Não sei das outras inumeráveis esquinas, mas, ao primeiro flagrante dessa invasão exposta dos Estados Unidos ao país irmão da nossa outra América, acode-me uma Venezuela derreada ao pé do muro da Igreja Universal, aqui na Epitácio Pessoa, onde passo todo dia coçando os bolsos para deitar alguma moeda na cuia de uma criança, de mão estirada, a outra a proteger os olhinhos apertados de índia do nosso sol inclemente.
Dos 8 milhões de refugiados venezuelanos, quase 1 milhão veio para o Brasil ▪️ Foto: Ian Huh
Nunca estivera em meus cálculos essa proximidade com a Venezuela. Salvo quando atravessava a vizinha Abreu e Lima, a história desse general pernambucano saltando do livro de Vamireh Chacon e esticando a estrada além do meu país nas lutas de libertação capitaneadas por Simón Bolívar. Sempre a vi de longe, mesmo embalada no bolivarismo do tempo de crença e da aventura histórica do general Abreu e Lima. Mas não tão longe nestes tempos de riqueza global a contrastar com a miséria transbordada, suja, esfarrapada para as nossas calçadas.
Lembro-me bem que, indo ao Ponto de Cem Réis no dia seguinte, não veio dar noutra. Não a mesma mulher acostada ao muro da Igreja, mas uma mais nova, com uma criança de peito e outra, mal andando, sentadinha num batente de loja do Paraíba Hotel.
Foto: Ian Huh
E caí num tempo em que as nossas calçadas eram cheias dos migrantes (retirantes) de nossa própria fome até então disfarçada na seca desde o tempo do Império.
Para onde foram eles? O Brasil melhorou? Sem dúvida melhorou, apesar da perseguição renitente das estatísticas às faixas de baixa renda.
Foto: Jefferson Rudy ▪️ Agência Senado
Há algo errado, sem dúvida, entre os venezuelanos. A riqueza de minerais estratégicos, sobretudo de petróleo, só se presta para acentuar, criminosa e injustamente, a profunda desigualdade social. Mais de 25 por cento de uma população de 27 milhões se obrigam a cair fora do país. Mas não terá sido esse triste problema, certamente, o que levou os Estados Unidos, tal como fez no Iraque, à invasão armada para a captura brutal, sangrenta, de um chefe de Estado. Se ditador ou não, é problema dos venezuelanos. Desde quando o Pentágono defende a democracia fora do seu país? A História tem mostrado o contrário.








