Quem já se deu ao trabalho de alguma pesquisa sobre o tema não desconhece o fato de que há divergências significativas entre teólogos e historiadores acerca das datas de nascimento e morte de Cristo. Sem registro bíblico único e específico de ambos os acontecimentos, ampliaram-se os debates de ordem cronológica. Ao que leio, a maioria dos estudiosos concorda em que ele tenha vindo ao mundo entre 6 a.C e 4 a.C., intervalo de tempo medido no calendário que hoje utilizamos, após o cotejamento de registros históricos mais precisos. É o caso do reinado de Herodes, o Grande.
O relato por Lucas de pastores no campo à noite, sob céu estrelado, sugere um Natal primaveril, ou outonal, mas não em dezembro com o inverno rigoroso da Judeia. Tem mais: enquanto Mateus situa o nascimento do menino Jesus nos anos de Herodes (que morreu em 4.a.C), Lucas indicaria para isso data relacionada ao recenseamento de Quirino, em 6 d.C.
Mas não culpemos ninguém por tais conflitos. Nem o monge Dionísio, o Exíguo, o criador do calendário encomendado pelo Papa João I, no Século VI. Ele fez a entrega da encomenda com erros de cálculo, como asseguram peritos na matéria. Esqueçamos, contudo, culpas e culpados, até porque mais importantes do que as datas, muito mais importantes, sempre serão os símbolos e os atos de fé.
Pessoalmente, entendo que Jesus morre todo dia em razão das bombas que destroem cidades inteiras e da fome que, impiedosamente, aniquila seres humanos aos milhares num mundo onde a ciência e a tecnologia seriam capazes de prover as necessidades materiais de todas as criaturas feitas à semelhança do Criador. E, também, que ele renasce a cada gesto de afeto e amparo a qualquer pobre de Jó, a qualquer integrante da enorme legião de desvalidos em pontos diversos do Planeta, fale a língua que falar, tenha a crença que tiver.
O Jesus que me encanta ainda caminha com os miseráveis. Ainda busca a companhia da ralé, assim entendida, em todos os tempos, a grande massa dos oprimidos, dos sem acesso à nutrição, à moradia, aos estudos, à saúde. Adoro o Jesus dos pescadores, dos leprosos, das Madalenas. Atrai-me, com seu chicote, o homem santo impaciente com os mercadores do Templo. Não menos, o criador de parábolas, uma delas atinente à porta do Paraíso estreitíssima para os espoliadores, os avarentos, os que enriquecem à custa da desgraça alheia. Um camelo passaria, de modo mais fácil, pelo fundo de uma agulha, sentenciou ele.
Já falei, por aqui, da humanidade de Cristo, de como ele transformou água em vinho, do quanto se serviu da mesa e da cama ofertadas – a si e aos seus – pelos que lhes dispuseram um canto onde pudessem reclinar a cabeça. Volto a lembrar da sua entrada triunfal em Jerusalém, episódio narrado nos quatro evangelhos canônicos. Ele, Jesus, montado em um jumento, não nos cavalos dos imperadores e generais, para o acolhimento da multidão que lhe estendia mantos e agitava ramos.
Cinco dias depois, por um brevíssimo momento, ele fraquejaria: “Pai, retira de mim esse cálice”. Sabia do suplício físico, das dores terríveis que o aguardavam por desígnios celestiais. Ele, então, sozinho em seus temores, sem o consolo dos que o rodeavam, posto que dormiam. Mas o santo logo se sobreporia ao homem de carne e osso: “Seja feita a tua vontade”. Do desfile esplendoroso até o momento da crucificação seguiram-se, conforme o relato bíblico, a purificação do Templo, os ensinamentos no Monte das Oliveiras, a conspiração de Judas, a última ceia e a prisão. Será que naquela multidão favorável a Barrabás havia integrantes do Domingo de Ramos? Se assim ocorreu, o que lhes fez mudar de opinião em tão pouco tempo?
É preciso lembrar que o mais santo dos homens teve o castigo que o Império Romano impunha, há séculos, a seus presos políticos. Ou seja, a crucificação ainda era, à época, método comum, extremamente humilhante e doloroso, aplicado aos que se rebelavam contra a escravidão, a opressão, o jugo, a tirania. Nesse pacote entravam os criminosos comuns. Pilatos chegou a oferecer àquele povo, para a libertação, a escolha entre Cristo e Barrabás, este último um ladrão chinfrim, conforme algumas interpretações. Mas, segundo outras, um insurreto, um participante de revolta armada contra o domínio de Roma.
Pilatos não viu pecado em Cristo, mas lavou as mãos. Faltou-lhe a coragem para impedir a morte brutal daquele corajoso, justo e honrado cidadão de Nazaré a quem o deboche coletivo destinava uma coroa de espinhos e tratava por “Rei dos Judeus”. O sujeito que sou, não muito instruído em questões bíblicas, leu que Pilatos não queria tumultos no momento em que Jerusalém, em decorrência da Páscoa, recebia milhares de peregrinos e, portanto, era um barril de pólvora. Dessa maneira, a condenação de Jesus tornava-se um ato de conveniência política.
A prisão, seguida do julgamento, ocorrera na madrugada da quinta-feira. A crucificação deu-se no local chamado Gólgota, ou Calvário, nos arredores da cidade, às 9 horas do que hoje temos por Sexta-Feira Santa. Outros relatos situam que em horário próximo do meio-dia ele já estava suspenso. E que faleceu às 15 horas.
Antes do seu último suspiro, ouviu a provocação de Gestas, o mau ladrão:
“Não és tu o Cristo? Salva a ti mesmo e a nós”. Por seu turno, Dimas, o ladrão bom, como assim passou a ser conhecido no cristianismo, demonstrou arrependimento e fé: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino”.
Judas, a julgar pela narrativa de Mateus, não presenciou aquela morte. Corroído pelo remorso, suicidou-se durante o julgamento daquele que traiu por 30 moedas de prata. O dinheiro que devolveu antes de se enforcar seria usado por sacerdotes para a compra do Campo do Oleiro, um cemitério para estrangeiros, gente sem eira nem beira, pessoas que não tinham onde se enterrar. Ouvi isso, quando menino, nas aulas de Catecismo da Professora Dapaz com os olhos tão marejados quanto os dela.






