Mostrando postagens com marcador Chico Viana. Mostrar todas as postagens

Eu preferia não receber originais de poesia ou ficção. Quando o rapaz ou a moça nos entregam...

cronica conto noivado literatura
Eu preferia não receber originais de poesia ou ficção. Quando o rapaz ou a moça nos entregam o texto, como que jogam em nós a responsabilidade pelos seus sonhos, seus destinos, e até pelo significado de suas dores. Pensam que deve haver um nexo entre sofrimento e aptidão artística; que a arte deve necessariamente compensar uma existência aborrecida ou mesmo infeliz.

O homem se prepara para almoçar e...

conto cronica discussao restaurante
O homem se prepara para almoçar e vê que um amigo se aproxima da mesa.

— É servido?

O outro não hesita:

— Sim.
— Como?
— Sou servido, sim. Estou com fome e sem dinheiro.

Na crônica “Todo mundo pode errar um pouco”, publicada em “Um cartão de Paris”, Rubem Braga most...

ditados expressao
Na crônica “Todo mundo pode errar um pouco”, publicada em “Um cartão de Paris”, Rubem Braga mostra alguns descuidos cometidos por estudantes franceses na redação. As “pérolas” foram extraídas do livro “de um tal de Maurice Rat”, que também faz questão de mostrar deslizes cometidos por escritores renomados.

Há muito Zuleide desconfiava de que Osvaldo tinha uma amante. Só faltava saber quem era. Um dia o mistério acabou graças a uma denúncia...

traicao traidor casamento
Há muito Zuleide desconfiava de que Osvaldo tinha uma amante. Só faltava saber quem era. Um dia o mistério acabou graças a uma denúncia anônima: ela se chamava Ernestina e trabalhava com ele na repartição.

Fiz análise durante um tempo para me libertar da dependência do Rivotril. Eu tinha na época cerca de 26 anos e desenvolvi um b...

freud psicanalise
Fiz análise durante um tempo para me libertar da dependência do Rivotril. Eu tinha na época cerca de 26 anos e desenvolvi um brutal processo de ansiedade devido ao conflito que vivenciava no curso de Medicina. Não nascera para ser médico, e me via obrigado a lidar com pacientes em aulas de disciplinas como Semiologia e Técnica Cirúrgica. Segurei o quanto pude, até que veio a reação: síndrome do pânico, taquicardia, sensação de morte e um quadro depressivo-ansioso que durou cerca de dois anos.

A expressão “vida de cachorro” precisa ser atualizada. Antigamente, era sinônimo de desprezo e abandono. Viver como um cã...

cao pet mascote amor canino
A expressão “vida de cachorro” precisa ser atualizada. Antigamente, era sinônimo de desprezo e abandono. Viver como um cão era dormir ao relento, comer sobras de refeições, levar vez por outra uns pontapés. Hoje, traduz um cuidado e uma abastança que muitos humanos não têm. O excesso de zelo com esses bichos tem chegado a preocupações sutis, como a de levá-los a terapeutas comportamentais.

O homem primitivo não usava pente. Certamente não lhe ocorria a hipótese de que os fios desgrenhados na sua cabeça poderiam se ajustar...

pente cabelo cronica paraibana
O homem primitivo não usava pente. Certamente não lhe ocorria a hipótese de que os fios desgrenhados na sua cabeça poderiam se ajustar à caixa craniana de um modo, digamos, mais decente e estético. Quando isso aconteceu (com a inevitável influência da mulher, claro), ele notou que passar o minúsculo objeto pelos cabelos também propiciava um ganho adicional: retirar parte dos piolhos que lhe infestavam o couro cabeludo.

O jornalista Kubitschek Pinheiro tem se dedicado a uma tarefa literalmente edificante: percorrer a cidade...

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O jornalista Kubitschek Pinheiro tem se dedicado a uma tarefa literalmente edificante: percorrer a cidade em busca de prédios, moradias, recantos turísticos que foram por alguma razão abandonados por seus proprietários ou pelo Poder Público. Ele tem nos revelado inúmeras preciosidades arquitetônicas deterioradas em razão desse abandono e da inclemente ação do tempo. Faz-nos então olhar a cidade com olhos nostálgicos e uma ponta de culpa.

Acho que dei a primeira tragada aos 15 anos. A fumaça entrou engasgando, e de noite veio ...

fumar saude
Acho que dei a primeira tragada aos 15 anos. A fumaça entrou engasgando, e de noite veio o castigo maior: uma crise de asma. Depois disso ainda tive umas poucas experiências com o cigarro, pois era duro ver meus amigos fumando e eu ficar de fora. Mas sucederam-se novos acessos de tosse, com falta de ar, e terminei desistindo.

Todos concordam com que a poesia de Augusto dos Anjos é universal – e quem duvida de que ela é uma das mais fortes e originais qu...

augusto anjos monologo sombra
Todos concordam com que a poesia de Augusto dos Anjos é universal – e quem duvida de que ela é uma das mais fortes e originais que já se escreveu? No entanto, essa propalada universalidade não tem, ao que eu saiba, se concretizado em versões nas línguas estrangeiras. Por ser o poeta que é, Augusto deveria ser mais traduzido. E o curioso é que ele é pouco traduzido, justamente, por ser o poeta que é. Ou seja, por se constituir num enorme desafio devido à peculiaridade do seu vocabulário e, sobretudo, à vigorosa e ríspida dissonância dos seus fonemas.

Dois amigos conversam após a aula de filosofia. – Viu que coisa? – Vi. Achei a aula coisificante! – Ele não explicou o qu...

cronica lingua significados

Dois amigos conversam após a aula de filosofia.

– Viu que coisa?

– Vi. Achei a aula coisificante!

– Ele não explicou o que disse que ia explicar.

– Pois é. O conceito kantiano da...

– Isso! Da “coisa em si”!

"Nos últimos anos, políticos irresponsáveis min...

ciencia negacao
"Nos últimos anos, políticos irresponsáveis minaram deliberadamente a confiança na ciência, nas autoridades públicas e na mídia. Agora, esses mesmos políticos irresponsáveis podem ficar tentados a seguir o caminho do autoritarismo, argumentando que você simplesmente não pode confiar na mídia ou na ciência para fazer a coisa certa.”

A passagem acima é de Yuval Noah Harari, o festejado autor de “Sapiens – uma breve história da humanidade”. Há quem o considere um guru dos tempos atuais, mas ele se recusa a aceitar tal denominação. A tendência dos gurus é reunir pessoas que os seguem de maneira acrítica e cega; Harari, pelo contrário, quer levá-las a pensar.

Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que lá estavam reunidos uns tipos estranh...

portugues figuras linguagem
Não se sabia se aquilo era um fórum, uma assembleia ou um bate-boca de desocupados. O certo é que lá estavam reunidos uns tipos estranhos ⏤ umas figuras! A primeira a falar foi Metáfora, que desde o início, contra a opinião de Metonímia, autointitulara-se chefe do grupo:

Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia ...

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Cerca de quatro anos pós a morte do marido, D. Zulmira começou a esquecer as coisas. Não sabia onde guardara roupas, sapatos ou utensílios da casa. Letícia, a filha caçula, chegou a alertar a irmã:

...

risco sorte linguagem
Seu Aderson era um velho amigo da família. Costumava nos visitar pelo menos uma vez por mês, geralmente aos domingos, quando ficava para o almoço. Vestia-se com a elegância que o salário da prefeitura permitia. Embora não fosse de sorriso fácil, parecia de bem com a vida.

Rir e chorar são gestos diferentes que visam a efeitos bem diferentes. Ambos responsivos, liberalizantes – mas a liberação do riso, s...

sorrir chorar riso choro
Rir e chorar são gestos diferentes que visam a efeitos bem diferentes. Ambos responsivos, liberalizantes – mas a liberação do riso, seca e sutil, vem da cabeça. A do choro, emotiva e aquosa, procede do coração. E o riso não é puramente resposta, é já alternativa.

Em recente crônica publicada na “Folha de São Paulo”, Sérgio Rodrigues comenta uma frase atribuída a Dr...

escrita literatura redacao
Em recente crônica publicada na “Folha de São Paulo”, Sérgio Rodrigues comenta uma frase atribuída a Drummond segundo a qual “escrever é cortar”. O cronista observa que, de tão repetida, a frase se tornou um lugar-comum. Ao mesmo tempo, chama a atenção para o fato de é preciso relativizar esse conceito; nem sempre o corte serve às intenções do autor.

O homem é um animal filosófico. A opção pelo misticismo não se estende a todos, pois exige fé, mas a filosofia é inevitável...

Michel Onfray Lou Marinoff fisosofia
O homem é um animal filosófico. A opção pelo misticismo não se estende a todos, pois exige fé, mas a filosofia é inevitável em nossa relação com o mundo. Somos seres pensantes, e pensar é filosofar.

Duas histórias de Carnaval. A primeira é a do casal que resolveu “se liberar” durante a festa. ...

Duas histórias de Carnaval. A primeira é a do casal que resolveu “se liberar” durante a festa. A mulher disse ao marido: “Vá embora e só volte daqui a quatro dias”. Prontamente ele deixou a casa e alugou um flat. Estava solto e só! Como era um tipo respeitável na cidade, resolveu comprar uma fantasia que lhe cobrisse o rosto. Não queria que ninguém testemunhasse seus excessos.

Sempre fui um folião enrustido. Como tinha dificuldade de aderir à folia, a família e os amigos me consideravam anticarnavalesco – o q...

carnaval ilusao enrustido
Sempre fui um folião enrustido. Como tinha dificuldade de aderir à folia, a família e os amigos me consideravam anticarnavalesco – o que não é verdade. Brinco por dentro, com uma espécie de euforia espiritual. Pode parecer contraditório falar em espírito a propósito de uma festa que celebra a carne, mas a contradição é apenas aparente. O desejo é físico mas pode se sublimar, e nesse caso a alma se funde com o corpo. Freud que o diga.