A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa é ativado com muito mais intensidade pelo que não esperamos. E certamente explica por que, com o tempo, o Carnaval “perde a graça”. Quando um evento se torna previsível, o cérebro entra em modo de “economia de energia”, digamos assim, e aquela ansiedade com o novo é substituída por um “déjà vu” que tira o frescor da emoção.
Foto: Andrevruas
Esses fatores, em princípio, explicam o desencanto com o Carnaval. Mas há uma justificativa melhor, mais profunda, e tem a ver com o que se passa conosco. A nostalgia carnavalesca é a saudade de uma parte de nós que, há muitos anos, caía na folia com inocência e empolgação. É um luto suave por quem fomos em carnavais passados – a lembrança de um “eu” que ainda não estava calejado pelo cinismo, as responsabilidades acumuladas ou o cansaço físico. A nostalgia é a saudade de uma época em que o corpo não reclamava e a mente não precisava calcular os riscos dos excessos (alcóolicos e de outra natureza). Com o tempo os excessos, que são um traço peculiar desse período, deixam de fazer falta. E com isso sobramos nós.
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Difícil é saber como fazer isso, pois a vontade de se reencantar esbarra na limitação da vitalidade. A disposição física e mental é uma espécie de combustível, e quando o tanque está na reserva a forma de assegurar presença precisa ser reinventada para que lembranças e sensações não se apaguem de vez.
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Observando atentamente o desenrolar dos desfiles, pode-se apreciar o gingado de uma rainha de bateria, o detalhe da fantasia de uma criança ou o compasso do ritmista veterano. O que não se deve é, com as décadas de vida que retardam o passo, querer emular o jovem que saracoteia entre blocos e cordões. A nova presença é mais admirativa do que participativa, mas de algum modo nos restitui o encanto de outros tempos. Se ele não tem a mesma intensidade, serve para colorir com um pouco de alegria o pardacento agora.









