Fui ao lançamento do novo livro de Gonzaga Rodrigues como quem vai presenciar um momento histórico. E de fato era – e foi – um evento...

Gonzaga em pleno palco

gonzaga rodrigues jornalismo literatura memoria homenagem resgate cultura
Fui ao lançamento do novo livro de Gonzaga Rodrigues como quem vai presenciar um momento histórico. E de fato era – e foi – um evento extraordinário, pois não é todo dia que se vê um nonagenário a publicar livro. Pode-se dizer então que o autor teve mais essa ventura na vida, uma vida longa, rica e consagrada. Para quem, ainda moço, chegou na capital com a cara e a coragem para abrir caminhos, não é pouca coisa, convenhamos. O menino de Alagoa Nova, filho de Seu Manuel Avelino e Dona Tonina, como um verdadeiro César, veio, viu e venceu.

gonzaga rodrigues jornalismo literatura memoria homenagem resgate cultural
Gonzaga Rodrigues ▪️ Acervo EPC
O talento natural e o esforço autodidata, além da perseverança, claro, foram as ferramentas do cronista na conquista de seu espaço na aldeia. Um processo lento e progressivo que ele soube administrar com paciência, sem atropelar ninguém. Ainda moço, encontrou o jornalismo paraibano dominado, no bom sentido da palavra, por astros como José Leal, Virgínius da Gama e Melo, Juarez Batista e Carlos Romero, para citar apenas alguns. Como se aproximar desses gigantes, deve ter se perguntado naqueles difíceis começos. Sem padrinhos políticos e sem o trampolim da academia universitária, como desbravar a densa floresta da intelectualidade e das letras tabajaras?

Mas aos poucos o alagoanovense tímido foi conquistando cadeiras nas redações pessoenses e aos poucos foi firmando seu nome nos jornais locais. De fato, sabia escrever e possuía um estilo todo seu, requisitos básicos no jornalismo e na literatura. E mais: não era apenas um diletante, mas alguém que vivia exclusivamente, com dedicação total, do que escrevia. Um profissional, em suma. E isso fez diferença. Se a escrita era o seu ganha-pão, não podia se dar ao luxo de não ser bom e de não procurar ser ótimo.

gonzaga rodrigues jornalismo literatura memoria homenagem resgate cultural
Gonzaga Rodrigues ▪️ Acervo EPC
Estabelecido o cronista, o passo seguinte teria que ser a literatura, através da publicação de livros, sabedor que era do prestígio que só os autores publicados conquistam. Principalmente na província. E as coletâneas de crônicas foram se sucedendo, até alcançarem as alturas de seu memorável Retrato de memória, em que, numa das melhores prosas já vistas na aldeia, traça o amoroso perfil de seu pai, numa comovente tentativa de expressar literariamente gratidão e amor filiais. Nesse percurso, foi acolhido na Academia Paraibana de Letras, que chegou a presidir, coroando assim uma carreira vitoriosa, credora da admiração e do respeito dos paraibanos.

Quis o destino que o rapazinho que aportou sozinho na Praça Pedro Américo se tornasse o atual decano entre seus pares de labor jornalístico e literário. Sua ascendência é reconhecida – e não se deve apenas à longeva idade. Nele, o mérito e a tradição andam de mãos dadas, de tal modo que o reconhecido idoso, por si só, não prevalece sobre o fino escriba, este sim, merecedor de todas as honras, aquém e além de tudo.

gonzaga rodrigues jornalismo literatura memoria homenagem resgate cultural
Nesse livro mais recente, quis Gonzaga resgatar José Maria dos Santos, autor paraibano quase que inteiramente esquecido na atualidade. E essa é mais uma contribuição sua à cultura estadual. Na realidade, trata-se de uma reedição de obra originalmente publicada no ano 2000, agora revisada e acrescida de alguns apêndices. Ressalto o notável prefácio à edição original da lavra do professor Tarcísio Burity, o qual, por si só, dá-nos uma suficiente ideia da relevância intelectual do historiador e ensaísta resgatado.

Para quem não sabe (eu não sabia), José Maria dos Santos, falecido em 1954, aos 77 anos, foi um jornalista, historiador e escritor paraibano, nascido em João Pessoa e que atuou no Rio de Janeiro e até em Paris, vejam só. Escreveu um livro importante: A política geral do Brasil, de 1930, traduzido para o inglês. Era negro e tal fato, dado o
gonzaga rodrigues jornalismo literatura memoria homenagem resgate cultural
Raul Pila
racismo da época, teria contribuído para uma certa “invisibilidade” do autor. Essa contingência, segundo Raul Pila, explicaria, pelo menos em parte, a “modéstia desconfiada” de José Maria diante “dos homens e das coisas de seu país”. E essa mesma modéstia foi a que, penso eu, também deve ter acometido o nosso decano ao se deparar com as sumidades aldeãs quando de sua chegada à capital paraibana. Talvez essa afinidade de experiências e de sentimentos seja uma das causas do justo resgate feito por Gonzaga desse irmão de dificuldades que certo dia, já longínquo, descobriu numa antologia de contos organizada por Graciliano Ramos.

A manhã de autógrafos de Gonzaga, na Livraria do Luiz do MAG, foi consagradora. O historiador Flávio Ramalho de Brito fez uma ótima apresentação. E numerosa plateia ovacionou de pé o autor, que se emocionou, emocionando os presentes.

gonzaga rodrigues jornalismo literatura memoria homenagem resgate cultural
gonzaga rodrigues jornalismo literatura memoria homenagem resgate cultural
gonzaga rodrigues jornalismo literatura memoria homenagem resgate cultural
Gonzaga Rodrigues e Flávio Ramalho de Brito, apresentador da obra (acima à esquerda) /// Liliane Targino, Josinaldo Malaquias e Gonzaga Rodrigues (acima à direita) /// Lançamento do livro José Maria dos Santos, de Gonzaga Rodrigues, na Livraria do Luiz do Mag Shopping (J. Pessoa-PB) ▪️ Fotos: ALCR
Se vale a pena conhecer José Maria dos Santos, coestaduano que nos orgulha, mais ainda vale homenagear Gonzaga Rodrigues, agora nossa sumidade maior, cuja glória absoluta, hoje, é que provoca “modéstia desconfiada” em todos nós.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas