Pequenas embarcações pesqueiras ficam fundeadas nas águas onde a praia de Manaíra faz divisa com a de Tambaú. Algumas, avariadas, que ainda resistem, são deixadas sobre as areias, à sombra de uma gameleira.
Aconteceu comigo. Novembro de 1977. Havíamos terminado uma manhã de aulas em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Eu e Claudemir. Ele na Física e eu na Matemática. Aulas de cursinho para o primeiro vestibular sob a égide da FUVEST.
Dona Camila e Seu Durvalino estavam ali muito perto das bodas de ouro. Criaram dois rapazes e uma moça que já estavam pelo mundo, como se diz, ganhando a vida com suas próprias famílias.
Consta-me que, ao dirigir-me ao nosso ilustre monarca, o "Vossa Majestade" exigiria tratamento na terceira pessoa do singular; no entanto, em se tratando dessa figura de tão nobres predicados, fá-lo-ei nesta missiva usando a segunda pessoa do plural, por ser, a meu ver, mais elegante e respeitosa. Então, à carta.
Cá entre nós, um pai que põe o nome da filha de Emengarda não tem Jesus no coração. Não pode ter. A infeliz vai arrastar esse padecimento até o final de seus dias. Foi o caso que repasso para estas linhas.
Não pense o estimado leitor e a querida leitora que ocupo espaço deste abalizado blog para maledicências. Nada disso. Para mim, a vida de cada um é a vida de cada um; já ouvi isso sei lá onde. Ninguém tem que se meter, nem ficar de leva e traz com o que não é da sua conta. Mas tem coisa que não dá para ficar guardada no baú de nossos segredos. É o caso que vou contar aqui. Nem seria justo esconder de quem me prestigia com sua leitura uma pantomima dessa qualidade.
Nascido na primavera de 1950, convivi com um medo que só desapareceu depois que me vi chegado à adolescência: ficar doente. Ficar doente? Só isso? Bem, é preciso entender que “ficar doente” era um mero eufemismo para estar enfermo dos pulmões, tuberculoso. Dizer que alguém era doente era dizer que a criatura era portadora de tuberculose. À época, ainda uma doença mortal.
Já começo dizendo que ando com vontade de matar o Moacir, Sempre fui homem da paz, da boa convivência, e essas histórias de resolver as coisas no tapa ou no chumbo não é da minha praia. Fujo de uma encrenca como o diabo foge da cruz. Mas tenho meus limites, e como dizem, se eu me esparramar fica difícil juntar depois. Moacir esparramou a minha raiva e agora não consegue juntar os cacos. Estou por aqui com ele.
Como já fizemos entender, elas eram sete. Um grupo coeso e de amizade de anos, desde os tempos da boneca e de pular amarelinha. Vamos a elas: Das Graças, Do Carmo, Da Guia, Das Dores, Da Conceição, Do Socorro e Nair. À exceção de Nair, as outras seis eram mulheres lindas que só vendo. Nessa meia dúzia de beldades, tínhamos as loiras, as morenas e até uma ruiva. Olhos que iam do verde-esmeralda ao azul-celeste, passando pelos
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amendoados e os negros como uma jabuticaba. Deusas gregas, diziam uns ao se referirem àquelas esculturas, àqueles corpos onde nada sobrava e nada faltava. O detalhe é que ali todas eram solteiras e assim estavam; devemos tais circunstâncias ao nível de exigência dessas seis mulheres. Pretendentes não faltavam.
Sujeito sabido é o Camargo. Dominou seu ofício com tal competência que seus pares, os companheiros na lida do dia a dia, o chamam de mestre. Assim, Mestre Camargo ainda é uma referência entre aquela turma que podemos encontrar jogando conversa fora no mercado de peixes. Fica por ali trocando ideia com a rapaziada que ainda está na lida. Hoje, aos oitenta, já faz tempinho que se aposentou, mas, vez ou outra, cumpre uma jornada para matar a saudade de quando esbanjava saúde e disposição.
Manoel Firmino Albuquerque da Silva Gonçalves ganhou este nome com aval dos cartórios e bênção de pia. Gente com um nome comprido assim, reza a tradição, deveria ter sido criatura importante na sociedade ou ladrão de cavalo, se fosse criado na roça. Nosso amigo não foi nem uma coisa nem outra e, desde os tempos da bola de gude, do pião e de empinar pipa nos ventos de julho, passou a ser simplesmente Gonça, e Gonça ficou pelo resto da vida. Estou dizendo “resto” porque nosso amigo, nem faz uma semana, vestiu seu pijama de madeira e foi prestar suas contas nos tribunais do além.
Ah, meus caros e caras, sinto-me até constrangido de trazer a público um certo desconforto que irei expor linhas à frente. Andei me dando mal em muitas situações na vida; ou seja, em muitas dessas paradas, que é como dizem mais amiúde nos dias de hoje. Não é fácil fazer tal revelação.
Já faz um tempinho que fui dar uma espiadela em meu saldo bancário e descobri que o valor correspondente à minha aposentadoria não havia sido depositado. Mais um aborrecimento, dentre muitos que tenho suportado de nossa Previdência. O primeiro foi quando fizeram os cálculos para estipular o valor do benefício que me caberia e criaram novas regras desconsiderando anos e anos que contribuí com os cofres do governo. Vieram outros e finalmente esse que comecei
Quem, por alguma obra desse tal de destino, viu quando criança Jânio Quadros ganhar uma eleição para presidente derrotando o Marechal Lott, soube que Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok 1, com velocidade de 27.000 km/hora dera uma volta elíptica em torno da Terra alcançando no apogeu da trajetória 327 km de nosso planeta e ainda ouviu no rádio a notícia de que Getúlio Vargas mandara um tiro no próprio coração depois de escrever a famosa
O que não falta aqui na capital das acácias é farmácia e academia de letras. Uma para cada esquina e para todos os gostos. Mas, como o mercado farmacológico não é do interesse deste cronista, fiquemos com essa proliferação acadêmica.
A primeira vez que o vi, estava ele majestosamente enfurnado em um “pufe” na sala dos professores de um colégio onde eu fora ensinar em Campinas, interior de São Paulo. Todo cheio de pose, voz grave e, mesmo esparramado como estava, pude perceber que não era lá um sujeito grandão, o que confirmei quando soou o sinal para nos dirigirmos à nossa faina diária, de disposição no peito e giz na mão. Isso foi lá no ano 2000. Já em 2001 fui convidado a ser um dos coordenadores daquela escola, e aí nossa relação se tornou muito próxima.
Ele anda meio adoentado. Passou por procedimentos cirúrgicos delicados e hoje se vê às voltas com algumas patologias oportunistas que atacam nosso organismo quando este se encontra debilitado. Acontece que esse caba é duro na queda, é terreno duro, não é mole como um tijuco. Ali, enxadada alguma é capaz de encontrar minhoca. O chão é seco, impermeável, e só britadeira para furar.
Na semana que passou, ocupei estas mal traçadas linhas para um desabafo; ou seja, resolvi falar de duas qualidades de criaturas que encontro pelos becos da vida e cuja presença muito me incomoda: o bêbado raiz e o abstêmio convicto. Dois chatos de galocha. Hoje vou me ocupar com um outro modelo de gente, se assim posso chamar,