23.2.26
Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe p...
Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco.
23.2.26
16.2.26
Há um aquário dentro de meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alg...
Há um aquário dentro de meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo.
16.2.26
9.2.26
Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líqu...
Dizem que Clara tinha um termômetro dentro do peito. Não daqueles de mercúrio, prateados e precisos, mas um daqueles antigos, de líquido azul, que oscila com lentidão, sensível até à sombra de uma nuvem. Enquanto a cidade fervia em seus extremos, nas correrias matinais, nas buzinas iradas, nas euforias das notícias bombásticas, ela se movia com uma cadência que parecia de outro século.
9.2.26
2.2.26
A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina...
A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”.
2.2.26
19.1.26
O dia começa comum . Café passado, o jornal aberto na mesa da cozinha, o sol insistente atrás da cortina. É num intervalo banal, entre ...
O dia começa comum. Café passado, o jornal aberto na mesa da cozinha, o sol insistente atrás da cortina. É num intervalo banal, entre um gole e a leitura de uma manchete qualquer, que ela chega. Não é dor. É um silêncio que se instala no peito, um espaço quente e vazio que, paradoxalmente, se enche de uma presença.
19.1.26
12.1.26
Ela o fez numa terça-feira comum , entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que, naquele dia, tentaria encontrar a empatia. Nã...
Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que, naquele dia, tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. Ela imaginou que fosse uma questão de olhar nos olhos das pessoas.
12.1.26
5.1.26
A casa não é mais minha , mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no ...
A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim.
Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de
5.1.26
29.12.25
Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que car...
Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que carrega no bolso do colete um único objeto: uma chave antiga, pesada, que não abre porta alguma que eu conheça. Ele a exibe não como quem abre, mas como quem pode abrir.
29.12.25
22.12.25
Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos de roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua se...
Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos de roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua sede, de olhares que os reconheçam. São os mendigos emocionais, aqueles que vagueiam pelos corredores das relações com uma tigela invisível, pedindo migalhas de afeto.
22.12.25
15.12.25
Convidei a saudade para falar de você. Em instantes me vi acompanhado de mim mesmo tão somente. Havia duas criaturas travando aqu...
Convidei a saudade para falar de você. Em instantes me vi acompanhado de mim mesmo tão somente. Havia duas criaturas travando aquele sentimento que flui pelos dedos, quase como um semblante ruim. Mas era apenas saudade, que florece e molha as flores de uma poesia. Alimenta, mas também retira um pouco de tudo. Por vezes, deveria virar semente, porque é eterna e deve voltar mais forte para oferecer outra sombra de alívio.
15.12.25
8.12.25
O cheiro de alho refogando na panela e a fumaça da água fervendo na panela são a minha máquina do tempo. Não precisa de engrenagens rel...
O cheiro de alho refogando na panela e a fumaça da água fervendo na panela são a minha máquina do tempo. Não precisa de engrenagens reluzentes ou luzes piscantes, basta um fio de azeite aquecido, três dentes de alho amassados e a chama amarela do fogo. Enquanto espero dourar, já não estou mais no apartamento minúsculo da cidade grande. Estou na cozinha de paredes de madeira da casa de minha vó,
8.12.25
1.12.25
A vontade de existir, de persistir, de não deixar de ser, é um dos pilares da vida humana. Esse impulso gera medo, cuidado, reproduçã...
A vontade de existir, de persistir, de não deixar de ser, é um dos pilares da vida humana. Esse impulso gera medo, cuidado, reprodução, legado, criatividade e até a busca por sentido. Sem ele, não há por que continuar. Esses são sentimentos e a composição da alma humana, que se reproduzem e se mantêm vivos no cotidiano, o que nos garante que somos gente de carne e osso, além da nossa alma geradora de mais emoções e
1.12.25
24.11.25
Eventualmente nos deparamos com uma ponte em nosso caminho, mas não uma dessas imponentes, de concreto e aço, mas sim uma ponte simples...
Eventualmente nos deparamos com uma ponte em nosso caminho, mas não uma dessas imponentes, de concreto e aço, mas sim uma ponte simples, de madeira, que liga alguma margem conhecida à outra, envolta em névoa matinal.
24.11.25
17.11.25
O envelope marrom estava sobre a mesa, à luz suave do entardecer. Dentro dele, o aviso de demissão que ela já esperava há semanas. A ...
O envelope marrom estava sobre a mesa, à luz suave do entardecer. Dentro dele, o aviso de demissão que ela já esperava há semanas. A empresa enxugava-se, diziam. E ela era uma das gotas sobrando.
17.11.25
10.11.25
Há um silêncio peculiar que habita os espaços entre nossos pensamentos. Não é o silêncio vazio da distração, mas um silêncio carregad...
Há um silêncio peculiar que habita os espaços entre nossos pensamentos. Não é o silêncio vazio da distração, mas um silêncio carregado, denso, que surge justamente quando a mente trabalha a todo vapor. É o silêncio da aporia. É aquele momento em que a estrada da lógica simplesmente acaba. E você fica ali,
10.11.25
3.11.25
O despertador toca, insistente, cortando o silêncio da madrugada. Um braço pesado sai debaixo do cobertor e silencia o barulho. Mais ...
O despertador toca, insistente, cortando o silêncio da madrugada. Um braço pesado sai debaixo do cobertor e silencia o barulho. Mais cinco minutos, pensamos. Sempre mais cinco minutos. É nosso primeiro ato de negociação com o tempo, um bem que julgamos ter em abundância, mas que escorre entre os dedos como areia fina.
3.11.25
20.10.25
Mesmo que lá se vá mais um dia, o crepúsculo se despeja sobre a cidade com a mesma ternura dourada de sempre. Observo da janela os tran...
Mesmo que lá se vá mais um dia, o crepúsculo se despeja sobre a cidade com a mesma ternura dourada de sempre. Observo da janela os transeuntes, cada um carregando seu fardo invisível de horas, e me pergunto se também sentem isso: a estranha persistência de uma paisagem interior que o tempo não consegue erodir. Os cabelos embranquecem, a pele marca seu território, os joelhos reclamam de subidas que antes eram voos. O corpo, ah, o corpo é um relógio de areia implacável. Mas há algo dentro dele que não aceita a contagem.
20.10.25
13.10.25
Há uma certa ironia no modo como me vejo, às vezes, diante do espelho. Roupas confortáveis, xícara de café ao lado, silêncio no ambient...
Há uma certa ironia no modo como me vejo, às vezes, diante do espelho. Roupas confortáveis, xícara de café ao lado, silêncio no ambiente. Nada que lembre o suor de um operário na construção civil, o ritmo acelerado de um médico no pronto-socorro ou o cansaço físico de quem carrega um peso significativo o dia todo. Meu trabalho parece, aos olhos desatentos, um luxo. Um mero passar dos olhos sobre letras, um divagar da mente.
13.10.25
6.10.25
O maior ladrão da sua vida não é o tempo. É a espera. Sim, porque o tempo, coitado, não tem culpa nenhuma. Ele segue firme, sem p...
O maior ladrão da sua vida não é o tempo. É a espera.
Sim, porque o tempo, coitado, não tem culpa nenhuma. Ele segue firme, sem parar, cumprindo o seu papel de caminhar para frente. Mas a espera... esta, sim, sabe roubar com astúcia.
6.10.25
29.9.25
A moça da loja de materiais artísticos olhou para a minha lista com uma sobrancelha levemente arqueada. “Só essas cores?” ⏤ perguntou, ...
A moça da loja de materiais artísticos olhou para a minha lista com uma sobrancelha levemente arqueada. “Só essas cores?” ⏤ perguntou, num tom que era mais curiosidade do que crítica. Eu havia anotado um azul ultramarino vibrante, um amarelo ocre terroso e um carmim profundo. Faltavam o branco puro e o preto absoluto, os extremos, os julgamentos fáceis.
29.9.25