Quando a Paraíba, por ocasião do centenário de nascimento de Augusto dos Anjos, procura a maneira mais justa e expressiva de reverenciar a memória do poeta que se disse, liricamente, “a mais hedionda / generalização do
Augusto dos Anjos ▪️ Arte: Tonio
desconforto”, não poderia encontrar melhor direção que esta: expor as oscilações da crítica brasileira, há 72 anos, intentando percorrer as veredas inóspitas e solitárias do EU.
Refazer esse caminho não é apenas acompanhar a história de compreensões e incompreensões, que têm sido os polos alternativos das leituras — nem sempre literárias — desse universo poético. É, sobretudo, fazer nascer um novo texto crítico, de onde o EU possa emergir em sua plenitude, para além dos limites puramente factuais, livre da redução deformadora que minimiza o gesto lírico por não perceber “na solidão do mesmo, a voz da humanidade”.
Decidida, em primeira instância, pelas limitações de tempo e espaço, a escolha dos textos que compõem este tablóide não obedeceu a critérios valorativos que privilegiassem uma ou outra tendência na leitura e captação do poético. Se houve um critério, foi o de permitir a confluência interativa das visões mais distintas, na convicção de que essa pluralidade acabaria por se constituir em novo e considerável signo, não apenas em relação ao EU como universo poético. Também a evolução da crítica, nem sempre em linha ascendente e, às vezes, com formidáveis saltos qualitativos, pode ser lida através desse conjunto heterogêneo, especificamente quanto ao problema que o livro do poeta paraibano representa no quadro da Literatura Brasileira. A disposição dos textos, em obediência à ordem cronológica de produção, é, ainda neste sentido, um dado fundamental a ser considerado.
Após a pesquisa de Marília Guedes Pereira, sabe-se que as referências bibliográficas sobre o EU ultrapassam a série de 500 títulos. Ante essa evidência, é compreensível que um trabalho desse porte se faça até mesmo com omissões imperdoáveis. No entanto, jamais intencionais.
Marília Guedes Pereira no Memorial Augusto dos Anjos da Academia Paraibana de Letras ▪️ Facebook: @marilia.guedespereira
Dessa forma, aqui está reunida uma amostra significativa das publicações que enfocam, no todo ou em parte e sob os mais diversos ângulos, o livro de indiscutível densidade, a “obra valorosa” pela qual o grande Augusto “se vai da lei da morte libertando”.
Permitindo uma variada gama de leituras, a coletânea poderá ser, para o alheio ao assunto, o despertar; para o iniciante, a perspectiva de ampliação dos limites; para os afeitos ao tema, a oportunidade da reflexão crítica e da revisão de conceitos.
Aqui também se oferece, para o interior distante, a possibilidade de acesso.
O EU descobre a crítica
Não será difícil perceber a discrepância entre grande parte dos trabalhos que constituem a fortuna crítica do EU. Mas, como diria o próprio Augusto, “Tudo convém para o homem ser completo”.
Existem estudos que se tornaram clássicos, pelas verdades estabelecidas há muitas décadas, pelo reconhecimento pioneiro da poesia instauradora de nova concepção estética nos meios literários brasileiros, incompreendida e recusada por “cantar de preferência o horrível”. São trabalhos insistentemente repetidos, sempre que se retoma o assunto.
Augusto dos Anjos ▪️ Fonte: Biblioteca Nacional
Há os que nada acrescentam. E, ainda mais, os que se equivocam desde o ponto de partida para a apreensão do fenômeno poético e se extraviam no percurso da leitura, sem jamais chegar ao essencial.
Finalmente, existem aqueles que voltam às questões fundamentais e, acompanhando-lhes a evolução histórica, logram redimensioná-las, preenchendo lacunas existentes, aclarando pontos obscuros, completando soluções apenas entrevistas.
Apesar dos descompassos críticos, o saldo é positivo. Isso é tudo. Isso basta. E, como prova de superação das idiossincrasias, o estudioso de Augusto dos Anjos encontra hoje, para muitas das questões suscitadas pela “poesia de tudo quanto é morto”, respostas seguras e convincentes, porque apoiadas em sólidas realidades textuais.
Sendo assim, talvez já constitua uma impropriedade ainda encarar o EU como um problema no quadro da Literatura Brasileira. Na verdade, este parece suficientemente elucidado em seus aspectos mais polêmicos. Neste sentido, os estudos de Lúcia Helena e de Ferreira Gullar, reproduzidos em parte neste tablóide, são marcos indispensáveis e esclarecedores.
Desenvolvendo modelos teóricos construídos com “dados da época e da situação da obra investigada”, portanto suficientemente aparelhados para revelar “a dinâmica do fato literário em sua totalidade”, os dois ensaios iluminam, de forma definitiva, o texto do poeta paraibano. Neles encontram-se tratados, com absoluta propriedade, temas que, ao longo dos anos, se tornaram constantes em relação ao EU, tais como: a escola literária, a linguagem, a biografia do poeta, a filosofia e o cientificismo, entre outros.
Não se trata, evidentemente, de supervalorizar o presente em detrimento do passado, de separar, num procedimento maniqueísta, a boa e a a má crítica, admitindo, preconceituosamente, que o mais novo é sempre o melhor. É fácil verificar que esta seria uma conclusão descabida, pois muitos dos textos de agora não suportariam que seus autores se permitissem a reflexão sugerida por Rilke: “Sou, de fato, obrigado a escrever?”
Rainer Maria Rilke, eminente poeta da língua alemã no século XX. Nasceu em 1875, autor de uma obra marcada por intensa reflexão existencial, espiritualidade, solidão, arte e pela busca de sentido da experiência humana ▪️ Foto: Profimedia
Do que se tem publicado sobre Augusto dos Anjos, é preciso distinguir, antes de mais nada, o que é crítica literária do que não pode ser assim considerado, por insuficiência metodológica ou porque não tem como objeto de estudo o fenômeno poético. Esta intersecção geradora de equívocos constituiu-se e continua a constituir-se em resistente obstáculo para o verdadeiro entendimento do EU.
Com efeito, as conclusões realmente críticas não se excluem, não precisam ser refutadas, mesmo que entre elas exista um considerável espaço de tempo, propiciando a inovação da linguagem e dos recursos analíticos. Assim é que, depois dos estudos de Lúcia Helena e de Ferreira Gullar, a resposta enfática de Orris Soares sobre a escola literária a que Augusto pertenceu ainda mais se reforça, agora apoiada em razões que ultrapassam “o individualíssimo sentir”.
Eduardo Portella, professor, ensaísta, crítico literário baiano com grande atuação na crítica literária, filosofia da linguagem e no pensamento cultural brasileiro ▪️ Fonte: ABL
Fica evidente que o salto não foi assim abissal. Este processo acumulativo passou, naturalmente, pela formulação do professor Eduardo Portella em Uma Poética da Confluência, como por outros esforços construtivos. E o resultado é que o encadeamento de visões acabou por responder à Literatura Brasileira a que escola pertence, ou não pertence, a poesia de Augusto dos Anjos.
Tudo faz crer, portanto, que o problema não reside em, um dia, ter sido a crítica biográfica ou impressionista, mas em não ter sido crítica. Ou, por outro lado, em permanecer apenas biográfica ou impressionista, desconhecendo as conclusões e potencialidades do seu tempo.
Afrânio Coutinho, professor, ensaísta, membro da Academia Brasileira de Letras, com papel decisivo na renovação dos estudos literários no Brasil. Defendia uma crítica mais técnica e voltada para o texto literário em si, em oposição ao excesso de biografismo e impressionismo que dominavam parte da crítica anterior ▪️ Fonte: Arquivo Nacional
Sem perder a perspectiva histórica, a consciência das possibilidades e limites espaço-temporais, o leitor poderá refazer este percurso ascensional em relação a muitas outras questões de fundamental interesse para a compreensão do EU. Os principais equívocos estão refutados e já não se pode falar em “infortúnio crítico”, como há onze anos, quando o Instituto Nacional do Livro lançava a coletânea organizada pelo professor Afrânio Coutinho.
Os estudiosos de Augusto dos Anjos encontrarão “lavrado o campo, a casa limpa”, “a mesa posta”. E o texto do EU em desafio, esperando que novos ensaios se disponham a colocar “cada coisa em seu lugar”.
Lamentavelmente, entre os futuros trabalhos faltará um que ficou em notas. Aquele que revelaria em Augusto “o trágico sem a sua hora”. Que, buscando, nos mais diferentes níveis, a transcendência dos elementos configuradores do poético, encontraria, na presença da evolução e da ciência, a fatalidade com outro nome, “a fatalidade que tudo vai fazer fenecer e perecer”. Que descobriria no tema da morte a colocação não apenas “do poder da Morte ou da simples destruição”, mas a presença do fracasso, do aviltamento, da dor, no que ela tem de humilhante, do sofrimento inútil do homem.
– tudo isso que mais o mancha do que mata”. Que entenderia “a eloquência de Augusto como solução (artística)” — o ensaio que o professor Juarez da Gama Batista não teve tempo de escrever.
Para além da efeméride
Lendo o programa das comemorações do Centenário, fica a impressão de que, durante este ano, a Paraíba inteira se transformou num grande fórum de debates para homenagear o seu poeta maior, compreendendo-o. Com certeza, é esse o espírito da festa.
A comissão organizadora, desde logo, caracterizou-se como ponto de convergência das sugestões e iniciativas, abdicando do papel centralizador e diretivo que, porventura, lhe pudesse ser destinado. Quis tirar da efeméride o traço episódico, exterior, banal, para fazê-la ultrapassar seu destino efêmero.
Retomando-se o lugar-comum, tudo pode parecer o empenho de fazer justiça ao poeta. Mas, na verdade, a Paraíba faz justiça a si mesma, procedendo como a crítica que “se deixou descobrir” pela poesia de Augusto dos Anjos.
Obra, Discussão e Crítica num Centenário, tablóide publicado nos 100 anos de nascimento de Augusto dos Anjos, com textos de Gillberto Freyre, Ledo Ivo, Anatol Rosenfeld, Antonio Houaiss, Ângela Bezerra de Castro e outros, pela Secretaria de Educação e Cultura de João Pessoa, e A União Companhia Editora ▪️ Fonte: @https://www.brasillivros.com.br/
Para cumprir o propósito em que se sustenta, a festa segue em direção às escolas, às publicações que acrescentam, aos debates esclarecedores. Procura ser o instante da divulgação escrita, acreditando que os escritos permanecem. Por isso, organizou este tablóide e recolheu com entusiasmo a pesquisa bibliográfica de Marília Guedes Pereira, patrocinando-lhe a publicação.
Também se empenha em ver reeditados os livros de estudos sobre o EU, cujos direitos autorais estão nas mãos da Tempo Brasileiro, do Instituto Nacional do Livro e da Paz e Terra.
Mas, sobretudo pela convicção de seu presidente, a Comissão do Centenário quer que a poesia do EU chegue às escolas do 1º e 2º graus. É um propósito que precisa ser visto com maior profundidade para não ser deturpado pelo preconceito, pela visão simplista de que esta é uma poesia difícil.
A consciência profissional do professor João Maurício de Lima Neves é a garantia de que Augusto dos Anjos não irá ser transformado no Barão de Macaúbas da escola de hoje. Sob os auspícios do Centenário, o poeta do EU não repetirá a experiência negativa que o cantor de Os Lusíadas representou no passado. O indispensável cuidado didático, que se inicia pela escolha do texto em função do nível da turma, evitará que, mudados os termos, outro depoimento como o de Graciliano Ramos possa acontecer no futuro: “Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da minha língua, fui compelido a adivinhar, em línguas estranhas, as filhas do Mondego, a linda Inês, as armas e os barões assinalados”.
Augusto chegará ao ensino médio sem complexidades teóricas. Basta a força estonteante de sua poesia e a mesma simplicidade com que as nossas avós nos deram o primeiro conhecimento dos seus versos, recitando-os de cor. E ninguém há de escrever: abominei Augusto.
* Introdução ao tablóide Obra, discussão e crítica num Centenário, 1985