Pode parecer estranho juntar num mesmo texto criaturas que nem parecidas são. Mas a culpa é de um ilustre cidadão de minha convivência; digo, amigo desde priscas eras que, em seus encontros etílicos pelos bares de nossa Filipeia, andou reclamando que um atrevido Rupornis magnirostris andou devorando um Serinus canaria do plantel
GD'Art
deste meu indignado camarada. Em outras palavras, um gavião-carijó devorou seu canarinho cantador, deixando este meu amigo pê da vida. O pior é que ele ainda viu o assassino pegando o beco enquanto, muito satisfeito, batia as asas, lambendo os beiços — ou melhor, o bico — de tanta satisfação. No viveiro, só penas e um pouco de sangue, pois até as perninhas do pobrezinho o rapinante devorou.
Ou para que ninguém diga que não sou politicamente correto
* Episódio a mim relatado por Sebastião, técnico em engenharia hidráulica doméstica, especializado na condução de fluidos, desobstrução de dutos e controle de vazamentos em sistemas prediais.
Marcolino era um profissional abnegado, especialista em fracionamento anatômico de proteínas de origem animal, com ênfase em cortes comerciais e distribuição de derivados cárneos. Era um homem de grande estatura, o que o diferenciava de seu irmão, Dagoberto.
Como já mencionamos algumas semanas atrás neste poderoso rotativo, Chico Palito é o mais célebre mentiroso de Santa Rita, cidade localizada aqui nos limites da capital paraibana. Estou aqui, cometendo estes rabiscos, pois, em meu modesto entender, Chico Palito deveria ser alçado à condição de celebridade, tal sua criatividade, sua capacidade inventiva e a bossa de contar seus causos. Vamos, então, a mais três de suas fantasiosas narrativas.
Estas duas impolutas figuras que encabeçam estes meus escritos têm afinidades incomuns, das quais nem todos os mortais desfrutam. Inicialmente, revelo aqui que são magistrados e vestem a toga com muita lisura e competência, daí o respeito que lhes é devido em nossa Província. Outra virtude que os aproxima é a leveza e a sensibilidade com que fazem o cálamo traduzir o que suas almas têm a revelar. Sim, são duas referências quando o gênero literário é a crônica. São dois craques da escrita.
Sou admirador de uma arte pouco reconhecida, a arte da mentira, da fantasia, a que dribla a lógica de forma implacável. Ficcionista na literatura, não posso deixar de apreciar esse viés plantado na alma de nossa brasilidade: a arte de mentir. Daí o motivo que achei para rabiscar as linhas seguintes.
Aqui, nessas latitudes menores, que revelam nossa proximidade com aquela linha que divide o Hemisfério em duas partes, não é possível distinguirmos as quatro estações que aprendemos nas aulas do colégio ou que lemos nos alfarrábios de geografia. Aqui são só duas as estações: a das águas e a do Sol. Nesse primeiro domingo de setembro, recebemos as últimas chuvas da temporada das águas; lavaram meu quintal, aquietaram minha alma.
Santana, um bairro na Zona Norte de São José dos Campos. Foi onde ocorreu o fato que vou relatar. Comecemos por minha casa. Ficava na Av. Princesa Isabel, 1610. Vamos agora à barbearia do senhor Cincinato, que já ficava um pouquinho mais ao norte. De casa até lá, não mais que 1,5 km. Localizada na Monteiro Lobato, rua que desembocava na Paróquia de Sant’Ana, atravessando a Rui Barbosa, essa, a via principal que conectava o centro da cidade à Ponte Velha do Rio Paraíba.
Lá bem para trás nos tempos, em minha transição do final de adolescente para adulto, namorei Miroslava. Precisavam ver que criatura. Era polonesa e linda que só. Ruiva e com os olhos que pareciam duas esmeraldas. Tive que gastar muita conversa para que essa polaquinha me concedesse o privilégio de engatar um namoro como mandava o figurino daquela época, cheio de dificuldades para quem andava com os hormônios pululando, como era o meu
GD'Art
caso e suponho que os de Lavinha também. Isso mesmo, gastei todo o repertório de blá-blá-blá de que eu dispunha em estoque, já que estava eu muito longe de ter um porte apolíneo. Magrelo, míope e com mais algumas imperfeições que dificultavam o sucesso em minhas intenções. Mas que a conversa deu certo, isso deu.
Andei coisa de um mês ausente de nossa “Capital das Acácias”, deste ponto mais oriental das Américas. Obrigações de família, e lá fui para assistir ao casamento do meu rebento caçula, o que já justifica essa minha desaparição.
Alfredinho e Tavares eram amigos de longa data, desde quando faziam o Curso de Admissão que Dona Olga ministrava em sua garagem para eles e mais uma dúzia de garotos que pretendiam começar o ginásio no ano seguinte. Para quem não sabe, lá naquelas priscas eras, depois do curso primário, para se dar continuidade aos estudos, o passo seguinte era o ginásio. Só que, para essa nova etapa, tinha-se que fazer o Exame de Admissão. Foi ao se prepararem para essas provas que os dois se encontraram e ficaram, como se diz por aí, carne e unha.
Pequenas embarcações pesqueiras ficam fundeadas nas águas onde a praia de Manaíra faz divisa com a de Tambaú. Algumas, avariadas, que ainda resistem, são deixadas sobre as areias, à sombra de uma gameleira.
Aconteceu comigo. Novembro de 1977. Havíamos terminado uma manhã de aulas em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Eu e Claudemir. Ele na Física e eu na Matemática. Aulas de cursinho para o primeiro vestibular sob a égide da FUVEST.
Dona Camila e Seu Durvalino estavam ali muito perto das bodas de ouro. Criaram dois rapazes e uma moça que já estavam pelo mundo, como se diz, ganhando a vida com suas próprias famílias.
Consta-me que, ao dirigir-me ao nosso ilustre monarca, o "Vossa Majestade" exigiria tratamento na terceira pessoa do singular; no entanto, em se tratando dessa figura de tão nobres predicados, fá-lo-ei nesta missiva usando a segunda pessoa do plural, por ser, a meu ver, mais elegante e respeitosa. Então, à carta.
Cá entre nós, um pai que põe o nome da filha de Emengarda não tem Jesus no coração. Não pode ter. A infeliz vai arrastar esse padecimento até o final de seus dias. Foi o caso que repasso para estas linhas.
Não pense o estimado leitor e a querida leitora que ocupo espaço deste abalizado blog para maledicências. Nada disso. Para mim, a vida de cada um é a vida de cada um; já ouvi isso sei lá onde. Ninguém tem que se meter, nem ficar de leva e traz com o que não é da sua conta. Mas tem coisa que não dá para ficar guardada no baú de nossos segredos. É o caso que vou contar aqui. Nem seria justo esconder de quem me prestigia com sua leitura uma pantomima dessa qualidade.
Nascido na primavera de 1950, convivi com um medo que só desapareceu depois que me vi chegado à adolescência: ficar doente. Ficar doente? Só isso? Bem, é preciso entender que “ficar doente” era um mero eufemismo para estar enfermo dos pulmões, tuberculoso. Dizer que alguém era doente era dizer que a criatura era portadora de tuberculose. À época, ainda uma doença mortal.
Já começo dizendo que ando com vontade de matar o Moacir, Sempre fui homem da paz, da boa convivência, e essas histórias de resolver as coisas no tapa ou no chumbo não é da minha praia. Fujo de uma encrenca como o diabo foge da cruz. Mas tenho meus limites, e como dizem, se eu me esparramar fica difícil juntar depois. Moacir esparramou a minha raiva e agora não consegue juntar os cacos. Estou por aqui com ele.
Como já fizemos entender, elas eram sete. Um grupo coeso e de amizade de anos, desde os tempos da boneca e de pular amarelinha. Vamos a elas: Das Graças, Do Carmo, Da Guia, Das Dores, Da Conceição, Do Socorro e Nair. À exceção de Nair, as outras seis eram mulheres lindas que só vendo. Nessa meia dúzia de beldades, tínhamos as loiras, as morenas e até uma ruiva. Olhos que iam do verde-esmeralda ao azul-celeste, passando pelos
GD'Art
amendoados e os negros como uma jabuticaba. Deusas gregas, diziam uns ao se referirem àquelas esculturas, àqueles corpos onde nada sobrava e nada faltava. O detalhe é que ali todas eram solteiras e assim estavam; devemos tais circunstâncias ao nível de exigência dessas seis mulheres. Pretendentes não faltavam.