tias copo de leite destino

Era uma mesa de cozinha. Sempre forrada com uma toalha de plástico com desenhos de frutas bem coloridas. A luz da janela acentuava aquelas cores tão quentes quanto os móveis dos filmes de Almodóvar.

É quando nos sentimos enlaçados, é quando nos sentimos à beira de um salto nos espaços abissais dos desejos, é quando os avisos de parar j...

ambiente de leitura carlos romero adriano de leon namoro amor dia dos namorados paixao humanismo

É quando nos sentimos enlaçados, é quando nos sentimos à beira de um salto nos espaços abissais dos desejos, é quando os avisos de parar já não são suficientes para nossa corrida.

Reticências e respiros. O nunca preencher-se. O sempre esborrar-se. O desencanto que chega repleto de encantamentos. O sono dos que nunca dormem. O sonho dos que nunca acordam.

...ambiente de leitura carlos romero adriano de leon namoro amor dia dos namorados paixao humanismo
Talvez o amor seja simplesmente uma dobra de nós mesmos em relação ao outro. Talvez o amor seja apenas um alento para nossa imensa incompletude. Talvez o amor seja um desejo jamais satisfeito, algo imponderável e secreto, infinitamente secreto.

Mas nada disto importa. O que realmente nos faz sonhar, rir à toa e também lacrimejar é saber que o amor é a emoção que não nos permite o sentir-se só. O amor não é ajuste, é completude que não se completa. O amor não é um só, posto que isto é preencher-se da própria individualidade.

Amor não é justaposição. É tão somente um reflexo, um lampejo. Tal como a lua obscura e triste se enfeita de luares quando o sol nela irradia seus solares, a tornando prateadamente encantada.

E se o amor não é perene é porque nos diz da nossa finitude toda vez que se esvai. E se o amor não é eterno, amar nos eterniza. Desta forma, isto nos permite amar sempre, diferentes pessoas, de diferentes maneiras, em espaços e tempos distintos.

ambiente de leitura carlos romero adriano de leon namoro amor dia dos namorados paixao humanismo

Assim, hoje, cultive seu amor. Não é preciso que se tenha namorado ou namorada pra isso. É só preciso que se tenha amor. E as artes de cuidar. Diga ao seu amor o quanto ele importa, o quanto ele é parte, o quanto ele lhe torna melhor.

Pense também nos seus ex-amores e recite baixinho um agradecimento por eles terem um dia escrito algo no seu livro da vida.
...ambiente de leitura carlos romero adriano de leon namoro amor dia dos namorados paixao humanismo
Mas veja que as palavras não são sempre os melhores instrumentos. Um olhar, um toque.

Deixe vir seu amor. Não aquele romântico que tem final feliz e dias solitários. Deixe vir aquele amor que é só seu. Mas que é tanto que escorre pra outros. Sim, o amor é fluidez. Ribeirinho que escorre manso e verdeja as margens que toca. Amor é porta aberta, mourão sem porteira. De catracas livres se sustenta o amor. Entra pela sala do olhar, arrepia os pelos do desejo, vibra as células da pulsação da vida, se espraia qual vírus nos hálitos dos amantes, se mistura qual cascata em lábios de saliva doce.

Com átomos de amor somos feitos. Órbitas da atração que não se traduz. Mas há algo que traduz a maior das artes do amor: o tornar-se mais humano, demasiadamente humano, porque me reconheço em cada um daqueles que meu amor tocou.

No começo disseram a ela que era um vírus mortal. Recomendaram para que ela ficasse em casa. Ela ficou. Foi sensibilizada por palavras ...

adriano de leon ambiente de leitura carlos romero pandemia confinamento covid bem comum liberdade tragedia humana

No começo disseram a ela que era um vírus mortal. Recomendaram para que ela ficasse em casa.

Ela ficou.

Foi sensibilizada por palavras lindas como amor ao próximo, sensibilidade, empatia, doação.

Ele acordou num pequeno corredor, estranho, sem teto. Ainda meio desorientado, ergueu-se, cambaleante, pé ante pé em direção ao nada.

labirintos adriano leon ambiente de leitura carlos romero

Ele acordou num pequeno corredor, estranho, sem teto. Ainda meio desorientado, ergueu-se, cambaleante, pé ante pé em direção ao nada.

Em um indefinido ano do século XX, ele ganhou uma caneca personalizada. Branca, com desenho de uma folha de plátano. Era simples. Chegou nu...

conto adriano de leon ambiente de leitura carlos romero

Em um indefinido ano do século XX, ele ganhou uma caneca personalizada. Branca, com desenho de uma folha de plátano. Era simples. Chegou numa data qualquer, nada de aniversário, Natal, bodas. Ela simplesmente chegou.

Recostado num balcão bolorento, Luís terminava o último trago daquela bebida barata. O ar estava enevoado de fumaça e de um ar abafado, ar ...


Recostado num balcão bolorento, Luís terminava o último trago daquela bebida barata. O ar estava enevoado de fumaça e de um ar abafado, ar de maresia misturado com cheiro de roupas suadas. Luís esperava há dois dias pela permissão de embarcar.

Havia mais homens antes naquele bar. Eram os maquinistas, os homens dos porões daquele que seria o grande sonho de Luís e talvez de quase todos que ali se encharcavam de desejos impossíveis. Um cachorro magrelo tomava conta de seu dono, cujo sono de bêbado lembrava mais um cadáver quase morto, quase vivo. As meretrizes já haviam se retirado também. Estas, as quais nem o sono é um direito, faziam parte daquele cenário de noites perdidas. O dono do bar sofria de insônia crônica, o que era perfeito para gerenciar o negócio.

Ele acordou com severas dores no maxilar. Apesar de tantos anos de tratamento, determinadas épocas do ano, as mais frias, faziam com que do...


Ele acordou com severas dores no maxilar. Apesar de tantos anos de tratamento, determinadas épocas do ano, as mais frias, faziam com que dores em forma de alfinetes na carne percorressem-lhe a face. Como raios em tempestade, as dores lhes rasgavam desde a articulação da mandíbula até as têmporas em espasmos ocasionais. A medicina havia suspeitado do território do nervo trigêmeo. Na verdade, estas dores eram físicas e muito mais emocionais. Preso durante a ditadura militar, ao se recusar a falar o que não sabia, foi espancado e, ao solo, levou um chute na boca por um coturno daqueles que faziam da força sua profissão de fé. Agora, assomada às dores físicas do trauma, havia o fantasmagórico passado batendo à sua porta, batendo até seus ossos.