Um bom presente que nosso jornal A União ofereceu à cidade e aos seus leitores, às vésperas do 5 de agosto, foi, sem dúvida, o registro consolidado pelo artigo de João Bosco Ferraz de Oliveira, colunista da página de Economia da antevéspera, “João Pessoa 441 em outro patamar”. Carimba com ênfase:
No Dicionário de Aurélio, tratando com eufemismo, conga “é prêmio a que tem direito o proprietário da casa de farinha pelo produto de outrem ali fabricado”. Coisa que deve ter ido buscar no Dicionário do velho Moraes, em paz com o latifúndio e a escravidão.
Vim ver quem era Sivuca na casa de Nathanael Alves. Ele voltara dos Estados Unidos, onde havia experimentado a fama internacional, e viera matar a saudade de sua Itabaiana na casa de Félix Galdino, vizinhos de sítio. Félix era vizinho de Nathanael, aqui em Tambauzinho, e, como era lá que nos reuníamos
Sivuca ▪️ Fonte: Sounds of David
todos os sábados à noite, arrastamos Sivuca para o nosso papo. Um papo que não se repetirá mais neste mundo. Como se vê, éramos Nathanael, Ednaldo do Egito, José Souto, Solha, às vezes Durval Leal, e o Félix já citado.
Nos distanciamos um do outro e, assim, passou-se uma vida – a bem dizer, duas – com o velho exemplar da Antologia Nacional entre as relíquias da amiga.
A vida força a passagem pelo interstício da parede arruinada. É uma castanhola, três folhas largas, espalmadas, rebentando verdes da caliça de 1890 ou 1900.
Não posso nem devo queixar-me da idade avançada ou de suas naturais limitações. Da janela de minha infância, em Alagoa Nova, privado da soltura das ruas, perturbava-me acompanhar os passos miudinhos, arrastados, do velho Cazumba em direção à casa paroquial do sobrinho, apenas quatro ou cinco casas, uma pegada com a outra, do outro lado da rua.
Eu tinha um primo em Campina Grande chamado João Ferreira Viana. Chegara aos meus 14 anos e me entendi livre para pular o muro do internato, correr seis léguas a pé até Alagoa Nova e iludir a boa-fé de meus pais com a alegação de mal passadio no internato.
A fêmea, na acepção científica que a antropóloga Fátima Quintas descreve em “A Civilização do Açúcar”, coletânea de estudos com o selo da Fundação Gilberto Freyre, mais me convence da intuição de um velho cronista biriteiro sobre a origem da cachaça. O modo como a
escritora anima a nossa cunhã luzidia, de cabelos sempre molhados, deslumbrada com o garanhão aportado de longas viagens salgadas, afogueado de todas as hiperestesias do trópico, me faz acreditar no “cajual da sodomia” em que demora a História da Paraíba, do velho Horácio de Almeida, noticiando os festins da indiada no seu veraneio primitivo.
Foi o que li nesta última quarta-feira, 3, ao abrir a página para chegar de espírito aberto à bem-humorada crônica semanal de Luiz Augusto de Paiva e deparar com o imprevisto, já um mês depois de decorrido.
Eu não conheci o Dr. Antônio da Gama e Mello, que residiu num dos sobrados mais antigamente solicitados e cultuados desta cidade, exatamente onde restam hoje, descaindo entre escombros e urtigas, na General Osório, a parede de frente com uma plaquinha de inscrições sobre o seu valor histórico e fazendo menção ao nome de Virginius da Gama e Mello.
Espionando por uma frincha sem mais vidraça da porta central, portão e janelas laterais fechadas, não pude deixar de sentir o bolor do nosso desprezo, ou do desprezo da classe, à sede da sua antiga Associação Paraibana de Imprensa, a histórica API.
Mesmo sem qualquer registro no calendário do dia a dia, extinto o feriado no alvoroço de 1930, as celebrações do 13 de maio de 1888 continuam sendo as mais celebradas de toda a história cívica dos brasileiros.
A grande maioria deve se lembrar do filme e não do porteiro. É de quem não esqueço, sem desmerecer minha fixação no cinema. Quem nos recebia na portaria, em nome de todos os produtores, diretores e artistas de Hollywood? Não eram os donos, Seu Leal, nem Luciano, nem Múcio. Ainda hoje é Paulo, do antigo Rex.
Alô, tudo bem, tio?
Tio... Que voz é essa, quem será? E contive a pergunta para evitar as suspeitas de leseira, tão comuns em interlocutores de minha idade. Ouvi, então, o que jamais poderia suspeitar na vertigem destes dias, em que só as mangas de Livramento, burgo insulado ali à beira do Gargaú, insistem em manter seu tempo e a delícia original dos seus sabores, mesmo em fim de safra.
A leitura do mundo sempre me inibiu. São tantas, diversas e necessárias, que teimei em conter as minhas, quando afloram, para meu próprio uso. Daí a inibição ante assuntos fora do meu domínio, da minha vivência.
O jornal O Norte, lembrança primeira do meu livroCafé Alvear, morreu sem merecer um túmulo, uma inscrição destinada à memória da cidade. Circulou de 7 de maio de 1908 a 2008, sobrevivendo alguns meses ao centenário.
A aridez dos relatórios foi amaciada, ao que consta na nossa história literária, pelo texto de Graciliano Ramos, como prefeito, numa prestação de contas ao governo federal, chegada às mãos de Augusto Schmidt. Jorge Amado, não sei onde li, diz que não foi bem assim.
Com o passar do tempo, a gente vai se recolhendo, sumindo dos lugares onde foram sedimentadas as melhores afeições, sem distinção das pessoas ou do lugar em si. Também a vida desses lugares dependia da nossa. Onde está o Cabo Branco dos meus antigos intervalos de redação, a dois passos do antigo jornal da Duque de Caxias? Dos meus dedos de prosa com
Antigo Clube Cabo Branco ▪️ Instagram: @paraiba.jampa
Dr. Celso Mariz, com Rubin Falcão, com Mário Santa Cruz, com Luciano Wanderley, com Rivadávia Pereira? O meu Cabo Branco, que era a sede central, sustentava-se desse espírito de convivência?
José Maria dos Santos, paraibano nascido em João Pessoa, precisamente em casa e cartório na antiga Rua da Baixa — núcleo que, como parada do bonde, virou o Ponto de Cem Réis —, foi jornalista e escritor de repercussão no país que a Paraíba cultural desconhecia.
Tento compensar a surdez com a leitura. Mas não é fácil a quem viveu e aprendeu mais de ouvir e conversar do que mesmo de ler. O que mais aprendi veio pronto do saber do outro, dos que a eles me acostei desde o Pio XI, com as peremptas lições do livro e do homem, vindas do meu professor de Admissão, e pelos mestres que o dom da amizade vem me facultando até hoje. Aqui e ali, desde que escrevo, eles voltam ao enfado provinciano destas curtas linhas.