A foto ilustra a publicação de discurso de Samuel Duarte no número 12 de Paraíba Cultura, revista anual editada para documentar as “Noit...

Escapando de uma foto de província

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A foto ilustra a publicação de discurso de Samuel Duarte no número 12 de Paraíba Cultura, revista anual editada para documentar as “Noites de Cultura”, quando o governo do Estado premia os destaques do setor. O ano foi o de 1997.

A foto é do início dos anos 1940, com Samuel Duarte na Secretaria do Interior e Justiça, àquele tempo o cargo mais importante na hierarquia do Estado, logo depois do governador. O Secretário do Interior respondia pelo governador em suas ausências.

Nela reconhecemos, além do secretário Samuel, o professor Emanuel de Miranda Henriques (que está de roupa escura à direita), que viria se destacar como diretor do Liceu no governo José Américo; e José Simeão Leal, (de gravata borboleta) diretor de divisão da secretaria, a Divisão de Serviço Público, cargo que exerceu até 1944. Concentra-se nele, em Simeão, a razão deste registro.

De terno branco como a maioria dos figurantes, alto, desempenado, a calva já se acentuando, não é a gravatinha borboleta já adotada que sinaliza o Simeão Leal que vamos encontrar noutras fotos, vinte anos depois, posando com Manuel Bandeira, Jorge Amado, Eduardo Portela, Tomaz Santa Rosa, Marques Rebelo e dezenas de outras glórias da literatura e das artes brasileiras.

Na foto com Samuel Duarte tem o ar (ou a pose) de súdito inglês, de quem estava ali apenas para compor a fotografia, de quem se preparara para voos mais altos. Além de Leal, nome inscrito na política e na cultura da Paraíba republicana, que deu Walfredo governador e José Américo candidato à presidência da República e escritor marcante, Simeão fizera decerto o seu preparo. Formado médico, era outro o seu horizonte, outra a sua sensibilidade.

Fui conhecê-lo melhor no Rio, em 1962, levado por uma carta que o reitor Mário Moacyr Porto lhe enviava para que me arranjasse estágio gráfico na antiga Imprensa Nacional. Ele era diretor da Divisão de Documentação e Cultura do antigo MEC e eu diretor recém-nomeado da Imprensa Universitária da UFPB. Como a prioridade do meu setor era a instalação de uma editora e a minha experiência limitava-se às oficinas de A União, o reitor, por sugestão minha, despachou-me para o Rio, valendo-se dos poderes de Simeão para resolver o problema.

Dois anos antes, em minha primeira viagem ao Rio, ao mesmo tempo que o Corcovado, conheci Simeão. Eu fazia parte de um grupo de jornalistas e escritores que o governo de Pedro Gondim premiara com essa viagem, a pretexto da I Feira de Livros do Rio, em Copacabana. Fomos juntos, sob o pálio da União Brasileira de Escritores, secção da Paraíba, Carlos Romero, Otacílio Cartaxo, Waldemar Duarte, Wilton Veloso e mais um ou dois que agora não me ocorrem. Baixamos no gabinete do paraibano mais solicitado por artistas e escritores do Rio e que só alguns privilegiados da Paraíba o conheciam. Estava lendo qualquer coisa com as pernas estiradas sobre o birô e levantou-se rápido, efusivo, para nos receber. Os braços longos, bem abertos e a exclamação brincalhona inspirada na figura cajazeirense do Cartaxo:

- Eita, cangaceirada!

E ficamos logo à vontade. Daí a pouco levou-nos ao Museu de Arte Moderna, ouvindo dele muita coisa que não alcançávamos nos quadros. Eu, pelo menos. Foi uma manhã que se estende até hoje sempre que me vejo diante de um quadro.

Depois veio o melhor: aquele Manuel Bandeira com seu tanto de inefável nas nossas leituras, entrava em carne e osso na sala de Simeão. E parecia pessoa como nós. E deixou-me tocar em suas mãos. E ouvi-lhe a conversa com Simeão como eu conversava aqui com Vanildo Brito, com Jomar Souto, com Nathanael Alves. Custava acreditar. E lá vem Santa Rosa, Anísio Teixeira, Mário Pedrosa, Afrânio Coutinho, o jovem Portela recém-chegado das aulas de Damaso Alonso, na Espanha. Todo esse mundo fabuloso, aos meus olhos de leitor interiorano, simplificado nas poltronas e na conversa da Divisão de Cultura.

Não fora de graça que isso acontecia. Num tempo em que o livro ainda não era ostensivamente mercadoria, isento de marketing, a Divisão de Cultura encarregava-se de difundir maciçamente os valores compromissados com a nossa consciência e a nossa formação. O produto ou livro dirigido menos pelo mercado do que pelas prioridades culturais.

E assim tivemos os Cadernos de Cultura levados a todas as bibliotecas do país com o essencial no nosso aprendizado. São mais de cem títulos da melhor ensaística literária e artística do pós-modernismo.

Como se escreve um conto? - perguntávamos. O Liceu respondia certo: lendo Machado de Assis. Mas precisava alguém que acrescentasse teoricamente algum ensinamento. E tivemos em mãos “Variações sobre o conto” de Herman Lima, que terminou ajudando, longe das escolas que não tínhamos, contistas como Adalberto Barreto, Maria José Limeira, dos bons que produzimos.

Ainda está para ser avaliado esse trabalho formador de Simeão Leal, que soube aglutinar o melhor de sua época em favor da descentralização cultural.

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