O regionalismo na música erudita constitui uma manifestação estética por meio da qual os compositores incorporam elementos das tradições culturais de determinadas regiões, como melodias folclóricas, ritmos populares, danças, lendas, instrumentos tradicionais, modos de organização sonora e particularidades linguísticas. Tudo isso representa uma reelaboração artística da memória coletiva, mediante a qual materiais provenientes da cultura popular são transfigurados pela linguagem da música de concerto.
Heitor Villa-Lobos (1887–1959) construiu uma linguagem composicional pan-brasileira, na qual une as diversas culturas musicais de todas as regiões do Brasil. Nesse processo, incorporou temas do folclore, da música popular, das tradições indígenas, afro-brasileiras e da música de concerto europeia. Segundo Mário Raul de Morais Andrade (1893–1945), poeta, contista, cronista, romancista, musicólogo, historiador da arte, crítico e fotógrafo brasileiro, em seu livro Ensaio sobre a música brasileira, publicado em 1928, a construção de um gosto musical deve estabelecer diálogo com as manifestações musicais existentes no território nacional. Para o modernismo brasileiro, a cultura popular é uma fonte para a construção de uma identidade estética nacional.
Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) — escritor e filósofo russo — defende que a arte de suportar-se pode ser compreendida como a capacidade de enfrentar o próprio mal-estar interior, abandonando as ilusões, racionalizações e mentiras por meio das quais o indivíduo procura aliviar a culpa e proteger-se de suas próprias contradições. Para o escritor russo, o maior fardo da existência não reside necessariamente nas adversidades externas, mas no confronto com o próprio mundo interior: o egoísmo, o ressentimento, o desejo de reconhecimento, a necessidade de liberdade e as
Leitor de Dostoiévski ▪️ Arte: Emil Filla (1907)
regiões obscuras da consciência que constituem aquilo que se poderia chamar de subsolo da subjetividade. Nesse sentido, suportar a própria existência não significa simplesmente resistir ao sofrimento, mas desenvolver a capacidade de permanecer diante de si mesmo sem recorrer permanentemente ao autoengano.
O idealismo mágico é uma concepção filosófica e poética desenvolvida no final do século XVIII pelo escritor, poeta e filósofo alemão Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg (1772–1801), mais conhecido pelo pseudônimo de Novalis. Nessa perspectiva, a magia não é entendida como um fenômeno sobrenatural, mas como a capacidade de mobilizar a imaginação e a vontade em sintonia com as emoções para transformar a realidade. Essa concepção propõe uma integração entre filosofia, ciência, religião, arte e literatura, compreendendo esses campos do conhecimento como expressões complementares de uma mesma busca pela compreensão e pela transfiguração da experiência humana.
A intencionalidade artística refere-se ao conjunto de propósitos que orientam o processo criativo do artista na elaboração de uma obra. Essa intenção manifesta-se na comunicação de ideias, na expressão de emoções, na elaboração simbólica da experiência humana e na provocação de reflexões acerca da realidade. Nesse sentido, a arte constitui uma forma privilegiada de produção de sentidos, por meio da qual o sujeito interpreta o mundo, questiona valores estabelecidos e compartilha visões de existência. Mais do que um objeto estético, a obra de arte configura-se como uma linguagem capaz de mobilizar processos cognitivos, afetivos, éticos e políticos.
A poética etnomusicológica é uma metodologia epistemológica e pedagógica que integra a percepção artística à etnografia para reorganizar a produção musical, a pesquisa e o ensino. Ao fazê-lo, constitui um processo de descolonização da educação acadêmica no século XXI, desafiando o predomínio histórico de modelos de ensino baseados em paradigmas europeus e oferecendo uma base para o desenvolvimento dos saberes tradicionais e populares no contexto educacional.
O desenvolvimento tecnológico, a aceleração dos processos comunicacionais e a crescente valorização da competitividade têm contribuído para a formação de sociedades cada vez mais individualistas, marcadas pela fragmentação dos vínculos humanos e pela redução dos espaços de convivência. Nesse contexto, a educação artística, especialmente por meio do canto coral, emerge como uma importante prática de formação humana, capaz de promover a reeducação da sensibilidade, fortalecer os laços comunitários e contribuir para o desembrutecimento social. Também constitui uma experiência estética, ética e política que favorece a construção da empatia, da cooperação e do reconhecimento do outro.
A canção He ain’t heavy, he’s my brother (Ele não é um peso, ele é meu irmão), composta pelos norte-americanos Bob Russell (1914–1970) e Bobby Scott (1937–1990), foi imortalizada pela banda britânica The Hollies e constitui uma das mais expressivas representações da solidariedade no imaginário coletivo. Lançada em 1969, em uma realidade marcada por profundas tensões sociais, conflitos armados e transformações culturais, a obra transmite uma mensagem de elevado valor ético: o outro não é um fardo, mas uma responsabilidade compartilhada que dignifica a própria condição humana.
Desde o surgimento das civilizações ocidentais e orientais nesses mais de cinquenta mil anos, reconhece-se que o som rítmico e harmônico exerce uma influência positiva sobre a saúde e o comportamento humano. Nesses últimos doze mil anos, a música não era apenas entretenimento, mas uma ciência matemática fundamental, um instrumento de formação moral e uma via de conexão direta com o divino,
Em sua obra Políticas da Inimizade, publicada originalmente em francês em 2016, o filósofo camaronês Achille Mbembe desenvolve uma crítica às formas contemporâneas de poder, exclusão e violência ao longo de cinco capítulos. Em conjunto, esses capítulos revelam sua preocupação com os mecanismos atuais de produção da exclusão, da violência e da morte, demonstrando como o racismo, o colonialismo e a lógica da inimizade continuam a estruturar o ódio nos discursos políticos
Niccolò di Bernardo dei Machiavelli (1469–1527) foi filósofo, historiador, poeta, diplomata e pensador político italiano. Em sua obra O Príncipe, publicada em 1532, Maquiavel apresenta os conceitos de virtù e fortuna, fundamentais para a compreensão de sua teoria política. O autor também desenvolve essas noções em Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, publicado em 1531. Ambos os conceitos estruturam sua reflexão acerca da conquista, manutenção e estabilidade do poder político.
O livro *O Mito do Estado*, publicado em 1946 pelo filósofo alemão Ernst Cassirer (1874–1945), constitui uma reflexão filosófico-política sobre a regressão da racionalidade nos Estados contemporâneos e na geopolítica. Escrita após a Segunda Guerra Mundial, a obra busca compreender como sociedades que se julgavam orientadas pelos ideais do
Ernst Cassirer, filósofo alemão entre os principais representantes do neokantismo ▪️ Fonte: @ullstein bild
Iluminismo — como a racionalidade, o anticlericalismo, os direitos individuais e a valorização da ciência — puderam sucumbir a formas extremas de irracionalismo político. Cassirer identifica, nesse processo, o ressurgimento do pensamento mítico como uma força ativa e tecnicamente mobilizada no interior das estruturas do Estado.
O pensamento do filósofo, crítico de arte e escritor francês Denis Diderot (1713–1784) está inserido no Iluminismo, que teve início no final do século XVII e se estendeu até 1789, com a Revolução Francesa. Esse movimento defendeu o uso da razão, da ciência e da liberdade individual contra o absolutismo dos reis, que governavam sem restrições
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parlamentares ou constitucionais, criando leis, impostos e exercendo a justiça de forma soberana e irrestrita, bem como contra os poderes econômicos e ideológicos das instituições religiosas, frequentemente associados à alienação e à miséria dos povos.
Nesse processo, o ceticismo configura-se como uma atitude crítica voltada à superação da ignorância e do dogmatismo. Diderot compreendeu o ceticismo como uma postura epistemológica ativa, capaz de interromper a aceitação passiva de discursos autoritários e de incentivar o exercício da autonomia intelectual.
Ao longo da história da humanidade, a instrumentalização da falsidade tem sido estruturada para construir a ideia do inimigo, frequentemente por meio de ideologias perversas e de formas de religiosidade discriminatórias. No século XX, a propaganda adquire uma dimensão ainda mais robusta, sendo utilizada para tornar invisível o bem comum e substituí-lo por uma realidade artificialmente fabricada.
A condição humana pode ser compreendida, sob uma perspectiva filosófica, como uma dinâmica de afetos na qual se aproximam forças aparentemente antagônicas, mas estruturalmente complementares. Entre essas forças, o medo e a esperança configuram não apenas disposições emocionais contingentes, mas densos operadores existenciais que orientam a ação, modulam a percepção do tempo e organizam a perspectiva de sentido do indivíduo. O medo — enquanto afecção vinculada à autopreservação — expõe a vulnerabilidade constitutiva do ser, situando-o diante da finitude e do risco; a esperança, por sua vez, projeta o sujeito para além do presente, instaurando uma abertura ao possível que sustenta tanto a ação quanto a perseverança. A maturidade existencial, nesse processo, está na capacidade de sustentar uma tensão entre prudência e projeção, entre temor e impulso vital.
A obra O Sentido da Arte (1931), escrita pelo poeta e crítico de arte e de literatura britânico Herbert Edward Read (1893-1968), versa acerca da natureza, da função e do valor da arte na vida humana. Inserido no contexto das transformações estéticas e sociais do período entre guerras, Read propõe uma compreensão da arte como expressão
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fundamental da experiência humana e como elemento estruturante da sensibilidade e da cultura, transcendendo épocas e indivíduos. Para ele, a arte é uma necessidade biológica e psicológica de ordenar a experiência do mundo.
O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), em sua obra Fenomenologia da Percepção, publicada em 1945, realiza uma crítica à concepção positivista da percepção. Ele questiona a redução da experiência sensível a um encadeamento causal entre estímulo e resposta. No positivismo científico, a percepção é frequentemente compreendida como um processo posterior à sensação, no qual a consciência organizaria dados sensoriais previamente recebidos pelos sentidos para formar a representação de um objeto. Tal concepção, entretanto, fragmenta a experiência perceptiva e a submete a um modelo mecanicista que separa artificialmente sujeito e mundo.
O conceito de desencantamento do mundo foi formulado pelo jurista e economista alemão Maximilian Karl Emil Weber (1864–1920) em seu livro A Ciência como Vocação, publicado em 1919. Refere-se ao processo histórico pelo qual as sociedades ocidentais passam a organizar sua vida social com base em princípios de racionalidade
Max Weber, um dos precursores da sociologia econômica, autor de estudos acerca da origem da civilização ocidental e seu lugar na história universal ▪️ Foto: @picture-alliance (DP)
formal, substituindo progressivamente as explicações religiosas por formas científicas e burocráticas
de interpretação da realidade. Nesse processo, o universo deixa de ser compreendido como um cosmos dotado de significados sagrados e passa a ser interpretado como um sistema governado por leis objetivas, passível de cálculo e controle. O mundo torna-se, portanto, administrável, previsível e tecnicamente manipulável. Entretanto, Weber observa que essa racionalização traz consigo uma consequência existencial: a crise e a perda de sentido que caracterizam a experiência moderna. Assim, a modernidade produz o que ele chama de “politeísmo dos valores”, no qual ciência, política, arte e economia passam a operar por meio de lógicas próprias, frequentemente em conflito entre si.
Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, em Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal, publicado em 1963, argumenta que o mal pode se manifestar não necessariamente por perversidade consciente, mas pela incapacidade de pensar criticamente e julgar moralmente os próprios atos dentro de estruturas burocráticas. Ao analisar o julgamento do criminoso nazista alemão Otto Adolf Eichmann (1906-1962), Arendt demonstra como sistemas administrativos podem
Adolf Eichmann, oficial nazista responsável pela logística das deportações de judeus para campos de extermínio durante o regime de Adolf Hitler ▪️ DP
normalizar a destruição humana quando o indivíduo despreza a reflexão ética e se limita a cumprir ordens. Em fenômenos de guerra, esse processo é potencializado pela desumanização do inimigo, mecanismo que transforma o outro em objeto a ser eliminado, legitimando a violência sob o poder da legalidade estatal.
Lete, cujo nome significa esquecimento, constitui elemento da mitologia grega e uma reflexão filosófico-religiosa da Antiguidade. Filha de Éris, deusa da Discórdia, Lete encarna não apenas a perda da memória, mas uma dimensão ontológica do ser humano: o esquecimento como condição da existência mortal e como limite entre vida, morte e renascimento.