TRADUTTORE TRADITORE (Tradutor traidor) — diz o aforismo italiano, em trocadilho... que não se repete em português, num dos melhores exemplos de que todo CONHECIMENTO É realmente APROXIMADO, como assegura o célebre ensaio de Gaston Bachelard.
“To be, or not to be; that is the question” já foi traduzida como “Ser ou não ser, essa é que é a questão”, “esta é a questão”, “essa é a questão”, “eis a questão”, “eis a dúvida” e até “este é o problema”. O próprio dramaturgo andou hesitando sobre o que realmente queria dizer no monólogo, pois, numa das suas versões, consta: “To be, or not to be, there's the point”.
William Shakespeare ▪️ Imagem: GD'Art
Jamais me esquecerei da frustração ao ver sumir, em português, o fabuloso balbuciado “que-que-que” que existe no verso de São João da Cruz — “un no sé qué que quedan balbuciendo” —, que a tradutora Dora Ferreira da Silva liquidou com “um não sei quê de seu mero balbuciar”. Que tal tirar do deserto uma outra trinca de quês, a das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos?
Dora Ferreira da Silva, poetisa, ensaísta e tradutora brasileira do século XX ▪️ Fonte: Instituto Moreira Salles
Já pensou?
Arthur Schopenhauer foi buscar no hinduísmo a forma “véu de maya” (do sânscrito “ilusão, decepção”) para designar algo que eternamente resiste entre a verdade e a mera aparência dela.
Lembrei-me disso quando li um ensaio do amigo Kaplan, “A Objetividade da Interpretação Musical — um mito” (revista “Expressão”, da Universidade de Santa Maria — RS), em que o maestro conclui que é impossível, para executantes ou regentes, chegarem ao que os compositores realmente pretenderam com as partituras. As próprias indicações “allegro”, “andante”, “maestoso” etc. têm grau de imprecisão maior do que se supõe.
Maestro José Alberto Kaplan (Viena, 1959) ▪️ Acervo de família
WJ Solhaa em cena do filme Efeito Iôrran, fotografia de José Bezerra ▪️ Facebook do autor
Trecho do filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti, musicado com o 4º movimento da 5ª sinfonia de Mahler (Adagietto)











