O poeta Gregório de Matos desenvolve os seus pendores poéticos na sua permanência de 8 anos, em Coimbra, com leituras de Camões, Sá de Miranda, Cervantes, Quevedo e Gôngora. É no, Brasil, no entanto, que ele dá livre curso à sua “lira maldizente” (“Aos Vícios”, CAC, vol. 3, p. 29), quando se vê livre para a criação poética, quebrando as peias e cabrestos dos cargos eclesiásticos que aqui ocupava, como diz Segismundo Spina (A poesia de Gregório de Matos, São Paulo, EDUSP, 1995, p. 31):
Segismundo Spina (1921–2012), filólogo, ensaísta e professor paulista (nascido em Itajobi), referência nos estudos de literatura medieval e de literatura barroca.
O caldeirão efervescente em que Gregório de Matos vive na Bahia lhe fornece, portanto, a matéria de que ele necessita para produzir a melhor poesia do século XVII no Brasil e, ao lado de Tomás Antônio Gonzaga (século XVIII),
A sua poesia satírica o faz brasileiro pela linguagem e pelo assunto, em poemas por vezes circunstanciais, porém sarcásticos, irônicos, entremeados da linguagem chula, cheia de escárnio, Gregório de Matos revela o desmando administrativo, a incompetência, a corrupção, a passividade do povo, os desvios da Igreja, o relaxamento dos padres, o despotismo dos políticos e juízes, o mundo caótico, em flagrante desconcerto. Nada escapa a sua verve ou a seu olho perscrutador.
Arte: Jacob Willekes, S.XVII.
Salvador, no século XVII. ▪ Gravura de Jacob Willekes ▪ Rijksmuseum, Amsterdã.
Que falta nesta cidade? Verdade.
Que mais por sua desonra? Honra.
Falta mais que se lhe ponha? Vergonha.
O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
n’uma cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha
Os quartetos, por sua vez, assumem a condição de uma crítica irônica, revelando as mazelas da Bahia, provenientes de seus governantes corruptos, incluídas aí a polícia que rouba e a justiça injusta, sem descartar uma população ignorante e explorada pela ambição, a usura e os negócios escusos. Nem a Igreja escapa, pois seus membros (sem trocadilho!), de que o “Reverendo Frei Fodaz” (CAC, vol. 2, p. 109) é um representante, estão entregues ao relaxamento moral, embora hipocritamente condenem os vícios, através dos sermões. Nessa situação,
Arte: Jacob Willekes, S.XVII.
O desgoverno da Bahia retrata o desgoverno do Brasil do século XVII, em que para governar não é preciso saber, basta querer e poder; bem como retrata a subversão dos valores do mundo, em que o honesto é sempre preterido em favor do desonesto. Com um poder de síntese adequado à forma poética escolhida, seus sonetos vão revelando a razão da ruína da Bahia: incompetência administrativa, corrupção, povo inepto, falta de consciência política, roubalheira dos comerciantes, revelando uma sociedade que premia os desonestos e corruptos, que se fazem passar por pessoas decentes. Atente-se para a metáfora sonora da aliteração em “Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:” ou associada à imagem da ave de rapina “Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;”, o que dá um ritmo especial ao poema, de ludicidade, de brincadeira com as palavras e com os sons, cujo ápice é um primor de verso em que se recolhem todas as rimas utilizadas até então, “apa, epa, ipa, ipa, opa, upa.”, de modo a formar um verso, cujo ritmo é o do galope de um cavalo. Vejamos os dois sonetos:
Soneto 1: Descreve o que era realmente naquele tempo a Cidade da Bahia de mais enredada por menos confusa (CAC, vol.2, p. 270)
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à Praça e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia.
Soneto 2: Contemplando nas cousas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com o seu ápage, como quem a nado escapou da tormenta (CAC, vol. 3, p. 155).
Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.
Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
Considera-se que Gregório de Matos, com a sua poesia satírica, tenha dado um novo rumo ao Barroco no Brasil, o chamado “Barroco tropical” no dizer de Segismundo Spina:
“No Brasil apenas incorporou ao seu acervo lexicográfico a contribuição tupi e africana, vivificada pelo caudal gírio e chulo do tempo e por uma linguagem figurada que aqui e ali fazia despontar o barroco tropical.” (op. cit., p.31)
Diferentemente da poesia lírica, que mostra uma visão europeia, a poesia satírica desvela o Brasil não apenas no conteúdo, mas também na dicção. Gregório de Matos foi o primeiro
*Lembramos que antes de Gregório de Matos, o padre José de Anchieta havia utilizado o tupi nas suas obras, mas de modo didático, com intenção doutrinária e não literária, contribuindo, assim, sem que fosse a sua intenção, para a preservação do maior acervo do tupi clássico no Brasil.
a incorporar literariamente um vocabulário tupi abundante nos seus poemas*. A então chamada língua brasílica prestava-se muito bem para a sátira, devido ao estranhamento sonoro e semântico, ideal para que se dissessem “disparates em língua brasílica”, a que se junta, eventualmente, todo um léxico africano. A intenção inicial era, sem dúvida, que esse estranhamento ajudasse na ridicularização dos fatos ou dos personagens envolvidos, sendo a língua,
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Soneto 1: Aos Principais da Bahia chamados Os Caramurus (CAC, vol. 1, p. 376)
Há cousa, como ver um Paiaiá
Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente de sangue de Tatu,
Cujo torpe idioma é cobé pá.
A linha feminina é carimá
Moqueca, pititinga caruru
Mingau de puba, e vinho de caju
Pisado num pilão de Piraguá.
A masculina é um Aricobé
Cuja filha Cobé um branco Paí
Dormiu no promontório de Passé.
O Branco era um marau, que veio aqui,
Ela era uma índia de Maré
Cobé pá, Aricobé, Cobé, Paí.
Soneto 2: Ao mesmo Assunto (CAC, vol. 1, p. 377)
Um calção de pindoba a meia porra
Camisa de Urucu, mantéu de Arara,
Em lugar de cotó arco, e taquara,
Penacho de Guarás em vez de gorra.
Furado o beiço, e sem temor que morra,
O pai, que lho envazou c’uma titara,
Senão a Mãe, que a pedra lhe aplicara,
A reprimir-lhe o sangue, que não corra.
Animal sem razão, bruto sem fé,
Sem mais Leis, que as do gosto, quando erra,
De Paiaiá virou-se em Abaeté.
Não sei, onde acabou, ou em que guerra,
Só sei, que deste Adão de Massapé,
Procedem os Fidalgos desta terra.
Décima heptassilábica: Disparates na Língua Brasílica a uma Cunhã, que ali galanteava por vício (CAC, vol. 3, p. 240)
1
Indo à caça de tatus
encontrei Quatimondé
na cova de um jacaré
tragando treze Teiús:
eis que dous Surucucus
como dous Jaratacacas
vi vir atrás de umas Pacas,
e a não ser um Preá
creio, que o Tamanduá
não escapa às Gebiracas.
2
De massa um tapiti,
um cofo de sururus,
dous puçás de Baiacus,
Samburá de Murici:
Com uma raiz de aipi
vos envio de Passé,
e enfiado n’um imbé
Guaimu, e Caiaganga,
que são de Jacaracanga
Bagre, timbó, inhapupê.
3
Minha rica Cumari,
minha bela Camboatá
como assim de Pirajá
me desprezas tapiti:
não vedes, que murici
sou desses olhos timbó
amante mais que um cipó
desprezado Inhapupê,
pois se eu fora Zabelê
Vos mandara um Miraró.
Uma espécie de síntese da poesia satírica de Gregório de Matos é o poema “Aos Vícios” (CAC, vol. 3, p. 29), que, ao lado de “Reprovações” e “Marinícolas”, forma a trilogia mais conhecida de seus poemas. Longo poema de vinte tercetos, em “Aos Vícios” Gregório de Matos utiliza a terza-rima decassilábica, recuperando a forma notabilizada por Dante Alighieri na Commedia. O poema é satírico no assunto, mas com uma estrutura que lembra o poema épico. Nas duas primeiras estrofes está a Proposição do poema, cujo argumento é cantar “torpezas do Brasil, vícios e enganos” (verso 3). A estrofe três representa a Invocação, em que aparece a musa Talia, a musa da comédia e da poesia ligeira, para inspirar o eu-satírico,
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É, pois, com esta atualidade gritante que trazemos de volta este grande poeta, Gregório de Matos e Guerra, o Boca de Brasa, o Boca do Inferno, que se definia como descendente dos “Matos incultos da Bahia” (CAC, vol. 1, p. 219), o primeiro a pôr o Brasil no mapa da literatura de língua portuguesa. E mais do que o Brasil, a brasilidade, tornando-se, genuinamente, o primeiro brasileiro.













