“No mundo civilizado tende-se a pensar que há recursos como o psicólogo para arrumar as coisas. O que este livro diz é que nada se arruma...

Laços & Separações

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“No mundo civilizado tende-se a pensar que há recursos como o psicólogo para arrumar as coisas. O que este livro diz é que nada se arruma. A dor é a dor, e quando não há maneira de contê-la reage-se com raiva.”
Domenico Starnone

O romance Laços, do escritor italiano Domenico Starnone (Assombrações, Segredos), conta a história de um casal e dois filhos. Na verdade, o conflito principal se dá entre o casal. O marido, Aldo, deixa a casa porque se apaixona por outra mulher, mais jovem; experiência essa que faz com que queira ir embora. A esposa, Vanda, em desespero, luta por uma volta, com as armas que lhe são próprias. Faz chantagem, escreve cartas (nove), se utiliza dos filhos pequenos, e mergulha em um ressentimento sem fim, tornando-se amarga, e vingativa.

Esse é a primeira parte do livro, denominada de “Primeiro Livro”. O ponto de vista de Vanda; a sua raiva, o seu despeito, e todos aqueles sentimentos pobres e humanos que nós mulheres, quase todas, um dia experimentamos. O abandono. “Sou sua mulher!”, relembra a Aldo, bem como os votos um dia feitos diante do padre. “Volte pra casa”, lhe implora! E o marido, quando convém, discursa sobre: a família na história, a família no mundo, sua origem, e os papéis em que nos aprisionam ao casar. Engrenagens, máquinas desprovidas de sentidos, repetição.

Todo esse discurso é muito conveniente quando Aldo sai de casa, o que sua mulher resume: “ao destruir nossa vida em comum, na verdade você estava nos liberando, a mim e às crianças, e que deveríamos agradecer por essa sua generosidade”. Os homens sempre encontram formas “modernas” para justificar seus rompantes e quebras de compromissos. Vanda tem consciência de que é “absorvida demais pelas tarefas domésticas, pela gestão do dinheiro, pelas demandas das crianças.
Começa a se olhar no espelho às escondidas e se pergunta: Como eu era, o que eu era? Fiquei presa no meio do caminho...
”, diz Vanda a certa altura. E exige de Aldo: “...é urgente que me diga ponto por ponto por que me deixou; você me deve uma explicação”! Como se a vida se explicasse fácil assim!

O casamento como uma prisão para o casal! É assim que o autor passeia pelo sofrimento de ambos. Se Vanda é ressentida, Aldo, morre aos poucos pela culpa e por uma certa inadequação em viver livremente ao lado de Lidia, sua nova paixão; mulher jovem, com vida própria, bem resolvida. Sob o ponto de vista da esposa, entramos em contato com todos esses sentimentos mesquinhos, vividos por quem é abandonada. A raiva, o rancor, a inveja, levando por vezes a desejos de destruição, até mesmo de suicídio.

Em “O Segundo Livro”, temos o ponto de vista do marido, Aldo. A sua vida em zona de conforto com a mulher e filhos; a estagnação no trabalho; a acomodação de um casamento morno; a relação fria com os filhos e a paixão arrebatadora por Lídia; o sair de casa; o deslumbramento de viver uma paixão; a alegria do novo, do rejuvenescimento; as novas descobertas; nada de discussões sobre filhos; o doméstico; a família, coisas das prisões subjetivas. Mas, essa nova vida não lhe traz a felicidade merecida. Ele está preso à culpa. Parte dessa culpa, pela sua incapacidade de lidar com sua ex-mulher e com os filhos e com a responsabilidade de pai. Normalmente os homens tem essa dificuldade. E para escaparem das artimanhas dessa vida anterior, fogem de vez. O que tão pouco resolve.

Pouco a pouco, Aldo vai sucumbindo à visita arrastada dos filhos, a distância desses filhos, e a distância de Lidia que também vai ficando intransponível, justamente pela sua inabilidade de incorporar os filhos à nova vida. Os fantasmas, os ressentimentos, e principalmente a culpa, vão minando esse frescor, que ele queria ter com Lidia, mas que seus fantasmas são mais aprisionadores do que imagina. E de forma quase imperceptível, quando dá por si, já voltou a ocupar a sua casa anterior, e já programa férias com Vanda. Tudo morno e irreversível, como se uma segunda chance não mais existisse, nem o fizesse por merecer. Para o leitor, a tristeza se instala. Seremos espectadores da paralisação com a qual, por vezes, somos ludibriados.

Em “O Terceiro Livro”, o ponto de vista é dos filhos. A devastação do que é assistir o des-amor e a desagregação dos pais. Os caminhos diferentes que cada um toma dentro e fora do casamento. Quando crianças, esses sentimentos vêm em forma física – fazer xixi na cama, o medo do novo, emoções des-ordenadas, desejos não completados. E quando adultos, muito dessa experiência vai reverberar na forma de cada um ver e viver a vida.
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Impotentes, e de uma certa forma com sentimentos de inadequação também, tomam uma iniciativa possível para fazer balançar a acomodação dos pais, quando esses, já na meia idade, vão de férias para a praia. O gato dos pais, ironicamente se chama, Lebos, que no grego significa destruição. Poderia, sim, Lebos se constituir numa metáfora importante, para esse des-arrumar das relações amorosas.

A introdução do livro, escrito pela escritora indiana/inglesa/americana Jumpha Lahiri (Intérprete dos Males, Terra Descansada), é um presente à parte. Tendo morado em Roma por quatro anos, Lahiri é quem também faz a tradução do livro do italiano para o Inglês. No texto ela magistralmente faz uma crítica importante quanto à nossa necessidade de contenção e libertação, os impulsos contraditórios que vão interagir em Laços. Comenta também sobre a importância dos objetos inanimados, recipientes, que contêm outros, literal e simbolicamente. As coisas armazenadas e as perdidas na vida. E principalmente os rastros que deixamos, conscientes ou não, pelos caminhos vida afora.

Os objetos de Laços são: as cartas, um cubo oco, fotografias, um dicionário, cadarços, um lar. Cada objeto aberto, uma caixa de pandora se instala e sentimentos dos mais diversos são instaurados: raiva, ciúme, frustração, inveja , lista Lahiri. E ela afirma que, o Mito de Pandora é o leitmotiv de Laços, as tradicionais caixas chinesas, uma dentro da outra.

As caixas vão sendo abertas, para que o leitor possa ver as coisas devidamente nos seus lugares e ordem, mas que os impulsos vão ameaçar tal ordem: “...é um romance sobre o que acontece quando as estruturas – sociais, familiares, ideológicas, mentais, físicas, desmoronam... É sobre nossa necessidade, coletiva e primordial, de ter uma ordem, e sobre nosso horror a espaços fechados, que é tão primordial quanto a primeira”.

As caixas chinesas funcionam como um recurso narrativo importante, para descrever uma história contida dentro da outra. Tal recurso presente também no romance As Horas, do escritor americano Michael Cunningham, e que desenvolve histórias de três personagens femininas: Mrs Woolf, Mrs. Brown e Mrs Dalloway, num sem fim de duplicação de personagens, temas, conflitos e desfechos.
Uma estrutura tríplice, mas que, também pode indicar um número infinito de aberturas e fechamentos, como sugere Lahiri, para Laços.

Lahiri também aponta uma outra estrutura narrativa utilizada por Starnone em Laços, a da Caixa do mágico; estrutura essa que nos leva a um dos temas recorrentes – a de sermos enganados, traídos. “O adultério neste romance, implica uma transgressão tanto física quanto moral: pisar fora do lar da família, romper o laço entre marido e mulher. Mesmo que romper esse laço talvez não signifique muito mais do que se mover de um confinamento para outro... a vida é aquilo que trai o recipiente, aquilo que se derrama”. E conclui:

Laços é menos sobre traição, do que sobre a dor que volta à tona: apesar dos esforços diligentes para organizar experiências, emoções, memórias, elas não podem ser empacotas, escondidas, reprimidas, arquivadas. ...pois os sonhos tanto contêm quando libertam a matéria convulsa da nossa psique, nossa alma.”

Como tradutora, Lahiri aponta também para o significado de Italiano, Lacci, que em italiano,significa “cadarços”. Cadarços esses que tem passagem literal (no caso da cena de Aldo com o filho e o jeito esquisito de amarrar os cadarços dos sapatos).


Mas Lacci também é um meio de refrear, de capturar alguma coisa. E nesse meio de frear coisas, ela finaliza: “A mensagem inquietante de Laços não é tanto que a vida é passageira, que estamos sozinhos neste mundo, que ferimos uns aos outros, que envelhecemos e esquecemos, mas sim que nada disso pode ser capturado, nem mesmo por meio da literatura.” E aí já temos os cadarços soltos ou presos, mas como um elemento simbólico importante no desenvolvimento do enredo.

O final de Laços é surpreendente, original, e ao mesmo tempo desconcertante. Por vezes precisamos do choque, do alvoroço, do susto, que cadarço nenhum dá conta, para passar a limpo algo que nublou dentro de nós vida afora. Laços faz esse rebuliço. Interrompe um passeio aparentemente plácido numa praia, para que na volta ninguém se perca. Ou se perca de vez.

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