12.1.26
Ela o fez numa terça-feira comum , entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que, naquele dia, tentaria encontrar a empatia. Nã...
Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que, naquele dia, tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. Ela imaginou que fosse uma questão de olhar nos olhos das pessoas.
12.1.26
5.1.26
A casa não é mais minha , mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no ...
A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim.
Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de
5.1.26
29.12.25
Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que car...
Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que carrega no bolso do colete um único objeto: uma chave antiga, pesada, que não abre porta alguma que eu conheça. Ele a exibe não como quem abre, mas como quem pode abrir.
29.12.25
22.12.25
Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos de roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua se...
Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos de roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua sede, de olhares que os reconheçam. São os mendigos emocionais, aqueles que vagueiam pelos corredores das relações com uma tigela invisível, pedindo migalhas de afeto.
22.12.25
15.12.25
Convidei a saudade para falar de você. Em instantes me vi acompanhado de mim mesmo tão somente. Havia duas criaturas travando aqu...
Convidei a saudade para falar de você. Em instantes me vi acompanhado de mim mesmo tão somente. Havia duas criaturas travando aquele sentimento que flui pelos dedos, quase como um semblante ruim. Mas era apenas saudade, que florece e molha as flores de uma poesia. Alimenta, mas também retira um pouco de tudo. Por vezes, deveria virar semente, porque é eterna e deve voltar mais forte para oferecer outra sombra de alívio.
15.12.25
8.12.25
O cheiro de alho refogando na panela e a fumaça da água fervendo na panela são a minha máquina do tempo. Não precisa de engrenagens rel...
O cheiro de alho refogando na panela e a fumaça da água fervendo na panela são a minha máquina do tempo. Não precisa de engrenagens reluzentes ou luzes piscantes, basta um fio de azeite aquecido, três dentes de alho amassados e a chama amarela do fogo. Enquanto espero dourar, já não estou mais no apartamento minúsculo da cidade grande. Estou na cozinha de paredes de madeira da casa de minha vó,
8.12.25
1.12.25
A vontade de existir, de persistir, de não deixar de ser, é um dos pilares da vida humana. Esse impulso gera medo, cuidado, reproduçã...
A vontade de existir, de persistir, de não deixar de ser, é um dos pilares da vida humana. Esse impulso gera medo, cuidado, reprodução, legado, criatividade e até a busca por sentido. Sem ele, não há por que continuar. Esses são sentimentos e a composição da alma humana, que se reproduzem e se mantêm vivos no cotidiano, o que nos garante que somos gente de carne e osso, além da nossa alma geradora de mais emoções e
1.12.25
24.11.25
Eventualmente nos deparamos com uma ponte em nosso caminho, mas não uma dessas imponentes, de concreto e aço, mas sim uma ponte simples...
Eventualmente nos deparamos com uma ponte em nosso caminho, mas não uma dessas imponentes, de concreto e aço, mas sim uma ponte simples, de madeira, que liga alguma margem conhecida à outra, envolta em névoa matinal.
24.11.25
17.11.25
O envelope marrom estava sobre a mesa, à luz suave do entardecer. Dentro dele, o aviso de demissão que ela já esperava há semanas. A ...
O envelope marrom estava sobre a mesa, à luz suave do entardecer. Dentro dele, o aviso de demissão que ela já esperava há semanas. A empresa enxugava-se, diziam. E ela era uma das gotas sobrando.
17.11.25
10.11.25
Há um silêncio peculiar que habita os espaços entre nossos pensamentos. Não é o silêncio vazio da distração, mas um silêncio carregad...
Há um silêncio peculiar que habita os espaços entre nossos pensamentos. Não é o silêncio vazio da distração, mas um silêncio carregado, denso, que surge justamente quando a mente trabalha a todo vapor. É o silêncio da aporia. É aquele momento em que a estrada da lógica simplesmente acaba. E você fica ali,
10.11.25
3.11.25
O despertador toca, insistente, cortando o silêncio da madrugada. Um braço pesado sai debaixo do cobertor e silencia o barulho. Mais ...
O despertador toca, insistente, cortando o silêncio da madrugada. Um braço pesado sai debaixo do cobertor e silencia o barulho. Mais cinco minutos, pensamos. Sempre mais cinco minutos. É nosso primeiro ato de negociação com o tempo, um bem que julgamos ter em abundância, mas que escorre entre os dedos como areia fina.
3.11.25
20.10.25
Mesmo que lá se vá mais um dia, o crepúsculo se despeja sobre a cidade com a mesma ternura dourada de sempre. Observo da janela os tran...
Mesmo que lá se vá mais um dia, o crepúsculo se despeja sobre a cidade com a mesma ternura dourada de sempre. Observo da janela os transeuntes, cada um carregando seu fardo invisível de horas, e me pergunto se também sentem isso: a estranha persistência de uma paisagem interior que o tempo não consegue erodir. Os cabelos embranquecem, a pele marca seu território, os joelhos reclamam de subidas que antes eram voos. O corpo, ah, o corpo é um relógio de areia implacável. Mas há algo dentro dele que não aceita a contagem.
20.10.25
13.10.25
Há uma certa ironia no modo como me vejo, às vezes, diante do espelho. Roupas confortáveis, xícara de café ao lado, silêncio no ambient...
Há uma certa ironia no modo como me vejo, às vezes, diante do espelho. Roupas confortáveis, xícara de café ao lado, silêncio no ambiente. Nada que lembre o suor de um operário na construção civil, o ritmo acelerado de um médico no pronto-socorro ou o cansaço físico de quem carrega um peso significativo o dia todo. Meu trabalho parece, aos olhos desatentos, um luxo. Um mero passar dos olhos sobre letras, um divagar da mente.
13.10.25
6.10.25
O maior ladrão da sua vida não é o tempo. É a espera. Sim, porque o tempo, coitado, não tem culpa nenhuma. Ele segue firme, sem p...
O maior ladrão da sua vida não é o tempo. É a espera.
Sim, porque o tempo, coitado, não tem culpa nenhuma. Ele segue firme, sem parar, cumprindo o seu papel de caminhar para frente. Mas a espera... esta, sim, sabe roubar com astúcia.
6.10.25
29.9.25
A moça da loja de materiais artísticos olhou para a minha lista com uma sobrancelha levemente arqueada. “Só essas cores?” ⏤ perguntou, ...
A moça da loja de materiais artísticos olhou para a minha lista com uma sobrancelha levemente arqueada. “Só essas cores?” ⏤ perguntou, num tom que era mais curiosidade do que crítica. Eu havia anotado um azul ultramarino vibrante, um amarelo ocre terroso e um carmim profundo. Faltavam o branco puro e o preto absoluto, os extremos, os julgamentos fáceis.
29.9.25
22.9.25
Há uma solidão que não é feita de quartos vazios ou de noites sem companhia. Ela é mais sorrateira, mais insidiosa. Mora no meio da m...
Há uma solidão que não é feita de quartos vazios ou de noites sem companhia. Ela é mais sorrateira, mais insidiosa. Mora no meio da multidão, no coração da cidade que nunca dorme, no grupo de amigos que ri alto no bar. É a solidão que nasce não da falta de pessoas, mas da falta de conexão. Da absoluta, e por vezes brutal, falta de empatia.
22.9.25
15.9.25
Imagine que você tem a oportunidade única de entrar em um elevador mágico, cujos botões não são números, mas sim épocas e sentimentos. ...
Imagine que você tem a oportunidade única de entrar em um elevador mágico, cujos botões não são números, mas sim épocas e sentimentos. Cada parada é uma viagem no tempo, um portal para um momento de pura felicidade. Para onde você gostaria de ir?
15.9.25
8.9.25
Você é uma pessoa agradável para sentar e conversar com amigos ou familiares? Que tipo de assunto você trás para mesa de lazer com quem...
Você é uma pessoa agradável para sentar e conversar com amigos ou familiares? Que tipo de assunto você trás para mesa de lazer com quem surgir em sua caminhada? Eu, por vezes tenho vontade de ouvir, ou falar amenidades, procuro tirar um sorriso do outro que apareceu naquele momento.
8.9.25
1.9.25
Era uma manhã comum no ônibus lotado quando uma senhora de cabelos grisalhos segurou-se com dificuldade no corrimão, enquanto um jove...
Era uma manhã comum no ônibus lotado quando uma senhora de cabelos grisalhos segurou-se com dificuldade no corrimão, enquanto um jovem de fones de ouvido ocupava o assento preferencial, fingindo não vê-la. Ninguém disse nada. Alguns olhares se cruzaram, rápidos, discretos, como se a invisibilidade alheia fosse contagiosa.
1.9.25
18.8.25
Tempo é moeda rara na vida adulta. Os dias se comprimem entre relógios de ponto, contas a pagar, filhos com febre e metas profissionais...
Tempo é moeda rara na vida adulta. Os dias se comprimem entre relógios de ponto, contas a pagar, filhos com febre e metas profissionais que insistem em fugir. Nesse turbilhão, há uma coisa que vai ficando encostada no canto da agenda, como um móvel antigo que prometemos restaurar: a amizade.
18.8.25