Luana postou uma mensagem no meu blog dizendo que “adorou” as “Considerações heterodoxas sobre a paixão”, mas discorda de que esse sentimento “dura no máximo três anos”. “Às vezes é necessário que ele dure bem menos...”, objetou com ar de experiência. E terminou com este apelo: “Quero encomendar um novo texto: como encontrar um amor? Topa o desafio? Hehehe”.
Em uma de suas crônicas, Luis Fernando Veríssimo afirmou que nunca tinha usado o ponto e vírgula. A observação do escritor gaúcho, que é antes uma blague contra os gramáticos e puristas, sugere-nos algumas reflexões sobre a arte de pontuar. Ela tem a ver com um dos atributos fundamentais da poesia ou da prosa, que é o ritmo.
GD'Art
Literatura é linguagem ritmada, e, para se imprimir ao texto o seu ritmo, é fundamental o uso desses sinais, que, se a alguns aborrecem e inibem, a outros empolgam e mesmo encantam.
Em mais uma dessas reportagens sobre hábitos de vida, leio que a maioria dos brasileiros é de sedentários. São raros os que fazem exercícios físicos e pouquíssimos aqueles que, pelo menos, gostam de andar a pé.
As frequentes referências de Augusto dos Anjos à ciência levam muitos leitores a classificá-lo como um “poeta científico”. Essa designação é, contudo, bastante inapropriada. A ciência busca a objetividade e procura descrever os fenômenos independentemente das emoções, crenças ou experiências do observador. O discurso científico tende a apagar a presença do sujeito para privilegiar a observação dos fatos e a formulação de leis gerais. Em Augusto essa possibilidade é desmentida pelo próprio título que ele deu ao seu único livro, surgido em 1912: “Eu”. Mesmo quando aborda temas universais, ele parte de uma consciência que sente e recria a realidade.
O homem nasce duas vezes. A primeira, quando chora; a segunda, quando ri. O primeiro nascimento é biológico; o segundo, espiritual. Já se disse que o riso é uma forma de afastar a dor. De não se entregar a ela e, ao mesmo tempo, perdoar o que existe de errado, impróprio, impossível na Criação. O riso sela um pacto entre o homem e Deus, que certamente não gosta de quem o recrimina com o desespero. O desespero nega o sentido da vida. O riso o reconhece da única forma como é possível reconhecê-lo – acolhendo sem protesto o absurdo. É o estágio máximo da compreensão.
Poucas vezes senti um calor tão intenso como o que experimentei em Roma na última semana da nossa viagem. Considerando-se o número de igrejas da cidade, cabia perfeitamente à situação a imagem de Nelson Rodrigues; era mesmo um calor “de rachar catedrais”. Isso não impediu que visitássemos alguns templos, pois esse era o propósito maior dos mentores da excursão – — ao qual aderi mesmo sem muita inclinação religiosa.
Li há algum tempo, num dos números de “Veja”, que os bons alunos brasileiros não querem seguir o magistério. Quem deseja abraçar essa carreira são os estudantes medíocres. Segundo pesquisa apresentada na reportagem, ser professor é o horizonte do “grupo dos 30% com as piores notas no boletim”. Parece que a sala de aula não atrai os que se acham preparados para conquistar coisa melhor.
A opinião é um ganho civilizatório. É uma forma educada de contestar os outros. Quem opina discorda (afasta-se pelo coração), mas a vida é assim mesmo. Nem compre a concórdia é possível num universo em que são tão diversos os fatos e as pessoas. Ao afirmar que toda unanimidade é burra, Nelson Rodrigues traduziu o essencial: uma verdade se afirma, sobretudo, pelo que ela contesta. Como o outro lado, por sua vez, também não abdica de contestar, espera-se chegar a uma provisória pacificação pelo equilíbrio das diferenças.
Assim como para escapar de um vício é preciso “evitar a primeira vez” (no dizer de Rousseau), para adquirir um bom hábito é preciso começar a praticá-lo. No começo está sempre uma promessa de continuidade. É mais fácil deixar de fazer o que não se começou.
Hoje as pessoas aceitam que o que compram pode fazê-las felizes. Nossa sensibilidade de
consumidores é moldada pelo que gratifica, sobretudo, em termos materiais. Isso explica por que o dinheiro é o deus supremo. Sem ele nada se tem e, por extensão, nada se é. Atualmente tudo se mercadeja, inclusive a religião. É verdade que “a Graça” nunca veio de graça, mas antes tinha pela menos um aspecto desprendido e piedoso, que disfarçava suas motivações venais.
O mercado sempre pega uma carona mesmo que o veículo esteja na contramão dos seus propósitos. Por exemplo: no filme “Barbie”, o cor-de-rosa remete à falência das ilusões associadas à imagem da boneca. É estranho que na vida real se reproduza, por adereços e vestimentas, um cenário que a película procura ironizar. Ou o pessoal não entendeu nada, ou entendeu e (mesmo sem querer) tomou o partido da ironia e da carnavalização.
A Inteligência Artificial promete facilitar a vida de engenheiros, administradores, profissionais de saúde, enfim, dos que podem
contar com a sua amplidão de processamento informacional para fazer cálculos e manipular instrumentos. Nessas áreas, é praticamente certo o seu nível de acerto. Em outras, ela pode se tornar um perigo. Isso porque, quando erra, a IA tem a inflexibilidade de um burro teimoso. Como foi moldada para apresentar determinadas respostas, e só elas, não pode se corrigir. Ou seja, não tem consciência, que é justamente a capacidade de se reconhecer em erro, “voltar atrás” e criar novos padrões de comportamento.
O esporte, que é por definição uma alternativa à guerra, acaba espelhando com ânimo bélico as contradições da vida. A recente Copa do Mundo mostrou isso com a sua profusão de agressões e ardis promovidos por quem deveria, em princípio, respeitar as regras.
Espera-se que, se na guerra vale tudo, no esporte se demonstre respeito pelos oponentes e o reconhecimento dos melhores sem ressentimentos nem deslealdade. Infelizmente, muitos trabalharam para que não fosse assim. E não deixou de ser irônico, num evento em que os embates visam sublimar nossos impulsos homicidas, que a premiação aos vencedores tenha saído feita por um presidente que no momento patrocina uma guerra real.
O abuso ou o emprego pouco vernáculo do gerúndio, também conhecido por endorreia, é mal antigo em nossa língua. Rodrigues Lapa dá como exemplo dessa prática o uso do gerúndio com o valor de atributo, em frases do tipo: “Recebeu uma caixa contendo (que continha) roupas”. Mas ele não se mostra satisfeito com a correção proposta pelos puristas; vê em “que continha” uma construção artificial, “estilisticamente inferior”, e pondera que “o uso do gerúndio é em certos casos preferível à oração relativa”.
Um dos efeitos da Copa é fazer com que pessoas que nunca foram a um campo de futebol, e acham que “pelada” é sinônimo de mulher nua, se tornem de repente fervorosas adeptas desse esporte. Sobre isso tenho uma história interessante, que me foi contada por um parente de um dos protagonistas. Troquei os nomes para evitar processo. Vamos lá.
Por mais que a obra não seja um reflexo direto do autor, é grande a tendência de se confundir uma com o outro. Isto se aplica particularmente a um poeta como Augusto dos Anjos, cujas idiossincrasias pessoais e literárias sempre despertaram curiosidade nos que estudam ou simplesmente apreciam seus poemas. O pessimismo, a morbidez, a fixação na morte, presentes na maioria dos seus versos, fazem pensar que ele era um desses misantropos infensos aos apelos mundanos. Tal impressão é acentuada pelas imagens de doença e deterioração física, comumente associadas a um possível “caso clínico” do indivíduo e não ao universo simbólico do poeta.
Quererá Vossa Alteza saber novas da terra descoberta 500 anos atrás, à qual, em razão de uma árvore que lá então grassava, deu-se o nome de Brasil. Muito folgaria em satisfazer vosso desejo, se outras fossem as notícias que vos pudesse mandar. Mas que resta a um súdito leal senão satisfazer a ordem e o desejo do seu rei? Segue, então, um sucinto relato do que reencontramos.
Boa parte do que o texto significa não se mostra explicitamente. Quando escrevemos deixamos implícitas algumas informações, e cabe ao leitor completar as lacunas. Os implícitos são basicamente de dois tipos: pressupostos e subentendidos.
A linguagem nos define. Dize-me como falas e te direi quem és. A identidade entre pessoa e discurso tanto revela a personalidade do indivíduo, quanto reflete a classe ou profissão a que ele pertence. Um médico não usa as mesmas palavras que um economista, nem este tem o mesmo discurso de um advogado.
Há manuais de redação que rejeitam o uso da voz passiva. Orientam que se diga, por exemplo, “O diretor suspendeu os alunos”, em vez de “Os alunos foram suspensos pelo diretor”. Existem casos, no entanto, em que a passiva é desejável. Nem sempre interessa ao redator afirmar que alguém faz alguma coisa. Ele pode querer dizer que alguma coisa “é feita”, destacando o termo que sofre a ação. Afirmar “o livro foi lido em pouco tempo pela turma” não é o mesmo que dizer “a turma leu o livro em pouco tempo”. No primeiro caso o foco recai no livro; no segundo, recai na turma.
Os manuais de estilística definem concisão como rigor, adequação da forma ao conteúdo. É uma característica muito próxima da clareza, pois o excesso de palavras tende a obscurecer o sentido. O conceito de concisão associa-se ao de fotoinformatividade; um texto conciso geralmente tem um bom nível de fotoinformação, já que dispensa artifícios que estão ali apenas para encher a página.
Na semana passada elencamos neste espaço alguns erros lógicos que comumente afetam o bom desempenho textual. São falhas que decorrem de tropeços no raciocínio e repercutem na engrenagem das ideias, tornando a escrita obscura e às vezes ilegível. Nesses casos o leitor tem no mínimo que “se esforçar” para entender o que lê, quando se sabe que tal esforço é uma das medidas do fracasso do autor. Seguem outros erros desse tipo, também exemplificados em redações dos nossos alunos.
Escreve bem quem pensa bem. Uma das condições para isso é evitar erros lógicos, que denotam falhas no raciocínio e afetam a coerência. Tais erros comprometem qualquer tipo de texto, mas são especialmente nefastos naqueles (como o dissertativo-argumentativo) em que o rigor na articulação das ideias é fundamental.
Há um ditado segundo o qual cada um morre do que vive. Quem é destemido e aventureiro corre o risco de morrer em uma de suas aventuras. Os que vivem no limite (físico, emocional ou intelectual) consomem a “reserva de vida” em nome da intensidade. Têm a morte como um risco calculado ou um subproduto da paixão. Ernest Hemingway, por exemplo, viveu de forma viril e perigosa. Sua morte por suicídio, após o declínio da saúde, foi o desfecho escolhido por um homem que não suportava a ideia de uma vida cotidiana e banal. A ausência de aventuras o tornou desventurado.