A história de Iraja e Zale não é tão diferente das que já escutei de tantos outros casais, porém ela possui uma peculiaridade ímpar...

Findar para existir

A história de Iraja e Zale não é tão diferente das que já escutei de tantos outros casais, porém ela possui uma peculiaridade ímpar: o desassombro perante a necessidade de um findar para existir.

Outros não conseguem ter a mesma atitude.

Pais deixam de acompanhar o evoluir daquele que possui sua semente pela simples ou difícil condição de ter uma vida paralela que foi construída anteriormente. Mães aceitam o fato de não serem, de fato, por conhecerem o passado, o presente e a impossibilidade de um futuro em comum.

Os dois, sem ao menos pensar nos sentimentos do rebento, seguem em suas paralelas.

A criança fica esperando; afinal, a situação entre os genitores não tem nada a ver com o que cada um tem com ela. O egoísmo dos progenitores fere o coração daquele que precisa ser visto, valorizado, amado de forma explícita, pública, com orgulho do seu existir, e não como um acaso.

Quando um homem e uma mulher se entregam ao prazer do gozo, correm o risco de engravidarem. A gravidez não é só da mulher; é do casal, não apenas dos casados.

A decisão de levar a situação a termo pertence aos dois. Selam o momento vivido pelo resto da existência.

A mulher passa a ser exemplo de coragem por sua criação independente. Sente-se e, principalmente, enxerga-se empoderada. Será?

O homem se intui cumpridor das obrigações; afinal, não deixará a necessidade material se fazer presente.

Que digno, né?

E a imprescindibilidade emocional?
E a criança?
Pensaram nela?

Claro!
Vai viver!
Não foi tolhida desse direito tão caro.

Receberá toda a atenção do pai, quando for possível, e todo o amor, carinho e atenção da mãe. Será recompensada pelas faltas emocionais que nascem no coração de quem tem uma “família” moderna, tornando-se a razão do viver materno.

E assim atuarão felizes nos palcos da vida.
Será?

O tempo irá curar todas as feridas, reconstruir todas as destruições causadas pelas esperas. Quando as crianças se tornarem pais, irão compreender. Será?

Um abraço não constrói ponte no abismo do distanciamento.

O casal desta história não procedeu assim. Tiveram a ousadia de agir com o coração ou, podemos dizer, tiveram coragem.

A descoberta de mais um ato falho, de outro erro irreparável daquele com quem ela decidiu construir um lar a fez desmoronar.

A mente e o coração de Iraja estavam povoados de dúvidas, num turbilhão de sensações, incertezas, medos e de um amor incondicional pedindo para ser valorizado, para ser visto de forma indestrutível.

Precisava falar com alguém. Contar para quem fosse realmente autêntica, verdadeira, que fosse capaz de não tomar partido, mesmo parecendo impossível.
Conseguiu.

A conversa do dia anterior com Ojasvi, a quem nutria um enorme bem-querer desde que se conheceram, há três anos, no jantar que Zale preparou para apresentá-la aos familiares, não se cala. Parece um pica-pau construindo morada.

“Como mãe dele, o que mais queria era que você achasse uma forma de perdoá-lo, mas, como me considero, antes de tudo, uma verdadeira amiga que te ama como filha, te digo: se aceitá-lo de volta, eu nunca mais falo contigo. Eu é que não irei te perdoar.”

Olhar para sua pequenina Ika — diminutivo de Advika —, que há uma semana deixou seu ventre para fazer parte do mundo, fortalecia sua decisão.

Agora, frente a frente com ela, sentindo a responsabilidade de ser guardiã de outra mulher, renova valores e formas de encarar a vida, aprendidos com a avó, a mãe e com as palavras de grandes mulheres eternizadas em livros. Diz Clarice Lispector: “Dor é vida exacerbada. O processo dói. Vir-a-ser é uma lenta e lenta dor boa.”

Em suas palestras para jovens, afirma: “Amolecer o coração diante da dureza da vida é para frouxos, dizem. Não creio na incontestabilidade dessa afirmação, uma vez que os imbróglios são parte inerente do viver, independente da capacidade individual de enfrentamento deles. O diferencial entre o vitorioso e o derrotado está no acreditar em si, no perseverar ao encontrar os primeiros espinhos, no seguir pelas estradas esburacadas, no encarar de frente, no partir para o ataque ao medo de errar. Errar, cair, perder é como o sal das águas do mar. Faz parte.”

Como poderia agir diferente em sua vida? É o mesmo que parecer e não ser. É enganar não só os outros, mas a si mesma.

Não poderia fugir ao certo, ao óbvio; precisava fazer a dolorosa ruptura daquela relação que até podia parecer saudável, mas há muito era doentia. A nova fase da vida deles estava começando, mas precisava terminar para poder sobreviver, para não chegar ao fim, para ser digna, para ser encarada sem a vergonha da covardia. Findar para existir. Era isso que precisava acontecer.

Um dia, aborrecida com a mãe, encarou-a, mas desistiu de falar. Foi chamada à atenção: “Fale. Diga o que te aborrece. Não deixe o medo ser o timoneiro. Para ter coragem de enfrentar as outras pessoas, precisa tê-la comigo, que sou tua mãe. Irei te escutar e, se estiveres certa, admitirei meu erro e te pedirei desculpas.”

Estava na cadeira de balanço, amamentando, quando ele chegou. Puxou o banquinho, sentou e ficou admirando aquela cena que a grandiosidade da maternidade promove. Uma obra de arte que jamais produziria. Um momento que não lembrava ter vivido.

Ela iniciou a conversa mais difícil de sua vida com uma pergunta simples: “Quer segurá-la?”

“Sim, sim, é o que mais quero!”

Quão pequenininha, indefesa, frágil, ao mesmo tempo em que invadia seu coração e alma com a força de um tsunami, apagando qualquer dúvida, medo e incerteza que um dia teve sobre o fato de não ser o momento certo para uma gravidez. Tantos planos, projetos e sonhos tiveram que ser adiados. Tantos outros obstáculos precisavam ser vencidos. Enfim, ali estava Ika, apagando quaisquer empecilhos a momentos felizes.

O delicado choro lhe aflige; é a deixa para devolvê-la aos braços que aconchegam, embalam, calam, ao seio que alimenta.

Ela, com a mesma serenidade com que colocou o bico do peito na boca da filha, falou que queria o divórcio.

Quero o divórcio.
Como?
Quero o divórcio.
Mas… agora… assim?
Sim. Não quero que nossa filha sinta por nós o mesmo que sinto por meus pais.
E o que sente?

Apenas pena e gratidão, sem a admiração, sem o exemplo necessário para ser seguido.

Pena dela por ter esperado vinte anos para que a fragilidade dele fosse a fortaleza dela, necessária para exigir minha existência, o reconhecimento e a oficialização da relação deles.

Pessoas de fora enxergaram nisso a persistência de um amor indestrutível, construído com renúncias e determinações, que hoje conferem o direito a um conforto material, sem levarem em conta o desconforto persistente causado pela desconfiança, insegurança e medos presentes, incrustados em sua mente e coração.

Pena dele por não ter outra alternativa senão aceitar a situação, cumprir promessas e atender expectativas criadas. Pena por ele só ter tido a oportunidade de viver, através de mim, nos trinta anos finais, o milagre da verdadeira paternidade. Pena de mim por sentir apenas essa mistura de pena e gratidão.

Eu te amo. Sempre irei te amar de alguma forma. Mas seja bem sincero: o que diria se sua filha chegasse para você e revelasse que o marido dela tem um filho da mesma idade da sua neta? Que isso a feriu psicologicamente tão forte quanto um soco no estômago?

O que diria se ela confessasse haver descoberto que, durante os anos em que se dedicou ao homem que considerava companheiro, cúmplice, amigo, ele havia tido outros “acidentes” de percurso? Que, nesse momento, levou um tapa que não deixou marca no rosto físico, mas que ficou tatuado no espírito?

O que diria se ela divulgasse o quanto havia sofrido com o descaso dele, mas que aceitava calada para não perdê-lo?

O que diria se ela afirmasse que já chegou a amar mais aquele homem do que a própria vida? Que esse sentimento matava tanto quanto um tiro à queima-roupa?

Diria para ela deixá-lo.
Diria para se amar.
Diria que ele não merecia as lágrimas dela.
Diria que ela poderia construir a felicidade sem precisar dividir o mesmo teto com ele.
Diria que a vida dela possui um valor incalculável, imensurável e que ela jamais poderia duvidar disso.
Diria que era preciso findar para existir.

Tem razão, é melhor nos separarmos.

Assim, o divórcio foi aceito e, a partir daquele cruento instante de lucidez, iriam conseguir se respeitar, se amar. Haveria confiabilidade no novo em cada um. O bem-querer nasceria para jamais destruir a ligação entre eles.

A filha poderia sentir-se capaz de dizer “não”, pois teria o exemplo e o apoio dos dois.

Poderia amá-los com respeito e admiração.

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