Para Bebé e Claude, irmãs queridas e companheiras de viagem
Doze anos de saudades de Copacabana, princesinha do mar. Amo a cidade do Rio de Janeiro. Desde adolescente que por lá visito. Familiares, amigos, memórias de anos e anos da vida adulta. Passeios, encontros e reencontros. Umas férias inesquecíveis nos meus 15 anos. E da minha primeira subida ao Corcovado. Meus olhos nunca couberam naqueles braços. O mar gelado, a paisagem linda dos morros; as boutiques,
Mstislav Rostropovitch /// Ana Adelaide Peixoto (aos 15 anos)
em tempos em que o Rio ditava a moda; a lua de mel no apartamento, no Catete, do artista plástico Hermano José; o show de Mercedes Sosa, o dos Secos e Molhados. Paquetá, A Ópera do Malandro, Rostropovich e o seu violoncelo no Municipal; o Bar do Lamas; o Amarelinho e o frango à passarinha; as camisolas modernas do meu enxoval do Amor Perfeito; o samba do Rio Scenarium; o Morro da Viúva e o som do piano do amigo Gui Faulhaber; a Barra da Tijuca e a família Bruno; ou o do amigo Zé Palhano, na Visconde de Pirajá, e o contato com as relíquias de Drummond; o também da amiga Clélia Pereira, que me hospedou por algumas vezes e me levou ao aeroporto de moto, eu de mochila nas costas, rumo ao Peru, aventura na veia!; o restaurante Natural, enfim... um carrossel de vivências de que eu estava saudosa.
Conheço o psicoterapeuta, escritor e poeta Nelson Barros há décadas, mas somente há pouco mais de dez anos nos tornamos amigos próximos. E o seu companheiro Hirllen conheci nesse tempo último. Nos aproximamos. Referências de vida parecidas, gostos e o carinho espontâneo e autêntico que sentimos entre nós. Um casal que se sobressai pela beleza, elegância, delicadeza e generosidade. Me encanta!
Ela trabalhou desde os treze anos como doméstica. Dedicada. Trabalhou com competência e amor em tudo o que fez. Família humilde. Muitas irmãs, dificuldades, luta. Perdeu uma irmã assassinada pelo marido. Com uma doze. Tiro no rosto. Sabemos bem o que isso significa, a simbologia de uma desfiguração para o feminicídio. Naquela época, nem essa definição existia.
Lendo a crônica da jornalista Rosa Aguiar, “O Grande Portinari”, em A União de 18 de julho, eis que comecei a passear pelos assuntos de Rosa. Qual o seu pintor favorito? Rosa inicia o seu passeio. E fala de Renoir, de Archidy Picado e de Portinari e do seu lugar de nascimento, Brodowski (SP). Pronto, foi o meu ponto de partida! E lá vou eu para 1972, para uma viagem de carro até Ribeirão Preto, onde moravam os meus cunhados, Lela Melquíades e Zezinho Tavares (Dr. José Arnaldo Tavares de Melo, in memoriam). Viajamos eu, o namorado Flávio Tavares, meu cunhado Sérgio Tavares (*in memoriam) e a minha sogra, D. Otaviana.
Todas as famílias infelizes se parecem; cada família infeliz, é infeliz a sua maneira.
Liev Tolstói
A família se revela menos como espaço de encontro ou pertencimento e mais como uma arquitetura da ausência, sustentada por existências mínimas, silêncios e tudo aquilo que nunca conseguimos dizer.
Eduardo Reis, Prof UFBA
Há alguns meses, recebi o convite do jornalista André Cananéa para participar de um programa da Rádio Parahyba FM, E com vocês. Uma alegria! Ainda mais quando vi os nomes dos outros convidados: Ney Matogrosso, Everaldo Pontes, Marília Arnaud, meu amigo Nelson Barros, entre tantos. Tinha feito notas para escrever algo, mas o cotidiano engoliu minhas ideias, e o tempo foi passando até que li o texto de Nelson, “Música, sempre ela”, na edição de A União de 19/06. Senti-me representada, mas também desafiada a escrever uma crônica de uma trilha toda minha.
Sou do tempo da Copa de 70. Uma Copa inesquecível. Vi Pelé, Tostão, Jairzinho, depois Cafu, Raí, Carlos Alberto, Toninho Cerezo, Paulo César, Rivellino e tantos, tantos outros. No início, via por farra; depois, com filhos pequenos. Madrugadas acordando para assistir à Copa na Coreia, ou do outro lado do mundo. Mas a de que mais gostei foi a da França, mesmo perdendo, por conta dos programas televisivos de making of, bastidores e reportagens sobre queijos e vinhos. Aí já não era mais futebol.
Quando morava na minha casa, na Rua Oceano Pacífico — e esse oceano gigante para uma rua pequenina —, nos tempos de ruas enlamaçadas e bois a passar na porta, todos os dias, por volta das 18 horas, um casal de sapos pequenos (caçotes) entrava aos pulos na minha sala e ia namorar embaixo da estante. Ficava a ouvir os gemidos, digo, o coaxar do namoro. Todos os dias lá vinham eles, os caçotinhos. Ficava sempre impressionada com a pontualidade. Não me consta que sapos tenham relógios. Mas rituais, isso eles tinham. E aconchego para namorar juntinhos. Todo dia faziam tudo sempre igual: me visitavam às seis horas da tarde. Bem que poderia ser letra de Cotidiano, de Chico Buarque. Com gosto de hortelã e tudo.
Desde cedo, nos meus vinte e tantos anos, quando me separei pela primeira vez, vi-me diante dessa pergunta crucial na vida de qualquer pessoa, mais precisamente na vida das mulheres. Somos criadas para seguir o desejo do outro: o pai, o marido, a sociedade.
Ela estava inconformada. A sua irmã havia se separado do marido, tinha três filhas pequenas e adolescentes e, mesmo sob o pedido de volta do marido, não queria mais ser casada. Havia descoberto a cerveja e o forró. Como pode? Só levando uma camada de pau. Mas a minha mãe vai botá-la nos eixos. A irmã tem cinquenta anos, mas quem já viu sair à noite para caçar forró por aí afora?
Quando o oftalmologista finalmente me disse: “A catarata chegou!”, eu fiquei um pouco atônita. Há alguns anos esperava por ela. Minhas amigas já tinham feito essa cirurgia, e a minha demorou um pouco a se anunciar. Não fiquei triste pela cirurgia em si, mas pelo marcador da velhice que essa cirurgia representa. Meus olhinhos envelheceram. Também pudera!
Marta Eleonora: assim a conheci, na infância, no Colégio das Lourdinas. Ela não era para o meu bico. Sentava-se na primeira fila da classe e só tirava 10! E em matemática! Estava em outro patamar de aluna brilhante. Eu, humilhada, sentava-me no meio da sala e só tirava 5,0. Em matemática! Meu negócio era dançar nas festinhas, olhar os meninos na saída do colégio, paquerar nas matinês dos clubes da cidade e sonhar. Era uma aluna mediana, longe de ser brilhante.
Desde há muitos anos que sonhava em conhecer o Marrocos. Pela magia do desconhecido, pelos camelos, desertos e depois, mais ainda, pela música de Caetano – Qualquer Coisa. Virou o tema da nossa viagem. Depois de um dia todo pelas estradas tortuosas das Gargantas de Dades, pelas paradas diante dos desfiladeiros, pelas tendas vendendo tapetes e echarpes belíssimas, finalmente chegamos a essa cidade linda, caótica, ocre, mágica e rica.
É padecer no paraíso! Só um homem pode ter inventado uma definição dessas, a exaltar-nos a esse lugar impossível de se chegar e minimizar a dor de ser mãe com a promessa desse lugar divino.
“Los viajes son como pequenas vidas”
Stanislaw Ignacy Witkiewicz
(escritor, fotógrafo e filósofo)
Quando viajo, sofro da síndrome pré-viagem. Tenho angústias e ansiedades e me pergunto: pra que fui inventar isso? Quando volto, sofro de banzo. Tenho saudades dos lugares e levo alguns dias feito um zumbi, aterrizando lentamente. Vá entender! Mas é sempre um sofrimento. Custa-me. E, no meio, a explosão de felicidade e realização.
Ai, que saudade me dá dos tempos em que fazia mala sem planejamento. Levava um monte de coisas desnecessárias, carregava dois, três volumes, e a nécessaire dos remédios só tinha Melhoral e Vick Vaporub. Mentira! Era uma aventura inglória carregar tanto peso e sair deixando as malas nos guarda-volumes dos aeroportos mundo afora.
Por esses dias, fiz cirurgia de catarata. Um olho a ver navios. No pós-cirúrgico, na salinha com outros “piratas” de um olho só, o assunto era comida. Homens a falar de buchada e bode, e do que iriam comer depois do cristalino em forma. E eu, que não como nada disso, só falava no meu purêzinho de batatas inocente. Colírios a toda hora! Depois, tive outras mazelas, o que me fez perder os lançamentos do amigo Petrônio Souto e as novas publicações da União: Paraíba na Literatura VII; Memórias A União (Volume 2); Revista Vivências Femininas (3ª edição) e projetos da editora. Também recusei convite de André Aguiar e os lançamentos da editora Dromedrário. Reclusa e quieta estava. Agora, só a ver o nascer do sol da minha varanda e contemplar a lua cheia. Agradecer!
Aqui, lendo esse cronista/poeta/psicólogo/terapeuta/cantor, exímio nas trilhas sonoras dos seus textos e da sua vida, movido às coisas belas, ditas e não ditas, e tantas outras coisas, o seu texto “When I’m Sixty-Four”, n'A União de 27 de março, fiquei parodiando a minha própria música, ou trilha.
Começou em fevereiro o Clube de Leitura e Escrita: Fale mal, mas fale de você, da cronista e podcaster Tati Bernardi; inscrevi-me porque gosto da Tati, ouço os seus muitos Podcasts, assim como ela, gosto de psicanálise (ignorante sou), e vi nesses encontros,
As mulheres têm que estar nuas para poderem estar num museu? Menos de 5% dos artistas na seção de arte moderna são mulheres; no entanto, 85% dos nus são de mulheres.
Guerrilla Girls
Foi lançado, no último sábado, o livro Mulheres que resistem nas margens: Arte e gênero na Paraíba (Arribaçã Editora, 2025), pesquisa da Profª. Doutora Madalena Zaccara (professora da UFPE, com currículo vasto e potente) e da Doutora Sabrina Melo (historiadora, museóloga e professora da UFPB). “94 perfis, recuperando histórias, obras e trajetórias que muitas vezes permanecem dispersas ou pouco registradas na historiografia artística. A obra se dedica a investigar, documentar e valorizar parte da trajetória das mulheres artistas visuais que atuaram na Paraíba, com recorte temporal que se inicia na década de 1920 e se estende aos dias atuais”.