O livro *O Mito do Estado*, publicado em 1946 pelo filósofo alemão Ernst Cassirer (1874–1945), constitui uma reflexão filosófico-política sobre a regressão da racionalidade nos Estados contemporâneos e na geopolítica. Escrita após a Segunda Guerra Mundial, a obra busca compreender como sociedades que se julgavam orientadas pelos ideais do
Ernst Cassirer, filósofo alemão entre os principais representantes do neokantismo ▪️ Fonte: @ullstein bild
Iluminismo — como a racionalidade, o anticlericalismo, os direitos individuais e a valorização da ciência — puderam sucumbir a formas extremas de irracionalismo político. Cassirer identifica, nesse processo, o ressurgimento do pensamento mítico como uma força ativa e tecnicamente mobilizada no interior das estruturas do Estado.
O pensamento do filósofo, crítico de arte e escritor francês Denis Diderot (1713–1784) está inserido no Iluminismo, que teve início no final do século XVII e se estendeu até 1789, com a Revolução Francesa. Esse movimento defendeu o uso da razão, da ciência e da liberdade individual contra o absolutismo dos reis, que governavam sem restrições
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parlamentares ou constitucionais, criando leis, impostos e exercendo a justiça de forma soberana e irrestrita, bem como contra os poderes econômicos e ideológicos das instituições religiosas, frequentemente associados à alienação e à miséria dos povos.
Nesse processo, o ceticismo configura-se como uma atitude crítica voltada à superação da ignorância e do dogmatismo. Diderot compreendeu o ceticismo como uma postura epistemológica ativa, capaz de interromper a aceitação passiva de discursos autoritários e de incentivar o exercício da autonomia intelectual.
Ao longo da história da humanidade, a instrumentalização da falsidade tem sido estruturada para construir a ideia do inimigo, frequentemente por meio de ideologias perversas e de formas de religiosidade discriminatórias. No século XX, a propaganda adquire uma dimensão ainda mais robusta, sendo utilizada para tornar invisível o bem comum e substituí-lo por uma realidade artificialmente fabricada.
A condição humana pode ser compreendida, sob uma perspectiva filosófica, como uma dinâmica de afetos na qual se aproximam forças aparentemente antagônicas, mas estruturalmente complementares. Entre essas forças, o medo e a esperança configuram não apenas disposições emocionais contingentes, mas densos operadores existenciais que orientam a ação, modulam a percepção do tempo e organizam a perspectiva de sentido do indivíduo. O medo — enquanto afecção vinculada à autopreservação — expõe a vulnerabilidade constitutiva do ser, situando-o diante da finitude e do risco; a esperança, por sua vez, projeta o sujeito para além do presente, instaurando uma abertura ao possível que sustenta tanto a ação quanto a perseverança. A maturidade existencial, nesse processo, está na capacidade de sustentar uma tensão entre prudência e projeção, entre temor e impulso vital.
A obra O Sentido da Arte (1931), escrita pelo poeta e crítico de arte e de literatura britânico Herbert Edward Read (1893-1968), versa acerca da natureza, da função e do valor da arte na vida humana. Inserido no contexto das transformações estéticas e sociais do período entre guerras, Read propõe uma compreensão da arte como expressão
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fundamental da experiência humana e como elemento estruturante da sensibilidade e da cultura, transcendendo épocas e indivíduos. Para ele, a arte é uma necessidade biológica e psicológica de ordenar a experiência do mundo.
O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), em sua obra Fenomenologia da Percepção, publicada em 1945, realiza uma crítica à concepção positivista da percepção. Ele questiona a redução da experiência sensível a um encadeamento causal entre estímulo e resposta. No positivismo científico, a percepção é frequentemente compreendida como um processo posterior à sensação, no qual a consciência organizaria dados sensoriais previamente recebidos pelos sentidos para formar a representação de um objeto. Tal concepção, entretanto, fragmenta a experiência perceptiva e a submete a um modelo mecanicista que separa artificialmente sujeito e mundo.
O conceito de desencantamento do mundo foi formulado pelo jurista e economista alemão Maximilian Karl Emil Weber (1864–1920) em seu livro A Ciência como Vocação, publicado em 1919. Refere-se ao processo histórico pelo qual as sociedades ocidentais passam a organizar sua vida social com base em princípios de racionalidade
Max Weber, um dos precursores da sociologia econômica, autor de estudos acerca da origem da civilização ocidental e seu lugar na história universal ▪️ Foto: @picture-alliance (DP)
formal, substituindo progressivamente as explicações religiosas por formas científicas e burocráticas
de interpretação da realidade. Nesse processo, o universo deixa de ser compreendido como um cosmos dotado de significados sagrados e passa a ser interpretado como um sistema governado por leis objetivas, passível de cálculo e controle. O mundo torna-se, portanto, administrável, previsível e tecnicamente manipulável. Entretanto, Weber observa que essa racionalização traz consigo uma consequência existencial: a crise e a perda de sentido que caracterizam a experiência moderna. Assim, a modernidade produz o que ele chama de “politeísmo dos valores”, no qual ciência, política, arte e economia passam a operar por meio de lógicas próprias, frequentemente em conflito entre si.
Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, em Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal, publicado em 1963, argumenta que o mal pode se manifestar não necessariamente por perversidade consciente, mas pela incapacidade de pensar criticamente e julgar moralmente os próprios atos dentro de estruturas burocráticas. Ao analisar o julgamento do criminoso nazista alemão Otto Adolf Eichmann (1906-1962), Arendt demonstra como sistemas administrativos podem
Adolf Eichmann, oficial nazista responsável pela logística das deportações de judeus para campos de extermínio durante o regime de Adolf Hitler ▪️ DP
normalizar a destruição humana quando o indivíduo despreza a reflexão ética e se limita a cumprir ordens. Em fenômenos de guerra, esse processo é potencializado pela desumanização do inimigo, mecanismo que transforma o outro em objeto a ser eliminado, legitimando a violência sob o poder da legalidade estatal.
Lete, cujo nome significa esquecimento, constitui elemento da mitologia grega e uma reflexão filosófico-religiosa da Antiguidade. Filha de Éris, deusa da Discórdia, Lete encarna não apenas a perda da memória, mas uma dimensão ontológica do ser humano: o esquecimento como condição da existência mortal e como limite entre vida, morte e renascimento.
Immanuel Kant (1724–1804), em seu livro À Paz Perpétua (1795), propõe um projeto jurídico para a construção de uma paz duradoura entre as nações. Para o filósofo, a paz é um ideal racional que deve ser instituído por meio de normas e acordos entre os povos. A razão, segundo Kant, condena a guerra como meio legítimo de direito, transformando o estado de paz em um dever moral e político. Contudo, essa paz só pode ser assegurada por meio de um pacto entre os Estados, fundamentado em princípios jurídicos. A obra divide-se em duas partes: os artigos preliminares e os artigos definitivos, seguidos de dois suplementos. Nos seis artigos preliminares, Kant enumera condições que devem ser eliminadas para tornar possível a paz futura.
A filosofia moral de David Hume (1711–1776), filósofo e historiador britânico nascido na Escócia, representa uma ruptura com as tradições racionalistas que buscavam fundamentar a moral em princípios objetivos da razão. Ele defendia o conhecimento que advém da prática, dos sentimentos e percepções, e o ceticismo filosófico que trata da impossibilidade de se alcançar a verdade, propondo a suspensão da faculdade de pensar sobre as afirmações para atingir a tranquilidade.
Immanuel Kant (1724–1804), filósofo alemão, compreende o funcionamento do conhecimento humano a partir de três grandes faculdades: a de conhecer, a prática e a de julgar. Essas estruturam o modo como o ser humano se relaciona com o mundo,
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consigo mesmo e com os valores estéticos. A primeira é a faculdade de conhecer, responsável pelo conhecimento científico. Nela, a razão opera dentro dos limites da experiência possível, produzindo conhecimentos objetivos e universais. Kant afirma que “todo o nosso conhecimento começa com a experiência, mas nem por isso deriva todo ele da experiência” (KANT, Crítica da Razão Pura, B1). Isso significa que, embora o conhecimento tenha início na experiência, ele depende de estruturas a priori do sujeito para se organizar. A segunda é a faculdade prática, ligada à moral.
O ensaio original que define os dois conceitos de liberdade do filósofo russo Isaiah Berlin (1909–1997), intitulado Esperança e Medo, foi originalmente proferido como uma palestra em 1957 e publicado em 1958. Essa coletânea oferece uma estrutura conceitual para compreender — nos dias atuais — as disposições emocionais que atravessam a experiência humana em contextos políticos, sociais e existenciais. Ao articular liberdade negativa e liberdade positiva, Berlin defende uma tese para pensar o pluralismo, os riscos do autoritarismo e a
Melanie Klein (1882–1960) foi uma psicanalista austríaca pioneira na análise infantil, revolucionando a área ao introduzir o brincar como método de investigação do inconsciente. Fundadora da teoria das relações objetais, destacou a importância da fantasia precoce, da ansiedade e dos mecanismos de
Melanie KleinGD'Art
defesa nas posições esquizoparanoide e depressiva. Ela defendeu que sentimentos como a inveja são inerentes à vida psíquica desde o início, influenciando o desenvolvimento saudável das emoções e da mente, dependendo de como são simbolizados e trabalhados internamente. A reparação surge como uma resposta intrapsíquica à frustração causada pelos impulsos destrutivos e se manifesta quando o indivíduo reconhece a ambivalência dentro de si: amor e ódio coexistindo em relação ao mesmo objeto.
O livro O sonho de um homem ridículo, escrito pelo filósofo, escritor e jornalista russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821–1881) e publicado em 1877, afirma que a salvação da humanidade não virá de sistemas políticos, avanços tecnológicos ou teorias abstratas, mas de uma profunda transformação interior. O autor defende uma exigência moral: o paraíso não está perdido no passado nem prometido para um futuro distante; ele é uma possibilidade sempre presente, que depende da escolha livre de cada ser humano.
A beleza da simplicidade no canto regional e na ancestralidade expressa uma forma de estar no mundo, de preservar identidades e de transmitir saberes que atravessam gerações. Esses elementos, quando combinados em uma obra de arte — por exemplo, a arte de cantar — produzem uma experiência armazenada de memória, emoção, pertencimento e dignidade. É dessa combinação que nasce a espontaneidade, na qual é possível encontrar uma vivência que resiste ao engessamento da técnica excessivamente formalizada. Nela, há o gesto natural do corpo que pulsa para cantar, tornando o palco um espaço de empatia e partilha, no qual cada espectador se reconhece no cancioneiro, na poesia e na melodia. Esse processo eu observei durante o show da paraibana Mayana Neiva, no dia 6 de dezembro, no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa (PB).
Vivemos em uma época marcada por transformações tecnológicas aceleradas, hiperexposição a estímulos, intensificação das dinâmicas produtivas e fragilização dos vínculos comunitários. Esses processos produzem um modo de existência no qual a sensibilidade — entendida como capacidade de perceber, afetar-se e responder eticamente ao mundo — sofre um visível apequenamento.
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Reconstruir a sensibilidade significa reinstaurar a potência do sentir, reeducar a percepção do olhar e reaproximar o sujeito de si, do outro e da realidade. Trata-se, portanto, de uma atitude que envolve não apenas dimensões individuais, mas também institucionais e civilizatórias. A reconstrução da sensibilidade é uma resposta necessária aos processos de desumanização que atravessam a modernidade. Ela exige reaprender a sentir, reaprender a ver e reaprender a ouvir para manter a dignidade de todos.
Em sua obra clássica O Processo Civilizador (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897–1990) argumenta que as sociedades ocidentais passaram, ao longo de séculos, por transformações graduais que envolveram uma crescente regulação dos impulsos, um refinamento das maneiras e a monopolização da violência — seja individual ou institucional — pelo Estado. Contudo, Elias evidencia que tal processo não é linear nem contínuo; ao contrário, é historicamente contingente, podendo apresentar avanços e regressões. Assim como há tendências civilizadoras, existem também processos descivilizadores, caracterizados pela reemergência da brutalidade e pela supressão institucional dos mecanismos que regulam o comportamento humano.
Diante de um mundo marcado pelo sofrimento, Arthur Schopenhauer (1788–1860), filósofo alemão, em sua obra Sobre o fundamento da moral, publicada em 1840, propõe uma ética fundamentada na compaixão. Embora o egoísmo e a crueldade constituam aspectos inerentes à condição humana, a solidariedade apresenta-se, em sua filosofia, como o contraponto ético e afetivo ao impulso egoísta, expressando uma resposta existencial diante das falhas da existência que constituem a vida.
A relação do médico neurologista e psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939) com a arte fundamenta as bases para a crítica de arte e a estética psicanalítica. O seu trabalho oferece a compreensão da criação e da experiência artística, vendo a arte não apenas como um fenômeno cultural, mas como uma manifestação da vida psíquica inconsciente. Para Freud, em seu livro A Interpretação dos Sonhos, publicado em 1900, “A arte é como os sonhos e os sintomas neuróticos: ela permite o acesso aos conteúdos reprimidos e aos desejos não realizados do ser humano”.