Ele é idoso, curvado, uma câmera pendurada no pescoço. Com um galho fino, entra no regatozinho que corre entre as pedras e afasta ...

Dias perfeitos

Ele é idoso, curvado, uma câmera pendurada no pescoço. Com um galho fino, entra no regatozinho que corre entre as pedras e afasta as folhas caídas que impedem o fluxo da corrente. Uma a uma. Sento no banco para observar a cena. Ele segue com muita calma. Horas depois, quando volto ao lugar, está sentado olhando a água escorrer entre as pedras.

Foto: Sonia Zaghetto
Não falo mais que três frases em japonês, ele não fala inglês. Não quero usar tradutor. Nem cabe ali. Mas ele fala, me mostra as suas fotos na câmera. Entendo que ele fotografa os passarinhos a tomar banho no regato. E as flores, as árvores e as borboletas. Gesticula, ri, aponta os bichinhos. E me dá a mais profunda experiência do dia. Uma experiência quase religiosa. Muito mais bonita e significativa que a aprendida quando o monge mal humorado do templo me virou a cara por eu não falar japonês. Queria saber o nome dele. Mas nomes importam pouco em situações desse tipo.
Foto: Sonia Zaghetto
O primeiro dia em Tóquio foi dedicado ao meu lugar favorito: o parque Ueno, que me retribuiu com experiências inesquecíveis. Decidi que essa passagem pelo Japão seria um caminho de ser menos turista e mais observadora da alma da cidade. E o parque Ueno serve bem para isso.

Para esse caldeirão humano convergem famílias passeando, turistas, artistas de rua, gente a caminho do trabalho. Ali está o maior conjunto de museus de Tóquio, as douradas árvores de ginkgo, templos xintoístas e budistas. E tudo o que se ouve é o piar dos passarinhos.

Do que as imagens não traduzem: o sol passando entre as folhas vermelhas de bordo japonês, o malabarista de camisa amarelo-gema e suspensórios suando sob o sol forte e sem gorjeta (essa eu conto depois, no blog), o lago Shinobazu, coberto de folhas secas de lotus porque é inverno e no centro da ilha o templo da deusa Benzaiten, a patrona dos escritores e artistas em geral. Acendo incenso para a deusa.

Parque Ueno, em Tóquio, especialmente famoso e muito visitado na primavera, foi inaugurado há mais de 150 anos em uma área que pertenceu ao anigo templo Kan'ei-ji, hoje um grande centro cultural e de lazer ▪️ Fotos: Sonia Zaghetto
Passei pelos mercados natalinos (onde influencers coreanos faziam selfies diante do papai noel) e como todo mundo, parei para ver o empregado da prefeitura cortar um galho seco no alto de uma árvore.

Termino o dia no Museu de Arte Ocidental, vendo pinturas impressionistas raras e desenhos de Dürer. E que experiência é visitar um museu no Japão. Muitos jovens tentando entender a cultura expressa na arte ocidental, silêncio absoluto (essa também contarei depois).

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