Não pense o estimado leitor e a querida leitora que ocupo espaço deste abalizado blog para maledicências. Nada disso. Para mim, a vi...

Chumbo trocado

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Não pense o estimado leitor e a querida leitora que ocupo espaço deste abalizado blog para maledicências. Nada disso. Para mim, a vida de cada um é a vida de cada um; já ouvi isso sei lá onde. Ninguém tem que se meter, nem ficar de leva e traz com o que não é da sua conta. Mas tem coisa que não dá para ficar guardada no baú de nossos segredos. É o caso que vou contar aqui. Nem seria justo esconder de quem me prestigia com sua leitura uma pantomima dessa qualidade.

É o caso que se deu com Zeca Sabirila e Biu Tartaruga. São irmãos. Antes do caso, seria de bom alvitre que fizéssemos algumas ponderações sobre as alcunhas grudadas aos seus nomes. O mais velho, José Carlos, é um homenzarrão taludo, forte, musculoso, mas só da cintura para cima. De lá para baixo, as pernas são dessa finurinha, parecem ser de outra pessoa... Perninha fina como a de um sabiá; a outra parte, com a compleição de um gorila, virou Sabirila. Já o Severino (por aqui, todo Severino é Biu), coisa de dois anos mais novo, é também corpulento, pescoço curtinho e o corpanzil levemente arcado para a frente. Virou o Tartaruga.

Esses dois mancebos acharam de se apaixonar por um par de gêmeas que conheceram na Festa das Neves. Estavam os dois numa pequena fila para apresentação de uma performance de muito sucesso nesses festejos profanos em que homenageiam a padroeira da cidade: "Monga, a Mulher que Vira Macaca". Entraram os quatro na mesma leva de gente para assistir à metamorfose e, entre um gritinho delas e um susto silencioso dos dois, deu-se o início da aproximação. Naquela noite de sábado, comeram maçã do amor, tomaram doses de vinho barato, experimentaram juntos a roda-gigante e, coisa de uns dias depois, Zeca Sabirila estava namorando Laudiceia e Biu Tartaruga, Laudenice.

Muito importante que o leitor memorize quem estava namorando quem. E também é bom que saiba que essas duas eram umas danadinhas. Antes, chamaríamos de namoradeiras; hoje, a moçadinha diz "periguetes". Pois Laudiceia e Laudenice eram duas periguetes da melhor qualidade, mas viram nos dois rapagões a oportunidade de dar um basta naquela vidinha sem futuro que levavam. Para encurtar a história, cada um casou com a respectiva e foram morar lá no Valentina, na mesma rua, uma casa bem pertinho da outra. Zeca e Biu continuaram trabalhando na "Oficina Gouveia – Mecânica em Geral", de propriedade de seu Nicanor, pai de ambos. Do casamento de Zeca com Laudiceia vieram dois machinhos, muito serelepes, e da união de Biu com Laudenice, uma maricota, serelepe também.

Suas vidas iam seguindo. Zeca gostava de, às quintas-feiras à noite, jogar uma pelada e depois tomar uma cerveja com os amigos. Já Biu, toda terça-feira, ia ao culto na Assembleia de Deus ouvir a Palavra e pagar o dízimo.

Ao leitor pode parecer que tudo era um mar de almirante na vida desses dois casais. Era não. Pois vejam só: enquanto Zeca estava jogando sua pelada, Biu estava dando um pega em Laudiceia e, enquanto Biu pensava que estava mais perto de Deus, era Zeca quem estava de safadeza com Laudenice. Um não sabia, nem o outro, nem uma, nem a outra. Tudo no maior sigilo. Pode uma coisa dessas? Mas todo mundo sabe que Deus não acoberta indecências. Alguém descobriu, e a notícia foi se espalhando. Um belo dia, toca o telefone na oficina. Biu atende:

— Oficina Gouveia, pois não.
— Pode me dar uma informação?
— Diga.
— Tartaruga tem chifre?

E tome provocação.

Os trotes começaram e não paravam mais. Não teve jeito: um ficou sabendo do outro, e o outro do um. Então o angu ferveu no caldeirão dos Gouveias. Mas essas brigas em que ninguém tem razão não duram muito. Seu Nicanor não queria que um escândalo daqueles e que a intriga entre irmãos atrapalhassem o negócio na oficina. Chamou os rapazes nos tentos: se não queriam mais suas mulheres e estavam preferindo outra, que acabassem com aquela palhaçada e ficassem com quem faziam gosto de estar.

Resumindo: Biu foi morar com Laudiceia e Zeca com Laudenice. Por ordem do patriarca, as crianças ficaram com as mães. Assim se resolveu o imbróglio entre Sabirila e Tartaruga. Mas a rusga ficou. Só que ninguém podia reclamar do outro, e o placar no jogo da prevaricação ficou mesmo empatado em um a um. Entre eles, caso dado como encerrado.

Passado um tempinho, a rotina foi se refazendo, apenas com uns detalhes a mais: Zeca não quis mais jogar suas peladas; Biu perdeu a fé e não foi mais ouvir a Palavra. Afinal, o seguro morreu de velho, e não custa nada ficar esperto, vigilante e de olho na patroa. Sabem como é, saudade às vezes acontece e, então...

Mas acreditamos que Sabirila, Tartaruga, Laudiceia e Laudenice viverão felizes para sempre, sem ressentimentos. O que passou, passou e, afinal de contas, chumbo trocado não dói. É o que dizem.

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