Alguém ou algo bateu à minha porta no dia em que o tempo já dissipara todo o silêncio. O silêncio gritara no exercício de me fazer ser um reflexo de tudo aquilo que eu suportara nos dias sem nobreza. Um rugido de leão ecoando numa caverna onde apenas uma fresta de sol veio trazer a nitidez de que eu precisava. Não é um sofrimento vitimado, mas ritmado, por isso faço poesia. O que vale versar?
Arte: Helmut Kolle, 1930 ▪ Col. particular
Limites e oportunidades duelam. A certeza e o temor de poder ser mais. Avidez que se atropela e se ensina. Desafio de ser autodidata sem perder a delicadeza. Medo de desdizer o que ainda acredito. Onde assino o contrato?
Sei. Sei que sou o êxodo de mim, que come o suor do rosto próprio. Precisamos renovar nossos motivos todos os dias. “Viver é recolher os lutos diários”. Não devemos deixar o corpo morto das nossas escolhas infelizes, os desaforos e tudo que já não representa acréscimo benéfico apodrecer e exalar seu odor diante de nós.
Arte: Helmut Kolle, 1930 ▪ Col. particular
As rugas da alma se transferem ao corpo quando há a dissolução dos sonhos. Projetemo-nos. O tempo: maresia que corrói os significados ou o cheiro do mar que nos lembra do quanto ainda há de ser navegado? Anacrônica
Arte: Helmut Kolle, 1932 ▪ Col. particular
Finalizar é tão difícil quanto iniciar. Mais importante que idade na vida é vida na idade – vital(idade) – pode ser qualquer uma. As fugacidades escolhidas por nós são fugas que nos trarão frustrações. O supérfluo é uma maneira de nos afastarmos dos vínculos, porque criar laços é sofrer, amar. “Amar é sofrimento de decantação”, como bem diria a poetisa Adélia Prado. O medo de amar é o alicerce da solidão. Nem tudo é tão incerto.
O aprimorado da vida começa em um agora, embora não tão emergente; há de imergir. Sobrarão remorsos ou saudades? Cortes, não sendo bem sanados, serão cicatrizes. Mas, só fica a marca em quem já marcou... Meu sangue em outras veias já correu. Sou de ferro e cristal. Também sou o que não sei ser. O inacabado de mim se encontra com a prontidão do outro. Identidades sem nomes...








