Quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, em 15 de dezembro de 1956, José Lins do Rego deu glória literária à Casa de Mach...

Confissões de Zé Lins

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Quando tomou posse na Academia Brasileira de Letras, em 15 de dezembro de 1956, José Lins do Rego deu glória literária à Casa de Machado de Assis, que andava um tanto carente de modernidade.

Na oportunidade, o escritor Lúcio Cardoso considerou José Lins como um dos mais significativos romancistas e também dos mais representativos da literatura brasileira, o que equivaleria a dizer que não é bem a Academia que aconteceu para o autor de Menino de Engenho, e sim este para a Academia.

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Lúcio Cardoso, importante escritor mineiro do século XX, ligado ao modernismo, conhecido por sua prosa intensa, psicológica e sombria, autor de Crônica da Casa Assassinada, (1959), considerado hoje um clássico da literatura brasileira ▪️ Fonte: @revistacontinente
Quando eleito para a Academia, José Lins estava com obra representativa e penetrava no mundo estrangeiro, “exibindo o seu retrato tantas vezes patético, tantas vezes grandioso e solene, de um país que, fora do continente, ainda é uma suposição geográfica”, escreveu o autor de Crônica da Casa Assassinada.

Lúcio Cardoso considerava José Lins um autor abundante, que, ao longo dos anos, disse tudo o que pensava e o que sentia, “numa franqueza que é, sem dúvida alguma, uma das marcas essenciais do seu talento”.

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José Lins do Rego ▪️ Fonte: Templo Cultural Delfos
Logo após a posse do paraibano na Academia, Lúcio Cardoso entrevistou o autor de Menino de Engenho, recolhido à sua residência por recomendação médica para tratamento de uma hepatite. A disposição dele em responder às perguntas para a matéria publicada na Revista da Semana, editada por Hélio Fernandes, impressionou o jornalista.

A entrevista, suponho, foi uma das últimas que teria concedido. No ano seguinte, com a saúde agravada, morreria de hepatite. “A Academia, para mim, talvez seja uma capitulação”, disse.

“Posso afirmar que dela nunca fui um apaixonado de olhos lânguidos,
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Lúcio Cardoso
ao contrário. Nunca bati com insistência à sua porta, nem batalhei para pertencer aos seus quadros, como outros”.

Ao pedido de Lúcio Cardoso para que definisse sua posição diante da própria literatura, naquele momento da sua vida, e como julgava o que tinha feito, José Lins respondeu: “A literatura sempre foi minha condição de existir. Uma espécie de dom, já que não possuía outros para o sucesso. Confesso que sempre pensei na literatura como o único meio para me comunicar e me exprimir”.

Disse que chegou ao décimo terceiro volume de ficção certo de que não cometeu nenhuma traição ao seu destino. “Posso dizer que não me sinto nem aquém nem além do que esperava”, respondeu.

“A idade não me atrapalhará, pois ainda espero, apesar dos cinquenta e seis anos, fazer muito mais do que fiz. Acho que o bom romance é uma obra de acúmulo de experiências. Raros são os romancistas adolescentes”.

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Zé Lins
Prosseguiu:

“Não posso me queixar — não me queixo — em absoluto. Nunca houve má vontade contra a minha obra. Bem ou mal, sempre fui um autor bem tratado, em relação à minha obra, pelo que há de mais importante no país”.

Para o autor de Fogo Morto, “ser artista é sacrificar a vida”. Foi o que ele fez para deixar uma tão importante obra, que retrata a vida rural canavieira do Nordeste. “Meus livros chegaram sem que eu estivesse imaginando realizar um marco em qualquer sentido”.

Revelou:

“Sou e sempre fui visceralmente anticomunista. Refiro-me, é claro, ao comunismo ditatorial. Para as lutas de pobres contra ricos, ricos abusados, sempre estarei disposto a me empenhar ao lado dos pobres”.

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Zé Lins
Para expressar sua posição política e fidelidade ao amigo, esteve na Paraíba fazendo campanha em favor de José Américo de Almeida para governador.

José Américo de Almeida foi outro paraibano que deu brilho à Academia, enfastiada do prestígio político e literário. Ascendino Leite apontava o acesso do autor de A Bagaceira à imortalidade como uma tentativa de recuperar o prestígio político da Casa de Machado de Assis. Afinal, desde os acontecimentos de 1930, a voz de Zé Américo ressoava pelos salões republicanos e clubes literários.

Lúcio Cardoso concluiu a entrevista dessa maneira: “Assim terminou José Lins do Rego aquilo a que poderíamos chamar de suas confissões, pois, na verdade, são expressões íntimas e desabusadas de um homem que, tendo trabalhado muito, agora encontra nesse direito de expressar a verdade sua melhor e mais nobre recompensa”.

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