Tenho várias amigas muito queridas, cada uma com seus problemas. Uma, com os pais velhinhos, não consegue visitá-los tanto quanto g...

A dor própria é mais dolorida?

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Tenho várias amigas muito queridas, cada uma com seus problemas. Uma, com os pais velhinhos, não consegue visitá-los tanto quanto gostaria, pois vive em outro país. Outra, foi despejada de onde morava, por uma amiga (?),
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Arte: A. Modigliani, 1917 ▪ Col. particular
e, como o contrato era verbal, ela não teve como entrar na justiça. Outra está sendo perseguida injustamente em seu local de trabalho. Mas uma, em particular, não aceita nenhuma palavra positiva – ela não consegue se colocar no lugar de ninguém. Tem um bom emprego, família, uma boa casa, mas, por um problema de saúde – que não envolve câncer, esclerose, etc. – ela diz que sua “luta é dobrada”, ou seja, pior do que a de quem está tentando resgatar a vida em um leito de hospital. É uma escolha dela. Esse comportamento inspirou o seguinte conto:

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Arte: A. Modigliani, 1919 ▪ Museu Hecht, Haifa, Israel
N
um longínquo país vivia Ahmina, que, com seus oito anos de idade, brincava com pratinhos e panelinhas, já aprendendo coisas para sua vida futura. Estudava em um escola de meninas como ela, que também brincavam com pratinhos e panelinhas e sonhavam com números e ciências. Mas nesse ano o governo fechou as escolas para meninas, diziam que para ‘reestruturá-las’. Cinco anos depois, as escolas
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Arte: A. Modigliani, 1915 ▪ Col. particular
para meninas nunca mais foram reabertas e, com treze anos, Ahmina já estava ‘pronta’ para se casar. Ela ponderou com a mãe que talvez as escolas umdia abrissem e ela pensava em ser professora. A mãe, que também tinha passado pelos seus sonhos brutalmente esmagados pelo governo do país, postergou o mesmo destino à Ahmina. O pai da menina havia morrido em uma das tantas guerras do país, que ela não compreendia e ele achava que entendia. Mas não havia escapatória, era lutar ou ser morto pelo governo. No final das contas, dava tudo no mesmo.

Quatro anos depois, Ahmina agora com dezessete anos e vários pretendentes de quarenta anos tendo sido rechaçados, as escolas ainda fechadas e aquele gosto de poeira desértica na boca todos os dias, ouve da mãe que ela não tinha mais como recusar mais um pretendente à filha. Na aldeia já começavam a falar, a julgar, a se perguntar ‘você é contra o governo?’ e isso era perigoso. A mãe de Ahmina só queria protegê-la. Elas deveriam escolher o candidato ‘menos pior’ e aceitar o que o destino comunicava a elas. ‘Foi e é assim com todas’, dizia sua mãe.
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Arte: A. Modigliani, 1909 ▪ Abelló Col., Madri
Escolheram um rapaz de trinta e quatro anos, que também lutava nas guerras impostas pelo governo – não existia outra saída. Com certeza, após terem três ou quatro filhos e filhas ele também a deixaria viúva. Esses filhos iriam compulsoriamente para o exército. E as filhas cumpririam a mesma sina que ela, a mãe, a avó.

O marido foi bom com ela. E, aos vinte e dois anos e cinco filhos depois, seu marido morreu em combate. Ahmina chorou, um pouco anestesiada, pois via isso acontecer todos os dias – não pôde estudar, foi obrigada a se casar e ter filhos e tudo tinha sido um caminho sem volta. Ahmina se perguntava ‘por que fui nascer no Agenitsão?’, enquanto procurava algum grão para cozinhar e dar de comer à família.

Enquanto isso, em outra aldeia e em outro continente, Tawla sonhava em viajar, conhecer coisas que uma médica europeia tinha contado a ela. Mas o seu país estava em constante guerra e não havia nem comida suficiente para todos, que dirá o sonho de viver em outro local. Ela já tinha visto como sua irmã de um ano tinha morrido de fome e como sua mãe, tias, vizinhas estavam definhando a cada dia.
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Arte: A. Modigliani, 1917 ▪ MASP
A desnutrição era companheira diária de Tawla. Se havia um pouco mais de comida, as mulheres comiam por último e, ainda assim, menos, para poder deixar algo a seus filhos. Os hospitais haviam sido saqueados. Tawla via mulheres terem seus bebês a céu aberto, na terra vermelha. Bebês que, se sobrevivessem, teriam nascido para a mesma vida que tantos outros no país, tendo que se submeter à fome, falta de instrução e guerras incompreensíveis. Buscar água era uma escolha entre sede e dignidade. No caminho, Tawla e suas amigas poderiam ser raptadas, atacadas por homens cruéis e sedentos de corpos femininos, apesar de esquálidos. Tawla sentia que o mundo tinha esquecido de seu país e do sofrimento da população e se perguntava ‘por que nasci no Selugdão?’

Graziela era engenheira química, mas trabalhava em um banco. Seu bairro, outrora lindo, agora era uma pálida lembrança de quando ainda podia-se comprar tintas e pagar trabalhadores para renovar as fachadas. Aliás, parece que tinha lido que as ‘Indústrias Mincel’ de construção e tintas tinha fechado recentemente. Mais uma das tantas, desde que a ditadura se instalou em seu país.
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Arte: A. Modigliani, 1916 ▪ Col. particular
Se ela comprovasse ser descendente de pessoas de um certo país na Europa, ela poderia receber uma nova cidadania e recomeçar sua vida em outro lugar. Mas ela não tinha os documentos necessários para isso. Graziela, sua família e seus vizinhos viam, dia a dia, como todos passaram a carecer dos itens usuais mais básicos: um pouco de carne, batatas, papel higiênico. As estatísticas mostravam que, em média, as pessoas de seu país emagreceram 22 quilos nos primeiros cinco anos de ditadura. Alguns compatriotas fugiram para o país vizinho: profissionais médicos, arquitetos, psicólogos. Nos países que os acolhiam mudavam de profissão e, para sobreviver, passaram a ser motoristas, faxineiras, pedreiros. São profissões dignas, claro. Mas ela queria resistir um pouco mais... afinal, sua família tinha pago uma excelente universidade... para quê? E Graziela se perguntava ‘por que fui nascer na Espronzuela?’

Numa casa de madeira, papelão e metal, em um exuberante país tropical, vivia Suellyn. Todos os dias ela descia o morro para trabalhar numa loja em um Shopping Center. Tinha conseguido o emprego por indicação de uma amiga, que trabalhava como empregada diária de uma senhora,
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Arte: A. Modigliani, 1917 ▪ Col. particular
dona de uma loja no tal Shopping. Suellyn era expansiva, sorridente e tinha estudado até o grau requerido para o cargo. Só não tinha, ainda, entrado na universidade, porque precisava trabalhar para ajudar a família. Não queria ver seus irmãos menores entrando no mundo do crime, como muitos de seus primos e amigos no morro. Parecia que não tinham alternativa. Era isso ou ser mortos. Suellyn pensava que, quem sabe, poderia alugar um apartamento em algum bairro pobre, mas não no morro, com o seu trabalho. Poderia resgatar seus sonhos e os sonhos e futuro de sua família. Sua irmã mais velha não tinha tido essa sorte. Já estava no terceiro casamento, sempre com pessoas com algum problema: álcool, drogas, prisão. E, com trinta anos, já tinha oito filhos. Os mais velhos já seguiam o caminho dos pais. Suellyn jurou para si mesma que faria o possível para quebrar esse ciclo em sua família. Às vezes, ela olhava com ilusão para bolsas caras e vestidos finos, que via tantas mulheres comprarem no Shopping, para mostrar essas inutilidades às suas amigas, para serem invejadas e mostrar como eram bem-sucedidas. Mas Suellyn não se deixava cair nessa armadilha. Economizava seu dinheiro para alcançar uma vida melhor. Não era uma vida fácil, ela era jovem e achava que merecia melhor destino. Mas seguia em frente com fé. Mesmo assim, às vezes se perguntava ‘por que fui nascer no Gradil?’

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Arte: A. Modigliani, 1919 ▪ Col. particular
Em um dia de muitas fotos segurando um copo de papel, parecendo haver café nele, Ava Grace pensava no próximo ‘look’ para suas redes sociais. Já tinha milhares de seguidores, mas precisava de milhões para seguir com sua profissão, influencer digital. A moda era posar como se não estivesse olhando para a câmera, que era empunhada por uma amiga – às vezes, ela mesma colocava o celular no modo automático – usar casacos com mangas longuíssimas cobrindo suas mãos, calças jeans igualmente muito longas para sua altura, segurando uma enorme bolsa pela parte de baixo, em uma rua com prédios típicos nova-iorquinos. Tinha ganho 20 mil seguidores no mês passado. Até que era um bom número, considerando que ela não era uma estrela de cinema ou filha de milionários, que enveredam pela profissão de influencer. Se neste mês conseguisse mais 30 mil e assim por diante, até o fim do ano teria 200 mil seguidores a mais! Logo teria um milhão! Mais marcas a contratariam para propaganda e, quem sabe, ela poderia lançar sua marca de maquiagem e esmaltes... a tão sonhada ‘Futility’. Mas precisava continuar a investir para chegar a esse nível, de ter a própria marca. Não tinha mais roupas para fotografar, precisavam ser de marca importante. O dinheiro que ganhou serviu para pagar o aluguel em New Jersey, mas ela precisava morar em Nova York, se quisesse ser respeitada.
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Arte: A. Modigliani, 1919 ▪ Met, NY
O apartamento servia para muitas fotos, todo decorado em branco e dourado, em estilo ‘japandi’, minimalista. Neste mês, para comprar bolsas, casacos e sapatos novos para as fotos pediu um empréstimo no banco, para pagar o empréstimo anterior e pagar as roupas do outro mês. Talvez tivesse que fazer como uma amiga influencer e alugar roupas para as fotos. Ou ainda outra, que, sem poder alugar ou pedir empréstimos, postava suas compras de supermercado e as saladas que fazia. Ela não queria ter que chegar a esse ponto. Suas seguidoras eram pessoas que esperavam o nível de sofisticação que ela entregava. Era só resistir um pouco mais e se jogar na pressão do consumo – com certeza, logo algumas marcas famosas fariam contato e ela talvez até fosse convidada a assistir desfiles. Em alguns momentos pensava ‘por que não nasci em Manhattan?’

Para quem está lendo este conto, sempre tem alguém querendo trocar de vida com a sua. Às vezes, a pergunta "por quê?" vem de alguém em uma situação humanitária grave. Às vezes, da superficialidade de um mundo dito "moderno" e sua pressão por consumo, que explora o trabalho humano e até o infantil, por ganância, lançar produtos inúteis para ostentação, inveja, a admiração de "pertencer" a um círculo de elite.

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Arte: A. Modigliani, 1917 ▪ Schone Kunsten, Antuérpia, Bélgica
Tente pensar em sua vida com mais gratidão. Em algum lugar do mundo alguém está travando batalhas que você nunca desejaria ter.

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