A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa...

Nova presença no Carnaval

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A surpresa aumenta o encanto. Isso tem uma explicação neurológica, pois o nosso sistema de recompensa é ativado com muito mais intensidade pelo que não esperamos. E certamente explica por que, com o tempo, o Carnaval “perde a graça”. Quando um evento se torna previsível, o cérebro entra em modo de “economia de energia”, digamos assim, e aquela ansiedade com o novo é substituída por um “déjà vu” que tira o frescor da emoção.

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Foto: Andrevruas
Músicas e fantasias antigamente me empolgavam. Nos primeiros anos, ouvir “Vassourinhas” causava uma explosão eufórica; os acordes iniciais soavam como um apelo que arrastava corpo e espírito ao turbilhão da festa. Hoje, que seus acordes parecem ter sido substituídos pelas notas ribombantes dos trios elétricos, essa música deixou de ser uma celebração. Por sua vez, a popularização de adereços em série e de temas que se repetem faz com que as fantasias pareçam uniformes e o impacto visual se perca.

Esses fatores, em princípio, explicam o desencanto com o Carnaval. Mas há uma justificativa melhor, mais profunda, e tem a ver com o que se passa conosco. A nostalgia carnavalesca é a saudade de uma parte de nós que, há muitos anos, caía na folia com inocência e empolgação. É um luto suave por quem fomos em carnavais passados – a lembrança de um “eu” que ainda não estava calejado pelo cinismo, as responsabilidades acumuladas ou o cansaço físico. A nostalgia é a saudade de uma época em que o corpo não reclamava e a mente não precisava calcular os riscos dos excessos (alcóolicos e de outra natureza). Com o tempo os excessos, que são um traço peculiar desse período, deixam de fazer falta. E com isso sobramos nós.

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GD'Art
A novidade das coisas não está nas coisas, mas no ineditismo do contato que temos com elas. Viver é cansar-se, e o grande desafio é se encantar com o que não é mais segredo. Quando nos adaptamos às características da festa, matamos o mistério e a sedução que ela exercia sobre nós. O desafio passa a ser, então, buscar uma nova forma de estar presente.

Difícil é saber como fazer isso, pois a vontade de se reencantar esbarra na limitação da vitalidade. A disposição física e mental é uma espécie de combustível, e quando o tanque está na reserva a forma de assegurar presença precisa ser reinventada para que lembranças e sensações não se apaguem de vez.

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GD'Art
Se a juventude é o tempo dos excessos, a maturidade é o tempo da seleção. Antes a disposição vinha de querer estar em todos os blocos, do amanhecer ao sereno; hoje está sobretudo no desejo de contemplar. Em vez de enfrentar a multidão sufocante, recolher-se à varanda ou mesmo ao sofá diante da TV – enquanto não chega o sono. Estar presente não é mais “aguentar muito”, mas sim aproveitar o que resta. Da festa e de si mesmo.

Observando atentamente o desenrolar dos desfiles, pode-se apreciar o gingado de uma rainha de bateria, o detalhe da fantasia de uma criança ou o compasso do ritmista veterano. O que não se deve é, com as décadas de vida que retardam o passo, querer emular o jovem que saracoteia entre blocos e cordões. A nova presença é mais admirativa do que participativa, mas de algum modo nos restitui o encanto de outros tempos. Se ele não tem a mesma intensidade, serve para colorir com um pouco de alegria o pardacento agora.

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