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Aconteceu comigo na década de 80. Lá se vão mais de 30 anos, quase 40. Comecemos perguntando ao amigo leitor e à querida leitora se sabem ...

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Aconteceu comigo na década de 80. Lá se vão mais de 30 anos, quase 40. Comecemos perguntando ao amigo leitor e à querida leitora se sabem o que vem a ser uma “baratinha”. Sabem o que é? Pois bem, assim eram chamados os carros conversíveis, lá nos idos dos tempos; década de 50, daí para trás. E por falar em baratinhas, é antes necessário falar de João Saldanha.

Tenho por hábito fazer alguns exercícios de memória. Costumo buscar nos escondidos do tempo, passagens de minha primeira infância lá nos e...

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Tenho por hábito fazer alguns exercícios de memória. Costumo buscar nos escondidos do tempo, passagens de minha primeira infância lá nos espinhaços da Mantiqueira. Tudo começou em Campos do Jordão, bem nos altos de Jaguaribe (olhem a coincidência), bairro que fica entre Abernéssia e Capivari. Casa de madeira, como a maioria delas por lá naqueles anos distantes. Ainda na memória, que em frente à minha, era a morada de Dona Gabriela de Seu Juca, um pouco abaixo a de Seu Zequinha que tinha banca de frutas no Mercado Municipal.

Levei muito a sério aquela máxima escrita em alguma página do Livro Sagrado: “Crescei-vos e multiplicai-vos”. Não sei se cresci tanto as...

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Levei muito a sério aquela máxima escrita em alguma página do Livro Sagrado: “Crescei-vos e multiplicai-vos”. Não sei se cresci tanto assim, mas multipliquei com força. Sete!

Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar. Carlos Drummond de Andrade Es...

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Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar.
Carlos Drummond de Andrade

Esses tempos de recolhimento deixam-me mal e mau. Ficam se digladiando o advérbio e o adjetivo para ver quem mais me afeta, quem mais me traz transtornos. É briga sem vencedor, fadada a um empate magrinho, sem gols, sem boas emoções, mas que nos deixa a alma pequenina e o coração mutilado.

Tomé era um homem preguiçoso. Ninguém sabe o porquê, mas já faz uns anos que bateu uma imensa preguiça nesse cidadão. Preguiça daquelas, b...

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Tomé era um homem preguiçoso. Ninguém sabe o porquê, mas já faz uns anos que bateu uma imensa preguiça nesse cidadão. Preguiça daquelas, bravas. De fazer inveja àquele bicho de unhas compridas que carrega no nome o estigma da inércia, da lombeira, do marasmo, da sornice e não sei mais lá quantos desses adjetivos. Sabem de qual bicho estou falando, não sabem? Pois é ele mesmo. Tanto foi que nosso amigo passou a ser chamado de Tomé Sossego ou Doutor Sossego, já que era delegado de polícia na cidadezinha que aqui chamaremos simplesmente de P.

Meus amigos, minhas amigas. Pensem numa dupla desigual! Está aqui uma: Tião Malvadeza e Cicinho. O primeiro, o Sebastião, era um homão f...

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Meus amigos, minhas amigas. Pensem numa dupla desigual! Está aqui uma: Tião Malvadeza e Cicinho.

O primeiro, o Sebastião, era um homão faltando pouco para chegar aos dois metros de altura e quase que a metade disso em largura. O que tinha de forte tinha de bravo e de ruim. Puxou uns quinze anos atrás das grades, em regime fechado, pelas malvadezas que praticou nesses buracos do mundo. Era ruim que só o diabo.
Quando esteve vendo o sol nascer quadrado, mandou pelo menos meia dúzia de desafetos falar com Deus. Aqui fora, ninguém sabe quantos despachou desta para uma melhor. Por essas “jabuticabas” de nossa justiça, ganhou liberdade e está solto esparramando terror nesse mundão de Deus.

Já Cícero, um hominho de pouca estatura, magrinho, com os bracinhos e as pernas que mais pareciam canudinhos de tomar refrigerante, era uma criatura com a índole de um passarinho. Uma bondade em pessoa. Temente a Deus e, pelo jeito, a muita gente. Fugia de encrencas, pois sabia que desavença não era sua praia. Não tinha músculos para encarar essas paradas. O jeito era ficar na dele, em paz com esse mundo e outros, se outros houvesse.

Malvadeza era grosso como papel de embrulhar prego, Cicinho era uma seda no trato com toda gente. Tião não levava desaforo para casa e cobria de sopapos o infeliz que tivesse essa ousadia. Cicinho não era assim. Pedia perdão por eventual ofensa que dele tivesse partido, assim, como perdoava a quem o tivesse ofendido; do jeitinho que pede a oração. Tião, dizem, nem batizado foi. Igreja? Só entrou uma vez para assaltar a sacristia.

Passava ao largo de qualquer templo fosse católico ou evangélico. O outro, o pequenino de quem falávamos, era casado com Claudete, mirradinha e mansa como ele. Tiveram três bacurizinos.

Mas o destino aprontou mais umas das suas e fez que essas duas criaturas de quem estamos falando, tão desiguais, viajassem juntas no mesmo trem da Mogiana. Isso, estou dizendo, aconteceu lá de priscas eras, quando viajar de trem era sinônimo de conforto e segurança.

Cicinho embarcou em Rifaina. Vivia ali, naquela cidadezinha acanhada à beira da represa. Antes de embarcar, numa birosca daquela gare, reforçou o estômago com pastel, quibe e empada de palmito. Esse reforço iria segurar o apetite até Campinas, seu destino final. Foi de segunda classe, grudado na janela apreciando a paisagem. Era pé de café e de cana a não poder mais. Lá ia ele embalado pelo balanço gostoso do trem pensando em Claudete e nos bacuris. Quase adormeceu. Ia pegar no sono não fosse o trem parar na estação de Franca. E trem quando para faz barulho. Quem entra no trem? Quem? Adivinhem! Isso mesmo, Tião Malvadeza.

Entrou cheio das vontades. Viu lugar vazio ao lado do nosso hominho e se encheu de banca. – Chega mais pra lá, criatura. Só vou descer em Ribeirão. – nem deu bom dia e já foi chamando o pobre de “criatura”.

Pois não, senhor – respondeu a criatura resignada e obediente.

Malvadeza não disse mais uma só palavra, foi se esparramando no assento, prensando Cicinho junto da janela. Este ficou quietinho conforme mandavam sua índole e sua coragem.

Passado um tempinho, o trem partiu. Próxima parada? Ribeirão Preto. Ia ter que suportar o incômodo até lá. Cicinho ainda conseguiu dar uma viradinha de lado e deu uma medida no tamanho do homão, quando viu o cabo de uma garrucha no cinto do valentão. Cicartiz no rosto, garrucha no cinto, só podia ser o tal de Malvadeza que vivia aterrorizando a região. Sim era ele, conjecturou nosso amiguinho.

Malvadeza adormeceu ligeiro, foi então que Cicinho notou que na redondeza os olhares se dirigiam para onde esta sentado. Olhares ansiosos, medrosos. Também pudera, tinham identificado Malvadeza que já puxava seu ronco em sono pesado.

Cicinho teve todo o medo do mundo. Começou a passar mal. Lá em suas entranhas o quibe começou a arengar com a empada, essa por sua vez brigou com o pastel. Não se entendiam. Foi então que o estômago resolveu botar essa trinca para fora e fez Cicinho devolver aquela gororoba justamente no colo de Malvadeza. Só teve tempo de ouvir o passageiro do banco da frente dizer:

– Malvadeza, quando acordar, vai espetar o magrinho! – mas o ogro nem ouviu, nem acordou E lá ia o trem. O pessoal do entorno na expectativa, vira e mexe olhavam para o coitadinho, antevendo a desgraça. Mas ninguém sabia de uma coisa: Cicinho era um danado de esperto.

O trem foi chegando em Ribeirão Preto e Malvadeza despertou. Viu aquela massa nojenta no seu colo e olhou com sua cara de bravo para Cicinho. Este tirou um lencinho do bolso, ofereceu o paninho para Malvadeza e perguntou com a voz mais meiga do mundo:

– O senhor melhorou?

Volta do outono Um enlutado dia cai dos sinos como teia tremente de uma vaga viúva, é uma cor, um sonho de cerejas afundadas na terra, é u...

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Volta do outono Um enlutado dia cai dos sinos como teia tremente de uma vaga viúva, é uma cor, um sonho de cerejas afundadas na terra, é uma cauda de fumo que chega sem descanso para mudar a cor da água e dos beijos.
Pablo Neruda

As chuvas, que ainda deveriam ser raras nesta época do ano, andaram chegando desobedientes e pareceram estar antecipando a estação das águas. Será o tempo de cobrir o sertão de verde, esperar colheita generosa e mesa farta. São José haverá de ser dadivoso e permitirá que o aguaceiro surja abundante autorizando o plantio e permitindo à enxada que trabalhe nos roçados. Haverá sim, o santo-carpinteiro, de derramar em forma de chuva, esperança nos corações sertanejos.

O equinócio de outono se deu no último dia vinte e um. Dia em que a luz solar incidiu com mesma intensidade sobre os dois hemisférios do planeta. A Terra e o Sol, por uns meses, irão se afastar um do outro como dois parentes intrigados. Para nós, os dias serão mais curtos do que as noites. Nessas latitudes, só um pouquinho.

Consta-me, salvo engano, que a palavra outono tenha origem latina: “autumnus”, que significa “mudança”. Lá em terras europeias de onde surgiu, o termo justificava o fim do colorido da primavera e do verão para se esperar os tempos cinzentos do inverno. Mal sabiam eles, os europeus, que para o nosso matuto também caberia a força do vocábulo. Pois aqui começa o tempo das grandes metamorfoses. A caatinga vai ganhar vida, os açudes haverão de sangrar. O passaredo, até então, tímido, escondido irá reaparecer numa louca e desorganizada sinfonia. Voltarão, o azulão, o coleirinho, o sabiá, o bigodinho, o pintassilgo, o galo-de-campina, o assum preto, o currupião, o sanhaçu, e até o desajeitado nambu aparecerá para ciscar à sombra dos pés de jurema. E que tenham muito cuidado com o acauã, com o carcará, com o gavião carijó, com a coruja rasga-mortalha, todos famélicos e exímios caçadores estarão rondando os céus e podem interromper a cantoria dos nossos seresteiros empenados.

A caatinga ganha cores com as inflorescências do sete cascas, do quipá, da jurema, da baraúna, da coroa de frade, da favela e até a atrevida arapuá irá se deliciar com o néctar do mulungu. É como que se o arco-íris fosse capaz de se esparramar em milhões de pedaços pelo sertão. Oh amigos que deixei lá pelas bandas do sul, vocês nem são capazes de imaginar como é bonito o inverno sertanejo.

No litoral não é bem assim, com as chuvas o mar que passara meses pintado em cores de turmalina; vai, como dizem os pescadores, ficando mexido, perde sua coloração esverdeada, fica bege e sem encantos. As calçadinhas da orla se farão pobres de gente, sem o alvoroço de meninos, sem nossos “apolos” e “afrodites” de peles douradas e silhuetas de escultura que passam apressados exibindo sorrisos e saúde. Os namorados não passearão de mãos dadas trocando beijos e promessas. Os velhinhos não aparecerão para repousar seus cansaços sentados na muretinha das calçadas. Nem lançarão olhares atrevidos às saias morenas que as brisas costumam levantar. Até as folhas dos coqueirais se agredirão instigadas pela aragem, numa desavença que parece interminável. Serão por aqui tempos de espera e recolhimento. Esperemos; pois, por uns meses a nossa vez, agora é a do sertanejo. É justo, mais que justo.

Início deste ano, recebi com muita desconfiança os votos de “Feliz Ano Novo”, mesmo vindo de pessoas de minha benquerença. Não precisava...

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Início deste ano, recebi com muita desconfiança os votos de “Feliz Ano Novo”, mesmo vindo de pessoas de minha benquerença. Não precisava ser nenhum adivinho, usar bola de cristal ou jogar sobre a mesa cartas de tarô. Estava evidente que o ano ia ser difícil. E está sendo.

Ponderações filosóficas na praia de Tambaú Pequenas embarcações pesqueiras ficam fundeadas nas águas daquela praia, Outras, avariad...

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Ponderações filosóficas na praia de Tambaú

Pequenas embarcações pesqueiras ficam fundeadas nas águas daquela praia, Outras, avariadas, foram deixadas sobre as areias e à sombra das gameleiras. Dessas, umas estão devidamente aposentadas enquanto outras parecem aguardar reparos. Fazendo fronteira com o areal, a calçada ampla, quase uma praça e o mercado de peixes. Por ali, o vai e vem de turistas com a presença contrastante de uma indigência incômoda, freqüentadora contumaz daquele logradouro, À sombra das gameleiras, entre embarcações aportadas naquelas areias deu-se o fato.

Dois banquinhos de madeira carcomida. Sobre um deles uma meiota de cachaça, o copo de pequenas dimensões apropriadas às suas funções, o pacote improvisado com os inseparáveis cigarros de manufatura caseira — os “pés-de-burro” — a caixa de fósforos, duas laranjas cravo para rebater os arrepios depois dos goles da água que passarinho não bebe. Noutro ele, acomodado, tecendo a rede de pesca

A propósito das paineiras da Avenida Orozimbo Maia, onde morei por uns tempos — Campinas, interior de São Paulo.

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A propósito das paineiras da Avenida Orozimbo Maia, onde morei por uns tempos — Campinas, interior de São Paulo.

Waldemar N.J.P. era um homenzinho desse tamanhico, trabalhador, responsável na vida pessoal e no emprego; além disso, muito educado. Esse...

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Waldemar N.J.P. era um homenzinho desse tamanhico, trabalhador, responsável na vida pessoal e no emprego; além disso, muito educado. Esse detalhe: educado; é muito importante para este causo.

Saudade no peito, É como fogo de monturo. Por fora tudo perfeito, Por dentro fazendo furo. Patativa do Assaré

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Saudade no peito, É como fogo de monturo. Por fora tudo perfeito, Por dentro fazendo furo.
Patativa do Assaré

A minha casa fica lá detrás do mundo Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar O pensamento parece uma coisa à toa Mas como a gente...

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A minha casa fica lá detrás do mundo Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar O pensamento parece uma coisa à toa Mas como a gente voa quando começa a pensar.
Lupicínio Rodrigues

Narinha e o marido Durvalino não perdiam um pagode nas tardes de sábado, lá no botequim do Alcides. Dos que freqüentavam aquele samba, Cel...

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Narinha e o marido Durvalino não perdiam um pagode nas tardes de sábado, lá no botequim do Alcides. Dos que freqüentavam aquele samba, Celestino era o protagonista, um danado no cavaquinho, além de que era também bom de gogó e sua cantoria era o que mais animava a gafieira. Sem Celestino o pagode perdia o fôlego, desafinados teimavam em cantar e ninguém se prontificava a arrastar as mesas para um rala-bucho.

(Luiz Augusto de Paiva) Ele fazia Química na universidade e ela no mesmo curso, um ou dois semestres atrás. Conheceram-se ali pelos corredor...


(Luiz Augusto de Paiva)

Ele fazia Química na universidade e ela no mesmo curso, um ou dois semestres atrás. Conheceram-se ali pelos corredores e pintou entre eles aquela química, não a do curso, mas aquela atração danada, inevitável que faz qualquer elétron escapar de sua órbita. Hormônios pululando a todo vapor, nos dois. Então aconteceu. Não poderia ter sido diferente.

Mas antes que mal digam coisas dessa nossa Julieta, é bom que saibam, nosso Romeu era criatura do mais ilibado caráter e levou a sua mocinha aos cartórios e ao altar. Casaram-se. Ele sem uma pataca no bolso, ela muito menos, mas todo mundo sabe como é esse tal de amor, não é verdade? Os pais dele contra, a mãe dela que era viúva também, mas fazer o quê? Eram, como dizia a senhora – do rapaz – “di maior”, e deviam muito bem saber o que estavam fazendo.

O pai dele ainda deu uma força de início. Foi fiador numa casinha do tipo sala, quarto, cozinha e banheiro, ali por perto da universidade e ajudou na compra do essencial. Nada de primeira mão, tudo de brechó e sem reclamação. Quem mandou não ter responsabilidade? Já a mãe dela, mesmo com gordas economias na Caixa Econômica, não abriu mão de um centavo além do que havia gasto com os ornamentos da igreja e mais alguma coisa que a paróquia exigia para proceder o enlace. E só.

Criar uma filha com tanto zelo e depois entregar para um pé-rapado desses – reclamava a indignada senhora.

Nem é preciso explicar que foi um difícil começo. Para segurar a barra, sempre que havia uma brecha no horário da universidade ministravam aulas particulares. Tempos depois conseguiram alguns colégios para lecionar e assim foram levando a vida, com dificuldades, mas levando.

E o amor? Aceso! Aceso como brasa de churrasqueira. Felizes, iam se dando bem no curso, conseguiram mais trabalho e viviam aquela fase de “como o amor é lindo! ”. Tão lindo que já podiam, vez ou outra, tomar uma cervejinha com os amigos da universidade nos fins de semana, e, mais lindo ainda, porque conseguiram comprar uma Brasília de terceira ou quarta mão.

Que não me apareça com esse carro aqui para não me matar de vergonha – dizia a mãe dela, toda prosa, porque tinha um Monza (que era o carro da moda) novinho em folha.

A vida seguia seu curso, até que um dia... Depois da aula na universidade, o nosso Romeu deixou brotar da alma seu lado boêmio, ou melhor dizendo, seu lado gandaieiro, desregrado (todo homem tem isso, contido mas tem) e numa sexta-feira, depois das aulas da noite, saiu com um amigo para a esbórnia.

Foram para um daqueles estabelecimentos onde moças gentis satisfazem as necessidades afetivas e urgentes da rapaziada. Não era o caso do mancebo em questão, que por sinal era muito bem nutrido nessas necessidades, mas naquele dia resolvera, como se diz, enfiar o pé na jaca. Ali ficaram bebendo com as meninas, beijinhos, carícias poucas. Nada mais que isso. Queriam mesmo é fugir da rotina. Mas tomaram todas e na saída, noite bem avançada, tiveram que usar a Brasília para dar carona para duas daquelas criaturas. Cumprida a gentileza, antes de chegar em casa, parou a “poderosa” e deu um geral para não deixar rastro. Achou uma bijuteria, um batom e uma tiara. Ufa! Provas do crime jogadas fora, portanto devidamente eliminadas.

Em casa, a mulher ainda acordada. Brava! Com aquele bico de ornitorrinco, lembrou nosso transgressor que na manhã seguinte iam ser testemunha no cartório. A prima dela ia se casar.

Acordou daquele jeito. Gosto de cabo de guarda-chuvas na boca. Cérebro como se estivesse solto na cabeça. Tomou café amargo, trêmulo. Botou terno e gravata. A mulher sem dizer uma palavra, só fez lembrar na saída:

Pneu do carro de minha mãe está baixo, vamos passar lá para pegar ela.

Lá, entraram na “poderosa”, a sogra e duas cunhadas. A mulher ao entrar já foi dizendo:

Que cheiro de Avon é esse aqui dentro?

Ele eliminara qualquer vestígio, menos o cheiro. Não pensara nisso. A mulher esticou mais o bico ainda, mas não disse uma palavra (o que é pior!). Na primeira freada, algo resvala no pé dele. Disfarçadamente estica as mãos, toca. Um sapato! Como não vira? Precisava eliminar aquela evidência tão comprometedora. Com a desculpa que um pneu poderia estar baixo para o carro, e disfarçadamente joga fora o sapato. Entra no carro aliviado até que chegam ao cartório. Saem do carro, menos a sogra.

A senhora não vai sair? Vai ficar aí? – interroga nosso Romeu, e ela: "Estou procurando meu sapato. Alguém viu?"