Ingressou José Américo no Seminário em 1901. A casa de formação na Capital (Parahyba) era erigida sob os auspícios de Nossa Senhora da Conceição. Fora escolha da família, para seguir uma velha tradição. O irmão mais velho (Inácio) já havia trilhado esse caminho, o que, segundo se pensava, facilitava-lhe a vida. Eles também viam naquela decisão a perpetuação das alianças que se constituíam ao longo dos anos. “Precisava de um terno novo e davam-me uma batina”, escreveu o jovem seminarista (Antes que me esqueça: 1976, p. 139).
Josefa Leopoldina Leal de Almeida, mãe de José Américo de Almeida ▪️ Acervo FCJA
Após aprender as primeiras letras com dona Júlia Verônica dos Santos Leal, foi o menino morar com o tio Odilon Benvindo Almeida de Albuquerque, que era o padre da paróquia de Areia, o qual o matriculou num pequeno internato que funcionava na cidade. O tio, pensando na sua vocação, elegeu-o coroinha da igreja. Certa feita, durante um missal, tropeçou, deixando cair a bíblia, causando grande espanto aos fiéis. A educação na casa do velho padre era austera. José não estava acostumado; queria uma vida de liberdade. Considerava demais aquelas exigências: permanecer calado durante as refeições, não andar descalço nem dormir de dia, assobiar muito menos. Com a morte do vigário Odilon, passou o menino, já órfão de pai, aos cuidados do tio Monsenhor Walfredo Soares dos Santos Leal, que o levou para estudar na Capital, buscando a formação sacerdotal. Foi ele o responsável por matricular Zé Américo no Seminário. “Menino namorador só presta no Seminário”, disseram.
Monsenhor Walfredo Soares dos Santos Leal ▪️ Fonte: ALCR
“Eu ia entrando, tropecei numa laje fraturada e fiz uma genuflexão involuntária. Cruzei uma porta tão larga que me daria entrada com os braços abertos, e ela fechou-se atrás de mim com uma pancada nas costas. Senti o bafo de um mundo misterioso” (Antes que me esqueça: 1976, p. 155).
“Vou ver”. A segunda, sobre fé, diria que, quando pede algo a Deus, pede com fé. Por fim, na terceira indagação, de si para si, a pergunta mais complicada exigia obediência a seus superiores. “Receando enrascar-me com minhas fraquezas, diria: obedeci a meu tio e estou aqui” (Antes que me esqueça: 1976, p. 155).
O seminário se completava em quatro anos, com aulas de línguas (latim, português e francês), noções gerais (história, geografia, aritmética) e religiosas (catecismo), seguidos de três anos de formação eclesiástica (teologia ou filosofia). A vigilância era contínua sobre aqueles futuros sacerdotes e não menos severa a conduta que se exigia. O silêncio imperava em todas as ocasiões. Pouco se permitia aos seminaristas. Fugir era um privilégio.
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Aqueles anos de seminário deixaram-lhe marcas. Além do episódio de “Augusto Cíço”, a figura do padre Anselmo ficou guardada na sua retina:
“Era tardo no andar. Sem nenhum gesto, seus braços ficavam mortos. Tinha a face verde e os dentes amarelos. Seu pigarro seco e constante parecia um escárnio. Pensava-se que ia sorrir e era uma tosse. Usava uma batina rançosa que mudava de cor.” (Antes que me esqueça: 1976, p. 172).
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O seminário parecia-lhe um ambiente hostil. O garoto de Areia andava insatisfeito e não queria aquela vida sacerdotal para si, confidenciando ao
“As atenções do rapaz sem pendores místicos voltavam-se antes para os fatos, puxavam-no sempre para as coisas que se passavam no mundo. Queria ver o espetáculo dos outros. E, por se ter deixado puxar tanto para a única nota colorida numa cidadezinha do interior, é que fora recolhido à solidão do seminário” (BATISTA: 1979, p. 70).
O tio se inquietava, pois o falecido pai de Zé Américo aparecia-lhe em sonho. Vendo o velho padre o “mau caminho” do sobrinho, queria ordená-lo no sacerdócio. Aquela vida seria a redenção do jovem sonhador. A família o queria padre. Ele, não.
Por razão das férias do terceiro ano, quando retornou para o casamento de sua irmã Maria das Neves (1904), Zé Américo externou o desejo de sair do seminário. A confusão estava armada. Todos os familiares acudiram àquela situação, tentando dissuadir o pequeno. Apenas o vigário Odilon permaneceu silente quanto à sua decisão. Ao final, ele foi apoiado pela mãe e pelo irmão Jaime.
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Aquela visita familiar o fez ver a vida com outros olhos. O fato de não ter um par no casamento de sua irmã talvez tenha contribuído para a sua decisão. Na condição de seminarista, ficara desacompanhado na igreja. A solidão daquele momento serviu de incentivo à reflexão. De fato, “desencanta-se com a vida levada no seio daquele centro de instrução, e vai concluir suas humanidades no Liceu Paraibano”, escreve Luiz Pinto (Fundamentos da história e desenvolvimento da Paraíba: 1973, p. 185).
Penso que não é à toa que, em Reflexões de uma cabra (ALMEIDA: 1971, p. 22), encontramos as seguintes frases: “seminarista de coração amargurado” e “seminarista leviano, sem sombra de vocação”. Embora se refiram à personagem, quiçá sejam um desabafo interior.
Em um ensaio sobre "A Bagaceira", veicula-se no jornal A União:
“Foi no seminário que aprendeu desde cedo José Américo a ser solitário, a ser menino ou rapazito pensador, que depois utilizaria essa solidão em função da arte” ("A União": 29/11/1967, p. 4).
Abandonando o seminário, Zé Américo buscou concluir os estudos no “Lyceu Provincial da Parahyba”, fundado em 24 de março de 1836, que preparava os secundaristas para o ensino superior. Fez todos os preparatórios em 1904 e, naquele mesmo ano, ingressou na Faculdade de Direito do Recife.
Antigo prédio do Lyceu Parahybano ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (demolida), no Jardim Público ▪️ Acervo Família Stuckert
* ALMEIDA, José Américo (de). "Memórias, antes que me esqueça". Livraria F. Alves Editora. Rio de Janeiro/RJ: 1976.
* ALMEIDA, José Américo (de). "Reflexões de uma cabra". Editora Leitura. Rio de Janeiro/RJ: 1971.
* BATISTA, Juarez da Gama. "José Américo, retratos e perfis". A União Editora. João Pessoa/PB: 1979.
* BURITY, Luiz Mário Dantas. "A batina como projeto de família: a preparação sacerdotal na educação laica e religiosa de José Américo de Almeida". Revista Brasileira de História da Educação. Volume 23. Eduem. Maringá: 2023.
* BURITY, Luiz Mário Dantas. "A batina e o terno: a trajetória de José Américo de Almeida entre o Seminário da Parahyba e a Faculdade de Direito do Recife". XXIX Simpósio de História Nacional. ANPUH: 2017.
* SOLHA, Waldemar José. "Zé Américo foi princeso no trono da monarquia". Editora Codecri. Rio de Janeiro/RJ: 1984.
* ALMEIDA, José Américo (de). "Reflexões de uma cabra". Editora Leitura. Rio de Janeiro/RJ: 1971.
* BATISTA, Juarez da Gama. "José Américo, retratos e perfis". A União Editora. João Pessoa/PB: 1979.
* BURITY, Luiz Mário Dantas. "A batina como projeto de família: a preparação sacerdotal na educação laica e religiosa de José Américo de Almeida". Revista Brasileira de História da Educação. Volume 23. Eduem. Maringá: 2023.
* BURITY, Luiz Mário Dantas. "A batina e o terno: a trajetória de José Américo de Almeida entre o Seminário da Parahyba e a Faculdade de Direito do Recife". XXIX Simpósio de História Nacional. ANPUH: 2017.
* SOLHA, Waldemar José. "Zé Américo foi princeso no trono da monarquia". Editora Codecri. Rio de Janeiro/RJ: 1984.

















