O rapaz estava morando sozinho na Capital, fazendo o curso de Medicina, e o tio-avô o convidava vez em quando para comer no casarão ...

O sobrinho e o tio-avô

jose americo fcja
O rapaz estava morando sozinho na Capital, fazendo o curso de Medicina, e o tio-avô o convidava vez em quando para comer no casarão do Cabo Branco. Bom negócio para os dois: para o rapaz que se alimentaria melhor sem gastar nada e para o tio que teria companhia em sua célebre solidão. De certa forma, um encontro. Um encontro familiar e de gerações, no qual ambos os protagonistas teriam o que trocar – e ganhar. O tempo iria mostrar – e mostrou.

O sobrinho chegou tímido na casa-grande de beira de praia, como uma visita cautelosa. Intimidava-o não só a construção imponente, apesar de simples, mas a fama e a autoridade daquele tio-avô
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ilustre, irmão de sua avó, cujo nome e respeitabilidade ultrapassara há muito os muros da aldeia para alcançar todo o país imenso. Definitivamente, era alguém que já não pertencia apenas à família e à terra natal, mas ao povo todo da nação, convertido, por força dos fatos, em estátua viva de si mesmo, mais monumento que homem. Justificavam-se, portanto, a cautela e a disfarçada cerimônia do jovem acadêmico ao cruzar os baixos portões do templo mais que doméstico – cívico.

As refeições eram feitas numa clara e arejada sala do piso térreo que dava para o quintal, a paisagem verde a compor o idílico quadro de um jovem e um quase ancião a compartilharem a comida simples, saudável e paraibana, proclamada receita da longevidade e saúde do anfitrião. Ali só tinham acesso os íntimos, pois os demais, mesmo que importantes, limitavam-se à espaçosa varanda, preservada fronteira da indevassável domesticidade do dono da casa. Este, sempre cioso de sua reserva, não concedia aproximação e familiaridade a qualquer um. Na verdade, a quase ninguém, mesmos aos mais próximos, fossem amigos ou do sangue. Havia ao seu redor como que uma invisível barreira que, não o isolando das pessoas, guardava-o para si mesmo. Mas sem qualquer arrogância nem mundano orgulho.

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E para além daquela aprazível salinha dos fundos havia um santuário ainda mais exclusivo: o quarto do tio no andar de cima, misto de dormitório e de lugar de leitura, no qual reinava uma brejeira rede, resquício e símbolo da infância e da serra onde nascera. Tudo muito simples, como uma cela de monge: a cama de madeira escura e o armário das roupas. Pela janela, a riqueza da vista dos coqueiros e do mar, sem falar na brisa que lhe amenizava o calor e trazia notícias de além-muro. Ali era o coração da casa, o recolhimento dentro do recolhimento. Lugar de pouquíssimos: o tio, a secretária, algum médico eventual, a funcionária da arrumação e limpeza. Só. E, aos poucos, aquele jovem sobrinho a quem o senhor ia se afeiçoando devagarzinho e cedendo espaço – na casa e no coração.

Uma vez, no quarto, o rapaz precisou lavar as mãos. Ia descer ao toalete social do térreo, quando o tio lhe disse que podia usar o banheiro anexo, aquele que o servia exclusivamente. O sobrinho entrou no local, lavou as mãos e observou o entorno com olhos não do futuro oftalmologista que seria mas do arquiteto
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que nunca foi. Verificou a exiguidade espacial e a simplicidade dos materiais. Os azulejos, brancos como os de um hospital. Nenhum luxo. Um certo ascetismo até, a combinar com a austeridade do quarto, da casa, e que era também a do dono de tudo aquilo. Para o rapaz, uma pequena reforma poderia deixar o banheiro maior e mais confortável. E ele teve a coragem (ousadia?) de dizer isso ao tio, pensando principalmente em seu bem-estar. Ao que o mais velho respondeu no ato, mais ou menos assim: “Precisa não. Está bom assim. Não preciso de mais.”. Era o asceta sentenciando a notória modéstia em que sempre vivera, a despeito das ilusórias aparências vinculadas ao poder que lhe atribuíam.

A resposta marcou o sobrinho, que ainda hoje a relembra emocionado. O tio era assim mesmo, morigerado. Anos atrás, no Rio de Janeiro, quando ministro, não raro ia para o trabalho e voltava para casa de ônibus, para espanto dos companheiros de lotação que o reconheciam, figura pública que era, com foto frequente nos jornais. Exemplo admirável de homem público, gradativamente – e à sua revelia – transformado em reserva moral do país, numa época em que tal mercadoria já começava a escassear no Brasil.

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O sobrinho formou-se e tornou-se um dos melhores oftalmologistas de sua geração, discípulo fiel do professor Hilton Rocha, de Belo Horizonte, astro maior da especialidade entre nós. Por ironia da vida, o tio-avô carregou desde moço uma invencível miopia, tão forte que se tornou lendária, mas que nunca o impediu de enxergar longe e de ver o que de fato importava.

Com a partida do tio-avô, o casarão transformou-se em museu a ele dedicado. O sobrinho vez por outra o visita, para algum evento cultural. E nunca perde a oportunidade de contemplar, não sem doce nostalgia, a antiga sala envidraçada onde sua um pouco já distante juventude alimentou fartamente corpo e espírito.

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  1. Anônimo6/5/24 15:57

    As boas lembranças sempre dão boas histórias, Astenio. Obrigado e abraço. Francisco Gil Messias.

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  2. Anônimo8/5/24 07:06

    Obrigado, Leo. Gil.

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