Ao poeta Antônio Aurélio Cassiano, pelo diálogo sobre Gregório de Matos.
Ao crítico João Adolfo Hansen (in memoriam), pela grande contribuição dada à obra do nosso primeiro poeta brasileiro.
Um dos poemas mais conhecidos de Gregório de Matos é a “Décima do Pica-Flor”, tido por muitos como circunstancial, mas que, na realidade, é um poema satírico que se explica pela sua própria construção, não necessitando de se revelar a circunstância em que ele foi produzido, apesar do que se diz na didascália. De acordo com a sua estrutura, percebemos que o eu-satírico,
Gregório de Matos (1636—1696), advogado e poeta baiano, nascido em Salvador. ▪ Arte: F. Briguiet, S.XIX
masculino, aproveita o apelido que lhe foi atribuído pelo destinatário, um vós, feminino, para fazer-lhe uma proposta sexual, através do trocadilho com o nome Pica-flor, num claro exemplo de cultismo. É com esse jogo de palavras e de sentido que Gregório de Matos revela a sua maestria como poeta, brincando com o termo Pica-flor, ao qual atribui três significados diferentes, referindo-se ao passarinho, o beija-flor; aos órgãos sexuais masculino e feminino, e ao amante. O mais impressionante é a capacidade lúdica do poeta e a facilidade com que ele desmembra a palavra para, recompondo-a, mudar o seu sentido duas vezes (Todos os poemas aqui citados por nós encontram-se de acordo com o Códice Asensio-Cunha, daqui por diante referido como CAC. O poema transcrito abaixo encontra-se no Volume 2, p. 193.):
À outra Freira da mesma casa, que satirizando a delgada fisionomia do Poeta lhe chamou Pica-flor.
Se Pica-flor me chamais,
Pica-flor aceito ser,
mas resta agora saber,
se no nome, que me dais,
meteis a flor, que guardais
no passarinho melhor!
se me dais este favor,
sendo só de mim o Pica,
e o mais vosso, claro fica,
que fico então Pica-flor.
Iniciamos o nosso ensaio com essa Décima e com os comentários pertinentes, tendo em vista que nem tudo com relação à vida do poeta pode ser explicado, necessariamente, pela sua poesia ou vice-versa. É inegável, por exemplo, que a obra de Pedro Calmon
(A vida espantosa de Gregório de Matos, Coleção Documentos Brasileiros, Rio de Janeiro, José Olympio, em convênio com o Instituto Nacional do Livro e a Fundação Nacional Pró-Memória, 1983) veio preencher, à época, uma lacuna sobre o poeta baiano, pelo respaldado em farta documentação, revisitando a primeira biografia do poeta, escrita pelo licenciado Manuel Pereira Rabelo, no século XVIII.
Embora Pedro Calmon ceda, aqui e acolá, à tentação de explicar fatos biográficos, a partir da poesia do biografado, podemos afirmar que algumas dúvidas são dirimidas, como, por exemplo, a data de nascimento do poeta, fixada em 1636, e todo o seu percurso de Portugal ao Brasil, passando por Angola, de onde retorna para morrer no Brasil, mais precisamente em Recife, em 1696.
A partir da biografia escrita por Pedro Calmon, podemos dizer que Gregório de Matos e Guerra nasceu na Bahia, em 20 de dezembro de 1636, num sobrado no Largo de São Francisco, em Salvador, filho de pais portugueses. Estudou no Colégio dos Jesuítas, ingressando, posteriormente, na Universidade de Coimbra, em 1652, no Curso de Direito, onde se bacharelou in utroque iure,
Universidade de Coimbra ▪ Arte: H. Catenacci, S.XIX
em ambos os direitos, o civil e o canônico, sendo aprovado nemine discrepante, sem a discordância de ninguém (p. 27). Despachado, em 1662, para Alcácer do Sal, com o cargo de Juiz de Fora, foi, em seguida, procurador da Câmara da Bahia, de 1672 a 1674; enviuvou em 1678, sendo nesse mesmo ano nomeado Desembargador da Relação, ato confirmado no ano seguinte pela assinatura do príncipe regente (p. 50-51), futuro D. Pedro II, que o fez também tesoureiro-mor da Sé da Bahia, em 1682, como “clérigo tonsurado” de vida e costumes suficientes para o cargo (p. 63). Por causa de sua “irreverência” e “chocarrice” (p. 68), foi o poeta destituído de ambos os cargos, em 1683.
Acusado pelo Braço de Prata1, alcunha do governador (1682-1684) Antônio de Souza de Menezes, de “fundidor de mentiras”, por causa de suas sátiras contra ele,
1 Segundo Pedro Calmon, Antônio de Souza de Menezes perdeu um braço, lutando contra os holandeses, na Paraíba, por volta de 1640 (p. 64). A alcunha era proveniente da prótese que colocaram no lugar do membro perdido.
Gregório vê-se envolvido, ainda que de modo enviesado, no assassinato do Alcaide Francisco Telles de Menezes. Sem a imunidade que os cargos antes ocupados lhe outorgavam, o poeta é preso (p. 73). Liberto da prisão e livre das obrigações eclesiásticas, o poeta passa a exercer a advocacia, a viver dos rendimentos e a difundir a sua verve pela cidade da Bahia, ao lado de Tomaz Pinto Brandão, a quem se une “ao som da viola, para divertir e espicaçar a Cidade” (p. 75).
Concepção em perspectiva aérea de Salvador no século XVII. ▪ De Nieuwe en Onbekende Weereld / Arnoldus Montanus. ▪ Fonte: Biblioteca do Congresso, EUA
Viúvo, sem ter conseguido os amores de D. Ângela, aquela que era “Anjo no nome e Angélica na cara”, o poeta casa-se pela segunda vez, em 1691 (p. 113), com D. Maria de Povos, a “Discreta, e formosíssima Maria”, ambas louvadas em famosos sonetos. Dessa união nasce um filho chamado Gonçalo. Nem o casamento, nem o filho no Brasil são capazes de mudar o perfil do poeta. Diz Pedro Calmon que “não o domara em Lisboa a primeira mulher, não o corrigiu na Bahia a segunda” (p. 127), encantando-se com as freirinhas e as mulatas, a ponto de abandonar o lar (p. 131). Vejamos os sonetos:
Soneto 1:Rompe o Poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e tremendo perder por ousado (CAC, vol. 4, p. 25).
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria2 uma flor, que a não cortara
Do verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meus custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Discordamos da fixação do termo “veria”, em ligar de “vira”, por dois motivos, apesar de respeitar a lição do Códice Asensio-Cunha. O uso do futuro do pretérito, em lugar do pretérito mais-que-perfeito, viola o sistema camoniano de mais-que-perfeito com mais-que-perfeito, utilizado por Gregório de Matos, ao longo poema. Por outro lado, “veria” força a métrica, deixando o verso com 11 sílabas. Já “vira” cai como uma luva no decassílabo, além de reforçar o uso camoniano.
Soneto 2:Lisonjeia outra vez impaciente a retenção da sua mesma desgraça, aconselhando a esposa neste regalado soneto (CAC, vol. 4, p. 72).
Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol e o dia:
Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:
Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a for sua pisada.
Ó não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
Torna-se inimigo do novo governador, Antônio Luiz da Câmara Coutinho, a quem chama de mameluco. Numa época em que as investigações de sangue eram rigorosas, recuando até os quatro costados, no caso, aos avós maternos e paternos, “o boato injuriava-lhe o brio nobiliárquico” (p. 155). A consequência é nova ordem de prisão, que não chega a ser cumprida.
Luanda, em mapa do século XVII, elaborado por Johannes Vingboons. ▪ Fonte: Arquivo Nacional dos Países Baixos
Depois que Antônio Luiz da Câmara Coutinho deixa o governo, o poeta vê-se ameaçado de morte pelo seu filho, sendo deportado para Angola, em 1694, pelo governador D. João de Lencastre, que, mais do que deportá-lo, tem o intuito de protegê-lo. Em Luanda, envolve-se em uma sublevação de militares, contribuindo “para que a legalidade se restabelecesse” (p. 189). D. João de Lencastre convence-se, por fim, de que o poeta deveria retornar, “contanto que não fosse para a Bahia” (p. 191), despachando-o, em 1695, para Pernambuco, onde o governador Caetano de Melo e Castro proíbe-o de satirizar “a gente grada” (p. 194). O poeta, no entanto, não se cala, como se pode ver na sátira ao juiz de Igaraçu, “que não gostou o tratasse por vós”. Como o Códice Asensio-Cunha não traz todos os poemas atribuídos a Gregório de Matos, transcrevemos o texto, de acordo com Pedro Calmon (p. 200):
Se tratam Deus por tu,
e chamam a el-rei de vós,
como chamaremos nós,
ao juiz de Igarassu?
Tu e vós, e vós e tu.
Morre o poeta, em Recife, em março de 1696. Sua poesia permaneceu, graças à admiração que D. João de Lencastre tinha por ele:
“Recolheu-se em grossos códices, como determinou o benfazejo governador D. João de Lencastre, afrontando com a decisão inteligente o rancor que a gente grada votava, na cidade, ao satírico desalmado. Pôs-se por sua ordem um livro à entrada do palácio, para que nele deixassem todos o que tinham, ou o que recordavam, de Gregório de Matos Guerra” (p. 208).
João Adolfo Hansen transcreve na edição do Códice Asensio-Cunha (Para que todos entendais: poesia atribuída a Gregório de Matos e Guerra: letrados, manuscritura, retórica, autoria,
obra e público na Bahia dos séculos XVII e XVIII, volume 5/João Adolfo Hansen, Marcello Moreira, Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2003) o texto que se encontra na Vida do excelente poeta lírico, o Doutor Gregório de Matos e Guerra, do licenciado Pereira Rabelo, reproduzido no trabalho de Marcello Moreira sobre o poeta:
“Governava entã Dõ Ioã d’Alencastre, secreto estimador das valentias desta Musa, que a toda a deligencia lhe enthesourava as obras desparcidas, fazendo-as copiar por elegantes letras” (p. 140).
Seus poemas correram a Bahia, de boca em boca e de mão em mão, mas a rígida censura da época jamais permitiria a sua publicação. O poeta tampouco se preocupou com a recolha de seus escritos, que começam a ser publicados, em parte, no Tomo I daquela que é considerada uma das primeiras antologias da Literatura Brasileira,
editada em 1850 por Francisco Adolfo de Varnhagen (F. A. Varnhagen, Florilégio da Poesia Brasileira, Coleção Afrânio Peixoto, da Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 1987, 3 volumes). Depois, surge um estudo de Araripe Junior, de 1894, Gregório de Matos (disponho da 2ª edição, de 1910), em que aparecem alguns poemas comentados. A sua poesia seria publicada na íntegra, apenas em 1968, numa edição de James Amado, reeditada depois pela Record, em 1990, em dois volumes, cujo manuscrito de base foi o Códice Asensio-Cunha3. Em seguida, Segismundo Spina publica A poesia de Gregório de Matos
Encontra-se depositado na Biblioteca Celso Cunha, do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 4 volumes, sendo que os três primeiros ainda se encontram nos fundos que compõem a coleção de Celso Cunha (p. 162).
(São Paulo, EDUSP, 1995), em que se registra um estudo e uma antologia do poeta. Ressalte-se que a obra de Spina retrocede em questões da biografia do poeta, a despeito de já existirem as obras de Pedro Calmon e de Fernando da Rocha Peres.
Em 2013, vem a lume a edição completa do Códice Asensio-Cunha, em 5 volumes – quatro de texto e um de explicação dos critérios filológicos de estabelecimento do texto – realizada por João Adolfo Hansen e Marcello Moreira (Editora Autêntica). Obra de profunda erudição, que discute a finalidade da lição filológica, dos critérios que devem ser adotados, revela a condição de obra publicada nos códices, bem como os juízos que nortearam a disposição dos poemas nesses códices, além do papel das didascálias como paratextos norteadores de certa leitura do poema, incluindo aí as relações intertextuais. Indicação que pode ser diversa, tendo em vista que os paratextos foram feitos a posteriori, pelos leitores dos poemas, podendo variar em um mesmo poema.
A publicação do Códice Asensio-Cunha nos coloca diante de um trabalho que atende a vários interesses, sendo, sobretudo, obrigatória para o estudioso não só de Gregório de Matos e Guerra, mas também da poesia espanhola dos séculos XVI e XVII.
GD'Art
Da publicação da obra de Pedro Calmon para cá, os estudos sobre Gregório de Matos se renovaram, contando com a publicação do livro de Fernando da Rocha Peres (Gregório de Mattos e Guerra: uma revisão biográfica, Salvador, Edições Macunaíma, 1983), o de João Carlos Teixeira Gomes (Gregório de Matos, o Boca de Brasa: um estudo de plágio e criação intertextual, Petrópolis, Vozes, 1985), o de João Adolfo Hansen (A sátira e o engenho, São Paulo, Companhia das Letras, 1989), entre outros. A edição do Códice Asensio-Cunha vem para abrir nova perspectiva àqueles que buscavam vincular a obra do poeta à sua biografia, como de certa forma faz Pedro Calmon. De modo acertado, João Adolfo Hansen e Marcello Moreira são concordes em estabelecer a devida separação entre a poesia e a vida do poeta. Se por um lado, Hansen e Moreira, citando Albert Bates Lord, ratificam que os poemas são ficção, os elementos da história neles presentes dão autoridade a confiança, a fides, da poesia, restando a lição de que não é a história que cria o poema, mas o processo de criação, a poíesis, que toma da história o que lhe é necessário para compor a verossimilhança de que a ficção necessita (Códice Asensio-Cunha, p. 132-133). Por outro lado, nunca é demais reiterar, pela voz dos mesmos autores, o que é mais do que óbvio, no meio dos estudos literários: “O homem empírico supostamente autor do poema não tem nenhum interesse poético” (op. cit., p. 423). Embora, sem dúvida, o homem Gregório de Matos seja muito interessante.