Mostrando postagens com marcador Luiz Augusto Paiva. Mostrar todas as postagens

Alguém sabe a diferença entre uma coisa e outra? Entre bolacha e biscoito? Não? Pois bem, a bolacha e o biscoito vão aparecer no fim deste...

gula buchada indigestao conto
Alguém sabe a diferença entre uma coisa e outra? Entre bolacha e biscoito? Não? Pois bem, a bolacha e o biscoito vão aparecer no fim deste causo sem que desfaçamos esta dúvida. Mas primeiro tenho que apresentar ao dileto leitor e à querida leitora Zezinho Gafanhoto.

Dona Aparecidinha morava nos arredores num daqueles vilarejos com pose de cidade, um povoamento com menos de cinco mil almas. Vocês sabem...

Dona Aparecidinha morava nos arredores num daqueles vilarejos com pose de cidade, um povoamento com menos de cinco mil almas. Vocês sabem como são essas vilas que ganharam autonomia e já botam a maior banca por terem CEP, agência da Caixa, pracinha com coreto que serve de palanque em ano de eleição, Posto de Saúde, três ruas paralelas (uma que vai, outra que vem e a principal que faz as duas coisas) e como não podia faltar uma Delegacia de Polícia. Ia me esquecendo: uma Escola de Ensino Fundamental Fulano de Tal. E para por aí vai. Foi nessa localidade que se deu o causo. Mas para isso vamos falar um pouco de Dona Aparecidinha.

Moda é moda, mas há cada uma... Moda de andar com a calça jeans rasgada. Tem coisa mais ridícula? Só perde mesmo para a calça boca-de-sino...

nostalgia infancia gravatas luiz augusto paiva mata
Moda é moda, mas há cada uma... Moda de andar com a calça jeans rasgada. Tem coisa mais ridícula? Só perde mesmo para a calça boca-de-sino lá nos anos 70 e que era acompanhada do sapato de salto carrapeta. Um horror! Nesse quesito moda, sou conservador. Por exemplo: gosto da tal da gravata, pois acho elegante e de bom tom usá-la. Sempre que posso, lá estou eu todo pimpão, devidamente engravatado. Mas para mim, o máximo da elegância são os suspensórios combinando com a gravata borboleta. Mas adulto, nunca os usei e nem usarei esses acessórios juntos ou separados. Invejo quem o faz e só não o faço por culpa de um irmão e de uma tia. Coisas de família, mas vou contar.

Não deve ser necessariamente um álbum, pode ser uma dessas caixas não muito grandes, de madeira ou de papelão, essas últimas, das que usam...

nostalgia saudade fotografias lembrancas luiz augusto paiva mata
Não deve ser necessariamente um álbum, pode ser uma dessas caixas não muito grandes, de madeira ou de papelão, essas últimas, das que usamos para proteger algum presente que pretendemos ofertar. Caixa de sapato já acho que não fica bem, pois o que vai dentro dessa arca improvisada merece nossa consideração e respeito. Estou falando do quê? Das fotografias, meus amigos, minhas amigas.

I Vai, vai, vai, começar a brincadeira, Tem charanga tocando a noite inteira. Vem, vem, ver o circo de verdade, Tem, tem, tem picadeiro ...

circo desemprego perda familiar rigor
I
Vai, vai, vai, começar a brincadeira, Tem charanga tocando a noite inteira. Vem, vem, ver o circo de verdade, Tem, tem, tem picadeiro e qualidade. (Sidney Miller )

Muito tempo faz que não sei de Nequinho. Nunca uma carta, um telegrama, uma notícia qualquer. Nada. Se eu soubesse alguma coisa do paradeiro dele, uma referência qualquer, iria procurar por ele, arrancar de dentro de mim esse pedido de perdão engasgado por quase trinta anos. Só queria que ele me escutasse, uma chance apenas para que eu pudesse pelo menos tentar explicar aquela decisão que transtornou irrecuperavelmente minha vida.

Eram três sítios, um pertinho do outro lá nas brenhas do mundo. Os proprietários, Zé Belarmino, Tião Frozino e Juca Damasceno eram amigos...

topografia interior fazenda conto cronica paraibana
Eram três sítios, um pertinho do outro lá nas brenhas do mundo. Os proprietários, Zé Belarmino, Tião Frozino e Juca Damasceno eram amigos, vizinhos e compadres. Ali na roça, distantes do que chamamos inapropriadamente de civilização, o que mais sabe se fazer é menino. Daí a prole grande nas três sitiocas. Nossos amigos aí de cima batizavam os filhos um do outro e as esposas, nessa ordem, Dona Noquinha, Dona Ester e Dona Tianinha eram, como não podia deixar de ser, comadres.

"E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido" (Chico Buarque) Eram amigos desde os ...

"E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido"
(Chico Buarque)

Eram amigos desde os tempos da bola de gude e de empinar pipa nos frios e ventos de julho. Regulavam de idade. Cresceram carne e unha, amigos inseparáveis. Escolheram ambos, profissão de pedreiro e eram respeitados no ofício. Sabiam assentar azulejos e imprimiam qualidade nos serviços, fossem dos mais triviais, como o assentamento de tijolos, aos mais sofisticados a exemplo dos acabamentos que exigissem caprichos e mãos hábeis. Para quem não sabe, assentar azulejo não é para pedreiro meia colher, exige competência no ofício. Uns danados, Tonho e Juca.

Para Silvana Romani, que perdeu Sinhá O atento leitor e a cautelosa leitora já devem estar se perguntando: Quem será esse déspota que e...

animal mascote amor bichos cao cachorro
Para Silvana Romani, que perdeu Sinhá

O atento leitor e a cautelosa leitora já devem estar se perguntando: Quem será esse déspota que está sendo chamado de adorável? Existiria alguém, algum ditador, que poderia ser agraciado com tão mimoso adjetivo?

Poderia, não! Pode! Vou contar quem é. O nome dele é Fred. Fred do quê? De onde? Irão me perguntar. Vou ter que contar. Fred é para mim apenas Fred, um cão que compartilha o mesmo endereço que eu. Assim, já está respondido, o “do quê” e o “de onde”. Vamos então, às demais considerações.

Frades me remetem a uma lembrança de tempos bem distantes, lá nos meus verdes anos, quando assisti ao filme “Marcelino Pão e Vinho”. A...

Frades me remetem a uma lembrança de tempos bem distantes, lá nos meus verdes anos, quando assisti ao filme “Marcelino Pão e Vinho”. Aquelas figuras gentis que acolheram um garoto órfão, despertam, sempre que me lembro deles, uma sensação de benquerença. Essa película tem um grande poder sobre as fraqueza que me habitam. Marcelino nada mais era do que uma lenda.

Os causos que vez ou outra publico nesta coluna não são invencionices ou frutos de minhas maldades. Chegam-me por “ouvi dizer” e nem posso...

conto humor campos jordao gondola
Os causos que vez ou outra publico nesta coluna não são invencionices ou frutos de minhas maldades. Chegam-me por “ouvi dizer” e nem posso declinar a autoria porque já percorreram tantas bocas e orelhas que não sei há quanto tempo habitam o imaginário de nossa gente. Fazem-me pensar um pouquinho até nos heróis de Homero que ganharam o mundo através da oralidade e assim seus feitos atravessaram gerações.

É assim mesmo, para certas situações não há explicação. Por mais que tenhamos razão, de nada adiantará nossas justificativas, pois as evi...

traicao mulherengo conto anedota
É assim mesmo, para certas situações não há explicação. Por mais que tenhamos razão, de nada adiantará nossas justificativas, pois as evidências estão contra nós, muito embora a verdade possa estar do nosso lado. Como no ‘causo’ que vou contar. Antes devo esclarecer que o enredo não é da minha lavra. Ouvi a trama nessas conversas com meus amigos de mesa e de copo. Aqui só dei, ao meu modo, uma temperada no mexerico que escutei dessa gente que anda encangada comigo pelos botequins da vida. Vou contar.

Самoвар и балалайка A leitura dos clássicos russos da segunda metade século XIX e os mais recentes do século passado, como Boris Pastern...

Самoвар и балалайка

A leitura dos clássicos russos da segunda metade século XIX e os mais recentes do século passado, como Boris Pasternak e Alexander Soljenítsin, aproximaram-me muito da cultura russa, de seus modos e costumes. Um povo ímpar, com um jeito muito particular de ser. Percebo-os como gente que tem a sensibilidade à flor da pele, com a arte no sangue e dessas e outras manifestações, a música, a dança e a literatura são fáceis de serem notadas. Citaria para início de conversa os compositores Prokofiev, Tchaikovsky, os balirinos Rudolf Nureyev, Mikhail Baryshnikov, a bailarina Natalia Makarova e o Ballet Bolshoi. Estão aí para dizerem que não minto. Isso sem falar nos escritores, que qualquer brasileiro que goste de literatura; ou leu, ou deles já ouviu dizer algures.

Está aí um dito popular com o qual devemos tomar cuidado: o tal de “dessa água eu não bebo”. Podemos acabar bebendo sim. Explico. Anos a...

viagem nostalgia sao jose dos campos
Está aí um dito popular com o qual devemos tomar cuidado: o tal de “dessa água eu não bebo”. Podemos acabar bebendo sim. Explico.

Anos atrás, década de 90, eu e um amigo tomávamos a imprescindível cervejinha do final de expediente. Praia de Tambaú, pés na areia e mãos no copo, quando comentávamos nossas trajetórias de professores, época em que morávamos no interior de São Paulo,

Tem gente achando que eu sou avesso ao progresso, às modernidades. Nada disso, mas há coisas que nasceram e vão ficar do jeito que foram...

cheiro livro leitura ebook livro digital kindle
Tem gente achando que eu sou avesso ao progresso, às modernidades. Nada disso, mas há coisas que nasceram e vão ficar do jeito que foram inventadas. Para sempre! Querem um exemplo? O limpador de para-brisas. Ou não é? O tempo passa, os modelos de carros evoluem, mas aquelas duas varetas desajeitadas são daquele jeito desde o tempo do “Ford Bigode”. Não vislumbro alguma possibilidade de mudança a curto prazo.

Definitivamente não estou preparado para esses novos tempos. Meus passos não conseguem acompanhar a velocidade das transformações. Diz um ...

modernidade automacao qr code vida digital
Definitivamente não estou preparado para esses novos tempos. Meus passos não conseguem acompanhar a velocidade das transformações. Diz um dos mais conhecidos preceitos relativos aos progressos da humanidade: as invenções aconteceram para facilitar nossas vidas. Sempre foi assim. Está aí o controle remoto que não me deixa mentir. Podíamos falar de muita coisa, da roda ao avião, do estribo que dá firmeza e equilíbrio à montaria à injeção eletrônica, e por aí vai. Mas agora...Pelo menos comigo não está valendo essa máxima que acabei de citar. Estive dias atrás no maior sufoco, sofri que só o diabo.

Acho que é isso. Só pode ser. O coração está com dificuldades para suportar algumas destemperanças da vida. Qual coração? O meu, é claro. ...

familia natal velhice confraternizacao netos
Acho que é isso. Só pode ser. O coração está com dificuldades para suportar algumas destemperanças da vida. Qual coração? O meu, é claro. Essa engenhoca que me bombeia sangue para as artérias e que, segundo alguns poetas, é o órgão que manobra nossos sentimentos, sejam eles as paixões e as saudades, anda me maltratando. Pois, meus amigos, minhas amigas, ando padecendo com as fadigas de minhas coronárias. Esses dias entre o Natal e o Ano Novo, não foram fáceis.

Ah, meus amigos, minhas amigas, há certos acontecimentos ou ocasiões que servem para nos despertar do marasmo que a mesmice do cotidiano t...

augusto paiva mata viaduto sao jose dos campos desabafo trauma
Ah, meus amigos, minhas amigas, há certos acontecimentos ou ocasiões que servem para nos despertar do marasmo que a mesmice do cotidiano teima em nos fazer vítimas, desse e de outros padecimentos. Querem que explique melhor? Vamos lá.

Algumas vezes precisamos de um balde d’água gelada sobre nossa alma preguiçosa. É como que se aquele frio desconforto nos dissesse: “Acorda, criatura! Veja o que está acontecendo no seu entorno.” Explico.

Costumam visitar meu quintal nos finais dessas tardes estivais. Estimo a chegada desses passarinhos, talvez pelo som que emitem, pois me ...

saudade amor filial paternal despedida filhos
Costumam visitar meu quintal nos finais dessas tardes estivais. Estimo a chegada desses passarinhos, talvez pelo som que emitem, pois me parecem propostas de benquerença: Bem-te-vi! Não é bonito ouvir isso dessas avezinhas canoras?

Debaixo daquela copa exuberante do jambeiro-rosa que fica ao fundo de meu quintal, costumamos, eu mulher e filha, gastar alguns dedos de prosa nos finais de tarde. Coisas sem importância, banais, outras vezes até arriscamos em searas mais complexas, conversas que exigem um pouco mais de nossos neurônios. mas tudo é apenas um pretexto para estarmos juntos. Para mim há um toque de magia nesses momentos.

Dona Clotilde até que gostava de após as duas refeições maiores, o almoço e o jantar, de dar uma bicadinha num golezinho de cachaça. Coisa...

Dona Clotilde até que gostava de após as duas refeições maiores, o almoço e o jantar, de dar uma bicadinha num golezinho de cachaça. Coisa pouca, menos que um dedinho. Segundo ela, era bom para a digestão, fazia bem ao quilo. Já Epaminondas, o marido, não encarava nada que fosse alcoólico, nem um tiquinho, mesmo que fosse daquele licor de jenipapo que guardavam na geladeira para fazer sala às visitas.

Ele não reclamava do hábito da esposa e nem ela insistia para que o consorte experimentasse uma cervejinha que fosse. Epaminondas era (eu disse, era) o homem com o qual muita mulher gostaria de ter juntado os panos. Um maridão! - diziam. Trabalhador, não fumava, não jogava e...E? Não bebia. Mas sabem os meus leitores como é essa tal de vida.
Sempre tem alguém para desencaminhar um homem de bem. Tanagildo Garrafa era um desses elementos que gostava de tirar um vivente do bom caminho.

A criatura em questão era irmão de Dona Clotilde, o que nos permite sem exigir muito dos neurônios, concluir que era cunhado de Epaminondas. Dizem uns, que cunhado não é parente, é castigo. O caso aqui confirma o postulado. Pois foi esse biltre que desencaminhou o pobre.

Tudo começou quando foram chorar um defunto. No avançado da noite, pouca gente velando o falecido, um frio de rachar e os dois ali prestando solidariedade à viúva. Lá pelas tantas Tanagildo chamou Epaminondas para um particular.

– Cunhado, sei que você não bebe, mas vamos dar uma saída e tomar um golinho pra rebater a friagem?

– Não bebo, você sabe disso. Um café bem quente até que eu encarava.

– Umazinha só, pra espantar o capeta. Defunto como Tiãozinho merece nossa consideração. Era um homem de bem e olha só como é o destino Tá aí, vai virar refeição de minhoca.

Epaminondas começou a matutar. De que valia a vida? Olha só o Tião, ontem bonzinho da silva e hoje aí, todo esticado. Que Deus dê um bom lugar a ele e conforto à família. – Quer saber de uma coisa, Tanagildo? Vou aceitar um golinho pra espantar os maus pensamentos – e tudo começou com aquele golinho. Dias depois vieram outros, outros…

Para encurtar a história, Epaminondas se tornou um cachaceiro e dos mais aplicados nesse, digamos, atributo. Tomava todas. Aquele homem dedicado ao trabalho e à família, escafedera-se. Tornou-se irresponsável e não raros eram os dias em que passava completamente embriagado. E começou a ser figurinha fácil em botecos e velórios. Isso mesmo, começou a frequentar velórios. E todo mundo sabe, em velório que se preza rola uma “água-benta”, discretamente, mas rola. Nessas centrais especializadas em cerimônias fúnebres, não. Mas se as exéquias são na casa do defunto, sempre a “marvada” aparece.

Dona Clotilde já andava até desanimada com a metamorfose daquele com quem dividia os travesseiros e passara a ter que suportar um bafo de bode daqueles. Estava difícil, mas como não há mal que não se acabe e bem que sempre dure, assim, meio de surpresa, Deus chamou Epaminondas para uma conversa. Ele foi.

Então agora, o “homenageado”, ia ser ele, o nosso pinguço. Os homens da funerária levaram o corpo para o “Caminho do Céu”, uma casa especializada em despachar gente para a chamada última viagem. Velório concorrido. Compareceram os familiares, amigos da repartição em que trabalhara, os vizinhos e como não poderia faltar, a turma da manguaça, dentre eles o cunhado Tanagildo.

Aos presentes, a casa oferecia água e um cafezinho servido em copinho de plástico e olhe lá. Foi então que o cunhado tomou a iniciativa de organizar aquele encontro.

– Epaminondas merece nossa consideração. Onde já se viu despedir de um amigo dessa qualidade sem tomar uma coisinha. E vai ser whisky e dos bons. Vamos fazer uma vaquinha.

E passou a recolher os donativos. Trocados de um, de outro, e foi juntando o que podia. A turma do alambique não deixou de dar sua contribuição. Até que a viúva viu o alvoroço e chegou junto.

– Juntando dinheiro pra quê, Tanagildo?

– Irmã, você me desculpe, mas é a última vez que vemos esse homem que era só bondade; então resolvemos tomar uma coisinha pra gente se despedir.

Dona Clotilde até se comoveu com a singela homenagem:

– Então me digam quanto é a minha parte. Com quanto eu entro?

– Não precisa, não. Você já entrou com sua parte.

– Como assim?

– Minha irmã, você entrou com o defunto.

Gostaria muito de saber quem inventou essa história de melhor idade. Foi garimpar na imensidão de sua insensatez um eufemismo ridículo pa...

cronica velhice juventude envelhecer dificuldades
Gostaria muito de saber quem inventou essa história de melhor idade. Foi garimpar na imensidão de sua insensatez um eufemismo ridículo para tentar dar algum colorido à palavra velhice. Não conseguiu.

Como pode alguém em sã consciência apelidar o outono de nossas vidas de “melhor idade”? Ao que me consta, melhor idade é a da adolescência quando nossa saúde está em sua plenitude e nossos sonhos só aguardando a vez de serem realizados. Estou dizendo dos possíveis e dos que não são. Mas nessa fase da vida, tudo para nós é factível: para a rapaziada,