O poeta Gregório de Matos desenvolve os seus pendores poéticos na sua permanência de 8 anos, em Coimbra, com leituras de Camões, Sá de...

Gregório de Matos e Guerra, poeta da Língua Brasílica (II)

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O poeta Gregório de Matos desenvolve os seus pendores poéticos na sua permanência de 8 anos, em Coimbra, com leituras de Camões, Sá de Miranda, Cervantes, Quevedo e Gôngora. É no, Brasil, no entanto, que ele dá livre curso à sua “lira maldizente” (“Aos Vícios”, CAC, vol. 3, p. 29), quando se vê livre para a criação poética, quebrando as peias e cabrestos dos cargos eclesiásticos que aqui ocupava, como diz Segismundo Spina (A poesia de Gregório de Matos, São Paulo, EDUSP, 1995, p. 31):

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Segismundo Spina (1921–2012), filólogo, ensaísta e professor paulista (nascido em Itajobi), referência nos estudos de literatura medieval e de literatura barroca.
“A paisagem brasileira, na sua natureza, na sua vida social e na sua realidade linguística, penetrou na criação literária de Gregório durante os últimos quinze anos de sua vida, depois do seu regresso à Bahia em 1679-1681.”
Embora haja equívoco na data de regresso do poeta à Bahia, que se dá em 1682, é o contraste da sociedade baiana que faz aflorar o homem barroco, com o poeta fazendo da sua sátira uma crônica da vida miúda, dos costumes e, sobretudo dos maus costumes, da cultura de uma sociedade em formação, em que se misturavam europeus, negros, índios e judeus, dando forma às “Torpezas do Brasil, vícios e enganos” (“Aos Vícios”, CAC, vol. 3, p. 29).

O caldeirão efervescente em que Gregório de Matos vive na Bahia lhe fornece, portanto, a matéria de que ele necessita para produzir a melhor poesia do século XVII no Brasil e, ao lado de Tomás Antônio Gonzaga (século XVIII),
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o que de melhor existe na poesia colonial brasileira. Lírico (amoroso, religioso e filosófico, seguindo o padrão do Barroco europeu) satírico (visão do Brasil do século XVII) e pornográfico, Gregório de Matos encarnou o espírito contraditório do Barroco, além de exprimir com maestria a ludicidade do período com a ambiguidade marcando a tensão e o conflito próprios do momento. O estilo conceptista e cultista, cheio de antíteses, trocadilhos, Paradoxos, quiasmos, metonímias e metáforas em profundidade (sonoras, visuais, materiais) conferem à poesia de Gregório de Mattos um lugar de destaque no cenário da literatura nacional.

A sua poesia satírica o faz brasileiro pela linguagem e pelo assunto, em poemas por vezes circunstanciais, porém sarcásticos, irônicos, entremeados da linguagem chula, cheia de escárnio, Gregório de Matos revela o desmando administrativo, a incompetência, a corrupção, a passividade do povo, os desvios da Igreja, o relaxamento dos padres, o despotismo dos políticos e juízes, o mundo caótico, em flagrante desconcerto. Nada escapa a sua verve ou a seu olho perscrutador.
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Arte: Jacob Willekes, S.XVII.
Todos, sem exceção – ricos e pobres, brancos e negros, ignorantes e letrados, religiosos e leigos, homens e mulheres, reinóis e colonos –, são passíveis de sátira. A Bahia, obviamente, é o alvo maior da sua ironia corrosiva. Como principal capitania e capital da Colônia, a Bahia era um microcosmo do Brasil no século XVII. No seu universo satírico tanto cabem as críticas às instituições (Igreja, Câmara, Governo...), quanto a tipos, de preferência os afetando sapiência ou fidalguia. A série de poemas sobre a Bahia contempla o leitor com uma visão dos fatos por dentro, mostrando o desconcerto de um mundo cuja característica principal é a subversão dos valores. Ressalte-se, porém, que a atitude crítico-satírica do poeta não pode e não deve ser confundida com uma consciência política, no sentido de uma visão ideológica dos fatos, que tanto caracteriza o nosso momento presente, pois não há um engajamento político partidário da sua parte. Há sim, uma criatividade e uma impulsividade que o levam a satirizar os acontecimentos, a sociedade de um modo geral, querendo expor as mazelas do mundo em que vive, com a finalidade de que se veja o ridículo da sociedade em andrajos, revestida de falsas pompas.

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Salvador, no século XVII. ▪ Gravura de Jacob Willekes ▪ Rijksmuseum, Amsterdã.
Um dos mais completos poemas sobre a Bahia encontra-se em “Epílogos”, que tem como didascália “Torna a definir o Poeta os maus modos de obrar na governança da Bahia, principalmente naquela fome, que padecia a cidade”. Trata-se de um poema de complexidade formal, mas de certa simplicidade semântica. Estruturado em estrofes mistas – tercetos e quartetos que se alternam – em que se constatam rimas internas, como resposta às perguntas dos versos dos tercetos, que serão em seguida recolhidas, para servir de último verso do quarteto (CAC, vol. 3, p. 46):

Que falta nesta cidade? Verdade. Que mais por sua desonra? Honra. Falta mais que se lhe ponha? Vergonha. O demo a viver se exponha, por mais que a fama a exalta, n’uma cidade, onde falta Verdade, Honra, Vergonha
Os quartetos, por sua vez, assumem a condição de uma crítica irônica, revelando as mazelas da Bahia, provenientes de seus governantes corruptos, incluídas aí a polícia que rouba e a justiça injusta, sem descartar uma população ignorante e explorada pela ambição, a usura e os negócios escusos. Nem a Igreja escapa, pois seus membros (sem trocadilho!), de que o “Reverendo Frei Fodaz” (CAC, vol. 2, p. 109) é um representante, estão entregues ao relaxamento moral, embora hipocritamente condenem os vícios, através dos sermões. Nessa situação,
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Arte: Jacob Willekes, S.XVII.
encontramos uma Bahia em processo de ruína social, moral e financeira, agravada pela decadência da economia açucareira. Muito embora o texto se refira ao século XVII, notamos o quanto ele é atual, daí a modernidade de Gregório de Matos.

O desgoverno da Bahia retrata o desgoverno do Brasil do século XVII, em que para governar não é preciso saber, basta querer e poder; bem como retrata a subversão dos valores do mundo, em que o honesto é sempre preterido em favor do desonesto. Com um poder de síntese adequado à forma poética escolhida, seus sonetos vão revelando a razão da ruína da Bahia: incompetência administrativa, corrupção, povo inepto, falta de consciência política, roubalheira dos comerciantes, revelando uma sociedade que premia os desonestos e corruptos, que se fazem passar por pessoas decentes. Atente-se para a metáfora sonora da aliteração em “Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:” ou associada à imagem da ave de rapina “Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;”, o que dá um ritmo especial ao poema, de ludicidade, de brincadeira com as palavras e com os sons, cujo ápice é um primor de verso em que se recolhem todas as rimas utilizadas até então, “apa, epa, ipa, ipa, opa, upa.”, de modo a formar um verso, cujo ritmo é o do galope de um cavalo. Vejamos os dois sonetos:

Soneto 1: Descreve o que era realmente naquele tempo a Cidade da Bahia de mais enredada por menos confusa (CAC, vol.2, p. 270) A cada canto um grande conselheiro, Que nos quer governar cabana e vinha, Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um bem frequente olheiro, Que a vida do vizinho e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha, Para o levar à Praça e ao Terreiro. Muitos mulatos desavergonhados, Trazidos sob os pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia. Estupendas usuras nos mercados, Todos, os que não furtam, muito pobres, E eis aqui a cidade da Bahia.
Soneto 2: Contemplando nas cousas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com o seu ápage, como quem a nado escapou da tormenta (CAC, vol. 3, p. 155). Neste mundo é mais rico, o que mais rapa: Quem mais limpo se faz, tem mais carepa: Com sua língua ao nobre o vil decepa: O Velhaco maior sempre tem capa. Mostra o patife da nobreza o mapa: Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa; Quem menos falar pode, mais increpa: Quem dinheiro tiver, pode ser Papa. A flor baixa se inculca por Tulipa; Bengala hoje na mão, ontem garlopa: Mais isento se mostra, o que mais chupa. Para a tropa do trapo vazo a tripa, E mais não digo, porque a Musa topa Em apa, epa, ipa, opa, upa.
Considera-se que Gregório de Matos, com a sua poesia satírica, tenha dado um novo rumo ao Barroco no Brasil, o chamado “Barroco tropical” no dizer de Segismundo Spina:

“No Brasil apenas incorporou ao seu acervo lexicográfico a contribuição tupi e africana, vivificada pelo caudal gírio e chulo do tempo e por uma linguagem figurada que aqui e ali fazia despontar o barroco tropical.” (op. cit., p.31)
Diferentemente da poesia lírica, que mostra uma visão europeia, a poesia satírica desvela o Brasil não apenas no conteúdo, mas também na dicção. Gregório de Matos foi o primeiro
*Lembramos que antes de Gregório de Matos, o padre José de Anchieta havia utilizado o tupi nas suas obras, mas de modo didático, com intenção doutrinária e não literária, contribuindo, assim, sem que fosse a sua intenção, para a preservação do maior acervo do tupi clássico no Brasil.
a incorporar literariamente um vocabulário tupi abundante nos seus poemas*. A então chamada língua brasílica prestava-se muito bem para a sátira, devido ao estranhamento sonoro e semântico, ideal para que se dissessem “disparates em língua brasílica”, a que se junta, eventualmente, todo um léxico africano. A intenção inicial era, sem dúvida, que esse estranhamento ajudasse na ridicularização dos fatos ou dos personagens envolvidos, sendo a língua,
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então, apropriada a dizer coisas estapafúrdias. A incorporação desse vocabulário, no entanto, foi fundamental para a posterior preservação da língua e sua recuperação no Romantismo por motivos completamente contrários: o nacionalismo. Há uma série de poemas cujo tema é a crítica aos pretensos fidalgos da Bahia, pretensos porque, segundo o poeta seriam descendentes do “sangue de Tatu”, isto é, de sangue índio, filhos de um “branco marau” (esperto) e de “uma índia de Maré” (da ilha de Maré). Destacamos três poemas, em que o léxico tupi está presente. Dois sobre os “fidalgos” e um outro sobre as aventuras de rapazes em busca de prostitutas.

Soneto 1: Aos Principais da Bahia chamados Os Caramurus (CAC, vol. 1, p. 376) Há cousa, como ver um Paiaiá Mui prezado de ser Caramuru, Descendente de sangue de Tatu, Cujo torpe idioma é cobé pá. A linha feminina é carimá Moqueca, pititinga caruru Mingau de puba, e vinho de caju Pisado num pilão de Piraguá. A masculina é um Aricobé Cuja filha Cobé um branco Paí Dormiu no promontório de Passé. O Branco era um marau, que veio aqui, Ela era uma índia de Maré Cobé pá, Aricobé, Cobé, Paí.
Soneto 2: Ao mesmo Assunto (CAC, vol. 1, p. 377) Um calção de pindoba a meia porra Camisa de Urucu, mantéu de Arara, Em lugar de cotó arco, e taquara, Penacho de Guarás em vez de gorra. Furado o beiço, e sem temor que morra, O pai, que lho envazou c’uma titara, Senão a Mãe, que a pedra lhe aplicara, A reprimir-lhe o sangue, que não corra. Animal sem razão, bruto sem fé, Sem mais Leis, que as do gosto, quando erra, De Paiaiá virou-se em Abaeté. Não sei, onde acabou, ou em que guerra, Só sei, que deste Adão de Massapé, Procedem os Fidalgos desta terra.
Décima heptassilábica: Disparates na Língua Brasílica a uma Cunhã, que ali galanteava por vício (CAC, vol. 3, p. 240) 1 Indo à caça de tatus encontrei Quatimondé na cova de um jacaré tragando treze Teiús: eis que dous Surucucus como dous Jaratacacas vi vir atrás de umas Pacas, e a não ser um Preá creio, que o Tamanduá não escapa às Gebiracas. 2 De massa um tapiti, um cofo de sururus, dous puçás de Baiacus, Samburá de Murici: Com uma raiz de aipi vos envio de Passé, e enfiado n’um imbé Guaimu, e Caiaganga, que são de Jacaracanga Bagre, timbó, inhapupê. 3 Minha rica Cumari, minha bela Camboatá como assim de Pirajá me desprezas tapiti: não vedes, que murici sou desses olhos timbó amante mais que um cipó desprezado Inhapupê, pois se eu fora Zabelê Vos mandara um Miraró.
Uma espécie de síntese da poesia satírica de Gregório de Matos é o poema “Aos Vícios” (CAC, vol. 3, p. 29), que, ao lado de “Reprovações” e “Marinícolas”, forma a trilogia mais conhecida de seus poemas. Longo poema de vinte tercetos, em “Aos Vícios” Gregório de Matos utiliza a terza-rima decassilábica, recuperando a forma notabilizada por Dante Alighieri na Commedia. O poema é satírico no assunto, mas com uma estrutura que lembra o poema épico. Nas duas primeiras estrofes está a Proposição do poema, cujo argumento é cantar “torpezas do Brasil, vícios e enganos” (verso 3). A estrofe três representa a Invocação, em que aparece a musa Talia, a musa da comédia e da poesia ligeira, para inspirar o eu-satírico,
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em lugar de Calíope, a musa da poesia épica. É aqui que o poema se define como satírico. A inspiração vem reforçada com a alusão a Apolo, deus, entre outras coisas, da poesia e da música. A Narração inicia na estrofe sete, com o intuito de retratar os vícios da Bahia e, por extensão, do Brasil. O maior de todos os vícios é calar-se diante do estado lamentável da Bahia, estado de desconcerto (estrofes 8 e 9), cujos roubos e hipocrisia devem ser condenados. A ignorância e a indiferença só contribuem para o descalabro da sociedade. Por outro lado, quem se propõe criticar o desacerto da sociedade é malvisto e tido como “um satírico, é um louco,/ de língua má, de coração danado” (versos 35-36). Nessa sociedade em que a subversão dos valores é a tônica, a única coisa que distingue as pessoas é o vício e a virtude. Partindo da premissa de que “todos somos ruins, todos perversos” (verso 55), o eu-satírico não vislumbra, no entanto, nenhum virtuoso, pois o normal é que sejam “uns comensais” do vício e “outros adversos” da virtude (versos 56-57). O Epílogo do poema está na estrofe vinte, em que o eu-satírico, qual um Diógenes de lanterna em punho à luz do dia, à procura de um verdadeiro homem; qual um Cristo, que manda atirar a pedra aquele que não tem pecado, sabe que é impossível alguém censurá-lo pelas críticas feitas.

É, pois, com esta atualidade gritante que trazemos de volta este grande poeta, Gregório de Matos e Guerra, o Boca de Brasa, o Boca do Inferno, que se definia como descendente dos “Matos incultos da Bahia” (CAC, vol. 1, p. 219), o primeiro a pôr o Brasil no mapa da literatura de língua portuguesa. E mais do que o Brasil, a brasilidade, tornando-se, genuinamente, o primeiro brasileiro.

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