“Tu me inspiras em teus enigmas. É a incógnita! A esfinge! E assim, te torno começo e fim. Sem saber onde começou e se vai terminar.”
Isabella Blanco
Quando pensamos no Antigo Egito, há uma imagem que geralmente nos vem de imediato à mente: a da grande Esfinge de Gizé que, diz o imaginário popular, toda ela será coberta de mistérios, enigmas e maldições...
Esfinge de Gizé ▪ YT Facts Ark
Supostamente esculpida durante o reinado do faraó Quéfren (2472–2448 a.C.), filho de Khufu (Quéops), que subiu ao poder após a morte do seu irmão mais velho, Djedefre, no auge do Antigo Império Egípcio (IV Dinastia), esta estátua colossal nasceu num período marcado pelo avanço arquitetónico, pela centralidade do faraó como mediador entre os deuses e a ordem divina conhecida como Ma’at. Era uma época em que a arte e a engenharia se entrelaçavam para afirmar poder, espiritualidade e permanência.
Estátua do faraó Quéfren, governante da IV Dinastia do Egito Antigo, retratado com a postura serena e característica da arte real egípcia. Esculpida em diorito há cerca de 4.500 anos, a obra expressa a associação entre o poder do faraó e a ordem divina que sustentava o Estado egípcio. ▪ Grande Museu Egípcio ▪ Foto: H. Mhenni / Wikimedia
A imponente escultura dotada de cabeça humana e corpo de leão, medindo cerca de 73 metros de comprimento, cerca de 20 metros de altura e totalmente talhada num único maciço de calcário, impressionou e continua a maravilhar diante da sua expressão impenetrável.
A Esfinge de Gizé, esculpida há cerca de 4.500 anos, é um dos monumentos mais emblemáticos do Egito Antigo. Com corpo de leão e rosto humano, ela guarda a necrópole de Gizé diante das grandes pirâmides, simbolizando força, autoridade e proteção real. ▪ Foto: Dimitra M.K.
A Grande Esfinge vista por trás, em um ângulo que revela a cauda esculpida junto ao corpo do leão, dobrada ao longo da pata traseira direita. ▪ Foto: Sailko
Seja pela sua grandiosidade, pela sua aura mística ou pelos mistérios envolvendo a sua função original, a Esfinge continua a ser uma das obras mais estudadas e debatidas da arqueologia mundial. Outro detalhe que fascina é a simetria da obra. Criada a partir da própria rocha do planalto, sem permitir correções posteriores como nas estátuas moldadas ou blocos encaixados, a Esfinge apresenta uma simetria que desafia a erosão, o tempo e os limites tecnológicos.
A Grande Esfinge de Gizé impressiona não apenas por suas dimensões monumentais, mas também pela rigorosa simetria de sua concepção. Vista de frente, a composição axial conduz o olhar diretamente ao rosto do faraó, enquanto as patas estendidas e os elementos arquitetônicos do entorno reforçam o equilíbrio e a solenidade da obra. ▪ Foto: M. Kassem
Perfil da Esfinge de Gizé, com vestígios de pigmento vermelho ainda visíveis no nemes, o tradicional toucado dos faraós. ▪ Foto: Djehouty
Bonaparte Diante da Esfinge ▪ Arte: Jean-Léon Gérôme, 1867 ▪ Acervo: Hearst Castle, San Simeon, EUA
Fragmento da barba cerimonial da Esfinge de Gizé, hoje preservado no Museu Britânico. Vestígios de pigmento vermelho ainda visíveis na peça lembram que a Esfinge não era o monumento monocromático conhecido atualmente. ▪ Foto: Djehouty
Além do nariz perdido, a Grande Esfinge ostentaria originalmente uma imponente barba cerimonial, cujos fragmentos recuperados repousam atualmente nas galerias do Museu Britânico.
Através dos séculos, esta sentinela de pedra passou por múltiplas intervenções de restauro, incluindo significativos trabalhos na região da cabeça, entre os anos de 1925 e 1936. A imagem monocromática que hoje contemplamos pouco revela sobre o verdadeiro esplendor original da Grande Esfinge. Vestígios de pigmentos descobertos na superfície da colossal escultura desvendam um passado vibrante, no qual cores intensas dançavam sobre a pedra. O majestoso corpo leonino e a serena face humana resplandeciam em vermelho ardente, enquanto o nemes exibia as tradicionais tonalidades negra e dourada, símbolos de poder e divindade. Os olhos atentos dos arqueólogos identificaram ainda resquícios de pigmentos azuis e amarelos espalhados por diferentes áreas do monumento. Esta paleta multicolorida levou o renomado egiptólogo Mark Lehner a descrever poeticamente que a esfinge “já foi adornada com cores tão vibrantes como as histórias aos quadradinhos”. Ao longo dos milénios, o sopro incessante dos ventos do deserto e os raios impiedosos do sol egípcio gradualmente foram apagando este caleidoscópio de cores, deixando-nos apenas com sussurros cromáticos do passado.
Reconstrução artística da Esfinge de Gizé em sua aparência original, quando o monumento exibia cores vivas e estava integrado ao complexo monumental das pirâmides. A composição destaca a simetria característica da arte egípcia, na qual cada elemento — da postura da esfinge ao alinhamento dos obeliscos e templos — foi concebido para transmitir ordem, estabilidade e a autoridade sagrada do faraó.
A Grande Esfinge, em fotografias do século XIX, quando a areia do deserto ainda encobria quase todo a sua estrutura. As imagens revelam a imponência do monumento, mesmo em estado parcialmente soterrado, e recorda as escavações que permitiram redescobrir, em toda a sua dimensão, o colosso de pedra. ▪ Fonte: Wikimedia
A Estela tem a seguinte inscrição:
“... o filho real, Tothmés [ou Tutmés, anglicizado como Thutmose ou Tuthmosis], chegou, enquanto caminhava ao meio-dia e sentando-se à sombra deste poderoso deus, foi superado pelo sono e dormiu no exato momento em que Rá estava na cúpula (do céu). Ele descobriu que a majestade deste deus falou-lhe com a sua própria boca, como um pai fala para o filho, dizendo: Olhe para mim, contemple-me, ó Tothmés, meu filho, eu sou o teu pai, Horemakhet-Khepri-Ra-Atum, eu conceder-te-ei a soberania sobre o meu domínio, a supremacia sobre a vida... Eis a minha condição real para que tu protejas todos os meus membros perfeitos. A areia do deserto sob a qual estou colocado cobriu-me. Salve-me, fazendo com que tudo o que está no meu coração seja executado.”
A chamada Estela do Sonho, erguida entre as patas da Grande Esfinge de Gizé, foi instalada pelo faraó Tutmés IV. Segundo a inscrição, o jovem príncipe teria adormecido à sombra da Esfinge, então quase inteiramente coberta pela areia, e recebido em sonho a promessa do trono caso libertasse a estátua do soterramento. ▪ Foto: M. Kassem
Acompanhe o programa semanal Um Certo Oriente, apresentado pelo autor, com duração de uma hora, transmitido nas seguintes emissoras e horários (de Portugal), via internet:
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Domingo
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20h00 Rádio Ourique 94.2 FM | Ourique
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21h00 Rádio Marmeleira | Marmeleira / Ribatejo
21h00 Rádio Torre de Moncorvo 95.9 FM | Torre de Moncorvo
22h00 Rádio Cultural da Filarmónica Pampilhosense | Pampilhosa
▪ Em modo Playlist diário: Rádio Sintoniza Lisboa ▪ No Brasil, a emissão ocorre três horas a menos em relação ao horário de Portugal (ou quatro horas, durante o verão do Hemisfério Norte).
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