O leitor acredita? Eu, sim. Não por experiência própria, mas pelas dos outros, colhidas aqui e acolá ao longo dos anos. São tantas as histórias fidedignas que simplesmente não dá para ignorá-las. Sim, milagres acontecem. E com mais frequência do que imaginamos. Creio mesmo que acontecem todos os dias, uns mais ostensivos, outros, mais discretos, em todos os lugares do mundo. Estão aí como testemunhos dos mistérios da vida, verdadeiras lições de humildade. Sim, eles acontecem.
Arte: Walter Rane
Alceu Amoroso Lima, o grande crítico, escritor e líder católico do século XX, vivenciou, que se saiba, pelo menos duas experiências que podem ser definidas como manifestações de milagres. Uma quando seu filho sofreu grave acidente automobilístico e esteve à beira da morte, praticamente desenganado. O pai, após muita reflexão sobre o que poderia oferecer de sacrifício pessoal em troca da sobrevivência do filho, decidiu ir ao encontro de seu célebre adversário intelectual, Gustavo Corção, de quem se afastara totalmente. Corção muitas vezes o atacara com rigor,
Gustavo Corção, (1896–1978), escritor, jornalista, ensaísta e pensador católico brasileiro, conhecido por sua prosa elegante com forte tom espiritual ▪️ Fonte: Unicamp
De outra vez, doutor Alceu estava em Roma, numa audiência coletiva com o papa João XXIII, a quem tanto admirava. Quando aproximou-se do pontífice, pediu-lhe uma bênção para sua filha monja beneditina que sofria com contínuas crises de labirintite. O papa ouviu o apelo e falou simplesmente: “Diga a ela que peça e o céu a escutará”. E então a doente ficou curada, sem maiores explicações. Milagre? É muito possível.
Afirma Antonio Carlos Villaça que Alceu não gostava de milagres, assim como o próprio Jesus, que os realizava quase contrariado, talvez para não banalizá-los. Mas encarou como uma doce concessão divina a graça concedida à sua filha.
O milagre costuma ser a única resposta quando se tornam inviáveis ou simplesmente faltam todas as outras respostas possíveis. No silêncio da ciência, fala o sobrenatural. Salvo para os céticos profissionais, que preferem ficar sem explicação nenhuma.
André Comte-Sponville, filósofo francês, defensor da “espiritualidade sem Deus”, baseada na contemplação, na ética, no amor, na lucidez e na experiência do mistério da existência sem necessidade de religião institucional ▪️ Fonte: @fronteiras.com/
Sobre o tema, assim escreve o filósofo francês André Comte-Sponville: “Um milagre é um acontecimento incrível, no qual porém as pessoas crêem, que se julga inexplicável, e no entanto se explica. Crer em milagre é não apenas crer sem compreender, o que é o ordinário, mas crer por não compreender. Já não é fé, e sim credulidade”. Bem se vê que são palavras de um filósofo, escravo da razão. Não o fosse, admite-se, e estaria traindo a sua tribo, tão orgulhosa de sua afiada e desconfiada inteligência. Que seja.
Mas a questão é que os milagres, por sua natureza extraordinária, se situam além da inteligência e da compreensão, e aí só resta uma opção: ou se aceita como tal ou não. Ou se é crédulo ou não. Não compreender e no entanto crer, e crendo, começar a compreender. Não pela razão, mas para além dela. Evidente que um filósofo ou um cientista não pode aceitar isso. Compreende-se.
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Doutor Alceu também acreditava – e com razão, pois vivenciou-os na própria carne, como se diz. Por tabela, eu acredito, pois entendo, modestamente, que não aceitá-los é diminuir a vida e suas misteriosas possibilidades. Seguindo Pascal, neste caso (e em muitos outros) é melhor crer do que não.
Que o milagre seja uma intervenção sobrenatural na vida humana, qual o problema? Pobre de quem se contenta apenas com o que se chama de “natural”. E quem é o homem, em sua pequenez, para estabelecer dogmaticamente o que é “natural” e o que não é? Ater-se ao “natural” é ater-se à física, excluindo-se consequentemente a metafísica. Por acaso podemos passar intelectualmente sem esta última? Ou devemos nos restringir ao rés do chão?










