Sou do tempo da Copa de 70. Uma Copa inesquecível. Vi Pelé, Tostão, Jairzinho, depois Cafu, Raí, Carlos Alberto, Toninho Cerezo, Pa...

A Copa do Mundo

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Sou do tempo da Copa de 70. Uma Copa inesquecível. Vi Pelé, Tostão, Jairzinho, depois Cafu, Raí, Carlos Alberto, Toninho Cerezo, Paulo César, Rivellino e tantos, tantos outros. No início, via por farra; depois, com filhos pequenos. Madrugadas acordando para assistir à Copa na Coreia, ou do outro lado do mundo. Mas a de que mais gostei foi a da França, mesmo perdendo, por conta dos programas televisivos de making of, bastidores e reportagens sobre queijos e vinhos. Aí já não era mais futebol.

Não entendo muito do jogo. Mas sei quando jogam bem. Entendo tiro de meta e escanteio. Acho uma das coisas mais difíceis matar uma bola no peito e sair chutando, driblando e derrubando quem estiver na frente. E, nos pênaltis finais, quase tenho um infarto. Fico besta com o quanto de sangue-frio, foco, calma, capacidade de driblar o goleiro e de diminuir a distância da trave deve ter um batedor. E, quando perde, choro com o jogador. Não sem antes torcer. Fico a pensar na emoção de fazer um gol, se for de bicicleta ou no contra-ataque, com o estádio inteiro a vibrar e aquela explosão gigante do jogador que celebra como pode. Adoro dancinha, peixinho, mergulho e, claro, quem não se lembra de Bebeto ninando o seu bebê! Gosto das Copas. Embora, nesta, tenha estado desanimada e sem muita energia para vestir a camisa. Os últimos acontecimentos políticos nos entristeceram. E nos indignaram. Precisa vir um Casemiro criticado para fazer a gente torcer por ele desde pequenininha. E o paraibano Matheus Cunha, no outro jogo? E Martinelli? Com nome de atriz italiana? Sem falar em Danilo, o novo xodó das mulheres, por ser sensível e fazer psicanálise. Emocionei-me com a garra das seleções periféricas. África e os seus países botando a Europa para correr. E a América do Sul! O Paraguai ganhando da Alemanha (jamais esqueceremos o 7 x 1). A Costa do Marfim, o Marrocos, sem falar nos imigrantes negros jogando por times europeus. A geopolítica anda ampliando os seus mapas. E Ancelotti cantando o hino do Brasil? Mas o maior representante desses times ficou com o jogador de Cabo Verde, Vozinha. E que apelido carinhoso! Foi triste demais a derrota para a Argentina. Mas Messi também nos confundiu, nas suas jogadas de mestre. Agora, nada se compara aos estádios, aos pagodes, às batucadas, às camisetas, às bandeiras tremulando, às cantorias dos ingleses e às torcidas, a da Noruega e a da Argentina. Crianças, velhos, jovens, todos de caras pintadas com as cores das suas bandeiras. Emocionante a torcida da Noruega e as suas remadas vikings – Row, Row. Eu sinto o tambor daqui de casa. E aquele Haaland, que é a própria encarnação de um viking em pessoa, nos atropelou no domingo. Infelizmente, venceram Cabo Verde. E nos venceram. Tristes ficamos. E viva Cesária Évora! Sempre ligo a TV duas horas antes para ver os bastidores, sentir o clima. Os arredores. Os escoceses bebendo toda a cerveja do bairro, o estádio se pintando com os times. As bandeiras gigantes espalhadas no campo, os hinos, o nervoso dos jogadores, a apreensão dos reservas, as chuteiras rosa-choque (hein, Rita Lee?), o aquecimento, as crianças que entram de mãos dadas com os jogadores titulares, enfim... Fico a pensar na logística de um evento como esse. A organização, o dinheiro, as passagens, os quadrados/vestiários de cada jogador, em três países diferentes. O Iraque, que não tinha visto para ficar nem mais um minuto em território americano. Os ingressos milionários, a infraestrutura, o juiz que não pode errar, embora anule gols que a gente não quer, o VAR, que tem que ter a última palavra, o emocional mundial em jogo, os trilhões em jogo, os destinos em jogo. Tudo em jogo. Tudo é jogo. E eu, claro, faço parte disso também. Aqui da minha sala, sozinha, com a camiseta amarela da Pitombeira, uma cerveja gelada na mão, uma azeitona no pratinho de Portugal e o coração aos pulos. Golllllllllll! Grito mesmo. Mas o que mais curto mesmo, já há algum tempo, de dar risadas, são os posts da escritora Micheliny Verunschk/Onçaverunschk. O Canal da Onça, o seu #tiraessabermuda: “A ordem é fritar o calango norueguês pro almoço de domingo. Nossa CEO, embora fascinada pelo desprinceso, não se opõe.” Ou #quintasdaobjetificação: “Ganhar da Alemanha é coisa sexy demais. E o Mbappé do Equador, o menino Plata, é de ouro!” Ou ainda: “Cannobio, um cannoli, né não? Tira, tira essa bermuda, docinho.” Para domingo, o Canal se rende: “Haaland coxudo passando na timeline pra dizer que quem vê cara não vê coxão.” Com #sextadoomifeio. Micheliny traça, assim, paralelos entre a reificação de corpos/vidas e o universo do futebol. E eu vou gargalhando junto com ela. Mas o futebol tem também as suas piores feiuras. O pacto entre homens. Jogadores envolvidos em estupros. Assunto para outra crônica. Que siga a Copa. E a beleza dessa festa no campo.

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